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Munir, o mercador
       Munir Abdallah era um mercador que atravessava o deserto durante grande parte do ano, vendendo suas mercadorias de cidade em cidade. Todos o conheciam pelas imediações, fosse por sua simpatia no trato com a clientela, fosse por sua honestidade e retidão, nos negócios, jamais tentando ludibriar seus fregueses o que, tornava-o o comerciante preferido entre os muitos reinos que pontilhavam aquela região...Mercando e cantando suas cantigas de modo a atrair cada vez mais freguesia, o bom Munir seguia sua vida despreocupadamente, sem maiores vínculos com quem quer que fosse e, gozando de plena liberdade...Tudo parecia ir bem mas, às vezes, um período de paz e prosperidade é um prenuncio de que, algo de muito ruim está para vir e, esse algo ruim veio, de fato, certo dia, para o pobre Munir, o mercador...
       Certo dia, estando a atravessar um trecho particularmente isolado e perigoso do imenso deserto, eis que o pobre Munir, ao avistar ao longe, uma pequena caravana de camelos, julgou que aqueles homens eram mercadores, como ele e, em sua bondade simples e despreocupada, a eles dirigiu-se, de modo a saber se poderia ser, de alguma forma, útil...Como ele se enganara...Os homens que seguiam pelo deserto não eram mais do que salteadores, bandidos errantes, proscritos que ganhavam a vida roubando os viajantes e mercadores do deserto, como Munir...Além de privar suas vítimas de tudo o que possuíam, não raro, os bandidos levavam os infelizes para serem vendidos como escravos, para quem pagasse mais no mercado negro...
       O pobre Munir nem deu-se conta do que aconteceu-lhe ao chegar próximo àqueles homens, tidos como colegas de profissão. Assim que aproximaram-se, os salteadores subjugaram Munir e apearam-no de sua montaria sob a ameaça de armas para ele apontadas e, sem ter outra alternativa, o pobre e ingênuo mercador teve de entregar tudo o que possuía, desde a mercadoria que transportava e o dinheiro dos negócios mais recentes, até seu precioso camelo, sua montaria e amigo de longa data, sua perda mais lamentada...E, ali ficou o pobre homem, perdido, isolado em meio a um deserto sem começo e sem fim, escapando porém, de ser levado como escravo, isso porque os salteadores acharam-no muito magro e fraco para o serviço pesado...Limitaram-se a abandona-lo para que morresse sob o sol causticante e impiedoso.
       Decidindo porém, não desistir de sua vida e, apenas lamentando o infausto a que fora lançado, o positivo Munir ainda deu-se por satisfeito por haver escapado à escravidão, agradeceu a Allah por ter apenas perdido seus bens e não sua liberdade ou mesmo, sua vida e, humildemente pediu para que fosse conduzido por caminhos certos, que o levassem a alguma cidade ou oásis, de modo a que não morresse perdido no deserto...Seguiu então por um caminho que julgou ser correto, baseado no que sabia sobre o deserto em suas muitas andanças por ali...
       Andou, andou muito e, logo, já padecia dos horrores da sede pois, os bandidos não deixaram com ele, nem um mísero alforje com água, decididos que estavam eles a deixa-lo morrer por ali, rapidamente...Já temendo por sua vida mas, agarrado a sua fé, Munir, bravamente prosseguiu, torcendo para resistir, ao menos, até o anoitecer quando, com a súbita queda da temperatura desértica, teria mais chances de sobreviver, andando à noite...Nada ele enxergava à sua frente que não fossem dunas e mais dunas...Nem o menor vestígio de uma sombra salvadora...nada...Aquele parecia ser, mesmo, o fim do pobre Munir Abdallah mas, ele recusava-se a entregar-se ou mesmo, perder a fé que o prendia à vida e à certeza de que o infinitamente bom e justo Allah não o deixaria morrer daquele jeito.
