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       Tamara ou “Táta”, como era mais conhecida, era uma garota normal, cremos que, poder-se-ia dizer isso dela; Brincava, ia à escola, estudava, ia a festas, colecionava coisas...era mesmo, uma garota normal, de treze anos, habitante da grande cidade...Tinha suas manias e hábitos, tidos pelos adultos como, “estranhos”, “excêntricos” ou, para sermos camaradas, “peculiares”...e, um desses hábitos ou manias, era seu gosto pelo fantástico e o aterrorizante...Táta não perdia um filme de horror, nos cinemas de seu bairro e, o que não via no cinema, via em vídeo, numa espécie de quase obsessão que, por vezes, até incomodava sua mãe...Sua literatura era composta, em cem por cento, de livros e revistas de horror  ( havia uma revista horrorosa, que mostrava efeitos especiais de cinema, que ela adorava e colecionava, desde quase o primeiro número )...Quando passava alguma coisa do gênero, na tv, lá estava ela, a postos, disposta a não perder uma cena sequer, mesmo se fosse o mais fuleiro dos “trash movies”, tão em voga na época...É bom esclarecer, no entanto, que Tamara não era uma pessoa mórbida, vestia-se e agia normalmente, não freqüentava “tribos”e nem comparecia a rituais pseudo satânicos os quais, ela tachava de “ridículos”...nem brincadeiras que pretensamente lidavam com o tal “mundo dos mortos”, como o tal “jogo do copo”, ela apreciava...E o horror verdadeiro, aquele que aparece nas páginas dos jornais sensacionalistas, disso então, ela queria distancia completa, gostava – isso sim - do horror estilizado, exagerado e desbragada e declaradamente falso...era mais pelo lado estético da coisa, que ela tanto gostava daquilo, era só fantasia e pura e simples, fantasia...
       De todos os seres fantásticos e monstruosos que povoavam sua imaginação, Tamara adquirira uma predileção especial por vampiros e sua eterna busca por sangue...A menina já lera “Drácula” de Bram Stoker de cabo a rabo, de frente para trás e de trás para frente, sabendo trechos enormes de cor, os quais, freqüentemente, recitava, para quem quisesse ouvir, a ponto de seu pai lamentar, não existirem mais os programas de perguntas e respostas...Sua filha poderia ganhar uma ”nota preta”, respondendo perguntas sobre o famoso conde da Transsilvânia...Vivendo nesse mundo de fantasias sem, contudo, tirar os pés da realidade, Táta ”neé” Tamara, levava sua vidinha pequeno burguesa, a salvo de maiores contratempos...Mas tudo iria mudar, de forma radical e extrema, a partir da compra de um apartamento, em um pequeno prédio à beira do mar, na” Ilha”...
       A ilha...local afastado da cidade, banhado em parte, pelas águas poluídas da baía e, em parte, pelo mar aberto posto que, ficava na entrada da barra, a área mais isolada daquela região...Os imóveis por lá, tinham seus valores determinados pela sujeira ou falta de sujeira, das praias...os que ficavam virados para o mar eram mais caros do que os que ficavam virados para a baía e fora, justamente, um destes, que o pai de Tatá comprara “para ter mais um local onde ir nos finais de semana”, conforme anunciou, animado, acrescentando que o negócio que fizera era tão bom que não podia ser perdido, um verdadeiro “negócio da China”...
       Quando foram visitar o tal apartamento, localizado no andar térreo do prédio, muito pequeno, acanhado e antigo; o pai, a mãe e os quatro filhos, três meninas e um menino, viram que este era bem pequeno, também, mas, bem jeitoso e conservado...fora comprado com os móveis e eletrodomésticos dentro, ninguém precisaria levar nada para lá. A mãe, que já fora pra lá “com um pé atrás”, pronta para torcer o nariz para tudo, teve de engolir seus preconceitos e render-se ao clima agradável que emanava daquele pequenino imóvel. O antigo proprietário havia, mesmo, construído uma pequena varanda, a envolver a entrada, que dava para um pátio central que era, também, a área de circulação dos moradores dos apartamentos de fundos e, com a varandinha, a porta da frente podia ficar sempre aberta pois, o apartamento ficaria separado da área de circulação, por um parapeito de ferro e alvenaria, como se uma casinha, mesmo, fosse...O dia da chegada da família, em seu novo imóvel, fora um sábado de sol e logo, toda a turma já estava quase à vontade, em seus novos domínios. Após uma ligeira arrumação em tudo foi feita distribuição da família pelos três quartinhos, ficando o pai e a mãe no quarto que tinha já a cama de casal e, em um quarto, duas garotas: Cibele e Graziela e, no outro, Tâmara, com o irmão caçula Clayton, de seis anos, sempre muito apegado a ela...Como cada quarto já tinha um beliche, foi só decidir quem ficava em cima e em baixo, arrumar as camas...e aproveitar o fim de semana...E logo, todos estavam com seus trajes de banho, todos equipados, atravessando a rua em frente, para ver como era a praia por ali...E o que viram, não agradou-os muito, não...Fazia tempo que não chovia e, sem a água do céu para dispersar um pouco tantos poluentes, a água da baía, sem ondas, estava imprestável, muito suja mesmo...Ninguém animou-se a encarar aquela praia cheia de óleo e espumas de várias cores, acumulando-se na faixa estreita de areia, dura e amarelada.
       _ Puxa, pai –reclamou Graziela, de nove anos- Isso tá parecendo uma privada, ´vamo ficá aqui não...
       _ Calma, gente –volveu o pai, antes que mais alguém reclamasse- ...que o melhor este pra vir...
       Convidou então sua alegre família a dar um passeio pela orla da ilha, em direção ao lado oceânico, seria um passeio um pouquinho comprido, talvez, mas, havendo muitas coisas para se ver naquele primeiro dia ali, o tempo passaria depressa, era muito cedo...E assim, Ernesto, o pai, ajeitou seu enorme chapéu, mais parecendo um “sombrero”, na cabeça ( as meninas implicavam demais com aquela mania do pai por tal “monstruosidade” mas ele nem ligava ) tomou o braço da esposa, Edith e seguiu pela calçada, que acompanhava a rua que circundava quase toda a ilha...Iam todos alegres, curtindo as novidades e o local, que nunca haviam visitado antes, por ser, de fato, muito afastado da cidade, devido ao grande maciço rochoso  encimado por um formidável morro de pedra nua, a cercar cerca de um terço da grande baía, com a cidade e seu porto -evidentes focos de poluição- localizados em seu fundo, de onde dava para avistar-se a Ilha Ultima ( esse era seu nome ), no meio de muitas outras ilhas, que brotavam às dezenas da superfície daquele pedaço de mar sujo.
       Andaram bastante...bastante mesmo mas, a vista do mar e do outro lado da barra, também coroado por montanhas, distraiu o pessoal...Porém, isso não foi nada em comparação ao que viram, tão logo alcançaram o limite das águas da baía com as do mar aberto...Um enorme navio cargueiro passava naquele momento pela estreita  e profunda barra, rumo ao porto...Ia apitando por algum motivo e chamou a atenção geral por seu tamanho e porte...passava tão perto da terra que dava até para ver os marujos à bordo, em meio a suas atividades. As meninas acenaram para eles e, com alegria, viram que eles acenavam de volta, tudo era diversão...E, afinal, chegaram ao lado oceânico da Ilha Ultima, aprovando imediatamente o que viram: Ali a areia era branquinha e fina, O mar, muito encapelado, era de um azul profundo, limpo ao extremo...Uma corrente marinha, muito fria, rápida e constante, impedia que a água parada da baía saísse mar afora, permanecendo a girar em torno de si, mantendo ali seus poluentes...E, imediatamente, a família montou sua base naquele local maravilhoso, pouco mas, ricamente povoado por casas enormes, de madeira a maioria e, ao longe, uma delas, excepcionalmente grande e alta, parecia ser um hotel...Não havia viv´alma à vista, o que era de se estranhar em um sábado de sol...Tanto melhor, a praia seria apenas para eles e, logo as três meninas aventuravam-se mar adentro mas não muito, aquelas águas eram traiçoeiras, muito agitadas e frias. Clayton, o caçula, com medo do mar, apenas molhou os pés, acompanhado pela mãe...Ernesto não saiu debaixo da barraca que armaram, ficou o tempo todo à sombra, lendo jornal e fumando seu cachimbo, companheiro inseparável. Tamara implicava muito com o jeito do pai...aquela aversão ao sol, aquela pele branquela...se não fosse a vida diurna dele, ela poderia, mesmo, desconfiar que era filha de um vampiro...se existissem vampiros vegetarianos, como ela o era; tinha mesmo, nojo de carnes, quem quisesse ser seu amigo, que jamais a convidasse para um churrasco.
       A manhã foi muito boa para todos. Prudentemente, mamãe Edith trouxera um lanche bastante variado e farto, que alegrou a paladares e apetites e, afinal, ninguém queria sair mais dali, tão boa a praia estava...Mas tiveram de voltar, quando o sol apertou muito sua incidência e as meninas fizeram o pai prometer que eles voltariam ali naquela tarde mesmo só que, de carro, ao que Ernesto acedeu com aparente alegria...Voltaram então, todos, cansados, cheirando a água do mar e protetor solar, que usaram e abusaram, mesmo o pai debaixo da barraca, para irritação de Tâmara, que não entendia mesmo, seu “velho”...Satisfeitos com o lanche, não almoçaram naquele dia e, à tardinha, tomariam uma merenda e só, ninguém era de comer demais naquela família...Como, desde que ali chegaram, não avistaram ninguém, foi um alívio geral avistar pessoas, quando chegou a tarde...Pessoas passeavam pelas calçadas, montavam cadeirinhas à beira mar mas não encaravam a praia suja. No prédio, diversas crianças de idades variadas, observavam meio de longe os recém chegados, talvez, a indagar que gente era aquela...Tamara, expansiva por natureza, foi quem “quebrou o gelo”, indo falar com seus novos vizinhos e travando amizade com eles, quase que, imediatamente...Chamou então os irmãos e, sem largar seu “xodó” Clayton, foi com todo mundo passear em frente das casas, a rua deserta oferecendo poucos perigos...Anoiteceu e as mães começaram a chamar seus filhos para suas casas e Edith fez o mesmo mas, a turminha demorou-se ainda um pouco na rua, palrando e palrando, como papagaios...Falavam de tudo, de suas vidas, de suas famílias e das manias de cada um deles...Logo, todos souberam do fascínio de Tamara por vampiros e, tanto ela falou no assunto que, um dos garotos, um gordinho, disse:
       _ Você devia então, conversar com o “seu” Zero, do andar de cima...Ele conhece histórias de vampiros “a dar com o pau”...O apartamento dele dá de frente para o de vocês, dá uma olhada, ele gosta de ficar na janela  durante muito tempo, fumando cachimbo.
