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A ameaça do Armagedon

       Sua pele era morena, de um tom bem escuro, seu rosto, redondo, tinha um ar de inocência infantil, emoldurado por cabelos negros, como “a asa da graúna”, iguais aos da índia Iracema; compridos, lisos e brilhantes a não mais poder. Sua boca, diminuta e de lábios carnudos, era encimada por um nariz muito pequeno e levemente achatado...Os olhos, grandes e amendoados, a denunciar sua ascendência indígena, eram escuros, quase negros, como seus cabelos, soltos ao longo do corpo. Seu corpo, pequeno e esguio, de poucas curvas, dava a impressão de ainda não estar totalmente desenvolvido, apesar de ela já ter mais de vinte anos de idade nas costas...Seu busto era minguado e uma, algo proeminente, barriguinha, deixava-se entrever, através das roupas que usava, como a indicar um início de gravidez, o que, não era verdade, no entanto...Seu nome era Micheli ou, simplesmente, Mi, como era mais conhecida...Quem visse aquela moça, tão pequena, com ar e jeito de menina, andando pelas ruas, só, ou na companhia de amigos, dificilmente concluiria que aquela era a detetive policial mais competente de toda a região...Lotada na 54a DP, uma área meio “barra pesada”, Mi, sempre fora respeitada e tratada como a autoridade policial que era, pois, fizera a sua fama com muito trabalho e dedicação, em um tempo muito curto; seu trabalho era a sua vida e a ele, dedicava-se de corpo e alma.
       Era uma noite de meio de semana e Mi terminava de digitar um extenso relatório, a ser entregue no dia seguinte, na delegacia e que tratava de um complicado caso de assassinato com muitas ramificações e uma miríade de suspeitos; um caso conduzido por ela que, esperava elucidá-lo em pouco tempo...Ela terminou seu serviço e deu uma olhada no relógio na parede de seu quarto, um gato que movia os olhos com o passar dos segundos e cuja cauda, fazia às vezes de pendulo; uma peça muito cara a ela, recordação de sua não tão distante infância, passada entre as brincadeiras de “polícia e ladrão” com a molecada ( ela era sempre a delegada e por um “dá cá aquele palito” qualquer, punha meia rua “atrás das grades” e, ai de quem ameaçasse peita-la! ) e espantosos “rachas”, no campinho à beira do rio ( ela deixou o futebol de lado, quando deu-se conta de que era uma policial nata )...Mi olhou para seu relógio de gato e viu que ainda era cedo...Cedo demais para ir dormir e, mesmo que já fosse tarde, excitada que estava, com o caso que estava conduzindo, dificilmente conciliaria o sono com facilidade...Estava muito “acesa”, precisava de um pouco de ação e, que local melhor para ter-se um pouco de ação do que o “Berenight Bar” de sua amiga Berenice, a “loura”?
       Sim, uma esticadinha no Berenight Bar far-lhe-ia bem...lá ela poderia paquerar um pouco, ser paquerada outro tanto, daria uma “bicadinha” em alguma bebida exótica que a Berê certamente oferecer-lhe-ia e, caso acontecesse algum “arranca rabo”, colocaria ordem no local e acalmaria os litigiosos, fazendo valer sua reconhecida autoridade policial, mesmo a despeito de seu aspecto frágil e desprotegido...Assim pensando, Mi trancou a casa onde vivia sozinha ( uma casa grande demais para uma só moradora, herança deixada por seus pais, que mudaram-se para outra cidade, maior do que aquela, isso porque, lá, o “velho” tivera a oferta de um emprego melhor e não pudera recusar mas, por motivos profissionais, a filha única não pudera acompanha-los [ que parênteses mais comprido! ] ) e tirou da garagem sua viatura particular, modificada para ela por seus amigos da oficina e, deixada toda arredondada, ( ao contrário de sua proprietária ) e pintada de vermelho vivo, sendo por isso, batizada de “Maçã do Amor”
       Logo, cruzava ruas escuras e outras, bem iluminadas; seus olhos treinados, atentos a tudo o que passava a seu redor mas, pouca gente ela viu naquela noite, perambulando pelas calçadas...Ela atravessou o setor industrial, um local “barra pesadíssima” à noite e, quinze minutos depois, a “Maçã do Amor” estacionava perto do Berenight Bar, localizado em frente ao Shopping Center Noppeannes este, profusamente iluminado e pululante de freqüentadores...Mas, Mi chegara cedo demais, o bar ainda estava fechado e demoraria ainda algum tempo para abrir e assim, a pequena detetive ficou matutando com o grande boné que coroava sua cabeça, dividida entre uma visita ao shopping, onde bateria pernas até que o bar abrisse ou ficar ali mesmo onde estava, apenas observando  a pequena multidão, que já formava-se em frente ao famoso bar; como ela, apenas aguardando sua abertura.