       E, de repente, o desafortunado Munir viu algo, no horizonte...Mas, não era um abrigo, um refúgio salvador, mandado por seu deus para impedi-lo de morrer...O que um horrorizado Munir viu, a aproximar-se com implacável fúria, era uma formidanda tempestade de areia, trazida pelo cruel vento Cansim e, nem adiantava correr, fugir...fugir para onde?...E, logo a areia quente , açoitada por um vento cruel alcançava o desditoso Munir, açoitando-o com mil adagas afiadas, que era como ele sentia o contato daquela areia em sua pele, trazida em rajadas inclementes, tirando-lhe a visão, sufocando-o, entrando-lhe pela boca e olhos, privando-o de seus sentidos e, em breve, de sua vida...Erguendo a voz acima do desumano rugido que o englobava, um obstinado Munir ainda gritou uma última súplica aos céus, no sentido de que, se sua alma ainda merecesse alguma piedade, que ela viesse, livrando-o daquele martírio ou então, dando-lhe uma morte rápida e menos sofrida.
       _ Inch Allah! – ele gritou ao final de sua súplica.
       E, nesse momento, sentiu os braços fortes que o cingiam e o erguiam do chão, após o que, vencido por um imenso cansaço, perdeu os sentidos.

       Despertou em um aposento bastante arejado, na penumbra e deitado sobre confortáveis almofadas. Um suave perfume de ervas aromáticas chegou-lhe às narinas, trazendo-lhe imenso bem estar...Estava banhado e trajava vestimentas limpas, a ostentar até, um certo luxo. Não lembrava de como havia chegado até ali, recordava-se da tempestade de areia e nada mais...Allah fora piedoso consigo e fizera com que fosse salvo e assim, um agradecido Munir repetiu, elevando os olhos para o alto, em agradecimento:
       _ Inch Allah. – e foi quando ouviu, próximo a si.
       _ Salaam Aleikun, forasteiro.
       _ Aleikun Salaam- respondeu, procurando ver quem falava consigo.
       O recém chegado então, colocou-se à sua frente permitindo-se ver...Era um homem idoso que trajava-se com muito luxo, parecia ser alguém muito poderoso e rico. Ele apresentou-se:
       _ Sou o Sultão Ben Kalish Ezab, forasteiro...Minha patrulha da areia acabou de localiza-lo em meio à tempestade provocada pelo Cansim e o trouxe imediatamente à minha presença...de acordo com a profecia...
       _ Agradeço a Allah e ao senhor, poderoso Sultão, por haver-me salvo da morte certa – tornou Munir, respeitosamente-...Sou vosso servo, devo-vos a vida e, tudo farei para ser merecedor de vossa intervenção no que parecia ser uma trágica certeza...
       _ Bem o sei, caro...qual é o seu nome?
       _ Munir Abdallah, seu servo, ó poderoso...Sou mercador mas, fui vítima de um assalto, durante meu trajeto a uma cidade, onde ia, mercar.
       _ Tiveste muita sorte, meu bom Munir...e nós também...A profecia cumpre-se e tu serás o condutor da devolução da paz e da felicidade nesta casa que te acolhe.
       _ Como, ó poderoso?...Não vos entendo...Que profecia é essa?
       _ A profecia feita por um homem muito sábio e muito, muito velho...Um homem que já viu de um tudo neste mundo e, em outros e, que hoje, encontra-se retirado em uma cidade mística, além de nossa compreensão, uma cidade que só poderá ser alcançada...pelo “Enviado das Areias”, ou seja...tu, nobre mercador.
       _ Como “Enviado”?...compreendo-vos cada vez menos, generoso sultão...
       _ Aconteceu há muito tempo atrás, no tempo das guerras fratricidas que tantos estragos causaram no seio de nossa sociedade...Mas, para compreenderes-me melhor, vem comigo, bom Munir e, logo, entenderás tudo...