       _ Qual é o nome dele, que você disse?
       _ Zero...”seu” Zero...
       _ Isso é um apelido, né?
       _ Acho que não, não sei mas, acho que é o nome dele mesmo.
       _ É o nome dele, sim – intrometeu-se na conversa uma menina ruiva e magrela, mais ou menos da mesma idade de Tamara e, de nome Roxana...Tamara ao vê-la por primeira vez, concluiu que ela tinha cara de vampira- ...Parece que é um nome europeu, algo assim mas, é mesmo o nome dele.
       _ Tá bom –volveu Tamara, que não simpatizara lá muito com Roxana.
       Mas foram todos para casa tomar mais um banho, trocar de roupa, merendar, etc...Depois era ficar em frente da tv, dar uma voltinha noturna, dormir...Ninguém lembrou de cobrar de papai Ernesto a visita ao outro lado da ilha, as crianças ficaram tão entretidas com suas novas companhias que esqueceram do passeio; tudo era paz, afinal...Após de, junto com Cibele, de dezesseis anos, ter lavado a louça, Tamara não sentiu vontade de ver televisão e decidiu montar uma rede na varandinha de sua nova casa e, por lá ficaria, se não houvesse mosquitos para importuná-la...Trouxera livros mas, não estava com vontade de ler naquela noite...Noite que achou ser especial, por algum motivo...Ficou no escuro, balançando-se de quando em vez e, sem querer, olhou para a janela do apartamento de fundos, em frente ao seu...Ali, recortada em preto sobre o fundo amarelado da luz da sala, estava a silhueta de um homem, a fumar tranqüilamente seu cachimbo, como o pai o fazia também, enquanto parecia ler e virar as páginas de um livro...Aquele era o “seu” Zero, o tal que sabia mil e uma histórias de vampiros, sem dúvida...Seria ele, um escritor que inventava mil histórias? E de vampiros? Será que ele vivia só, naquele apartamento, tão pequeno quanto o seu? Será que ela teria coragem de abordá-lo, para conversarem sobre vampirismo e afins?...Os garotos disseram que ele era bastante acessível, muito amável com estranhos, um verdadeiro cavalheiro, usando a antiga e tão pouco usada, nos dias de hoje, expressão...Sim, ela falaria com ele, se alguém dissesse-lhe quem ele era, à luz do dia, no dia seguinte...Ou até seria capaz de bater na sua porta para conversarem, Tamara não era inibida nem dada a “frescuras”, se desejava fazer algo, ia lá e fazia...Acabou adormecendo na rede e o pai a levou no colo, para destro de casa, acomodando-a no sofá da sala, grande e macio, após forrá-lo com um lençol, tirando-lhe apenas, as sandálias que usava...Não desejava despertar a filha e não tinha como içá-la ao andar superior do beliche, onde deveria dormir...Ela levou um susto, no dia seguinte, ao descobrir onde estava...
       No domingo, bem cedo, todos quiseram repetir a praia do dia anterior mas, ninguém quis ir a pé e o carrinho da família foi tirado da garagem...Havia desta vez, umas poucas pessoas na praia e a diversão correu solta, voltando eles, todos cansados e felizes, por volta do meio dia...Banho tomado, barriga cheia, Tamara ( a Tata ) subiu, resoluta, os degraus da escada que levavam ao primeiro pavimento, dos dois que formavam o bloco de apartamentos em frente àquele em que estava morando....Pensara naquilo a manhã inteira e decidira-se em falar logo com o tal “seu” Zero, antes de voltar para a casa na cidade afinal, nem sabia quando voltaria ali...Queria ouvir as tais histórias que a garotada tanto proclamou e, assim pensando, bateu na porta do apartamento 23 e logo, uma voz lá dentro disse apenas:
       _ Entre...
       Ela entrou e viu, de imediato, a “lambisgóia “ da Roxana, de pé, diante de um homem sentado em uma poltrona com um cachimbo aceso na mão a exalar uma fumaça de cheiro estranho, diferente do fumo que seu pai usava. Disse:
       _ Desculpem, eu não queria incomodar...
       _ Incomodo nenhum –foi Roxana quem falou- eu já estava de saída mesmo, ele é todo seu, meu bem....tchau, “seu” Zero...
       _ Até mais ver, “Xaninha” -respondeu o homem e a doidivanas, praticamente “deslizou” até a porta de entrada do pequeno apartamento, dizendo para Tamara:
       _ Tchau, meu bem...
       _ Tchau –ela rosnou de volta concluindo que, realmente não gostava da “Xaninha”.
       A sós com aquele homem estranho, de boa aparência e modos elegantes, ele subitamente pergunta-lhe com uma voz bem modulada e envolvente:
       _ O que posso fazer por você, menina bonita?
       E Tata disse a que veio: Era apaixonada por histórias de vampiros e soubera pela turma que ele era um grande contador de tal tipo de histórias.
        _ Bem, eu queria ouvir algumas...O senhor é um escritor? –ela disse ao concluir sua explicação.
        O homem pareceu aprovar tamanho espevitamento e sorriu ao dizer que, não, não era um escritor...era apenas um comerciante, que gostava, como sua jovem interlocutora, de histórias de vampiros e, sim, teria prazer em compartilhar algumas com ela.
       _ Vocês chegaram ontem de manhã, não foi? –ele acrescentou- Vi quando chegaram, podia ter ido dar boas vindas mas, sou o que pode-se chamar de “ um homem retraído”
       _ Não faz mal –disse Tamara já quase à vontade com um homem tão educado e simples...Mas, as histórias, eu poderia ouvir uma ...agora?
       _ Claro, doce criança, estou aqui para isso...Tome assento naquela cadeira e chegue-se um pouco mais para perto.
       Entre curiosa e fascinada por aquele homem, Tamara fez o que ele pediu, passando a prestar atenção ao que ele iria dizer...Mas não chegou a ouvir nada, de repente, sem qualquer explicação, sentiu uma violenta tontura que quase a fez tombar no chão e, logo após, começou a sangrar abundantemente pelo nariz.
       _ Menina, você está com hemorragia –disse “seu” Zero, parecendo alarmado-...Tome, tome este lenço, tente bloquear o fluxo...você sempre tem disso?
       _ Não...-disse Tata entre assustada e envergonhada...Isso nunca me aconteceu antes –olhou o lenço perfumado que segurava, toldado de vermelho-...Me desculpe...o seu lenço...
       _ Que importa o lenço, vou buscar algodão, me dê o lenço aqui e mantenha a cabeça inclinada para trás, eu volto já.
       _ Eu pinguei no seu chão, desculpe...
       _ Ora não se importe com isso...Eu já volto...
       Voltou daí a pouco com um pacote de algodão mas, Tamara disse:
       _ Acho que não vai precisar mais...já tá passando, eu já tô melhor...
       _ Fico feliz em saber.
       _ Desculpe de novo o lenço, o chão...
       _ Qual...você conhece a frase “Lavou, tá novo”?...então...
       _ Eu não dei uma boa impressão...
       _ Como não? Você teve um mal estar, apenas isso...Vá, vá para casa, sua mãe vai cuidar de você...
       _ Eu vou sim, obrigada...e me desculpe...
       _ Esqueça...Quando vocês vierem de novo para cá, conversaremos sobre vampiros...
       _Tá...eu vou...me desculpe, até logo...
       Tata saiu, morta de vergonha, do apartamento de “seu” Zero; nunca acontecera-lhe algo como o que acontecera, antes...Decidiu que não visitaria novamente o contador de histórias e foi para casa onde sua mãe, alarmada, cuidou dela mas, sem necessidade, a hemorragia já havia passado...Poucas horas mais tarde, a família arrumou suas coisas e voltou para casa, já pensando em voltar no fim de semana seguinte...E a noite desceu sobre a Ilha Ultima, pacificamente, pontilhada de estrelas e com uma linda lua cheia.

       Pouco depois da meia noite, no entanto, uma figura alada de grande porte deixou a ilha, voando em direção ao mar aberto...era uma criatura horripilante, uma quimera, mescla de vários animais, reunidos em um só volumoso corpo mas, com um traço de aparência humana no rosto horrendo e protuberante; os braços e dedos, imensos e compridos a abrigar uma extensa e fina membrana, na configuração clássica das asas de um morcego, em pesadas batidas que ecoaram nos céus...A coisa subiu e subiu, o mais que pôde até atingir uma corrente aérea, que a levaria a seu destino, milhas e milhas mar adentro, em uma longa viagem...
       Durante a semana seguinte, Tata ficou em total aflição, não conseguindo concentrar-se nos estudos ou em qualquer outra coisa...Estava irritadiça e sensível demais, seu pensamento preso na Ilha Ultima, no misterioso sr. Zero...até a “lambisga” da Roxana, a tal “Xaninha” povoava seus pensamentos...lembrava então de sua estranha hemorragia e seu pensamento voava em direção aos vampiros, tão caros a ela...Queria ouvir as histórias do “seu” Zero, queria, em seu íntimo, ser uma vampira, não sabia o que queria...Aquela foi uma semana de horrores que só foram dissipados quando o pai perguntou na sexta à noite, à hora do jantar:
       _ E então, pessoal, que tal mais uma visita à ilha amanhã?