       Mi gostava de gente e de ver gente...Decidiu-se, então, por ficar em frente ao bar, junto com a moçada, observando os membros das inúmeras “tribos” que infestavam a cidade, cada uma com sua área de domínio mas, que respeitavam-se e, até, confraternizavam entre si mas, em locais “neutros” como o Berenight Bar, um lugar agradável, espaçoso e moderno que contava até, com uma pista de dança computadorizada...E era um desfilar de excentricidades que iam dos clássicos ”punks”, “neo punks” e “cyber punks” até os já manjados “darks”, “góticos” e “tristes”, passando pelos pseudo perigosos “neo comunistas” e “fascistas festivos”, sem contar com os “anões”, “palhaços”, “neo palhaços”, um ou outro “new imbeciw”, “nerds fanáticos”, ”nerds moderados”, “nerds festivos” e muitos mais, a fauna era imensa...Mas, o movimento estava acima do usual, naquela noite e Mi estranhou isso mas, um comentário entreouvido  entre um dos palhaços para um gótico militante, fê-la ver que, exatamente naquela noite, o bar iria ser visitado por uma das tribos mais queridas da cidade: As populares “pin ups”, modelos das diversas agências da cidade, que costumavam divertir-se juntas, sempre acompanhadas  por outra tribo das mais queridas, os “papparazzi”, com seus chapéus de feltro, sobretudos de cores claras e mil e uma máquinas fotográficas, de todos os modelos possíveis...Aquela noite seria uma festa e Mi ficou feliz por estar ali, mesmo sabendo que o dia seguinte iria ser de trabalho duro...E, afinal, o bar abriu...
       Lá dentro, o ambiente era acolhedor mas, não intimista...Os espaços eram amplos e decorados com certo apuro. As diversas mesas foram ocupadas todas, assim que a horda ululante de freqüentadores cercou a espaçosa e circular pista de dança, onde as luzes, embutidas embaixo do piso, já faziam desenhos coloridos, convidando os primeiros dançarinos a, dela usufruirem, o que aconteceria dali a pouco...Mi dispensou as mesas e foi encostar-se no balcão, que envolvia a área das mesas como um abraço amigo, onde a amiga Berenice ( a loura ) prontamente a presenteou com o drink da noite, criado pelo “barman”, o mais famoso da cidade...Mi ficou por ali, ouvindo o som rolar e observando o pessoal, que chegava aos borbotões, lotar, pouco a pouco, o alegre espaço, bebericando sua batida, muito boa mas, um pouquinho forte para seu gosto. De vez em quando, Berê vinha trocar uma ou outra palavra com ela e alguns conhecidos saudaram-na de passagem ou pararam para um dedo de prosa também, enquanto a coisa estava calma e o som ainda não subira seus decibéis, o que dificultaria qualquer comunicação por via oral.
       Mas, naquela noite, que parecia perfeita, algo avizinhou-se terrivelmente mal aos experientes olhos de MI...Sempre atenta a tudo e identificando muitas daquelas pessoas, em um canto mais afastado do salão, ocupando uma das mesas menores, ela detectou a ameaça...Um homem, vestido de couro preto da cabeça aos pés, com uma cicatriz no rosto, que começava na testa, descia por entre a orelha esquerda e o resto da face, indo morrer no início do queixo, uma cabeleira ruiva em desalinho e uma expressão de raiva e maldade no feio rosto, ali estava...E Mi conhecia aquela figura e o detestável bando do qual participava, sua memória para rostos não falhava, era-lhe muito útil em seu ofício, ela possuía a mais plena certeza sobre a identidade daquele “homem mau”, na acepção da palavra...Sobre a mesa, perto do copo do qual ele bebia, a atenta policial avistou ago que fez seus cabelos pretos retintos arrepiarem-se por debaixo do boné grená...
