celsodyer
contando histórias
CapaCapa
TextosTextos
FotosFotos
Livro de VisitasLivro de Visitas
Textos

O anjinho
      Deu nos jornais...


ANJOS NÃO DEVEM MORRER


POPULAÇÃO CLAMA POR PUNIÇÃO EXEMPLAR
PARA “O MONSTRO”

LOUCO ASSASSINO É PRESO EM CELA ESPECIAL

POPULARES EM VIGÍLIA NA FRENTE DA DELEGACIA PEDEM A CABEÇA DO “MONSTRO”

       Na época, a imprensa fez um grande estardalhaço com o caso, notícias na tv e no rádio, sucediam-se e os jornais e revistas, dissecavam cada detalhe do incidente, à exaustão. No programa de fim de tarde, na emissora que tinha como espectadores, gente de classes sociais mais baixas, o gordo repórter-locutor, dono do programa, o “Palmatória do Mundo” com fumaças de “Dono da Verdade”, contorcia-se ao vivo, em esgares de ódio àquele monstro, conclamando o povo a odiá-lo também, mais e mais, como se isso fosse possível...Pedia a implantação da pena de morte no país, único meio de se livrar a população decente e cumpridora da lei de semelhante aberração da natureza, da espécie humana e da vida, tal como a conhecemos...
       Os jornais e revistas também banquetearam-se a valer com aquilo; só não carregaram ainda mais nas tintas porque, não havia como, a coisa fora escabrosa demais, fora fotografada em cores e parte desse material era exposto à visitação públicas, nas bancas, impulsionando a venda de jornais da imprensa sensacionalista, que faturou horrores com o caso...Debates foram montados, em programas especiais na televisão, o rádio procurava dar notícias mais atuais, montando plantões na porta da delegacia, onde a “besta humana” estava detida e os diligentes policiais não se faziam de rogados, montando várias “coletivas”, apresentando ao mundo, um homem sem alma, um criminoso louco...O assassino que merecia o ódio de todos afinal, como não condenar um cidadão, bem situado na vida, de tradicional família, com boa situação financeira, bons contatos com poderosos da política e da empresa privada, um passado sem manchas e a ficha limpa na polícia, que, sem mais nem menos, em uma sangrenta manhã, diante de várias testemunhas, descarregara o tambor de um revólver calibre 38 no rosto de um menino de, apenas, presumíveis quatro anos de idade?


       Durante o julgamento, que foi acompanhado com atenção por uma população sequiosa de vingança, mascarada de justiça, o veredicto saiu mais rápido do que era esperado: o “monstro” pegou pena máxima, em regime fechado e sem direito a apelações...Bem que a advogada de defesa –excelente, apesar de novata- esforçou-se além da conta para tentar defender seu cliente, alegando insanidade temporária e outras atenuantes, todas em vão...O juiz foi inflexível e fez a alegria de todos, que teriam preferido ver aquele simulacro de ser humano pendurado pelo pescoço na ponta de uma corda...Ao ouvir a sentença, o réu pareceu emitir um suspiro de alívio e isso não passou despercebido a muitos dos presentes, suscitando uma nova especulação entre o povo e os meios de comunicação: estaria o “monstro” desejando ser condenado e trancafiado numa prisão ( que, aliás, era o seu lugar, segundo o consenso geral )?. Durante todo o julgamento, ele manteve-se apático e distante, mesmo a despeito da evidente aflição de sua causídica, que tentou por todos os meios, arrancar alguma emoção positiva dos jurados ou mesmo, de seu cliente...Recusou-se o assassino de crianças a falar, durante todo o tempo, complicando cada vez mais seu caso e, afinal, a justiça se fez...( melhor seria, para muitos, que a “vingança” fosse feita, com a morte de tamanho crápula, em meio a indizíveis sofrimentos...como nos velhos tempos. )
       Sua família sofreu muito com tal crime; houve um desnecessário assédio por parte da imprensa, sobretudo a sensacionalista e, mãe e filhos, padeceram muito com aquilo: a incompreensão de pessoas com uma necessidade doentia de espezinhar a outrem e a própria incompreensão do que acontecera...Aquele homem, que era um exemplo de cidadão, tornara-se um assassino cruel e insano, até ser subjugado pela lei, quando então, tornou-se um “cordeiro” nas mãos de seus julgadores, não defendendo-se e, sobretudo, não arrependendo-se do que fizera, em um orfanato da cidade, o mais famoso, colocando um final sangrento e desumano em um caso que a imprensa e o público acompanhavam com atenção crescente, durante o desenrolar do mesmo, há mais ou menos, seis meses atrás...