       Toda sua irritação desvaneceu-se como que por encanto e ela quase nem dormiu naquela noite, tão excitada estava com a viagem do dia seguinte...Naturalmente, acordou ainda de madrugada, preparou o café da manhã de todo mundo e ficou por ali, fervendo de impaciência, aguardando que sua gente se aprontasse para sair. E saíram, afinal...
       Após um tempo que parecia não passar, na estrada, eles chegaram em seu apartamentinho acolhedor e começaram a planejar seu dia...O dia ajudara, o sol brilhava em um céu sem nuvens e a praia foi a melhor opção para começar mais um fim de semana...Após o almoço, quando dá aquela vontade de tirar-se um cochilo, Tata, não conseguindo mais conter-se, disparou em direção ao apartamento do homem com um estranho nome e, contendo-se para não esmurrar-lhe a porta, bateu com educação...e ouviu quase com nitidez, a voz que dizia, lá dentro: “É ela”...como eles sabiam que era ela quem chegava?...Decerto viram-na pela janela, era isso...Mas ela, Tamara, também tinha seu trunfo, sabia quem estava no apartamento e sussurrou para si, ao ouvir o convite “Entre”, dito em voz alta, de homem...” É ela”...
       E era mesmo: Roxana, vestida de preto dos pés à cabeça, estava de pé, entre a recém chegada e o misterioso sr. Zero que, parecia muito mal, reclinado em um divã que havia na sala...E a “ruiva desmaiada” apenas disse, ao ver Tâmara chegar:
       _ Bem, estou na minha hora, até mais “Zerito”, melhoras hein? – e para Tata-  Oi, “meu bem”, tchau...
       _ Tchau –respondeu a garota, de má vontade, sentindo a ironia na voz da “lambisgóia” mas, passando então, a prestar atenção no dono da casa...Ele parecia mal, estava muito abatido, adoecera?...Ela perguntou:
       _ O que o senhor tem?
       _ Um leve mal-estar –foi a resposta-...Fiz uma viagem muito longa, na semana passada e, durante ela, acho que contraí algum vírus...Mas, já estou bem melhor, em convalescença...E então, vamos a nossas histórias de vampiros que fiquei devendo-lhe, menina bonita?
       Começou então, finalmente, a contar uma de suas famosas histórias...Seu personagem principal era Eton, um menino muito mau, que tinha como objetivo na vida, dificultar a vida dos outros...Nas escolas que freqüentou, antes de ser, delas, expulso, aprontava mil e uma confusões, algumas com sérias e dramáticas conseqüências, junto com as quadrilhas que formava, com os piores elementos possíveis, que encontrava com facilidade ao longo de seu pérfido caminho...Tantas ele fez que sua família foi ameaçada de ser expulsa da cidade, caso Eton continuasse a “reinar” por ali...Um amigo da família, então, sugeriu que o garoto fosse entregue a um professor e disciplinador que não lencionava na escola e sim, em seu casarão à beira de um íngreme penhasco...Era ele, o Prof. Dionysius, de terrível fama de implacável educador...O problema é que o tal professor cobrava muito caro por seus serviços afinal, teria de sustentar o menino que iria aprender com ele, passando a morar em seu enorme casarão...Como a família de Eton não podia pagar o alto preço, alguns vizinhos cotizaram-se para levantar a quantia e, em pouco tempo o terrível garoto foi entregue, quase à força, aos cuidados do velho e afamado professor....E enquanto, na cidade, muitos respiravam aliviados, iniciava-se para o jovem Eton o que seria a purgação de seus muitos pecados...Ao encarar seu mestre pela primeira vez, sua reação inicial foi quebrar tudo o que estivesse ao seu alcance no enorme e sombrio escritório do professor, atulhado de quinquilharias...Mas, não conseguiu ir além de duas redomas, com espécies de animais empalhados, dentro...Nem bem quebrou a segunda, foi agarrado pelo pescoço por uma mão imensa e erguido no ar, começando imediatamente a sufocar...Debatendo-se loucamente, foi lançado em um alçapão que abriu-se no chão do escritório e, após cair de uma altura razoável, bateu em um chão de pedra machucando-se um pouco...Viu-se então, encarcerado em uma espécie de cubículo todo em pedra com um catre, uma porta e uma janela sem grades; foi até ela ver para onde dava e viu o imenso penhasco enevoado a sua frente, um abismo que parecia não ter fim...      
        A tal história, tão aguardada por Tata, não era lá uma coisa extraordinária mas, seu narrador contava-a de maneira tão envolvente que ela começou a “viajar” em suas palavras, praticamente “vendo” o que ele contava...Soube então que Eton ficou preso durante muito tempo na cela de pedra, pensando em um modo de fugir e sendo muito mal alimentado...Uma vez a cada dia, era levado à presença de seu professor, que tentava algum contato com ele, mostrando-se o menino, sempre agressivo e hostil...Era então levado de volta para o calabouço e, assim foi até que, percebeu que tal comportamento não o levaria a parte alguma...Decidiu então, fazer o jogo do velho Dionysius, um sujeito enorme, muito velho e de aparência assustadora...Passou então, a ouvir suas preleções e recebeu os ensinamentos que parara de receber, na escola...Comportava-se bem agora e fora transferido para um quarto que cheirava a mofo e poeira. Durante o tempo em que lá esteve, arquitetou mil planos de fuga mas, não conseguiu executar nenhum deles, a vigilância sobre si era enorme, por parte da criadagem do professor...Semanas passaram-se e, certa noite, Eton foi chamado ao escritório do professor Dionysius e, ali foi apresentado a uma nova personagem que acabara de chegar...Era uma mulher, parecia velha e estava semi oculta pela penumbra reinante, parecia ricamente vestida e coberta de jóias...O professor apresentou-a então como a baronesa Thereza Amália Di Extremiis, uma senhora da alta nobreza que estava de visita a sua humilde choupana...O velho então, começou a falar sem trégua mas Eton já nada ouvia, impressionado com a presença da velha baronesa...E ouviu apenas, um final de frase, quando, afinal, prestou atenção em Dionysius que dizia:
       _ ...E você vai nos ser muito útil, rapaz...
       Como se obedecesse a um comando verbal, a baronesa Di Extremiis aproximou-se de onde os dois estavam, o local mais iluminado do aposento e Eton, horrorizado, viu diante de si, a criatura mais feia que já vira em sua vida...A baronesa parecia humana mas, seu rosto era horrivelmente queimado a pele toda rugosa e retorcida, os cabelos ausentes por sob a peruca alta e branca, que deixava exposta uma grande parte do crânio avermelhado e coberto de rugas e inchaços; os olhos, muito azuis e esbugalhados, sobressaíam-se naquela face de horror que avançava devagar sobre ele...Mas o pior ainda estava para vir...Quando a baronesa chegou bem perto de Eton, abriu uma bocarra desmesurada que revelou a fileira de dentes muito brancos dos quais, sobressaíam-se os dois caninos superiores, estes enormes e pontudos...A condessa Di Extremiis era uma vampira e estava ali para sugar o sangue do jovem e rebelde estudante...E ele, dominado pelo terror, não soube como, escapou das garras de Dionysius que o subjugara quando a baronesa começou a avançar sobre ele...Escapou e agarrou o que viu pela frente, lançando tudo sobre a dupla maldita...foram cadeiras, frascos redomas, louças que atingiam seus alvos e confundiam-nos, dando espaço para uma fuga...Nem os criados que interpuseram-se em seu caminho foram obstáculo para o apavorado Eton que, armado de um pedaço de pau, mantinha seus captores à distancia enquanto lograva chegar à porta de entrada da casa, que abriu e lançou seu corpo para fora, passando a correr desabaladamente colina abaixo...
       Tata, empolgada com esse trecho da história, exclamou quase sem querer:
       _ Puxa, que aperto o Eton passou!...mas ele conseguiu escapar, não foi?
       _ Quem disse isso? –respondeu Zero algo surpreso-...Eu disse que “consegui” escapar?
       _ “Consegui”?...
       Tamara sentiu então as duas mãos de unhas bem tratadas que prendiam seus ombros, impedindo-lhe os movimentos enquanto Zero sentava-se em seu divã e encarava a menina com uma expressão dura no rosto...Tata pensou que aquilo era algum tipo de teatro que aquele homem estava fazendo com ela, para dar mais emoção à sua história mas não gostou nem um pouco daquilo e tentou desvencilhar-se daquelas mãos, sem o conseguir...Encarou então, já assustada, seu interlocutor e viu, com horror, quando ele entreabriu a boca que, subitamente, ficara maior de que era, mostrando os dois formidáveis caninos que teriam um destino certo...o pescoço dela!...Tamara tentou lutar, fugir, gritar mas aquele ser demoníaco parecia paralisá-la com o olhar e, mantendo- presa junto a si, disse:
       _ Meu nome verdadeiro é Eton...Zero foi um nome que inventei quando vim para cá...O professor e a baronesa alcançaram-me pelo ar, quando eu já ia pelo meio do caminho...E eles fizeram seu serviço no meio da estrada deserta, mesmo e, depois, levaram-me de volta à casa do professor, onde eu assumi minha “nova vida”...Vida que vocês, pseudo conhecedores de nossa raça, chamam de “não vida”...Você, jovem Tamara, vai ser uma de nós e vai gostar disso...Seu fascínio por nossa espécie não é infundado, de certa maneira, há muito tempo, você é uma de nós...
       E mais não disse, apenas rasgou a camiseta que ela usava, expondo seu pescoço delicado e boa parte de seu tórax e, naquela carne macia e morena, cravou fundo os dentes caninos superiores, provocando dois profundos ferimentos que passaram a verter sangue em abundância, sangue esse que Eton ou Zero, passou a sorver em longos goles, com prazer...Logo, a porta do apartamento abriu-se e por ela passou Roxana, a bocarra escancarada, faminta e ávida pelo néctar vermelho vivo que era-lhe oferecido...Apenas aguardou um pouco, até que Eton sentisse-se saciado e atacou o pescoço da pequena virgem, com o sangue mais puro e delicioso, o preferido dos seres das trevas...Roxana bebeu daquilo com prazer e gula, largando afinal, o corpo sem vida de Tamara, por sobre o divã, a roupa rasgada a exibir sua pele sem cor e sem viço...Eton disse então para sua pupila:
       _ Vamos escondê-la aqui mesmo; quando ela ”renascer” teremos muito a contar-lhe, espero que resolvamos tudo nesta noite mesmo...A baronesa ainda vai demorar um pouco para chegar mas, não temos o tempo como aliado.
