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Chico Anta
Existem, em nossas vidas e cultura, fatos que transcendem as barreiras da racionalidade e enveredam pelas tenebrosas sendas do desconhecido...Fatos que, de tão espantosos só encontram explicação no folclore e mitologia locais, nas lendas da região onde sucederam...Falando de um caso desses, até hoje, muitos anos depois do incidente, ninguém conseguiu uma explicação que não transcendesse a realidade, para o estranho caso de...

                                         CHICO ANTA

       _  É aquele ali?
      _ É, sim senhor.
      _ Ninguém sabe, com exatidão, o motivo disso ter-lhe acontecido?
      _ Não, ninguém sabe...uns dizem que foi ele próprio que fez isso, outros dizem que não...Ele tá assim desde aquele dia, em que foi caçar, por causa da festa da igreja e, bota tempo nisso...Quem acreditou na história que corre solta por aí, diz que ele ficou assim porque viu o “cão”.
       _ O diabo?
       _ O diabo, o “canhoto”, o “rabudo”, o “capiroto”...é o que dizem...
       Conversavam os dois, na pracinha central daquela pequena cidade do interior, próximos ao coreto em frente à igreja matriz; comentavam um estranho acontecimento, ali ocorrido há algum tempo atrás, que chamou a atenção de vários municípios em derredor, chegando mesmo, à capital, onde o assunto foi comentado durante algum tempo pela mídia especializada...E, tão animados estavam eles com a prosa que, nem deram-se conta de uma terceira personagem que, acercando-se da dupla de conversadores, interpôs-se subitamente na conversa, dizendo:
       _ O que o senhor está dizendo, “seu” Pedro?...Não fique aí, confundindo nosso ilustre visitante com histórias inventadas por ignorantes e desocupados...O que ele iria pensar de nós?
       Levando um meio susto, “seu” Pedro chegou-se um pouco para o lado, dando passagem ao recém chegado, enquanto dizia à guisa de desculpa:
       _ Õ “seu” vigário...Não vi o senhor chegar.
       _ Pois cheguei...Bem, boa tarde para todos, a cortesia e educação primeiro...O senhor é o Sr. Renato, não é?...Ouvi algo a seu respeito e, à pesquisa que está fazendo em nossa cidadezinha, perdida nesses confins...Se mal pergunto, como está-se saindo?
       O repórter da capital, de seus trinta e poucos anos, bem apessoado e jovial, parecia pouco à vontade, ante a intempestiva chegada do pároco local, este, já dando mostras de sua suprema autoridade mas, não deu maiores sinais de intimidação.
       _ Não é a trabalho que estou aqui, padre...padre?...
       _ Padre Olavo, com a graça de Deus, a seu dispor.
       _ Sim, padre Olavo...Este é um projeto pessoal, não vinculado ao jornal onde trabalho...Bem, eu soube da história, através da mídia impressa e televisada, que comentou muito o acontecido, assim como, suas implicações...Quando a poeira da novidade baixou um pouco, eu então, decidi pesquisar o acontecido, por conta própria, afinal, fiquei muito curioso e desejoso de obter algo mais substancial, acerca do que aconteceu com o desafortunado Chico Anta.
       _ Desafortunado sim...O que o senhor soube?...as queimaduras, a loucura repentina...o que ele teria dito, antes de enlouquecer...
       _ Sim, tudo isso...
       _ O senhor fala das histórias de assombrações e encontros com o demônio...Pois não devia dar tanto crédito ao que o povo diz, Sr. Renato...O povo daqui é muito criativo e crédulo...Dá ouvidos a qualquer boato, inventado por quem não tem o que fazer e, nem Deus e Nosso Senhor Jesus Cristo no coração...O que aconteceu ao pobre Chico, quer fosse acidente ou mesmo –Deus que nos livre- tentativa de suicídio, sucedeu-se proveniente de sua loucura que, saindo de um estado de repouso, por algum motivo fisiológico, irrompeu com violência e  deu origem a esses boatos...e a coisa espalhou-se como fogo em capim seco.
       _ Foi o filho dele, quem contou, “seu” vigário –interveio timidamente “seu” Pedro- O garoto disse que seu pai contou toda a história, nos detalhes “mais menores” e que, logo depois, desandou a xingar o “cão” e ficar do jeito que aí está...
       _ Ora vejam vocês...o garoto contou...O que tem isso?...todos nós conhecemos as “invencionices” daquele rapaz...Um bom menino, temente a Deus, prestativo mas, um tantinho “aluado”, dado a delírios mirabolantes e histórias fantásticas...Sem falar-se de seu desejo confesso de estar, sempre que possível, em evidência.
       _ O senhor tá sendo muito duro com o pobre do garoto...Menino de ouro é aquele...não largou o pai nem depois do que aconteceu...
       _ E o que, de fato, aconteceu? –Renato interrompeu a conversa com a pergunta, dita de modo incisivo- ...Padre Olavo, na sua opinião, o que, de fato, aconteceu?