       _ Como quiser, alteza
       E assim, um surpreso Munir Abdallah foi levado através do palácio do sultão, passando por salões majestosos e cômodos ricamente decorados, até parar diante de uma porta trancada que foi aberta pelo soberano local que disse:
       _ Dói-me muito, adentrar este cômodo mas, a esperança que ora, habita meu coração me dá forças para, mais uma vez, encarar meu infortúnio.
       Os dois penetraram em um aposento mergulhado na penumbra onde divisava-se, no centro exato deste, um divã com uma pessoa, nele, deitada...chegando mais perto, os dois homens puderam, à fraca luz reinante, ver que, quem ali jazia era uma menina, muito bela e que parecia dormir profundamente. Estava vestida com luxo e elegância, como se pronta estivesse, para acordar daquele sono a qualquer momento. O sultão disse:
       _ Vês, meu bom mercador?...Esta é minha filha, a princesa Muna que está mergulhada neste sono sem sonhos há anos e anos...desde que a profecia cumpriu-se.
       E, com um ar de profunda tristeza, o sultão prosseguiu:
       _ Não sou só eu que padeço esta dor que sangra meu coração...Através de diversos reinos em derredor, filhos e filhas, primogênitos de famílias reais, dormem um sono amaldiçoado, como este, que acomete minha amada filha...E assim será, até que a morte sobrevenha a essas inocentes vítimas de nossa insensatez...A não ser que a profecia cumpra-se e a maldição seja quebrada...
       _ Disseste-me que eu tudo entenderia ao ver-vos a filha mas...compreendo-vos cada vez menos, nobre sultão.
       _ Vou explicar-te então...Há muito tempo atrás houve uma sangrenta guerra entre vários reinos da região e, em meio a um imenso morticínio, foi invocado por...nunca se soube por quem, um poderoso djin, um ser místico e poderoso, habitante de reinos mágicos, fora de nosso alcance...Este ser foi invocado para lutar contra os inimigos de quem o convocou, algum sultão versado em magia e prodígios mas, pode-se dizer que, neste caso, “o feitiço virou contra o feiticeiro” e o djin, de nome Al Gondinar, ao invés de derrotar um pretenso inimigo, voltou-se contra todos os combatentes da cruel guerra, irritado que ficou com o cenário que presenciou, ao ser invocado...Ao ver irmão contra irmão, pai contra filho e outros absurdos, todos a matarem-se sem qualquer freio, lançou o djin uma terrível maldição contra todos os governantes, envolvidos na guerra insana: Em certa época, ainda por vir, todos os primogênitos das diversas casas reais, ao completarem uma certa idade, cairiam em um sono letárgico que, em pouco tempo, os levaria à morte...Mortos os primogênitos, chegaria a vez dos herdeiros seguintes e assim aconteceria, até que, não existisse mais ninguém para governar, caindo toda nossa sociedade em um irremediável caos, até que todo e qualquer reino, extinguisse-se inapelavelmente...
       _ O que o senhor me diz, nobre sultão!...Que horror!
       _ Pois, assim é...pagamos nós, os atuais líderes, por erros cometidos por nossos ancestrais...Vêde como minha pobre Muna encontra-se...privada do carinho de sua família, privada de sonhos...de sua vida...E, como ela, outras tantas princesas e príncipes encontram-se no mesmo estado, trazendo sofrimento atroz a suas famílias...o mesmo sofrimento que corrói-me a alma e cobre-me de um luto que, por certo, virá...
       _ Mas, vós falavas de cumprir uma profecia e quebrar uma maldição...Falavas também que eu, um humilde mercador, era o “Enviado das Areias”.