       Era um cilindro pequeno, da altura de um maço de cigarros e o diâmetro de uma pilha das grandes, feito de metal cromado e com uma espécie de botão em cima parecendo, mesmo, uma pilha estirada...Mas aquilo não era, de forma nenhuma, uma pilha...Era uma bomba, uma granada...uma granada do tipo arrasa quarteirão”, muito usada em demolições, com altíssimo poder de destruição...Se fosse detonada dentro do bar, transforma-lo-ia inteiro, em um monte de destroços em uma fração de segundos...E aquele canalha atrás da mesa, a olhar com ódio para todo mundo, seria bem capaz de armar aquele objeto de destruição, escondê-lo em algum canto e fugir depois, matando centenas de pessoas inocentes...Ela conhecia a figura e sua vida de crimes, as mortes de que era suspeito de ter causado, isolado ou junto com seu execrável bando...”Os Armagedons”...A tribo mais odiada de toda a cidade, uma súcia de marginais que faziam da violência e da intimidação, seu modo de vida...Pregavam o final dos tempos, a decadência da humanidade e das sociedades em geral e agiam contra o patrimônio das pessoas com armas, como aquela que Mi avistava, horrorizada...Os Armagedons eram especialistas em explosivos e sua trilha de destruição dominava a periferia da cidade, onde ficava seu reduto...eles não freqüentavam a área central, onde a polícia vigiava de perto, seus passos, quando eram avistados nas proximidades...O que aquele canalha estaria fazendo então, ali, no bar, em uma área que não era a dele?...As Pin Ups..Ele iria atentar contra a vida das Pin Ups, só podia ser isso...Talvez fosse uma aposta, uma demonstração de poder, um desafio á ordem estabelecida...Fosse qual fosse o motivo daquela suspeita de atentado, se acontecesse, causaria uma tragédia inominável, um morticínio sem sentido, apenas para dar prazer a um grupelho de sádicos assassinos...Aquilo não podia ir em frente...Ela precisava agir para neutralizar aquela intenção de crime, precisava traçar um plano eficaz e tinha que ser rápida...As Pin Ups estavam para chegar e, se o alvo do Armagedon fosse mesmo, elas, não havia tempo a se perder.
        Após confabular um pouco com Berê, a policial Mi saiu do bar mas, optou por um caminho que a faria passar perto do sinistro Armagedon, de modo a estudar seu local de ação...Pensou em pegar a granada na mesa e fugir mas, desistiu de tal plano...Cheio como estava o bar, ela não iria longe e o marginal era bem capaz de acertá-la pelas costas, com uma faca ou, até, cortar sua garganta...Se desse-lhe voz de prisão, por portar artefato explosivo proibido, fatalmente causaria um tumulto no bar e as conseqüências podiam ser desastrosas...Ela precisava ser discreta, agir de maneira rápida e eficaz e, para isso, precisava colher novos dados sobre aquela escória e, o computador de bordo do “Maçã do Amor”, permanentemente conectado com as máquinas da chefatura, poderia ajudá-la em sua tarefa...Uma vez no interior de seu carrinho vermelho, a policial acessou os dados da central e localizou o tópico “Ärmagedon”, ficando então com tudo o que a polícia possuía sobre a nefanda tribo, a sua disposição...Localizou, sem dificuldades, o suspeito do bar e examinou-lhe o perfil...Várias suspeitas de assassinatos, sem provas...Inúmeros processos por espancamentos, aleijamentos, estupros, corrupção de menores, atentado contra o patrimônio, contra o pudor...Aquele homem era o próprio diabo...Sem duvida alguma, seria capaz de acionar a granada que portava e ainda sair ileso de tudo aquilo...Preocupada com a iminente chegada da tribo das modelos, Mi procurou algo em que basear-se para