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Querido diário
Eis que, de vez em quando, nos pegamos escrevendo coisas...Coisas muito íntimas, falando de coisas íntimas que nos passam pela mente e pela alma...Lembranças que nos vêm, do nada, à memória, acontecimentos que gostamos de lembrar ou que desejaríamos esquecer e, não conseguindo, tentamos “exorcizá-los” em tinta e papel...Geralmente, é na adolescência que manifesta-se essa, mais do que uma vontade, uma necessidade de expressão por meio da escrita mas, na verdade, não há limite de idade para isso...Também, tal hábito ocorre mais em nós, meninas do que nos meninos, pelo simples fato de nossas almas e mentes amadurecerem mais depressa do que as deles, eternas crianças que eles permanecem durante todas suas vidas...Nós, as meninas sensíveis, que temos algo a dizer –ainda que seja, apenas, para nós mesmas- chamamos essas exposições de nossos íntimos de Querido Diário...São apontamentos altamente elaborados e, absolutamente pessoais...Por vezes a são escritos que guardam muita elegância, estilo, humor e otimismo e, por vezes, com cruel amargura, triste desesperança e, mesmo, mortal desespero...Porque escrevemos tanto, para ninguém, além de nós mesmas e, outras pouquíssimas pessoas? A resposta vem fácil...Escrevemos porque não podemos falar, abertamente, sobre tudo, como fazem os garotos, que não sabem aproveitar bem a liberdade que lhes é dada, pelo mundo...A repressão, desmedida e velada ( por vezes, nem isso ), sofrida por nós, por mais que tente-se negar tal fato...é um fato...Repressão vinda de nossas famílias de nosso grupo social, nossa vizinhança, igreja, escola, amigos, em nosso dia-a-dia...Tolhem-nos em nosso direito à expressão livre e, aquelas poucas de nós que ousam romper um silêncio imposto, são discriminadas por quase todos, inclusive por colegas e amigas, oprimidas, que, mais por medo do que por acomodação e inércia, preferem reservar-se e manter-se caladas...e atacar suas “iguais”...Aquelas que acreditam que, o que tem a dizer deva ser repartido com outrem, essas poucas que ousam rebelar-se e não fazer parte de uma triste “maioria silenciosa”, são, logo, tachadas de “loucas”, “desmioladas”, “anormais” e, mesmo, “piranhas” e outras coisas piores...Em sendo assim, a “válvula de escape” para nós, pobres criaturas, meras “caricaturas de gente” que enxergam o passado como o é o presente e o futuro, sem perspectivas de mudanças, a curto prazo, continua sendo nosso redentor “Querido Diário”...E se fossemos nós, por algum perverso motivo, privadas dessa nossa pouca liberdade de intimidade, do parco direito de sermos nós mesmas, perante nós mesmas e outras pobres almas como nós...pobres garotas, futuras pobres mulheres, vítimas da humilhação e domínio  masculino, social, religioso...Se perdêssemos isso, apenas, não viveríamos mais; teríamos, a nós, negado o direito de viver...Há mudanças em andamento, é claro, negar isso seria como negar o brilho do sol sobre todos nós...A vida é como uma roda, se parar de girar, desaba sobre si mesma...Tudo muda e está mudando, a vida é um constante mudar, um constante evoluir...Nós seres humanos, vamos ficando, cada vez mais “civilizados”, cada vez mais distanciados de nossas origens, nosso “lado animal”...e isso é mau e bom, ao mesmo tempo...enfim, apenas “é”...Mas, para que mudanças ocorram, muito sangue ainda vai correr de nossas feridas abertas, muito suor vai brotar de nossa pele cansada e muitas lágrimas, de nossos olhos tristes... Muito vamos sangrar,de forma não natural, suar e chorar, nós, garotas, mulheres e velhas, até que vençamos as barreiras que nos aprisionam e tudo o que opõe-se ao nosso progresso e nosso sucesso, nossa total e verdadeira libertação...Enquanto esses novos tempos vão, lentamente, acontecendo, nossos “Queridos Diários” continuarão existindo, mostrando que nós, meninas, mulheres e velhas, gritamos, ainda que, sem emitir um som sequer...”Estamos Vivas e Merecemos Respeito”...
celso dyer
Enviado por celso dyer em 16/12/2017
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