       _ Sim, é verdade...Se o que foi escrito cumprir-se, as vidas de nossos filhos e a existência de nossos reinos serão salvos e, teremos aprendido nossa dura lição, não repetindo jamais, os péssimos e insensatos atos de selvageria que permearam nossas vidas, em tempos imemoriais...Após um período de muita dor e arrependimento, surgiu, um dia, não se sabe de onde, esse profeta, esse sábio, de nome Abdul Al Quaresh que disse ser o portador de boas novas: O modo como quebrar a maldição lançada por Al Gondinar...Disse, para quem quisesse ouvir, que a salvação estava no interior do vento Cansim...Ali, poderia ser encontrado o “Enviado das Areias”, o ser abençoado que teria como encerrar um período de expiação de pecados e iniciar um período de reconstrução e paz...Através dos anos, todos os reinos lançaram, através do deserto, as “Patrulhas das Areias”, eternamente a perseguir o vento Cansim, procurando em seu interior, aquele que viria para nos salvar...E hoje, para nosso imenso fausto...a profecia iniciou a cumprir-se e tu, nobre mercador Munir Abdallah, foste encontrado e, com a graça dos céus, porás fim a uma época de tristeza e sofrimento atroz, Inch Allah!
       _ Não compreendo como possa ajudar-vos, nobre sultão...Sou um homem simples, ocupado apenas com o mercar, nada entendo de profecias, magias e misticismos.
       _ És um homem simples, nobre mercador...Um homem simples e, de coração puro e generoso...Tudo encaixa-se, está claro para mim...Mas, se alguma dúvida ainda acomete-te, a prova suprema do que foi dito até agora, está na sala seguinte, acompanhe-me, por favor.
       _ Sim, alteza...
       Passaram então, para um aposento pequeno e vazio de móveis, em cujo centro, um grande tapete jazia. O sultão disse:
       _ Se ainda restam dúvidas acerca de tua missão, meu caro Munir, elas dissipar-se-ão no momento em que sentares no centro deste tapete, vai...
       Ainda confuso, Munir Abdallah fez como seu anfitrião disse  e, sentou-se no centro do grande tapete, decorado com arabescos elegantes e coloridos. No momento seguinte, para seu grande susto, o humilde mercador viu-se erguido do chão a uma altura de cerca de um metro.
       _ Inch Allah! Chúcram Allah! – gritou, maravilhado, o sultão Kalish Ezab -...A profecia estava certa e, cumpre-se. És tu, nobre Munir, o Enviado, aquele que trará a felicidade a todos os reinos da região...Vai, incontinenti, rumo a tua missão, ó nobre Enviado, Mensageiro da paz, Nosso Redentor.
       O tapete mágico então alçou vôo e saiu pela janela aberta, do cômodo, passando a sobrevoar a cidade enquanto o povo lá embaixo, que aguardava por aquilo, entoava cantos de jubilo e agradecimento aos céus...Logo, o tapete, conduzindo um apavorado Munir Abdallah, subia mais e mais, rumo a uma formação estranha de nuvens que não estava ali há até bem pouco tempo...O tapete penetrou no manto de nuvens compactas e Munir sentiu, de repente, um chão a seus pés...Saltou do tapete em meio a uma terra enevoada e viu, à distancia, o pequeno palácio, em meio a outras construções e, para lá seguiu, pensando:
       _ Estou metido nessa até as orelhas...Aquele certamente, é a cidade mística, onde está o profeta Abdul Al Quaresh, de quem o sultão falou...Bem...vamos fazer o que esperam de nós...
       Hesitante, o mercador seguiu até o palácio que desenhava-se à sua frente, recortado diante da forte neblina que ali havia...Encontrou a porta do prédio aberta, como se ele fosse esperado e, provavelmente, era...Entrou, temeroso e seguiu por um corredor estreito, que desembocava em um salão, não muito grande, enevoado como a paisagem lá fora...No centro do cômodo, uma figura humana, alta e esguia, aguardava...Munir a ele dirigiu-se e aguardou...Após olha-lo durante algum tempo, o estranho personagem disse-lhe:
       _ Salaam Aleikun, forasteiro...Quero crer que tu és o Enviado da Areia...
       _ Dizem que, com efeito, o sou – respondeu Munir, timidamente...Parece que tenho uma missão a cumprir aqui...O senhor, provavelmente é o sábio e profeta Abdul Al Quaresh...