       Padre Olavo olhou para Renato meio de lado, já preparando uma explicação satisfatória quando um grito, vindo de um canto da praça, fez-se ouvir, estridente:
       _ Maldito! Cão dos infernos! Tu não vai me levar, excomungado! Filho do cão!
       Todos olharam em direção de onde vinham os gritos e depararam-se com o homem magérrimo, de alta estatura e com braços e rosto exibindo os sinais de horríveis queimaduras mal cobertas por bandagens soltas, a mostrar que haviam acabado de ser arrancadas, por debaixo das roupas que usava. O rosto semi exposto e visivelmente deformado pelo fogo, exibia dois olhos que estampavam o alto grau de insanidade de seu possuidor...Aquelas eram queimaduras gravíssimas, era difícil entender como aquele homem podia estar vivo e andando...Ele gritava e arrancava suas bandagens, enquanto andava por entre o povo que afastava-se, entre atemorizado e horrorizado, de perto dele. “Seu” Pedro alertou o repórter a seu lado:
       _ Tenha cuidado, “seu” Renato, ele às vezes fica perigoso quando isso acontece...Tentam manter ele em casa mas não conseguem...
       O homem, desesperado em sua loucura, erguia as mãos para o céu, como a procurar uma ajuda divina;
       _ Meu Deus, meu Pai do céu, me ajude, por caridade! Me livre desta besta, tenha pena de mim...Eu me arrependo, meu Deus, eu juro que me arrependo!...Me ajude!
       _ Calma, Chico...Ele está te ouvindo e vai te ajudar, sim...Vem comigo...
       O padre acercava-se daquele homem, destruído por fora e por dentro, sem o menor temor, apressando-se em socorrer uma alma atormentada, sabia-se lá pelo que...O povo já chegava mais perto, as expressões de pena traindo-lhes o íntimo, sentiam muito por aquele pobre homem, outrora tão vistoso e respeitado.
       _ Venha comigo, Chico, eu vou chamar o doutor para cuidar dos curativos que você arrancou...vamos para sua casa, tenha calma, Deus está com você..
       A pobre criatura então desandou a chorar, um choro desesperado, que não desanuviava nem extravasava sentimentos.
       _ Eu me arrependo, “seu” vigário, eu juro que me arrependo...mas eles são bichos, não entendem o que eu sinto...Eles ´tão certos de se vingarem de mim mas, eu já sofri demais...eu preciso de um pouquinho só, de paz...
       _ Calma Chico, por favor...Deus não vai te desamparar...
       _ Me ajuda, “seu” vigário...Fala com Deus...Fala com os bichos, faz eles  pararem...Eu vou mudar, eu juro que eu vou mudar...
       _ Eu já tenho falado, Chico mas...vamos, por favor...
       Afinal, o homem que era conhecido como Chico Anta decidiu-se por acompanhar o padre, ainda chorando sua dor e desespero..O povo na praça observava tudo em silêncio e o repórter Renato chegou a ver lágrimas nos olhos de algumas daquelas pessoas.
       _ Só mesmo o “batina” consegue controlar ele quando isso acontece –disse “seu” Pedro, após alguns momentos- O senhor viu só?
       _ Vi...Era para esse homem estar internado em um hospital, como o deixam andar por aí?
       _ Não adianta tentar prender ele, sempre escapa...Desistiram do hospital e tratam dele só na sua casa, quando deixa...
       _ Ele falou de “bichos”...animais...Ele sente-se perseguido por animais?
       _ Se fosse apenas bichos deste mundo já seria terrível...mas a coisa vai mais além...
       _ O que quer dizer?
       _ Não sei ao certo...O senhor viu que ele reclamou do...diabo ou coisa parecida...A história nunca foi bem explicada, o filho dele deu entrevistas mas, foi vago, como se temesse algo...Falou de coisas de fora deste mundo de Deus, encontros com demônios...no início, disse saber a história toda mas, depois disse não saber de tudo, quando a história se espalhou demais e pra fora da nossa cidade...Sabe...O garoto não é realmente filho do Chico...ele foi tirado à força da família dele, pelo Chico, que não suportou mais ver o jeito como tratavam o menino, que já estava a ponto de morrer, de tanto apanhar...Houve uma briga feia, bem no meio da praça...O Chico discutiu com o pai do garoto por causa das surras e acabou dando, ele próprio, uma surra tremenda no tal...a mulher dele se meteu e apanhou também...Daí o Chico tirou o menino da casa dele e o pai e a mãe do garoto sumiram da cidade, pouco tempo depois, que bons ventos os tenham levado...O Chico era um homem bom, amigo, ajudava todo mundo, dividia o que era seu, com quem precisava...Caridoso, temente a Deus...Foi horrível, foi uma injustiça, o que aconteceu com ele...seja lá o que tenha sido...
       _ E onde está o garoto?
       _ Por aí, fazendo uns servicinhos pra uns e pra outros...É um bom rapaz, puxou ao pai adotivo...Não sei exatamente onde está mas, possivelmente está em casa mesmo, cuidando do pai enquanto o padre Olavo está chamando o doutor, vou lhe dizer onde é a casa do Chico.