       _ Como você quiser, meu querido...ou eu devo chamá-lo “mestre”?
       _ Chame-me como quiser, o tempo das formalidades já passou...
       Às duas e meia da madrugada de domingo, Tamara foi encontrada, vagando sem rumo aparente pelas calçadas vazias da ilha Ultima, a camiseta rasgada amarrada de qualquer modo e, enrolado no pescoço um grande lenço preto. Foi a mãe quem a avistou ao longe, à fraca iluminação da rua e correu para ela, a principio, aliviada mas, logo, furiosa.
       _ Onde você estava, sua “porcaria”? –rugiu ela, ainda agoniada com a ausência prolongada da filha-...Não tem consideração com ninguém, não?...
       E como Tamara permanecesse alheia a tudo, como se não visse ninguém, a mãe julgou que ela estivesse drogada e, perdendo a cabeça, deu-lhe um tapa no rosto, com toda a força, virando-o para o lado.
       _ Mãe, não exagera! –protestou Cibele, revoltada com tamanha violência-...Não tá vendo que ela não tá bem?...Deve tá doente.
       _ Doente nada –disse Edith, já em lágrimas-...Essa idiota tá é drogada...Fica andando com marginais e dá nisso...Essa porcaria de filha que só me dá desgosto, ai meu Deus...Já não deve nem ser mais virgem...
       _“Vamo” pra casa, gente –pediu Graziela, aflita-...A Tata não tá legal, mãe, “vamo” pra casa, por favor...
       Ernesto ficara em casa com Clayton, que era uma aflição só, preocupado com a irmã sumida e, sem esboçar nenhuma reação mais forte. Recebeu o grupo de resgate com a menina fujona, ainda muito pálida, não exibindo, nem sequer, a marca da mão da mãe, no rosto...Assim que chegou em casa, Tata foi para seu quarto e deitou na cama de Clayton, no beliche e o garoto correu para ela, agarrando-se em seu pescoço e beijando-a muito, sem nem perceber o quanto a pele da “mana” estava fria...Tata levantou a mão direita, acariciou os cabelos rebeldes do irmãozinho e depois pareceu mergulhar em um sono profundo.
       _ Vamos deixar ela dormir, pessoal –disse então, Ernesto, abraçando a esposa que ainda choramingava um pouco- ...Do jeito em que está, não vamos conseguir nada dela...Vamos todos dormir e quando amanhecer, veremos o que fazer a respeito.
       Todos acataram a sugestão paterna, até mamãe Edith e foram eles, para suas camas; o pequeno Clayton subiu pra o andar de cima no beliche e a Tata foi deixada em paz por aquele resto de noite, quando amanhecesse, ela ia-se ver com sua família, ah ia...
       Cerca de uma hora mais tarde, sem conseguir dormir, ainda preocupada com o estado da irmã Tata, Cibele saltou da cama e, em silencio, foi ver como ela estava...entreabriu a porta e deu uma espiada para dentro...Acreditou então ver que a irmã embalava o irmão menor, sentada na cama com o menino no colo e isso causou-lhe certa estranheza...Desejando ajudar em algo em relação a seus irmãos, acendeu a luz e o que viu, petrificou-a de horror, roubando-lhe as cores do rosto e bambeando-lhe as pernas...
       Sentada na cama com o garoto nos braços, Tata, a inofensiva e sonhadora Tata, acabava de sugar o sangue de Clayton que, como um fardo, jazia em seus braços, os dois enormes orifícios no pescoço ainda a minar sangue...Tamara com a enorme boca, toldada de sangue do menino, encarou a irmã e emitiu uma espécie de silvo que Cibele, a despeito de seu choque, reconheceu como o som emitido por um gigantesco...morcego!...Conseguiu apenas balbuciar:
       _ Se-seu...monstro...O que você fez?
       E mais não disse porque Tamara, com surpreendente velocidade e força, varou o corpo de Clayton longe e agarrou-se em Cibele, apertando-lhe o pescoço, cortando-lhe voz e respiração, passando imediatamente a mordê-la, perfurando-lhe a carne em busca do sangue de que tanto precisava...logo, Cibele era um corpo sem vida, que Tamara deixou cair pesadamente no chão  após o que tornou a apagar a luz do quarto...
       No dia seguinte, Edith acordou mais calma e decidiu ir conversar com Tamara, para saber, de uma vez por todas, o que havia acontecido no dia anterior...Mas, não encontrou-a em sua cama, na verdade, a cama de Clayton, que, também, não estava no quarto...Preocupada, foi até o outro aposento dos filhos, apenas para dar-se conta da falta de Cibele...Apenas Graziela ressonava na cama de cima do beliche...Lutando para manter-se controlada, a preocupada mãe foi até o pátio interno de seu prédio, à procura de seus filhos mas, não os viu, misturados às outras crianças que já estavam por ali, tão cedo, conversando ou brincando...Perguntou então, para algumas delas, se haviam visto seus filhos e, para seu alívio, uma garota mais ou menos da idade de Tata, muito magra e branca, com cabelos muito ruivos, disse-lhe:
       _ Eles estão no apartamento do “seu” Zero, ali em cima...se a senhora quiser, eu vou chamá-los.
       Agradecida, Edith aceitou a oferta da menina, tão solícita e simpática que embarafustou-se pelo prédio em frente e, daí a alguns momentos, viu diante de si, seus três filhos queridos, aparentemente, muito bem...Falou então com Tamara, pediu-lhe desculpas pela agressão da noite anterior e explicações sobre seu desaparecimento. Calma e relaxada, Tata disse que não acontecera nada demais, apenas saíra caminhando pelas ruas da ilha e, acabara se perdendo e demorara a encontrar o caminho de volta para casa...A camiseta fora rasgada quando, ao passar por uma cerca para cortar caminho, já de volta para casa, prendera a roupa em uma estaca de madeira mas, felizmente, não se ferira...A mãe então abraçou a garota e, disfarçadamente, vistoriou seus braços, à procura de vestígios de picadas de agulha ou coisa parecida. Nada encontrou, ainda bem mas, nem cogitou procurar algo no pescoço da menina...Quis saber, então, o que os três estavam fazendo àquela hora, na casa de um estranho e Tata disse que era um amigo que fizera por ali...Era um grande contador de histórias e ela desejou que seus irmãos ouvissem algumas delas, fazendo o convite, que foi aceito...
       _ E porque então, não convidou a Grazi? –quis saber, Edith.
       _ Ih, aquela não acordava de jeito nenhum, nem insisti...levei só a Ci e o Cleclê...
       Explicação estranha mas, aparentemente, verdadeira pois, era a todo momento, confirmada pelos outros irmãos...Edith decidiu então, encerrar aquele assunto, não engolindo totalmente, entretanto, a história da Tata se perder pela ilha...Mas foi fazer o café da manhã de sua gente e ver o que fariam naquele domingo de sol...Acabaram indo todos à praia, do outro lado da ilha e, novamente, foram de automóvel. Ficaram lá pouco tempo, entretanto, pareciam quase todos avessos a sol e águas em movimento, apenas Graziela quis ficar mais tempo mas, foi voto vencido. Para Edith, que não gostava lá muito de praia, mesmo, tanto fazia, ficarem ou irem embora....Naquela tarde, arrumaram tudo, puseram suas coisas no carro e foram embora de volta à cidade...

       Muito longe dali, no meio do imenso oceano, um navio muito grande e antigo, um navio de passageiros, de casco negro, outrora uma nave de luxo mas agora, apenas um quase destroço à deriva, arruinado pelo abandono, avançava, com dificuldade, rumo ao continente, movido por seus antiqüíssimos motores a vapor que, por artes de algum poder mágico, ainda funcionavam e faziam com que aquele, que era o próprio “navio fantasma”, seguisse em frente em sua longa e tediosa jornada...

       Os jornais noticiaram com algum destaque, os desaparecimentos acontecidos nos últimos dias...Crianças foram retiradas de suas casas, à noite, sem qualquer traço de violência, de andares elevados em prédios, sem qualquer explicação...Não foram muitos casos, seis ao todo mas, o insólito do caso intrigava polícia e população, além de por seis famílias em total desespero...Apenas um tablóide especializado em notícias bombásticas e estranhas, publicou a notícia do que foi visto nos céus da cidade, certa noite, por uma turma de freqüentadores de bares noturnos. A pequena nota dava conta de que, sob a influência de álcool ou não, vários fregueses de um bar afirmaram ver, voando no céu a uma altura não muito grande, imensas criaturas aladas, monstros com asas imensas, de morcegos, como verdadeiros demônios, conforme são descritos em relatos e lendas antigas...As tais criaturas, após esvoaçarem por entre os prédios, ganharam altura e sumiram no céu estrelado...Naturalmente, pouco caso foi dado a tal absurdo, uma típica “história de bêbados”, o povo da cidade estava mais interessado nos desaparecimentos das crianças e, afora pouquíssimas exceções, não viram nenhuma relação entre as duas notícias.