       _ Com a graça de Allah, o sou...Vinde comigo ó Enviado...Temos trabalho a fazer...
       O sisudo profeta levou então o mercador Munir através de várias salas e corredores, tudo envolto em neblina até que chegaram diante de uma grande porta que Abdul abriu, proferindo algumas palavras cabalísticas...Eles entraram então, em um recinto livre da neblina que grassava por toda parte e, no centro exato do salão, uma pira por onde subia uma espécie de fumaça, aguardava e, um pouco mais afastado, um grande espelho, ricamente ornado, encontrava-se...O sábio então, continuou a recitar cânticos e palavras mágicas até que a fumaça adensasse-se cada vez mais, até assumir uma forma humana...era um homem quem materializava-se diante daqueles dois homens...um homem alto, forte, aparentando ser muito idoso e ostentando um semblante carregado, entre pensativo e ameaçador...Ele disse, após um tempo que pareceu ser enorme:
       _ O que desejais, ó estranho, para que me incomodes durante minha meditação?
       Gaguejando um pouco, de medo, Munir disse:
       _ Vim tentar acabar com a maldição imposta aos povos em derredor, devido a muitas faltas cometidas em tempos imemoriais...Pediram-me que o fizesse...
       _ Pareces-me muito inseguro e fraco...não tens o tipo de um Enviado mas...se estás aqui é porque, de fato, o és...Como desejas tu, fazer-me suspender a maldição imposta a um povo infiel, agressivo e fratricida?
       _ Nã-não sei...Vou pedir-lhe...Implorar-lhe...Pela vida da princesa Muna...e de outros príncipes e princesas...
       _ É pouco...tuas súplicas não são o bastante para redimir todo um povo...É necessário bem mais do que isso...E, já que estás aqui...estou pensando...Poderás fazer-me um favor que, se for concretizado, aí sim poderá convencer-me a mudar minha decisão de castigar um povo ímpio e desejoso de sangue e, nada mais...Diz-me, Enviado...serias capaz de prestar-me um grande favor e, em troca, obter meu perdão a quem não o merece?
       _ S-s-sim...sim, nobre Al Gondinar, poderoso djin...Eu farei esse favor para vós...
       _ Ótimo, ótimo – Al Gondinar parecia saborear aquele momento-...Escuta-me, então...Sou um poderoso líder de todo um universo mágico e meus poderes desconhecem limites...Mas, há algo que, embora possa desejar tudo e obter, não consigo, está fora de meu alcance o que, enche-me a alma de pesar...Sou, de fato, poderoso mas, não o suficiente para equiparar-me a um outro ser, habitante de um outro mundo, próximo a este, no qual, estás...Este ser é, exatamente, a grande árvore mágica, a “Tamareira Ancestral”, o ser místico mais antigo, sábio e poderoso que já existiu em todos os tempos...E sua existência acicata-me a alma...Desejo eu, ser o mais poderoso o mais sábio e o mais antigo...Então, Enviado, minha proposta é esta: Levar-te à presença de meu ferrenho rival e, uma vez lá, deverás abater a milenar árvore com o “Alfanje do Destino” que lograrei providenciar-te, caso aceite minhas condições...Deverás matar a Tamareira Ancestral e trazer-me seu corpo sem vida, para que constate o sucesso de tua missão...E então?...aceitas minha proposta?...Lembra-te de que, tens a vida de muitos jovens nobres, em tuas mãos.
       Munir ficou horrorizado com o pedido proferido por Al Gondinar e pensou em recusar semelhante absurdo...Lembrou porém, do corpo sem vida da princesa Muna, da tristeza de seu pai, o sultão...pensou nas crianças que, devido a erros de suas famílias, pagavam com a vida por tais erros...e afinal, após um tempo bem longo, ele disse:
       _ Aceito vossa proposta, poderoso djin...