          Andaram durante algum tempo, rumo às extremas da minúscula cidadezinha que fazia fronteira com a floresta e, afinal, pararam em frente ao rancho de Chico Anta, já quase em plena mata fechada...Era um local bem simpático, pequeno e bem arranjado, tendo em vista que tratava-se da vivenda de um homem solteiro; a destacar-se, a imensa quantidade de peles de animais, encontradas em vários locais ao redor da pequena choupana...”Seu” Pedro anunciou a chegada dos dois e, logo, aparece à porta da casa, um rapazola de seus quinze anos, arredio e tímido. “Seu” Pedro disse a seu acompanhante:
       _ É ele...o filho do Chico – e depois, para o rapaz- ...Onde está seu pai, menino?- ao que o garoto respondeu, aproximando-se:
       _ Levaram ele pro hospital, pra refazer os curativos e tentar acalmar ele...acabaram de vir me avisar...
       _ Nós poderíamos conversar, eu e você – Era Renato, quem falava agora-...sobre seu pai?
       _ Porque? –perguntou o menino, desconfiado.
       _ Sou da capital e soube do que aconteceu-lhe...A história de seu pai chegou até nós...Dizem que você soube o que ocorreu com Chico Anta e pensei...
       _ O que eu sei, eu disse pros seus colegas, quando vieram me entrevistar...Não tenho mais nada pra dizer...
       “Seu” Pedro, achando que aquela conversa ainda iria render, tratou de safar-se, dizendo:
       _ Bem, “seu” Renato, eu agora preciso ir...Se o senhor quiser ainda falar comigo, sabe onde me encontrar.
       _ Claro, “seu” Pedro...hoje ainda, eu falarei com o senhor, obrigado.
       _ Eu é que agradeço, até mais.
       _ Até...
       Sentindo um certo alívio com a defecção de seu simpático cicerone, o repórter Renato concentrou sua atenção sobre o filho de Chico Anta que, parecendo alheio a tudo, aguardava...O repórter então, decidiu tentar saber mais sobre o que desejava pois, tinha a nítida impressão de que aquele menino sabia mais do que dizia saber...Falou então sobre o que ouvira Chico Anta dizer lá na praça...que era perseguido “pelos bichos” e por alguma entidade maligna...
       _ Ele era caçador não era?...No dia em que enlouqueceu ele perdeu-se na mata e só voltou para casa no dia seguinte...queimado do jeito que está, apesar de não ter havido nenhum incêndio na mata, naquele dia...Isso foi o que você disse e que todos confirmaram...Pois algo aconteceu com seu pai, naquele dia em que foi caçar...algo que colocou os animais da mata contra ele, talvez por influência de algo mau e vingativo...Algum espírito da mata que vingava-se, assim, do fato dele matar animais...
       _ Ele era bom...mas não respeitava os bichos...matava demais, sem necessidade...
       _ Não quer me contar o que houve?...Sei que você conhece a história toda, seu pai contou-a, antes de enlouquecer, você disse isso e depois negou, quando vieram os repórteres...Mas, porque?
       _ Eu acho...que não posso dizer...ela...ela poderia voltar...e acabar o que começou...
       _ Ela...quem?
       _ Ninguém, não senhor...
       Vendo que, por aquele caminho, não iria muito em frente, Renato decidiu mudar de tática.
       _ O que você acharia de eu remover seu pai desta cidade para interná-lo em um hospital com mais recursos, lá na minha cidade, às minhas custas e com assistência psiquiátrica total?...Ele ficaria longe dos bichos, em segurança...”Ela” não poderia mais atingi-lo sob minha proteção.
       Renato reparou o brilho nos olhos do rapaz ao ouvir a oferta...e decidiu jogar de uma vez, sua ultima cartada, para derrubar qualquer reserva ainda pendente.
       _ Você iria junto, é claro...poderia morar e trabalhar comigo, lá na redação estão precisando de um aprendiz na tipografia...Eu poderia ensinar algo sobre o assunto e...bem...”mexer os pauzinhos” para fazer você conseguir a vaga...
       _ E, pra conseguir tudo isso,eu só ia precisar “falar”...
       _...Contar para mim, a verdadeira história sobre a última caçada de seu pai...Apenas para mim, nada do que porventura disser, sairá publicado...Quer pensar no assunto?
       _ O senhor transfere meu pai, imediatamente, para o hospital da sua cidade...e eu falo...o emprego pode vir mais tarde...
       _ Feito, vou providenciar tudo, imediatamente.
       E Renato fez mesmo...Em três dias removeu Chico Anta para um hospital na cidade grande, uma clínica particular bem equipada e com assistência psiquiátrica de boa qualidade. O garoto acompanhou tudo de perto e viu que seu pai teria um tratamento decente, algo impossível de ser conseguido na cidadezinha perdida nos “cafundós” em que morava, sob a ameaça de entidade da mata que tinham por lema de vida, a terrível “Lei de Talião” ou seja: “Olho por olho, dente por dente”...Voltaram então os dois, para a tal cidadezinha, de modo a que o garoto arranjasse alguém para tomar conta das coisas de seu pai, enquanto estivesse fora e, vendo que o tal Renato não dava mesmo “ponto sem nó”, ele, após saber que sua admissão no jornal do repórter era garantida, certa tarde, recebeu-o no rancho de seu pai e, sentados os dois à mesa posta para um café bem sortido, finalmente contou o que sabia a respeito da última caçada de seu pai...