um plano eficaz de ação...e achou...Radiante, após descobrir algo interessante no perfil daquele homem ela, em poucos minutos, traçou sua estratégia e a pôs em ação imediatamente...Foi então até o Shopping Noppeannes e lá, encontrou o que precisava, em uma importadora de bebidas e em uma farmácia...Após deixar o Shopping, voltou para o “Maçã do Amor” e entrou imediatamente em ação, retirando de uma sacolinha, uma garrafa do famoso e caríssimo vinho “Chateau Degas Lochat”, tinto seco, o preferido daquele canalha, lá dentro do bar...Não é que aquele malfeitor possuía um gosto requintado para bebida?, foi o que sua ficha denunciou...De uma outra sacolinha, a esperta garota de olhos amendoados sacou uma seringa comum, de injeção, um objeto meio ultrapassado mas, ainda encontrável em algumas farmácias – ainda bem que, aquela do shopping, tinha-, envolvida em sua embalagem esterilizada e, dali retirou também, um frasco pequeno, de remédio, um tipo comum que dispensava receita médica para ser adquirido...Aquilo saíra barato mas, o vinho custara-lhe os olhos da cara, quase que ela não tinha o dinheiro suficiente...Mas, se seu plano desse certo, tamanho dispêndio de dinheiro teria valido a pena.
       Após levar adiante seu plano e tomar as devidas providências, Mi saiu de sua viatura e voltou ao bar da amiga Berê e lá, após revelar-lhe o plano que traçara, virou o drink que mal havia provado e que ainda esperava por ela sobre o balcão, de modo a dar mais veracidade ao ato que iria representar...Após conferir o hálito e verificar que continha o aroma de álcool necessário, andou em direção à mesa do Armagedon, simulando um andar cambaleante, como se estivesse totalmente alcoolizada...Ela reconhecera o suspeito mas, ele nem fazia idéia de quem ela era pois, nunca encontraram-se e isso para ela, era ótimo...Ante sua aproximação, o tribalista candidato a genocida, mais do que depressa, segurou com força sua granada mas, nem sequer olhou para a moça que aproximava-se...Ela então abaixou-se em sua direção e quase encostando o rosto no dele, disse com voz arrastada e pastosa, enchendo o ar com o odor de bebida forte,
       _ “Intão”, garotão...”vochê num” vai convidar a dama aqui, pra sentar na tua mesa e dividir uma “bibidinha” com ela?
       _ Sai daqui, piranha... –foi a resposta vociferada de modo tenso pelo indivíduo que ainda não encarava sua interlocutora.. Mi prossegui em sua farsa.
       _ Quequeisso meu bem?...” Icho chão modosh” de “che tratar uma “patrichinha” só e carente que “acabo dxi”brigá com o namorado e ta “pricisando dxi “carinho?
       _ Sai daqui, vadia suja, vai infectar outro com a tua Aids, sai de perto de mim!- foi a resposta quase gritada, o marginal encarando a policial com uma expressão de ódio no rosto que chegou a assustá-la mas, não o suficiente para intimidá-la...Ela continuou.
       _ Ih, “mash”é dos ägrechivos”que eu “maish goshto”...Vai machão, me chama de tua, “arripia”comigo...Olha...eu “truxe”até, uma “bibidinha “pra  “nosh”, olha só...
        Sacudiu a garrafa fechada diante do olhar enfurecido do Armagedon, exibindo para ele um sorriso leso, como se bêbada estivesse, de fato...Ela representava bem, ouviu alguns fregueses ao lado criticaram em voz baixa, seus modos ou falta deles, assim como sua embriaguez...Mas daquela vez o marginal perdeu a calma e após um desfilar de palavrões dirigidos a Mi, completou sua descompostura dizendo.
       _ Sai de perto de mim, sua bêbada aidética fedorenta! Não é à toa que tem cara de índia! Volta pra tua tribo sua peste, vai trepar com o cacique e me deixa em paz!