       A Ilha Ultima era formada pelos picos de dois morros submersos, um mais alto do que o outro, ao redor dos quais, ao nível do mar e subindo um pouco as encostas pouco escarpadas, as casas e pequenos prédios foram sendo construídos. No cume do morro mais alto, havia um enorme edifício, um casarão muito antigo e aparentemente, abandonado...Às vezes, alguns curiosos subiam a estrada que levava até lá para observar a construção e nunca foi vista viva alma fosse em alguma das muitas janelas da casa ou mesmo, passeando pelos jardins cobertos de mato, da propriedade...Lá embaixo, uma ponte muito estreita, com apenas duas pistas, uma de ida e outra de volta, totalmente construída em aço, pintada de verde musgo, com pouco mais de meio quilômetro de comprimento, fazia a ligação da ilha com o continente, na extremidade da baía, o que não a tornava, entretanto, mais habitada do que muitas das outras ilhas da poluída baía, às quais chegava-se por meio de barcos e lanchas...No final de semana seguinte aos dias dos desaparecimentos, a família de Ernesto e Edith não foi à Ilha Ultima; ninguém estava com ânimo para isso, apenas Graziela manifestou algum interesse...Nem Tamara que já fora quase obcecada por aquele pedaço de terra cercado pelo mar, desejou empreender a excursão de fim de semana...Edith estava muito preocupada com sua prole e triste com os desaparecimentos pois, alguns deles foram de crianças que ela conhecia, filhos de amigas suas...Em casa, três dos quatro irmãos viviam pelos cantos, tramando e segredando alguma coisa, deixando Grazi de fora, o que muito a irritou. Edith até estranhou um pouco o comportamento de seus filhos mas, ocupada com outras atividades, acabou não dando-lhes maior importância...Quanto a Ernesto, parecia conter-se em um evidente nervosismo, como se aguardasse algo, possivelmente mau, foi isso o que a esposa achou mas, atribuiu tal impressão ao receio do marido por seus filhos, devido aos desaparecimentos e também não preocupou-se com aquilo...Os dias foram passando, os dias tornaram-se semanas e os desaparecimentos prosseguiam ao ponto de deixar a cidade à beira do pânico, a exigir das autoridades, alguma providência....mas, qual?...
       Certo dia, após muito tempo, Ernesto convidou a família para um fim de semana na Ilha Ultima e o convite foi recebido quase sem entusiasmo, com exceção de Graziela, que gostou da história...E eles foram e fizeram os mesmos programas de sempre: Praia, passeios mas, em determinado instante, o pai propôs algo novo:
       _ Gente, vamos visitar o casarão que tem no alto do morro?...Me disseram que a vista lá em cima é espetacular, que tal?
       O convite foi logo aceito, pela novidade que era e, após o almoço, lá se foi toda a família morro acima, de carro, pela estrada de pedras que deu bastante trabalho à suspensão do veículo...Lá chegando, viram todos que a vista em derredor era, de fato, espetacular, via-se uma boa porção de oceano e a baía em quase sua totalidade, a cidade, bem lá no fundo e a entrada da barra, muito estreita, onde os navios passavam e os marujos acenavam para os ilhéus...O tal casarão, por sua vez era majestoso e construído com cuidado e apuro. Parecia mesmo, abandonado mas, era uma construção sólida de pedras, do tipo que resiste à ação dos elementos e do tempo...O dia estava belíssimo, o sol brilhava absoluto enchendo tudo de luz e calor...mas, apenas Graziela e sua mãe pareciam notar isso...O resto da família, o pai e três dos filhos pareciam desconfortáveis, protegiam-se com chapéus e a barraca de praia aberta...Mas o pai foi quem teve a idéia de ficarem por ali mesmo, até mais tarde, ele desceria e compraria em alguma lanchonete, alguns acepipes para todos beliscarem, assim como refrescos e refrigerantes; o pessoal aprovou a nova proposta e, assim se propôs, assim se fez...E, enquanto o pai ia lá em baixo, cuidar da fome de sua família, ficaram todos por ali, tirando fotos, brincando e admirando o aprazível local...Foi Graziela, a mais atenta dos quatro irmãos quem viu quando a aparição surgiu, desde o horizonte, como se fosse coisa corriqueira mas, mudando de figura, conforme aproximava-se...E passou a chamar a atenção de sua gente, quando já estava quase em cima da ilha.
       _ Gente do céu! –ela gritou- Aquele navio tá vindo pelo lado errado da ilha!
       Todos foram ver do que se tratava e viram em sua totalidade, o antigo paquete de casco preto, que parecia desgovernado, pois, rumava para o estreito que separava a ilha do continente, sobre o qual, a ponte verde passava...Lentamente a velha embarcação, aparentemente fora de controle, impulsionada por seus motores antigos que davam notícia de si através da fumaça negra que escapava de suas duas chaminés, aproximava-se mais e mais.
       _ Vai bater na ponte! –gritou Edith alarmada- ...Se a derrubar, vamos todos ficar isolados aqui!
       Não havia mais o que fazer, a não ser observar aquele colosso de metal flutuante, corroído pela ferrugem, como um navio fantasma, arremeter sobre a ponte que unia a ilha ao continente. Lá embaixo, nas ruas, dava para ver o povo que chegava-se para perto, de modo a ver o espetáculo de destruição iminente, aglomerando-se em pequenos grupos, olhando, comentando e apontando, já iniciando um princípio de pânico...De repente, surge o pai, acompanhado de um monte de gente que subia o morro, de carro ou a pé...Pareciam todos tranqüilos como se a catástrofe prestes a acontecer não significasse nada além de um fato corriqueiro...Em breve, o cimo do morro estava apinhado de gente mas, poucas daquelas pessoas olhavam o navio fantasma, que chegava cada vez mais perto...Ernesto aproximou-se de Grazi, que estava muito aflita ao lado de Edith, esta também bastante nervosa...ele abraçou as duas enquanto os outros três meninos juntavam-se ao grupo... Cibele então anunciou, com voz neutra:
       _ É o “Di Extremiis” que, afinal, chega...
       _ Exatamente quando Eton disse que chegaria –volveu Tata, a voz sem trair qualquer emoção.
       Alarmada, Edith olhou para o casco negro que avolumava-se a ponto de exibir detalhes, como o nome pintado em branco sobre sua quilha, o nome “Di Extremiis”...perguntou:
       _ Quem é esse Eton?...o que vocês sabem que eu não sei? Que navio é esse?
       Mas não pôde perguntar mais nada porque o estrondo encobriu qualquer outro ruído...O Di Extremiis atingiu, finalmente, a ponte, começando a empurrá-la para a frente, rompendo seu metal com o arruinado casco que, também destroçava-se com o impacto...pedaços grandes e pequenos de metal cisalhado e oxidado voavam longe enquanto o espetáculo de destruição prosseguia com impressionante lentidão...e afinal, a ponte rompeu-se em toda a sua largura, tombando de lado e dando passagem à desgovernada embarcação, que fazia água rapidamente, através do casco rompido...Pouco a pouco, o Di Extremiis afundou no estreito profundo, a água salgada tragando o que restou de seu casco e depois a superestrutura, os mastros e as chaminés...Antes que a superestrutura fosse engolida pelo mar, dela surgiram rompantes, passando pelas janelas da embarcação, as dezenas de criaturas voadoras, imensas, monstruosas e ameaçadoras que, como morcegos gigantes, sobrevoaram a Ilha Ultima em uma série de circunvoluções para depois, desaparecerem por uma grande janela no pavimento superior do casarão, que abriu-se para sua passagem. Petrificadas de espanto, Edith e Graziela agarravam-se aos braços de Ernesto, que parecia tranqüilo, como todo aquele povo, apesar do insólito da situação...Alguém ao lado deles disse, então, com animação:
       _ Ela vai fazer nossa espécie renascer.
       _ Longa vida para nós! –gritou então outra pessoa e, em breve grande parte daquela gente urrava em uníssono: “ Longa vida para nós!, Longa vida para nossa espécie!, Longa vida para a baronesa!”...enquanto uma pasma Edith e outra não menos, Graziela, olhavam para aquilo tudo, sem nada entender...
       _ Ernesto...o que é tudo isso? –gemeu Edith, apavorada-  O que são esses monstros, o que essa gente toda está gritando?...Onde estão Tamara, Cibele e Clayton?...Como vamos sair daqui, sem a ponte?
       _ Vamos entrar no casarão e você vai saber de tudo...- respondeu Ernesto, a voz calma.
       _ O quê?! –mãe e filha surpreenderam-se com o convite e Edith quase gritava ao responder- ...Você ficou louco? Como vamos entrar lá com todos aqueles monstros lá dentro? Vão nos matar!...Onde estão nossos filhos? Precisamos sair daqui!
       _ Não, ninguém vai matar ninguém...Olhem como já está todo mundo entrando, vamos também.
       _ Você ficou louco! –gritou Edith, já virando-se para fugir, procurando a mão da filha, para levá-la junto e buscando com a vista, localizar suas outras crianças...Mas, as duas não foram longe; da multidão que encaminhava-se para as portas do casarão, que foram, de repente, escancaradas, várias pessoas agarraram as duas fugitivas e levaram-nas para junto de Ernesto, passando a seguirem todos para o casarão. Edith, perplexa, ficou atônita e sem fala enquanto era empurrada para a frente e Graziela já choramingava de medo. Afinal, entraram no sinistro edifício e viram-se em um salão muito grande, abandonado e tomado por teias de aranhas...Do teto, muito alto e decorado, com vigas de madeira aparentes e espécies de estalactites também de madeira, diversas das criaturas voadoras que saíram do navio, pendiam de cabeça para baixo, as asas a embrulharem os horrendos corpos e, em uma espécie de jirau em um dos extremos da sala, vazia de móveis, duas das criaturas acabavam de transformar-se em imitações de seres humanos, suas enormes asas encolhiam e transformavam-se em braços e mãos e, daquelas peles escuras e cobertas de pelos, roupas brotavam, compondo a imagem de dois homens jovens e de porte atlético, muito pálidos à luz baça que entrava pelas janelas empoeiradas. A esse tempo, a grande sala estava apinhada de gente, entre elas, Ernesto, Edith e a pequena Graziela...Havia o burburinho característico das multidões, a reverberar pelo amplo recinto mas, um silêncio total desceu sobre todos quando, um daqueles morcegos humanos no alto da sala, anunciou com voz grave e bem modulada:
       _ Silêncio por favor!...Atenção porque, vai falar aquela que vai devolver a dignidade à nossa espécie...Silêncio porque vai falar a baronesa Henrietta Thereza Amália Emmanuelle Cordelia Kaznar Di Extremiis!