       Naquela manhã, bem cedinho, o mais afamado caçador daquelas regiões, conhecido pela alcunha de Chico Anta, devido a sua predileção por animais de grande porte em suas caçadas, arrumava seus pertences para mais uma excursão mata adentro, de modo a executar o que era para ele, seu sustento e sua diversão: a caça...Chico Anta era o melhor caçador que já habitara aquelas lonjuras, sabia rastrear animais como ninguém, conhecia todas as espécies locais, seus esconderijos, seus hábitos...tinha uma pontaria infalível e dizia-se que os animais da floresta fugiam apavorados, tão logo reconheciam o ruído de suas passadas, ao longe ou sentiam no ar um vestígio de seu cheiro...Sentando depois, diante da mesinha tosca da sala, tomava o café da manhã que seu filho preparara, avisou:
       _ Não me espere para o almoço e nem para o jantar, vou ficar pela mata mesmo, em algum dos acampamentos que eu tenho por lá...recebi uma encomenda grande e vou passar uns dias fora, só caçando...e, como todo mundo sabe, a caça anda rareando por estas bandas, vou precisar de tempo e paciência.
       _ Não quer que eu vá com o senhor, pai? Eu poderia ajudar em alguma coisa.
       _ Não, menino, não carece...Tu tem de ir pra escola e, na mata, só ia me atrapalhar, inda mais com essas idéias que tua professora botou na tua cabeça.
       _ Mas ela tá certa, pai...O que o senhor faz com os bichos não tá certo...O pessoal comenta e muita gente não gosta desse seu jeito.
       _ Que jeito, menino? O que esse pessoal sabe sobre caça e bichos da mata?...Dizem que eles ´tão sumindo por minha causa mas isso é bobagem, bicho é o que mais tem nesse mundo, os que eu pego não vão acabar com nenhuma espécie.
       _ Não vão mesmo, pai?...A professora disse que, nessas matas mesmo, tem bichos em risco de extinção que, mesmo assim, são caçados sem piedade...E os colegas dizem que é por causa do senhor, sim, que os bichos ´tão sumindo...
       _ Menino, eu só não te “sapeco” agora porque teus pais verdadeiros – aqueles excomungados- já te sapecaram demais...ia ser judiação eu te dar mais uma “esfrega”...Mas tu devia apanhar sim, por falar assim comigo...Fica com a tua escola e com as coisas que tão te ensinando...fica contra mim que eu tenho mais o que fazer, tenho que te alimentar e alimentar uma boa parte do povo desta cidade, que fica falando mal de mim pelas costas, enquanto come o que eu caço;
       _ Desculpa pai, eu não devia falar assim com o senhor...Me dê sua benção e vá em paz, com Nosso Senhor. Boa caçada.
        _ ´Té mais tarde, não sei quando volto...
        E Chico Anta tomou seu caminho por uma das trilhas que embrenhavam-se pela mata fechada, em direção a um de seus muitos acampamentos, montados em plena selva ainda virgem, com a finalidade de abastecer uma grande festa que ia ser dada por algum graúdo da região, de carne de caça...Ia um tanto aborrecido com o filho por causa de mais um sermão que ele tentara pregar-lhe...Era a escola que estava virando a cabeça do garoto mas, ele precisava estudar, Chico amava demais aquele “bacorinho”, brigara por ele, batera em um homem e uma mulher ( logo ele, um homem tão de paz ) para impedir que os dois matassem impiedosamente, de pancada, uma criança que estava tornando-se, sob seus cuidados, um belo rapaz, inteligente e educado...Chico Anta era assim, um sujeito muito humano, generoso e amigo das pessoas...mas, apenas, das pessoas...Quando o assunto eram animais, mesmo os domésticos, o bom Chico não tinha a menor consideração com tais seres...Não criava animais em casa e gostava de maltratar cães vadios, gatos, porcos, galinhas...quando caçava, via de regra, provocava enorme morticínio entre os animais, sem a menor necessidade; matava por matar, por esporte, “para exercitar a pontaria”, costumava dizer...Pássaros, pequenos animais, cobras...a lista de suas vítimas era grande mas, ninguém sabia dizer quem denunciava suas crueldades, afinal, Chico sempre caçou só...Mas o povo sabia e comentava...e Chico, apenas confirmava, como se tivesse razão ao agir assim...Para ele, apenas as pessoas no mundo eram seres de Deus, os bichos existiam apenas para servir às necessidade das pessoas, não eram criaturas de Deus, nem do diabo, não eram nada...E pensando assim, o astuto e desapiedado caçador seguia sua vida fazendo a própria fama em cima da dizimação de animais silvestres...