       _ Perfeito – A voz do djin traía sua expectativa pela eliminação de seu rival-...Vou dizer-te então, o que fazer...Vês aquele espelho? É o portal que te levará aos domínios da Tamareira Ancestral...Deverás passar através do espelho, procurar a árvore, abatê-la e trazê-la a mim. O Alfanje do Destino estará aguardando-te, do outro lado do espelho, em terras de meu rival...Eu mesmo deveria fazer este trabalho mas, é me vedada a passagem pelo espelho, meu opositor é precavido contra mim...mas, nada obsta a que passes e faças o trabalho em meu lugar...agora, vai-te e traz-me logo aquele vegetal senil ou então, todos os príncipes e princesas da região, perecerão, recaindo a culpa de tais mortes, apenas, sobre tuas costas...quer dizer, “se” lograres voltar para casa, se eu não der cabo de tua vida e de tua inépcia, aqui mesmo...Para voltares há que seguir um procedimento muito simples: Bastará que digas, bem alto, a palavra “Ballek!” e, instantaneamente, serás trazido do volta...Agora,vai!
       Com o coração pesado mas, buscando forças em sua fé, Munir, o mercador atravessou sem qualquer dificuldade o grande espelho e viu-se, de uma hora para outra, em um opulento oásis, cercado de muitas árvores e plantas e próximo a um límpido lago, onde peixes saltavam no ar...Diversas dançarinas executavam seus bailados em meio a tão luxuriante sítio mas, ninguém parecia notar a presença de um estranho como ele...Foi quando reparou que tinha nas mãos, um imenso alfanje, capaz, certamente, de decepar um grosso tronco de árvore com apenas um golpe...Viu então, a movimentação em torno de uma árvore em especial: Era uma tamareira, imensa, a maior que ele já vira...Parecia ser mesmo, velha como o tempo e irradiava uma atmosfera de paz e harmonia...Com o coração pesando cada vez mais, Munir aproximou-se da árvore sábia, por entre as bailarinas que volteavam graciosamente e, uma vez, perto do provecto vegetal, levantou sua arma à altura da cabeça, disposto a proferir o golpe mortal.
       _ Detém tua mão, ó infiel! O que pretendes fazer? – Ao ouvir tal grito, Munir, como que, desperto de um sonho ruim, interrompeu seu assassino gesto e viu que, quem gritava era uma das bailarinas, talvez a líder de todas elas...Completamente constrangido tentou então, justificar-se...disse da necessidade de abater a Tamareira Ancestral em nome da vida de muitos príncipes e princesas em sua terra; disse que ali fora, obrigado pelo djin Al Gondinar que, caprichosamente queria matar o ser mais sábio e idoso de todo o mundo e que, estava arrasado por ter de fazer aquilo...Tinha toda uma responsabilidade e fora, mesmo, ameaçado de morte, caso não cumprisse tão macabra incumbência...A resposta veio então, furiosa, por parte daquela guardiãs:
       _ Nunca! Jamais!...Não o permitiremos, não sem luta. Terás de matar a todas nós, antes de ceifares a vida de nossa líder, nossa amiga e protetora! Anda!...luta contra nós.
       Mas, a luta não chegou a acontecer pois, uma voz soou mais alto, impondo silêncio.
       _ O que está acontecendo aqui? Quem está interrompendo meu sono?
       Era a Tamareira Ancestral quem falava, despertada que fora de sua sesta e ela, agora, inquiria sua guardiã:
       _ Diz-me, Leila...O que ocorre em minhas terras?
       _ É um vil matador, um infiel, que veio matar-vos, ó nobre líder...Veio ceifar vossa vida a mando do cruel djin Al Gondinar. Não podemos permiti-lo e não vamos! Á luta, companheiras!
       _ Calma, calma...- a antiqüíssima árvore impunha a calma em um quase campo de batalha-...Qual é a tua história forasteiro?