       Vinda de alguma sala localizada por detrás do jirau de madeira, surgiu então, uma mulher de idade indeterminada, vestida à maneira de séculos atrás, um vestido longo e com discreto decote, com mangas compridas, bufantes e confeccionado com um tecido muito bordado, inclusive com fios de ouro, de cor verde pinho. Jóias abundantes adornavam o colo, os pulsos e dedos da tal mulher com título de nobreza...Sua testa, algo ampla, era emoldurada por cabelos brancos, presos na parte de cima de sua cabeça, através de um volumoso e trabalhado coque, onde pérolas brancas faziam-se notar. Tudo era beleza e esplendor naquela baronesa menos, ela própria...A pele de seu rosto, da parte do colo exposto e de suas mãos era totalmente deformada e repuxada, em conseqüência de queimaduras graves que, provavelmente, tomavam-lhe todo o corpo, emprestando-lhe um aspecto por demais repulsivo ao olhar...Ela parou diante do parapeito de madeira e falou aos presentes com uma voz grave e firme, transbordante de autoridade:
       _ Meus amigos!...Povo de minha raça!...Após um exílio bastante longo de minha parte, isolada que estava do resto do mundo em minha embarcação, perdida no meio do oceano, para minha própria segurança, alimentando-me do sangue das tripulações e de passageiros de navios encontrados no caminho, tenho, afinal, a felicidade de retornar ao vosso convívio, após ser notificada das excelentes notícias que passarei a retransmitir-lhes...Todos nós bem sabemos o quanto nossa espécie esteve ameaçada nos últimos tempos, por artes das perseguições empreendidas por nosso “gado” e, pior ainda, pelos efeitos causados por suas doenças que, após sofrerem terríveis mutações, lograram contaminar-nos de forma insidiosa e cruel, dizimando populações em um curto período de tempo, de modo assustador e quase definitivo, não fossem os esforços de nossos cientistas, que trabalharam arduamente e empreenderam uma batalha sem tréguas contra o mal que nos dizimava, conseguindo afinal, importantes vitórias, ao refrear a sanha assassina do sangue contaminado por vírus mutantes, produzidos por um “gado” doente. Afinal, a sobrevivência dos poucos de nós que restaram, foi garantida sobre a face da Terra.
       Mas a ameaça ainda estava no ar, mesmo a despeito dos miraculosos remédios produzidos por nossos sábios...Nossa espécie ainda corria perigo, até de extinção...Faltava aquela que seria a peça chave que nos livraria de todos os males que nos afligiam...Pois bem, meus amigos e companheiros, essa peça foi encontrada...O que era, no início, uma possibilidade descoberta pelos sábios, tornou-se afinal, uma realidade palpável...Após uma exaustiva busca através do mundo, durante um considerável espaço de tempo, foi localizado afinal, o anticorpo, a enzima que devolverá a nosso enfraquecido sangue, a força que já teve em tempos de antanho...Tal enzima achava-se no corpo de alguns pouquíssimos seres humanos, em seu sangue...Nosso “gado”, a causa de nosso quase extermínio seria, afinal, a causa de nossa cura...Os humanos portadores de tal enzima salvadora foram procurados em todos os cantos do mundo e quem liderava as buscas era exatamente meu finado marido, o barão Demetrius Ludovicius Alphonse Petrus Di Extremiis, que tomou conhecimento da tal enzima quase que por acidente, durante experiências suas no sentido de tornar-nos cada vez mais fortes e resistentes, isso antes da chegada dos vírus mutantes.
       Como muitos de vocês não desconhecem, meu saudoso marido sempre lutou em favor de nosso fortalecimento e, deu mesmo, a sua vida por tal ideal. Quando ele foi perseguido, encurralado e morto pelos “caçadores”, durante suas pesquisas, tendo seus restos mortais dispersados por diversos pontos do globo terrestre, o que impossibilitou sua ressurreição, para grande tristeza de todos e minha, em particular, havia, justamente, descoberto a tal enzima, durante a fase de testes de um produto que inventara e que, até hoje, traz-nos imensos benefícios: o ungüento que todos nós usamos em nossos corpos, que possibilita nossa exposição aos raios solares, sem a destruição de nossos tecidos e órgãos...Morto o meu marido, eu prossegui seus trabalhos e pesquisas com a ajuda inestimável dos mais renomados de nossos cientistas e, assim, tomei conhecimento da enzima salvadora, na época, sem maior utilidade para nós...Prosseguimos com dificuldade o desenvolvimento do ungüento que seria, na linguagem de nosso “gado”, o nosso “protetor solar, fator ‘um milhão’ ou mais “ ( nesse momento, a platéia até então, tensa e concentrada, rompeu em risos e aplausos para a baronesa, descontraindo um pouco, o ambiente ).
       _ Com dificuldades, nós prosseguimos, sempre ameaçados pelos tais “caçadores” em eterna perseguição a nós, através dos tempos...Mas, fomos progredindo e, com o passar do tempo, apesar de todos os revezes e acidentes com o novo produto, dos quais, esta que vos fala é o mais veemente exemplo, finalmente conseguimos aperfeiçoar o produto, passando a distribuí-lo a todos, sem distinção, objetivando um sensível aumento de nossa autonomia em nossa luta pela vida...Todos nós, ilustres companheiros, somos a prova viva do sucesso das pesquisas do barão Di Extremiis. Faz tempo, deixamos de ser as tais “criaturas das trevas” e pudemos imiscuir-nos no meio de nosso alimento a qualquer hora do dia ou noite, disfarçando-nos para obter mais facilidade em nossa obtenção do sustento tão necessário à nossa subsistência...Havia então, um “Plano de Dominação Global”, onde nós seríamos os senhores e eles, apenas nossa comida...Uma era de glórias sem precedentes desenhava-se à nossa frente em vermelho vivo, a cor de nossa vitória...( nesse ponto da narrativa a platéia gritou vivas ao barão Di Extremiis mas foi logo silenciada por um gesto da baronesa. )
       Foi quando vieram as doenças, que tornaram-se epidemias e quase varreram nossa espécie da face da Terra...E os estudos com a enzima milagrosa foram retomados, desta vez em sistema de prioridade menos que zero, afinal, disso dependia a nossa vida...A enzima salvadora que eliminaria de nossos corpos, todo e qualquer veneno humano e, mesmo, devolvendo a vida a muitos dos infectados, a depender do grau de contaminação...A enzima fortaleceria organismos debilitados e repararia danos tidos como irreversíveis, como no meu caso...Demoramo-nos a nos aperceber do quão fantástica tal substância era mas, ainda havia tempo para virar a maré a nosso favor...E, teríamos um estrondoso sucesso se, em uma noite amaldiçoada, nossos inimigos não tivessem localizado nosso principal laboratório e destruído-o totalmente, matando inúmeros dos nossos...Foi quando tive de fugir, em meu velho navio, passando a vagar pelos oceanos junto com minha fiel tripulação...As amostras, poucas, que tínhamos de nossa valiosa enzima, foram perdidas na destruição dos laboratórios mas, as anotações, eu as salvei todas e, com elas, prossegui nas pesquisas, de modo tosco, em um laboratório improvisado, montado à bordo do Di Extremiis...Mantinha-me eu, em contato com meus semelhantes, através de mensageiros que notificavam-me da busca pela enzima preciosa, a repousar em algum organismo humano em alguma parte do mundo...
       E, afinal, em um dia qualquer, a enzima foi descoberta, junto com seu portador e, acreditem-me, meus amigos, essa pessoa está conosco aqui, nesta mesma sala...e mais, não direi, direi apenas que ainda há muito o que ser feito e conclamo a todos para fazê-lo...Neste casarão decadente, adquirido junto com grande parte da ilha, quando as suspeitas da localização do portador da enzima concentraram-se nesta área, nesta cidade, neste local, um novo e moderno laboratório será montado e as pesquisas prosseguirão com o máximo empenho, visando um renascimento para nós, que já fomos em outros tempos conhecidos como “filhos das trevas” mas que passaremos a ser, os “filhos da luz”
       Aplausos emocionados, assobios e gritos partiram da platéia entusiasmada e, desta vez, a baronesa Di Extremiis deixou que seus correligionários extravasassem sua emoção durante algum tempo, dizendo quando os apupos arrefeceram:
       _ Meus amigos...Sangue de meu sangue...Ainda somos poucos, precisamos ficar juntos, tornarmo-nos fortes, novamente, formarmos uma grande família para enfrentarmos nossos inimigos e sairmos vitoriosos...Esta reunião é para anunciar uma nova era para nós, a iniciar-se agora, nos domínios de uma das mais importantes famílias, dona de quase toda a ilha, cujo nome foi até mudado, passando de um nome qualquer para “Ilha Ultima”...Há quem pense que o nome significa que esta é a ultima ilha antes de terminar a baía e começar o mar aberto mas o nome “Ultima” significa a reunião de todos os membros remanescentes da família Ultimum, família que é agora também, a minha família e a de vocês todos...todas as famílias que o desejarem, passarão a perfazer um todo e minha contribuição a tal união será a preposição “Di” presente em meu nome...Assim, os Di Extremiis e os Ultimum que passarão a ser Di Ultimum serão o embrião da nova sociedade que, acreditamos, irá fortalecer nossa espécie e torná-la invencível contra nossos inimigos...de agora em diante, a família que tiver “Di” em seu nome será uma família forte e triunfante, membro de uma força maior, única, coesa e lutadora...Longa vida a DI!
       _ Longa vida a Di!...Longa vida a Di”...Longa vida a Di Extremiis”...Longa vida a Di Ultimum” ! – A platéia urrava em delírio, passando logo após a gritar em uníssono, o termo unificador de todas as famílias de vampiros que desejassem ser poderosas e vencedoras.
       _ Di!...Di!...Di!...Di!...Di!...Di!...
       Em meio a tamanha algazarra, a baronesa Di Extremiis retirou-se e a multidão que a saudava continuou a gritar enquanto socava o ar com as mãos fechadas em perfeita cadência enquanto lá em cima, no teto, as criaturas de cabeça para baixo, abriam suas longas asas e tremulavam-nas em acompanhamento à multidão eufórica a repetir:
       _ Di!...Di!...Di!...