       Logo chegou em um de seus acampamentos, um dos menos usados e quase totalmente tomado pelo mato...Chico sabia, no entanto, a posição exata de cada um deles, tão experiente em rastrear ele era...Limpou mais ou menos o local, retirou um pouco do mato mas, deixou o suficiente para manter a área meio oculta. Passou então, imediatamente a procurar indícios da presença de animais por ali, fosse paca, queixada, caititu ou mesmo, anta...Se topasse com alguma onça, tanto melhor, teria mais uma pele para decorar seu rancho...E assim, durante algumas horas, ele campeou a região não obtendo, no entanto, bons resultados imediatos.
       _ Vixi que os animal ´tão cada vez mais ladinos –matutava-...´Tão aprendendo a me evitar direitinho...mas eu mostro pra eles, quem é mais esperto...
       Foi quando avistou um bando de macacos pequenos que, em plena algazarra, passava por sobre sua cabeça, atirando nele pequenos objetos como, gravetos, frutas secas, pedras e até excrementos ressecados. Chico recebeu tais “presentes de boas vindas” com satisfação.
       _ Olha que a sorte tá, afinal, mudando – disse, enquanto fazia a mira...
       Pouco tempo depois, o chão da mata estava coalhado de cadáveres de macacos, atingidos com precisão...nem a intensa movimentação dos pequenos primatas, nem a proteção das copas das árvores impediram que fossem mortos, às dezenas e deixados onde estavam, para apodrecer, vítimas de um caçador que não respeitava os animais e nem a floresta, como um santuário...À procura de caça de mais porte, avançou ele pela floresta que fechava-se ao seu redor, como um manto de mistério e perigo, que ignorava entretanto, sem a menor reserva, tão confiante em suas habilidades era...Já pensava em votar ao acampamento para fazer o almoço, após uma manhã infrutífera, quando avistou o que parecia ser os rastros de um porco da mato dos grandes.
       _ Até que enfim, alguma coisa que preste nesta mata dos infernos –praguejou animado.
       E seguiu a trilha ainda recente, de capim e folhas secas, pisados por cascos bipartidos e velozes...Andou muito, embrenhando-se por uma mata cada vez mais densa e desconhecida até para ele, que julgava-se conhecedor de cada centímetro quadrado daquilo...mas via agora que, a floresta era maior do que ele pensava e isso, ao invés de intimidá-lo, dava-lhe ânimo para seguirem frente até encontrar animais em profusão, “como nos velhos bons tempos”...O dia estava claro mas, naquelas brenhas, a luz tornava-se cada vez mais rara, as sombras, imensas, avolumavam-se por sobre o caçador que, concentrado, seguia o que seria sua primeira vítima....E, em determinado momento, pareceu que sua insistência fora recompensada...De repente, saindo de uma densa moita, o maior porco do mato que ele já vira, cruzou seu caminho em desabalada carreira, passando rente a suas pernas e sumindo-se por entre as árvores mas ficando ainda, visível.
       Rápido como um raio, Chico Anta levou sua carabina para junto do rosto para mirar e acertar a caça com um tiro certeiro, como sempre acontecia...mas não daquela vez... Ele apenas ouviu o forte estalo acima de sua cabeça e, imediatamente fugiu com o corpo, escapando por milímetros do pesado galho que caiu-lhe por cima com grande estardalhaço.
       _ Mas que diabo de galho, tinha que cair logo agora? –praguejou.
       Porém, reparando no tal galho, ele não estava seco e nem partira-se ao acaso...Era um galho ainda vivo e fora quebrado por algum animal de grande força...propositadamente?...Não podia ser mas, tal suspeita colocou algum medo no coração de Chico, que achou melhor sair daquele local ermo e desconhecido, passando a caçar em sendas mais familiares...Mas, ao tentar sair dali, não conseguiu localizar-se e nem encontrar a trilha por onde viera...A mata parecia modificar seu aspecto para fazer com que se perdesse...Seria isso possível? Ele devia era estar “variando”, talvez motivado pelo desconforto de estar em um local que não conhecia. Estava assim, meditabundo, ainda tentando localizar-se quando tomou um enorme susto!