       Munir então, repetiu sua história, falou de sua insensata missão, da responsabilidade que tinha nas costas e do risco de perder a própria vida, caso não desincumbisse-se bem, da missão...Estava triste e pesaroso, não sabendo mais, o que fazer. A tamareira então, disse:
       _ Al Gondinar...aquele invejoso, aquele manipulador...finalmente arranjou um jeito de acabar comigo...Jogou sujo, como é o seu hábito, usou vidas para satisfazer seus caprichos...bem, então, ele venceu...Vai em frente, forasteiro, mata-me para dar a vida a tantos jovens inocentes...Segue tua missão, satisfaz de sangue teu contratante...uma vida por muitas...me parece uma troca justa.
       _ NÃÃÃO! – Leila então começa a chorar e implorar a Munir, o alfanje novamente levantado-...Não a mate, não tire a vida do ser mais justo e sábio que já existiu...Não roube a vida de quem jamais fez mal a outrem, não cometa esse crime!
       A essa altura, todas as guardiãs choram também e, de joelhos, cercam Munir, implorando-lhe pela vida da Tamareira Ancestral.
       _ Não faça isso, nobre visitante...Tu és um homem bom, és generoso em tua terra...Não comete esse pecado, esse crime sem conta...não mate nossa amiga, nossa protetora...não mate...
       Subitamente irado, Munir então, usando de uma força que não sabia que possuía, quebra no joelho o nefando alfanje que portava enquanto diz:
       _ Será sempre assim? Para se obter algo, deve-se sempre dar algo em troca e algo, de um valor inestimável, em uma troca injusta e cruel? O cruel djin Al Gondinar quis ser o grande justiceiro mas, ele próprio, não é, simplesmente, um reles assassino, como eu?...Não, eu não sou um assassino e ele jamais será como eu...Vou dizer-lhe isso na cara pois, não tenho mais esperanças para mim...BALEK!!!!
       Tão logo proferiu a palavra chave, Munir viu-se novamente na sala do desalmado djin e este voltou-se lentamente, para encara-lo. Perto dos dois, o profeta Al Quaresh a tudo observava...O djin então, perguntou:
       _ E então, Enviado?...trouxe-me a carcaça velha da Tamareira Ancestral?
       Dominando a raiva e o medo que sentia e já esperando pelo pior, Munir, o mercador disse, com voz firme.
       _ Não, poderoso djin, não trouxe...Arranjai outra proposta, essa, eu não pude cumprir...Uma vida por outra...ou por outras é uma troca por demais injusta e impiedosa...Não vou carregar o peso de uma morte inútil para o resto de minha vida, antes, eu prefiro descartar-me da minha...Arranjai-me outra missão ou matai-me agora mesmo, poderoso djin..
       Al Gondinar então, com um ar pensativo, cofiou sua comprida barba, enquanto parecia analisar o que acabara de ouvir...Disse então de modo calmo e pausado, como ainda não falara:
       _ Foi preciso que eu vivesse por tantos mil anos, foi preciso eu ver o ódio as desgraças de uma geração que eu julgava perdida para sempre...Foi preciso eu ser cruel como não costumo ser...para ver que ainda há bondade, humanidade e justiça no coração humano...
       Encarou então, o profeta Al Quaresh e prosseguiu:
       _ Você tinha razão, meu amigo, eu fiz bem em ouvi-lo...O que eu vejo agora, diante de mim é exatamente o que você disse que aconteceria...
       O velho profeta apenas assentiu com a cabeça e o djin voltou o olhar a Munir que, pasmado, aguardava e disse-lhe:
       _ Tudo não passou de um teste, nobre Munir...eu precisava saber se aquela raça mesquinha da qual és uma exceção, ainda tinha esperanças e vi que, ainda tem...Recusando-se a matar a Tamareira Ancestral, tu mostrastes humanidade, senso de justiça, piedade e respeito para com a vida...Preferistes morrer a serdes injusto e, por causa disso, curvo-me diante de ti, nobre mercador.