       A esse tempo, Edith, pálida e apavorada gritava para seu acompanhante que mantinha-se calado:
       _ Ernesto...Quem é aquela mulher? De que ela falou? O que é tudo isso, meu Deus?
       Mas, ao invés de responder-lhe, aquele homem afastou-se dela e de Graziela, que não parava de chorar, presa de puro terror, deixando mãe e filha perdidas no meio daquela multidão que ainda gritava e gritava.
       _ Di!...Di!...Di!...
         De repente, Edith e Graziela foram erguidas do chão por garras poderosas...Duas daquelas criaturas aladas agarraram Edith pelos braços e duas ocuparam-se de Graziela, passando o estranho grupo a voar em direção à uma das extremidades do grande salão, onde havia várias e enormes janelas, abertas...Eles passaram por uma delas e ganharam o exterior e passaram a afastar-se da Ilha Ultima, indo em direção ao continente...Como se obedecessem a um comando não dito, a multidão que ocupava o salão, precipitou-se para fora do prédio e iniciou a descida do morro, rumo às casas e edifícios lá embaixo, enquanto o céu ficava coalhado dos seres voadores que, também iniciavam uma rota descendente, rumo às pessoas que estavam na rua, em pânico, devido aos últimos acontecimentos...O que aconteceu em seguida, foi um ataque em massa aos moradores da ilha e visitantes que não pertencessem à espécie dos vampiros...Por terra e vindo do céu, o ataque foi desferido e, uma sangrenta orgia tomou conta das ruas e do interior das casas; os outrora “seres das trevas” banquetearam-se a não mais poder com toda aquela gente, sem a menor condição de defender-se de tal tipo de monstros...Não adiantou o uso de crucifixos, alho, fogo e outras armas, supostamente eficazes contra vampiros, o ataque prolongou-se pelo dia até que não sobrasse um único ser humano na Ilha Ultima, isolada que fora pelo rompimento da ponte, pelo navio da baronesa.
       Enquanto o festival de sangue prosseguia na ilha, no alto de uma falésia, no continente, a família de Ernesto estava reunida e este, acompanhado de seus filhos, Tamara, Cibele e Clayton, observavam, ao longe, o grande massacre sofrido pela população de ilhéus. Próximas a eles, Edith e Graziela, agarradas uma à outra, aguardavam pelo pior...Ver a família quase inteira transformada em horrendos vampiros foi o último choque recebido por elas que esperavam, apenas, sua própria morte...Aterrorizadas, elas viram a transformação dos três em arremedos de seres humanos...Não eram mais, sua família...Eram monstros assassinos, sedentos de sangue...O sangue delas duas...Tão logo acabou de transformar-se, Ernesto disse para sua esposa e sua filha, evitando aproximar-se muito, com receio de que elas pulassem do precipício, indo acabar-se nas pedras lá em baixo
       _ Edith...Grazi...Há muito o que ser esclarecido e eu vou tentar fazê-lo...Não vou morder vocês duas, como não mordi nossos outros filhos que aqui estão...Jamais desejei que isso acontecesse a qualquer pessoa de minha família...Não quis isso para Cibele ou Clayton mas...a coisa fugiu de meu controle...Era para ter acontecido apenas a Tamara mas...não foi assim...Ela mordeu os irmãos e ficaram todos desse jeito...Mas isso não vai acontecer a você, Edith e, nem a você, Grazi...Eu não vou deixar.
       _ E como pretende impedir isso, meu caro irmão Zoltan?
       Todos olharam em direção à voz e viram quando Zero, ou Eton, aproximava-se acompanhado de Roxana, os dois com a boca ainda suja de sangue alheio.
       _ Eu vou impedir isso, sim, Eton...Não fazia parte do combinado a vampirização de toda a minha família...Nós queríamos apenas Tamara...
       _ Eu ouvi bem?  -perguntou Eton, estranhando a fala de Ernesto ou Zoltan-...”Sua” família?...Então, eles não sabem que você matou Ernesto, o verdadeiro chefe da família...O pai desses garotos e marido dessa pobre coitada?...Você não contou-lhes que, matou o pobre homem, ao invés de mordê-lo, exatamente para que não viesse a reivindicar seus direitos, já vivendo uma outra vida?...Não contou que, matou um pai e esposo, ocultando depois, o cadáver, para que o apodrecimento o destruísse totalmente, enquanto apoderava-se de sua aparência?...Não contou que, durante quase dois anos, enquanto as suspeitas de que Tamara era a nossa escolhida, aprofundavam-se, você os enganou com seu teatro, aparentemente, bem ensaiado?
       _ Pare Eton...Por favor...pare...
       _ Parar?...Porque?...Seu canalha traidor, então afeiçoou-se a nosso inimigo...nosso “gado”, nossa comida, a esse ponto?...Pois não foi você quem localizou o paradeiro da portadora de nossa enzima salvadora e ma entregou de bandeja, para as primeiras análises do sangue dela...O sangue puro, intocado...A virgindade dela tornava o artigo ainda mais refinado e valioso...
       _ E você pôs tudo a perder, ao mordê-la...A baronesa ainda não soube disso e vai acabar com você, quando souber...Você entregou Tamara para essa sua prostitutazinha, também, que eu sei, vocês puseram tudo a perder, a volta da baronesa foi inútil, estamos ainda, condenados...
      _ Não creio que o caso seja tão grave assim...Nós extraímos um pouco do sangue dela sim mas...não chegamos a misturar o nosso com o dela...Ao que sei, a enzima é poderosa o suficiente para não deixar-se macular por uma possível contaminação.
       _ Você infringiu as regras...
       _ E você as está infringindo muito mais, agora, ao defender esses molambos...E eu precisava do sangue dela, ou morreria...A viagem ao navio, levando a primeira amostra, que fiz questão de manter totalmente pura, quase acaba comigo, foi uma viagem horrível até a velha banheira que está, agora, debaixo da água...Mas valeu a pena...Você podia ter feito todo o serviço...mas é covarde demais, mole demais para por mãos à obra...Agora, saia da frente que eu vou terminar o que foi começado, você não tem mais nada a ver com essas duas.
       _ Você não vai tocar nelas!
       _ E quem vai me impedir? Você, o covarde da família? O idiota que eu tive de arrancar do marasmo, com uma bela mordida no pescoço? Você nunca teve peito para me enfrentar...Mas, afinal, o que viu nessas patéticas amostras de carne mortal?...Certamente fez sexo com Edith e gostou, não foi?...Ela é boa na cama?...Garanto que a Xana dá de mil a zero nesse traste...Você usou camisinha, não usou, caro irmão?...Acho que não submeteu sua “esposinha” aos dois riscos, resultantes da cópula entre um vampiro e uma humana, não foi?...A remotíssima possibilidade da concepção de um híbrido ou, o que seria muito mais provável, a morte dela, envenenada por sua semente do mal, foi assim que aconteceu?
       _ Cale a boca!
       _ Vou me calar sim, já falei demais, agora vou agir...Roxana, pega a menina e eu fico com a mãe.
       Avançaram os dois sobre as duas aterrorizadas criaturas e Zoltan não moveu-se do lugar para impedir o irmão e sua concubina de agirem...Eton agarrou Edith e Roxana fez o mesmo com Graziela. Antes de morder Edith, Eton, olhando para o irmão, imóvel, ainda disse.
       _ Age certo ao não tentar impedir-me, seu covarde...Agora, “bon apetit”, para mim e para minha noivinha...
       A dupla de vampiros avançou com as bocas abertas em direção aos desprotegidos pescoços mas, não chegaram a tocá-los, foram puxados para trás com violência e decisão. Após um instante de surpresa, viram que, quem os atacava eram os três irmãos de Graziela, que tomavam a atitude que Zoltan deveria tomar...Iniciou-se uma tremenda briga entre eles e, mais fortes do que os três irmãos, Eton e Roxana começaram a levar a melhor, atingindo as crianças com golpes terríveis...Em determinado momento, Roxana levantou Clayton no ar e o lançou precipício abaixo, enquanto Edith lançava um grito agudo de horror, Eton olhou aquilo e sorriu, enquanto apertava com força o pescoço de Cibele, que debatia-se, sufocada, enquanto Tamara corria para a beira do precipício para tentar salvar o irmão menor, seu maior “xodó”. Eton começou então a rir enquanto apertava mais e mais, o pescoço de Cibele...E só deu conta do murro quando este o atingiu, fazendo-o largar sua vítima enquanto girava sobre si mesmo, antes de ir ao chão...Nem levantou-se; onde estava, mesmo, foi agredido com decisão pelo “irmão covarde” que, ao ver Clayton ser jogado precipício abaixo, saíra do estupor em que estava e decidira agir...Agora esmurrava o rosto do irmão com fúria enquanto Cibele, livre da mão que a esganava, esfregava o pescoço dolorido, sentada no chão...A esse tempo, Tamara, cega de ódio, atacava Roxana, cobrindo-lhe o rosto de unhadas, como se quisesse arrancá-lo...E arrancou-lhe mesmo, os olhos, com os dedos, esmagando-os com as mãos, transformando o rosto da pequena vampira ruiva em uma máscara vermelha de destruição....Olhou depois para sua mãe e irmã e avançou sobre elas, já transformando seu corpo na horrível criatura alada que também era, enquanto gritava para Cibele, ainda no chão:
       _ Vem, Ci!...Me ajuda com a Grazi!
       Zoltan ainda esmurrava Eton e Roxana andava às cegas, momentaneamente incapacitada, quando Cibele, entendendo o que Tamara queria dela, avançou, já em franca transformação, sobre a pequena Graziela...Voando sobre a irmã, agarrou-a pelos braços, com os pés, transformados em garras, enquanto Tamara fazia o mesmo com a mãe. Lançaram-se as duas, então, no abismo, junto com sua carga humana e, por não arcarem com tanto peso, usaram suas asas como para quedas, suavizando o trajeto de Edith e Graziela até as pedras à beira mar. Chegando lá em baixo, deram com Clayton, que também transformara o corpo  e preparava-se para voltar ao campo de batalha, lá em cima...Tão logo viram que a mãe e a irmã estavam em segurança, os três irmãos voaram, falésia acima, para impedir que o casal de vampiros fosse-lhes atrás...Fazendo da própria fraqueza, força, Edith e a filha caminharam por sobre aquelas pedras cortantes e molhadas de mar, procurando um caminho de fuga...Com imensa dificuldade, transpuseram tal inóspito trajeto até que encontraram os restos da ponte derrubada pelo navio da baronesa. Subiram pelas ferragens retorcidas e chegaram, afinal, à estrada de acesso à ponte e à ilha, passando a seguir por ali, o mais depressa possível.