       Fingindo-se ofendida com o insulto racista, Mi murmurou com fingida voz de choro.
       _ Puxa, também “num pricijava” falar “achim cumigo”...Tá bom eu vô ïmbora”...”Vô bebê shojinha”, lá na rua o meu vinhozinho...”Adeush, cheu “mal educado...
       Era o momento em que Mi apostara todas as suas fichas...Oferecera-se ao marginal, sem susto, ciente de que era um misógino empedernido mas, exibira bem a garrafa de vinho...os próximos segundos iriam decidir tudo...
       _ Espera aí piranhinha –ele rugiu- ..Tu vai mas a garrafa fica...Deixa a garrafa aí e te some daqui.
       _ “Icho” é que não! A minha garrafinha eu “num dô” nem que...
       Mi não terminou a frase, derrubada que foi, por um terrível soco no rosto que a fez “apagar” imediatamente, caindo por sobre a mesa ao lado, derrubando garrafas, copos e até a mesa, causando um grande tumulto, enquanto o Armagedon gritava-lhe, arrancando a garrafa de vinho de suas mãos antes que esta caísse ao chão.
       _ Olha aqui a tua garrafa, vagabunda!
       Os seguranças do bar já estavam a caminho, preparados para intervir no incidente mas, Berê, com um gesto, fez com que não seguissem em frente. Mi foi socorrida pelos fregueses da mesa ao lado, que repreendiam o Armagedon com veemência mas, receando chegar muito perto dele...Mi foi despertada de seu desmaio e recebeu uma compressa de gelo no queixo que já começava a inchar. A mesa foi posta no lugar, os funcionários da manutenção vieram limpar o chão e recolher os cacos e parecia que o incidente iria parar por ali...Abrindo um feio sorriso de dentes tortos e estragados, saboreando a cena de violência que protagonizara, o Armagedon retirou do bolso um canivete e acionou dele, um saca rolhas e com ele, abriu a garrafa de Chateau Degas Lochat, virando-a, diretamente na boca, de uma vez, ávido que estava por sua bebida predileta, a qual tinha um acesso muito restrito e que, naquela noite, caíra dos céus, por intermédio de uma indiazinha vagabunda, suja e aidética...Como aquilo era bom...e só iria melhorar, depois da “queima de fogos” de logo mais...Sua noite estava-se saindo perfeita...A esse tempo, Mi, encostada no balcão, tinha sua boca examinada e cuidada por Berê e olhava de modo raivoso para seu agressor, no fundo do salão, aguardando os acontecimentos...Não esperava apanhar, aquela peça saíra-lhe ainda pior do que a encomenda...Mas, valera a pena, seu plano estava dando certo e, faltava apenas uma etapa, a mais crucial de todas...E Mi, com o rosto muito inchado, aguardou.
       Sob a meia luz que reinava naquele canto onde estava, o Armagedon, de repente, fez uma careta de dor e dobrou-se sobre si mesmo, como se estivesse, mesmo, sentindo fortes dores na barriga...Seu rosto empalideceu e ele começou a suar com abundância, olhando desesperado, para os lados. De um salto, levantou-se da mesa que ocupava e, agarrando a granada, correu desabaladamente para o banheiro, do outro lado do salão. Entrou e procurou um dos cubículos vazios e encontrou, apenas, o primeiro deles, trancou-se ali, gemendo alto e já liberando um cheiro terrível. Cerca de dois segundos mais tarde, Mi entrava também, no banheiro masculino e agachando-se olhou, por baixo, para o chão do primeiro cubículo e, imediatamente viu o que procurava...A granada “ Arrasa Quarteirão”!...Quando lutava por abrir o fecho de sua calça, o marginal depositara o mortal artefato no chão, por não ter outro local onde o colocar e, tal momento fora previsto por Mi e, acontecera de fato...Bastou esticar o braço e agarrar a granada e sair do banheiro às pressas, mesmo porque, o odor ali estava insuportável...Bem que o Armagedon ainda viu a mão e o braço de Mi em ação mas, ela foi rápida demais e o desarmou vergonhosamente...Suando em bicas, sentindo-se muito mal, ele nem terminou o que viera fazer ali. Mais do que depressa, levantou-se e vestiu-se, saindo do banheiro aos trambolhões...Mas, lá fora, uma surpresa ainda o aguardava...Conforme fora combinado com Mi, Berê reunira antecipadamente todos os “Papparazzi” que encontrou no bar e deu-lhes instruções bem específicas...Quando o Armagedon entrou no banheiro, ela reuniu o máximo de fregueses que conseguiu e também os instruiu...Quando o desarmado terrorista abriu a porta para sair, lavado em suor e pálido como um cadáver, recebeu em cheio a chuva de flashes disparados pelos Papparazzi que o fotografaram em todos os ângulos possíveis...O desmoralizado Armagedon, então, correu para fora do bar, atravessando o corredor de gente que fora armado por Berê e ouvindo os xingamentos, as vaias, risos e cusparadas que todos enviavam-lhe...Mais cambaleando do que correndo e empestando o ar com seu cheiro, o trapo humano, afinal, ganhou a rua e sumiu-se na noite iluminada pelas luzes do bar e do shopping...