       Um bando ruidoso de papagaios cruzou a trilha onde ele estava, à altura de seu rosto e Chico, mesmo teve de abaixar-se para não ser abalroado por alguma daquelas aves barulhentas, sem nem mesmo pensar em apontar a carabina e provocar um novo morticínio, como fizera com os macacos, ainda há pouco...O bando sumiu arvoredo acima, porém, o som de um único papagaio ainda persistiu, vindo de uma cerrada moita bem próxima de onde estava...Levou algum tempo mas, Chico percebeu que, desta vez fora longe demais, não em sua caminhada mas, em seu modo de encarar as coisas da natureza...Bem que seu filho avisou, bem que alguns amigos falaram, ele jamais respeitou as coisas da natureza e agora, sentia medo, coisa que nunca acontecera-lhe antes...A voz do tal papagaio persistia e ele começou a afastar-se dali, sem o receio de embrenhar-se ainda mais pela mata pois, mais do que já estava, impossível...Queria apenas escapar daquela acusação, feita por um dos espíritos protetores da mata, um dos mais poderosos, cuja voz insistente, escutava...Andou alguns passos por outra trilha que encontrou e que serviria a animais de grande porte mas, apenas para jogar-se no chão, para o lado, buscando escapar da desabalada carreira que o imenso porco do mato, certamente o mesmo que já havia visto antes, empreendia em sua direção...O pesado suíno, de enormes presas rompantes em sua formidável boca porém, não seguiu pela trilha mas, virou à direita entrando por onde Chico viera, em direção à moita, onde a voz de papagaio ainda fazia-se ouvir...O tropel do animal cessou de súbito, fora das vistas do caçador, escondido pelo mato alto mas, apenas um momento durou tal silencio, logo o porco retomou seu galope em direção a Chico e irrompeu pela trilha, novamente, com grande espalhafato...O que Chico Anta, o maior caçador da região, mas, um homem que não respeitava a natureza, viu, então, quase fez seu coração parar, tamanho foi o horror que causou-lhe tal aparição...Suas esperanças de escapar daquele pesadelo volatizaram-se, como água em chapa quente e ele sentiu o medo em toda sua extensão...medo da vingança que aqueles a quem sempre desrespeitou, armavam, sem dúvida, contra ele, fazendo-se valer da única regra que teria efeito sobre um contraventor de sua espécie: “ Olho por olho, dente por dente”!...
       Diante de Chico, o imenso porco do mato estancara em sua marcha a cerca de uns cinco metros e ficara encarando-o com ar feroz...Montado sobre ele estava a causa do horror do caçador...Era um rapazola bastante magro porém, musculoso e forte; tinha feições indígenas e sua pele era totalmente coberta por uma pelagem curta, cinzenta com reflexos esverdeados, como o pelo de uma preguiça...No alto de sua cabeça, a cabeleira longa e desgrenhada, cinza como o resto de seu corpo despido, mal escondia as orelhas grandes e terminadas em ponta, como as de um animal...Seus olhos amendoados exibiam um brilho metálico e encaravam Chico Anta com severidade e censura e sua boca, muito grande, localizada logo abaixo de um nariz pequeno e achatado, exibia em um esgar, os dentes azulados, com destaque para os caninos, que eram longos e ponteagudos...A aparição segurava em uma das mãos, um galho fino e comprido com o qual batia de leve sobre o dorso de sua montaria...Chico olhava para aquilo e sabia quem estava à sua frente, ouvira falar daquele protetor dos bichos da mata mas, jamais imaginara que ele pudesse, mesmo, existir...Seus pés...havia algo diferente com seus pés, Chico sabia mas, não conseguia tirar os olhos do rosto da criatura que o encarava em desafio...Foi quando daquela garganta partiu o grito de um papagaio e as coisas começaram de fato, a acontecer...O bando de papagaios já visto antes, retornava e começava a atacar Chico Anta, os fortes e pesados bicos fazendo já alguma estrago em sua pele, rasgando-lhe as roupas...De carabina apontada a esmo, Chico ainda deu dois tiros sem atingir nada, quando a arma foi arrancada de suas mãos e arremessada longe...Começou então a correr em desespero, buscando fugir daquele ataque e foi perseguido pelos pássaros durante um bom tempo até que, afinal, foi deixado em paz, com alguns ferimentos leves...Ainda era dia mas, Chico não soube calcular que horas seriam, perdera a noção de tempo e sabia apenas que, a noite iria envolve-lo em plena mata e então, a vingança consumar-se-ia...Durante horas, ele vagou sem saber onde ia, sendo, a cada passo, ameaçado por um animal diferente que não via, apenas ouvia os sons e nessa lida foi conduzido mais e mais, para um local específico, no coração da mata, onde o desenlace de sua tragédia ocorreria...Já era noite fechada, noite de lua cheia quando, afinal, ele parou nos limites de uma clareira aberta a fogo mas, não por gente como ele...E aquilo fora aberto recentemente, o cheiro de mato queimado era forte e algumas touceiras de capim ainda ardiam, emprestando ao local, uma iluminação baça e lúgubre...Chico perambulou por aquelas plagas sem saber o que fazer ou para onde mais, ir...Olhava para aquele altar de sacrifício –seu sacrifício- e pedia aos céus para que aquilo terminasse logo...e foi atendido...