       Lá em cima, o combate prosseguia...Agora eram todos eles, monstros voadores a digladiarem-se nos céus enquanto, na ilha, o ataque dos vampiros prosseguia...Edith e Graziela andaram muito, chegando à beira da exaustão quando, um caminhão, surgido milagrosamente em uma estrada deserta, acolheu as duas, levando-as para a cidade.
       Edith e Graziela demoraram muito a aceitar o que havia-lhes acontecido em um único dia, um sábado de sol que tinha tudo para ser perfeito...Haviam perdido quase toda a sua família e não fora a morte que as afastara de seus entes queridos...Fora algo pior, muito pior...As duas saíram de sua cidade, refugiando-se na casa de parentes, que condoeram-se ao ver o estado em que aquelas duas pobres criaturas ficaram, após um terrível desastre que vitimou-lhes os parentes, desastre esse que ficou para sempre, sem explicação pois, elas jamais tocaram no assunto.


       O tempo passou, modas e modismos vieram para ficar e foram-se, como folhas secas levadas pelos ventos da renovação...A vida continuou com suas vitórias e derrotas, alegrias e tristezas, coisas boas e más...A Ilha Ultima era agora, o local mais sofisticado de toda a região e, de ilha isolada à entrada da baía poluída, passara a ser o centro das atenções da nata da sociedade local e dos emergentes... Já quase ninguém lembrava do incidente da ponte antiga, derrubada por um navio deserto e desgovernado, que aparecera por ali em tempos idos e que, agora, jazia no fundo do estreito que separava a ilha do continente...O incidente da ponte foi muito comentado à época mas, apenas uns poucos ilhéus chegaram a presenciá-lo...Durante muito tempo, a Ilha Ultima foi servida por barcas e lanchas, isolada que estava, até que uma nova ponte fosse construída no lugar da que se fora...E ela o foi e era belíssima, muito melhor do que a antiga, pouco mais do que uma mera pinguela...Com a construção da nova ponte, a estrada de acesso também recebeu melhoramentos e começou a chegar cada vez mais gente àquela região erma, na forma de comércio e moradias, que passaram a disputar cada espaço vago...A Ilha Ultima, no entanto, sempre preservou parte de sua pouca acessibilidade, devido às altas falésias que a cercavam na parte continental...Das casas pequenas e de médio porte, além dos prédios modestos, que havia nos tempos da ponte antiga, o que a ilha oferecia agora era um desfilar de majestosos casarões, palacetes e solares, habitados por gente de muito prestígio, poder e riqueza, a concentrarem as atenções de quem desejasse saber o que era uma vida de luxos e influências...
       No alto da ilha, a mansão da família Di Extremiis destacava-se...Após a restauração a que fora submetida e devido à sua localização, era o mais vistoso edifício de toda a ilha, reluzindo em ouro, mármore, granito e exóticos e extensos jardins...Ali aconteciam as festas mais disputadas pela alta sociedade local e de outras regiões...Dias e noites do mais puro luxo, da mais exacerbada ostentação e da mais desenfreada devassidão...A baronesa Di Extremiis era uma dama na acepção mais pura da palavra, sua beleza de mulher de meia idade atraía olhares por onde quer que estivesse, sua pele de porcelana causava inveja às menos agraciadas pelo dom da beleza e seus modos eram irretocáveis...Viúva há já algum tempo, jamais casara-se novamente e, dizia-se, que, jamais tivera, nem sequer, amantes...Estava sempre acompanhada do que seria a sua família: os irmãos Tamara, Cibele e Clayton, seus filhos e os outros irmãos, adultos, Eton e Zoltan esses, apenas primos distantes, além de Roxana, a jovem esposa de Eton...Todos eles eram, à exceção de Roxana, legítimos Di Extremiis...Algumas outras famílias da ilha também exibiam o “Di” em seus nomes...havia os Di Therminatum, os Di Ende e a mais importante de todas as famílias, os Di Ultimum, proprietários da ilha...Tamanha profusão de “Dis” naquela ilha fez com que o povo a chamasse jocosamente de “Ilha de Didi”...
       Tamara era uma jovem encantadora no vigor de seus aparentes vinte e poucos anos. Muito apegada à sua mãe, estava sempre em sua companhia...Morena clara, de alta estatura e  silhueta esguia e elegante, era o objeto de cobiça da população masculina, nas festas e eventos em que estava presente, junto com a baronesa...Ninguém decerto acreditaria, se fosse-lhe dito, que Tamara Angela Christine Julia Carbel Di Extremiis contava com mais de oitenta primaveras em sua existência, ou que a baronesa, sua mãe, já passara das trezentas, fazia tempo...mas aparentava menos de cinqüenta...bem menos...
       Os banquetes de sangue humano aconteciam durante as suntuosas festas que aconteciam nos palacetes da Ilha Ultima. Não havia mais, como no passado, orgias de violência exacerbada, a coisa era agora, bastante discreta, para não chamar a atenção dos caçadores de vampiros de plantão, sempre atentos ao mais leve sinal de anormalidade...Vencida a barreira da luz solar os, outrora, chamados “seres das trevas”, tinham agora, tempo para recompor suas hostes e sua linhagem de hematófagos...Vampiros sim...e com elegância...
       A jovem Tamara, após um período de crise de identidade, aceitara bem sua nova condição de vampira e de salvadora de toda uma espécie, título que jamais deixou que subisse-lhe à cabeça...O gosto que sempre tivera pelo tema vampirismo, ajudou em muito, sua adaptação a uma nova vida e possibilitou que ajudasse seus irmãos, também, em suas dificuldades...Ela, agora, adorava sua nova mãe, como não chegara a acontecer com sua mãe biológica. A baronesa era o seu padrão para tudo: beleza, modos, inteligência, sabedoria e, mesmo, amor...por sua vez, sua madrasta tratava-a com a um bibelô, protegendo-a de tudo o que pudesse ameaçá-la, de leve que fosse, pedindo em troca, não mais que uma pequena quantidade do sangue dela, a cada início de mês...Sangue esse, extraído através de transfusões, jamais mordidas no pescoço, uma indignidade para com sua pequena e bela jovem “filha”.
       Edith já morrera há muito tempo atrás, Tamara não sabia do que, provavelmente velhice, mesmo...Se Graziela ainda estivesse viva, estaria muito, muito velhinha...Nunca mais vira a mãe e a irmã, desde um último encontro que tiveram, ela e toda a família, com exceção do falso pai...Ela propusera à mãe e à irmã que tornassem-se também, vampiras, como ela e os irmãos mas, isso foi veementemente recusado por duas criaturas, ainda apavoradas, que imploraram que eles fossem embora de suas vidas, para sempre, o que foi atendido e compreendido pelos três irmãos, não sem uma imensa mágoa que perdurou por muito tempo...Os três irmãos jamais perdoaram Zoltan pelo que ele fizera-lhes ao pai verdadeiro, antes tivesse o pai virado vampiro também...Após o conhecimento da história, no alto da falésia, os três não quiseram mais nenhum contato com Zoltan e chegaram a pedir a ajuda da baronesa, naquele sentido, o que foi imediatamente providenciado...Zoltan jamais chegaria perto de seus “filhos”, novamente e foi, mesmo, obrigado pela baronesa a mudar de rosto, parando de exibir ao mundo, sua própria cara e não a de Ernesto...Zoltan ficou muito magoado com a decisão de sua líder e, em decorrência disso, rompeu relações para todo o sempre, com o irmão Eton, a quem rotulou de “traidor”.
       Apenas os vários bons serviços prestados por Eton à causa da baronesa Di Extremiis, impediram que fosse escorraçado da Ilha Ultima...Quando soube que ele vampirizara Tamara antes do sangue dela ser colhido para a extração da enzima, a baronesa ficara furiosa e, apenas a constatação de que o sangue de sua enteada, nada sofrera com a invasão, livrou o desastrado Eton, um eterno “enfant terrible” de coisas piores...Ficou ele, porém, proibido, junto com seu irmão e sua cunhada, de privarem da companhia da baronesa e seus filhos, em festas e eventos. Eton, por decisão da baronesa, Zoltan, a pedido dos três irmãos e Roxana, por um pedido especial de Tamara que, jamais iria “engolir” aquela “lambisgóia” de cabelos vermelhos, mesmo com olhos novos, azuis desta vez, ao invés dos verdes, que ela mesma, arrancara...
       Em sua nova condição de vampira, Tamara não achava-se um monstro, como não achava isso de nenhum de seus conhecidos e familiares...Quando mordia alguma vítima sua, geralmente em sua cama forrada de cetim vermelho, achava que fazia por aquele ser, um enorme bem: livrava-o de doenças, do espectro da velhice...Da própria morte...Outorgava-lhe poderes além da compreensão humana, dava-lhe beleza, exotismo...e sem prejuízo de sua sensibilidade, de suas emoções...isso era mau?...
       Tamara Di Extremiis, que um dia já fora Tata, a menina doida, viciada em vampiros, a garota sonhadora e inofensiva, entendia agora, algo que ouvira, décadas atrás, da boca do infame Eton, em uma visita a um apartamento, em um prédio que já fora demolido há muito tempo, durante uma narrativa, pouco antes de ser atingida pelo golpe que mudaria totalmente sua vida:
       “ Sua fascinação por vampiros, minha querida, não é infundada...Na verdade, há muito tempo, você já é uma de nós,,,
celso dyer
Enviado por celso dyer em 14/12/2017
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