       Aliviada, Mi respirou fundo, olhando para a terrível arma que tinha nas mãos, capaz de privar de vida, centenas de pessoas de uma vez só...À sua volta, muita gente a saudava com gritos e elogios, sabedores do desastre que fora, por ela, evitado...Se não fosse sua perspicácia e coragem, aquela noite poderia terminar de modo horrível e catastrófico...Tão logo reconhecera o Armagedon, Mi traçara seu plano de combate. Alertara a amiga Berê acerca do perigo que toda aquela gente corria e, depois fora consultar o computador à bordo do “Maçã do Amor” e, sabendo como agir, foi ao shopping e lá, comprou a garrafa de Chateau Degas Lochat e depois, na farmácia, adquiriu uma seringa descartável de injeção e um frasco do mais poderoso laxante que encontrou...Poderia ser um sonífero mas, Mi temia errar a dose e causar danos maiores àquele marginal e queria, também dar-lhe uma boa lição, para que não ameaçasse mais a vida dos outros com bombas ou outro artefato qualquer...Já de volta a seu carrão, a inteligente policial, com o uso da seringa, injetara dentro da garrafa de vinho, todo o conteúdo do frasco de medicamento...não abriu a garrafa pois, desejava apresentá-la ainda fechada, para não suscitar desconfianças no facínora...Aquilo, quando agisse, iria ser a maior “bomba” nas tripas daquele calhorda, como de fato, o foi...Depois, Mi representou seu ato de bêbada atirada e tudo aconteceu exatamente como previra...A ida ao banheiro, o Box deixado livre de modo a ter um melhor acesso à granada, tudo, tudo, saíra como o previsto e agora, a mortal granada estava sob custódia da lei e seu portador esvaía-se em disenteria, em algum beco escuro e malcheiroso...E, se não fosse malcheiroso, ficaria, após a visita daquele infeliz...No dia seguinte, os jornais iriam divulgar a humilhação de um Armagedon em público e aquela tribo maldita receberia um duro golpe em sua pretensa “honra”...E, se retaliações houvesse, que viessem...Ela, Mi, estaria pronta para semelhante horda...Bem, agora era apenas festejar sua vitória e brindar com seus companheiros de noitada, uma noite que avizinhava-se perfeita, apesar de ser quarta feira ainda...
       Apenas às duas da matina, as Pin Ups chegaram e foram festejadas por todos e fotografadas pelos Papparazzi; todos estavam alegres e descontraídos e o negócio era, então, aproveitar a noitada com todo o entusiasmo e o direito de fazê-lo, adquirido em nome da alegria e da diversão, do jeito exato que o rei mandou!

       No dia seguinte, ao entregar seu relatório sobre a ação policial empreendida na noite anterior e a arma do quase crime, a policial Michelle arrancou boas gargalhadas de seus colegas e superiores e recebeu o ressarcimento do dinheiro gasto com a garrafa de
celso dyer
Enviado por celso dyer em 14/12/2017
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