       Ouviu ao longe o galope de bicho grande, a chegar cada vez mais perto e mais perto...O barulho dos cascos a ressoar através do ar frio da noite, cercado por um silêncio pesado e incomum...Mas, haveria algo comum naquela noite de ajuste de contas?...Chico já não andava, já não mexia-se, paralisado de puro horror, apenas aguardando seu fim...Era ela quem vinha tomar as dores de todos os animais que ele matou, por puro divertimento, das vidas que ele tirou, à toa, sem qualquer motivo...Ela viria cobrar-lhe suas dívidas para com aqueles a quem maltratara e não respeitara...Ela, a mais horrenda das aparições da mata, a espalhadora de loucura, a ceifadora de vidas...Chico olhava, suando frio, incapaz de qualquer gesto, para o local onde acreditava que a besta irromperia, para livrar a mata do pior de seus predadores...e o galope estava cada vez mais alto, mais alto...E então, a gargalhada ressoou no ar...a gargalhada quase humana, remanescência da mulher que aquilo já fora um dia, séculos atrás...Ela era velha, muito velha e seus poderes não arrefeciam com o tempo, até pelo contrário...A gargalhada louca feriu os ouvidos de Chico Anta que, nem tapando-os conseguia escapar do mal que aquilo fatalmente far-lhe-ia...E Chico gritou também, desesperado, sentindo a loucura invadir-lhe o pensamento, enquanto o riso maldito não dava mostras de querer cessar...Mas cessou afinal quando, em um salto por cima do mato alto ela, finalmente mostrou-se inteira, a luz soturna da lua e do mato em brasa...
       A mula...a coisa maldita, aquela que incutia mais medo do que o próprio Satanás...Ela era grande mas extremamente mirrada de carnes e, apesar da pouca iluminação, mostrava contornos humanos, misturados aos de um animal...Seus cascos de metal eram encimados por tocos de dedos que brotavam-lhe das patas, dedos com unhas que ainda exibiam alguns vestígios de tinta esmalte, vermelha que à luz da lua era, no entanto, negra como piche...A coisa acercou-se de Chico que aguardava, petrificado, na borda da clareira ardente, já não mais senhor de si...Ela andava devagar e, como que o observava, mas, naturalmente, não poderia fazer isso pois, não tinha olhos...nem orelhas, nem boca...não tinha sua cabeça...Apenas o pescoço, que parecia ter sido decepado por um machado cego, a exibir tecidos macerados e cortados, as pontas do esôfago e da laringe em horrenda exibição e esta com um constante brilho vermelho, mais para dentro do corpo da besta...E foi por este orifício que a primeira labareda projetou-se em direção ao Chico mas, atingindo apenas ao mato atrás dele, incendiando alguns arbustos e jogando um pouco mais de luz a tão dantesco cenário...Já a lua não ocupava mais sua porção de céu, o tempo fechara-se subitamente e, a única luz que havia ali era a dos pequenos incêndios provocados pela mula...Tão logo ela cessou seu primeiro ataque, usou sua laringe cortada para expelir mais uma estridente gargalhada que liquidou com qualquer resquício de sanidade que Chico Anta pudesse ter...E, logo depois, atacou o cruel caçador pra valer, com o segundo jato de fogo que, como que vindo de um lança chamas, atingiu Chico Anta em cheio, incendiando-lhe as roupas, cabelos e pele...Ele não moveu-se enquanto o fogo o tomava por completo, destruindo-lhe a carne sem piedade...Mas então, após um corisco riscar o céu, acompanhado do ribombar de um trovão, a chuva caiu, torrencial, por sobre tudo aquilo, apagando o fogo que ardia em Chico e na clareira em brasas, onde os cascos de metal pisoteavam...A mula então, com um salto fenomenal, desapareceu no mato alto, sem ter mais o que fazer por ali...Chico, parecendo nada sentir, a princípio, caiu de joelhos sobre o chão encharcado e depois, desabou no solo, sem qualquer vontade ou reação...
       No dia seguinte, uma ruína humana arrastou-se pela mata, levada por diversos animais que orientavam seu caminho e assim, o outrora valorosa caçador Chico Anta, saiu da mata e foi em direção a seu casebre...Lá chegando, encontrou seu filho, que ficou horrorizado ao ver o estado em que seu pai encontrava-se mas, que procurou cuidar das queimaduras, da melhor maneira possível, antes de chamar o médico...Enquanto era tratado, Chico Anta, em um momento de lucidez –o último- contou em detalhes sua última caçada e como ela havia terminado...Após falar, caiu em total prostração e, dela saiu apenas, de madrugada quando, aterrorizado, disse estar sendo atacado pelos bichos do mato e pela mula, perdendo, então, seu controle, total e irreversivelmente.

       _ E foi assim que aconteceu – disse o rapaz-...Tal e qual como meu pai me contou...Está satisfeito?
       _ Sim, claro...é uma história e tanto...
       _ Nas o senhor não acredita nela...
       _ Não é isso...é que...puxa...eu não imaginava...
       _ Eu não o culpo, acho que, nem eu acredito nela...pra mim o pai foi atingido pelo fogo provocado por um raio daquela tempestade fora de previsão, que caiu na época...e a chuva impediu que morresse queimado...Quanto à loucura dele...não sei...
       _ Você mostra ter bom-senso...Verdade ou não, o fato é que você confiou em mim e eu não vou decepciona-lo...Em breve, voltaremos para minha cidade e você será meu hóspede enquanto seu estágio for providenciado e poderá cuidar melhor de seu pai, quer dizer, poderá visitá-lo e checar se está sendo bem tratado.