      E, um respeitoso djin, inclinou-se diante de um confuso Munir, o mesmo, fazendo o sábio Al Quaresh. O djin disse então:
      _ Eu vou retirar a maldição imposta a teu povo, em respeito a ti e a tua nobreza, sábio e corajoso homem...Quando voltares a tua terra, já a princesa Muna e todos os herdeiros das casa reais já terão de volta, suas vidas e, que a humanidade decida viver com mais harmonia, daqui para a frente...Isso é possível, eu admito, tu, Munir Abdallah, mercador...és a prova do que digo...

       Logo, o tapete mágico retornava ao reino do sultão Kalish Ezab e, de longe, Munir ouviu o povo em festa, que tomava as ruas e praças, saudando o salvador de todo um povo, um homem simples mas, justo e humano, que soubera tomar as decisões certas e, devido a isso, era aguardado com festas...ele viu então, a princesa Muna, em todo o frescor de sua juventude e beleza e então, o pai dela propôs ao humilde mercador para que ficasse em seu reino e desposasse sua filha pois, esse também era o desejo dela...Mas Munir, após pesar um pouco, declinou do generoso convite.
       _ Minha vida é mercar, meu nobre senhor, não saberia eu, viver entre faustos e pompas, não seria eu, um nobre à atura de vossa filha, minha vida não é essa...
       _ Mas então, pede-me algo, por amor a Allah – o sultão parecia aflito em retribuir algo a Munir-...Algo que desejes, qualquer coisa...pede-me e, te darei.
       _ Bem...- Munir disse, após um momento de reflexão-...se é para pedir-vos algo, no momento, nada me faria mais feliz do que, a recuperação de minha mercadoria, tomada por salteadores e, de meu querido camelo Jaipur, minha montaria e meu companheiro de longa data.
       _ Mas, é tão pouco –disse o sultão, consternado-...É só isso, mesmo, o que desejas?
       _ Sim, é só isso.
       _ Então, que assim seja...
       Não foi difícil à Patrulha das Areias do sultão, localizar o paradeiro do bando de salteadores que roubara Munir, eles foram capturados e todo o produto de seus crimes foi-lhes tirado, sendo a parte que cabia a Munir, imediatamente devolvida...Foram então, encarcerados e, desse jeito, aguardariam a punição por seus crimes, que não seria a morte, isso, o nobre Munir fez o sultão prometer e ele o fez, de bom grado.
       E, pelo deserto, seguiu o nobre mercador em seu ofício, sem nem sentir-se orgulhoso do que fizera afinal, não fora mais do que uma ferramenta manipulada pela justa mão de Allah, nada cabendo-lhe, portanto...Já ia longe quando, o pontinho no horizonte, chamou-lhe a atenção...Era uma pessoa que o seguia...ele esperou que aproximasse-se e, com grande surpresa, viu-se diante de princesa Muna em pessoa...Ela disse-lhe então, sorrindo do jeito mais cativante que Munir jamais vira uma garota sorrir:
       _ Você não quis ficar conosco e então, eu vim aqui, ficar com você...Pedi a meu pai e ele aceitou, desde que, seu reino passe a fazer parte de sua rota de comércio...
       _ M-m-mas...como?...alteza, eu...
       _ Não...não me chame de “alteza” e nem de “princesa”...Me chame apenas de Muna...Sua Muna, aquela que quer viver a seu lado para o resto da vida...aquela a quem você devolveu a vida e que, a entrega em suas mãos, para dividi-la com você, para os tempos bons e os maus...isso, se você me quiser, é claro.
       _ Sim, Muna...adorada Muna...Eu a tenho e você, tem a mim...Seremos uma vida só, sempre...e seu pai será meu freguês...Assim estava escrito, assim se cumprirá...
       E assim termina esta aventura, a mais fantástica acontecida a um homem simples que trazia em sua simplicidade e humanidade, a solução para conflitos imemoriais que, para serem solucionados, basta apenas que, ouçamos a voz de nossos corações e de nossa razão...Inch Allah!
celso dyer
Enviado por celso dyer em 14/12/2017
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