       _ Obrigado, “seu” Renato, o senhor é muito bom.
       _ Ora, o que é isso?...
       E assim foi...Renato levou seu protegido para morar  em seu apartamento enquanto via se havia mesmo possibilidade dele fazer algum tipo de trabalho no jornal onde trabalhava...Inventara do nada a história de estágio e agora estava com a palavra empenhada, sem saber se poderia cumpri-la...Ao menos, Chico Anta estava sendo bem tratado e o médico que cuidava dele dissera que, em breve, poderia ter alta...estava mais calmo e já não tinha mais os terríveis delírios que o levaram para lá...Falava muito em voltar para seu rancho e tocar a vida, tomava os remédios receitados religiosamente pois, apenas eles, davam-lhe alguma paz...E Renato achou que ele poderia, sim, voltar para sua casa...
       E foi o que aconteceu; aparentando estar bem, Chico Anta retornou a seu rancho, agradecido ao repórter Renato, que iria cuidar de seu filho, já que ele não poderia mais faze-lo...Iria então arranjar uma ocupação qualquer, que não fosse a caça e, tocaria sua vida da melhor maneira possível...Mas, na cidade, Renato não conseguia, mesmo, encaixar o filho do Chico em nenhuma atividade no jornal e isso o incomodava, já pensava, mesmo, em mandar o garoto de volta à cidadezinha do pai e esquecer de tudo aquilo...Afeiçoara-se, no entanto, ao garoto, que mostrara-se inteligente, capaz e honesto...mas, não tinha mais o que fazer por ele, achava...Quanto à fantástica história que este contara, ficaria ela bem, em algum livro de contos e não nas páginas de um jornal; não acreditara em nada que ouvira e, pelo jeito, o rapaz também não...
       Certo dia, lendo algumas matérias daquele dia, deparou-se com algo que pôs seus cabelos em pé!...Naquela noite, chegou em casa acabrunhado e sem jeito de dar a notícia ao filho do Chico...Após o jantar, finalmente encheu-se de coragem e decidiu falar tudo.
       _ Hoje, na redação, eu li a matéria de um colega e...bem...ela falava de seu pai...
       _ Eu sei –disse o rapaz calmamente-...ele morreu, queimado, lá no rancho...Todo mundo achou que ele teve um novo ataque de loucura e pôs fogo em tudo...Teria sido melhor para todos, essa explicação...- levantou então, a cabeça e encarou o repórter com um meio sorriso de ironia, ao dizer:
       _ Mas nós sabemos que não foi assim, não é, “seu” Renato? – sorriu então, mais abertamente e, atônito, Renato observou as pontas azuladas de seus dentes que apareciam...
       _ Foi a mula, que terminou o “serviço”...”Seu” Chico não era confiável...ele ia melhorar e, logo, logo, ia voltar à caça, apenas tomando mais cuidados...sabe como é: “Pau que nasce torto”...- e diante de um apavorado Renato, o garoto levantou-se e continuou a falar.
       _ Nem se preocupe mais com o tal estágio, eu sei que ele nunca ia sair mesmo...e, se saísse, eu não poderia aceita-lo...Não sou daqui, não me adaptaria ao modo de vida de vocês...Quis apenas satisfazer sua curiosidade, “seu” Renato...Mudei um pouco minha aparência para ver como era a vida na cidade grande e não gostei...Mas gostei do senhor, é um homem bom...como meu “pai” era, em parte...Eu quis fazer ao pobre Chico, ver o quanto estava errado em sua atitude com as coisas da natureza, organizei até aquela comédia dos pais que me surravam e convivi durante muito tempo com aquele homem...”Seu” Renato, mesmo maltratando um filho, que casal de pais desistiria dele com tanta facilidade? O senhor não achou estranho isso?...Eu tentei corrigir o velho Chico mas, simplesmente, não consegui...Eu me comprometi com os outros protetores, eu ia modificar aquele homem...mas não consegui e, o resultado foi esse...
       Caminhou então para a porta do apartamento e, enquanto segurava a maçaneta com uma mão e um braço em que pelos cinzentos esverdeados já despontavam, concluiu sua preleção.
       _ Torno a dizer, “seu” Renato...O senhor é um homem bom...cuidou bem do velho Chico e de mim...Me comprou roupas, sapatos...Eu gostei em especial destes tênis que estou usando...Claro que, não vou mais usá-los quando voltar para casa mas, vou guardá-los e lembrarei do senhor, quando olhar para eles.
       Já sentindo ânsias de vômito, motivadas pelo horror crescente, Renato teve o último choque ao ver, diante de si, os pés daquele garoto executarem um giro de cento e oitenta graus ficando afinal, totalmente virados para trás. Ele encarou o repórter com os olhos que pareciam ser feitos de metal e disse, simplesmente:
      _ Adeus, “seu” Renato...E, obrigado por tudo...
      Abriu então a porta, passou por ela e  fechou-a atrás de si
celso dyer
Enviado por celso dyer em 14/12/2017
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