       Ele parecia um anjinho, mesmo, tinha a pele muito clara e rosada, debaixo de toda aquela sujeira e seus cabelos, quando cuidados, revelaram ser de um tom puro de louro, densamente encaracolados, a própria imagem de um querubim, conforme costumamos ver nas igrejas e museus, em estátuas ou pinturas sacras...Os olhos eram azuis e claros como um céu sem nuvens a exibir uma impressão de susto e medo, além de uma cativante doçura...Tamanha maravilha da espécie humana, que seria, mais tarde, bárbara e horripilantemente deformada por tiros de grosso calibre, fora encontrada vagando por uma estrada deserta, de terra, que ligava uma cidade muito pequena à rodovia interestadual...Um casal bastante idoso que passava por ali, em seu automóvel antigo mas, bem conservado, recolheu o menininho que trajava, apenas, uma camiseta rasgada, mal cobrindo seu pequeno e imundo corpo, expondo aquela pele fina a um frio torturante...O casal o levou a um hospital infantil e lá, o menino foi cuidado e foi constatado o estado de subnutrição em que estava mergulhado, sem outras mazelas ou doenças, entretanto...Saiu nos jornais que o casal saiu do hospital com certa rapidez, tão logo o garotinho foi internado, sem identificar-se e sem dar maiores explicações a ninguém...Mas houve quem visse que a velhinha chorava muito ao sair, amparada por seu acompanhante, que seria seu marido e que, ele dizia-lhe: “ Você sabe, minha velha, a gente não pode ficar mesmo, com ele, o melhor é a gente se conformar e acreditar em Deus que alguém vai cuidar do menino “...E, quem estava perto, garante que o velho também exibia lágrimas de tristeza e frustração em seus cansados olhos...
       A novidade espalhou-se como fogo em mato seco e o menino perdido ganhou as páginas dos jornais e revistas, assim como a tela da tevê...De nada adiantou uma intensa procura pelos pais ou parentes do menino, ninguém veio reclamar sua guarda e, devido a isso, após o período de praxe, o garoto foi encaminhado a um orfanato e posto em adoção...E uma verdadeira multidão de famílias candidatou-se a ser a nova família do menino, ainda sem um nome oficial, como se seu novo nome devesse ser algo de muito especial...Era tratado então, inicialmente no hospital e depois, no orfanato, apenas por “anjinho”, justamente a imagem que sua figura evocava em quer que olhasse para ele...O noticiário tinha sempre algum espaço para o anjinho abandonado e para a luta que travava-se entre diversas famílias pela adoção de semelhante formosura, em detrimento dos outros internos do orfanato, alguns já com bastante tempo de casa...E os meninos do orfanato também caíram de amores pelo anjinho, uma criança de uns quatro anos presumíveis, que não falava, não chorava e não tinha reações comuns a alguém de sua idade...mas que atendia, quando o chamavam, prestava atenção nas pessoas e não lhes era alheio...Aparentava ser muito educado mas, não abria a boca, a não ser para comer, o que fazia moderadamente e sem gula, a despeito de seu adiantado grau de desnutrição...E, conforme ia-se alimentando, o anjinho ficava cada vez mais bonito e vistoso; seus cabelos longos e anelados pareciam fios de ouro e seus olhos expressivos, de um azul magnífico, eram os únicos mensageiros de suas vontades, sempre atendidas, por quem julgava entender o que aquelas duas continhas diziam...
       Enquanto aquela criança que parecia feita de luz, recuperava-se dos horríveis traumas a que, com toda certeza, fora submetido, uma batalha surda e suja travava-se nos meios legais...Os candidatos a pais daquela formosura usavam de todos os meios possíveis, legais ou ilegais para tê-la consigo...Aquilo já beirava a obsessão e os meios de comunicação faziam daquilo, um prato cheio de fofocas para o grande público...Enquanto isso, o anjinho era alimentado, banhado, cuidado e vestido pelas enfermeiras e irmãs de caridade que –também elas- brigavam entre si para ficar mais tempo junto do menino...E, entre os candidatos a pais do anjinho, nenhum estava mais empenhado do que Ivan Reinholdt, um rico empresário do ramo dos laticínios, com muitos contatos políticos e já ensaiando seu ingresso na vida pública...A família de Ivan compartilhava da histeria geral em torno do menino e de sua adoção mas Ivan comia, dormia e respirava o anjinho, estava totalmente obcecado pela criança...Os parentes e amigos diziam que, quando candidatara-se à adoção, Ivan ficara totalmente modificado e que, assim ficara, após contratar uma advogada que, a ele apresentou-se um dia, com uma estratégia infalível para levar o anjinho direto para a família Reinholdt...Essa mesma advogada faria, mais tarde, de um tudo para tentar defender seu cliente da acusação de premeditado e cruel assassinato de um menino dourado...
       Juntos, Ivan e sua advogada, jogaram pesado para conseguir seu intento...Através de detetives, esmiuçaram a vida de seus “colegas de adoção”, levantando todo o tipo de podridão sobre aquelas famílias, de modo a denegri-las perante os juízes que administravam o caso, agindo sorrateiramente, valendo-se de parcerias com gente de peso na política, usando de todos os meios, muitos deles, escusos, para tirar o anjinho das garras de quem não seria “digno” dele....como ele, Ivan e sua família, eram...ou acreditavam ser.
       O processo seguiu, tumultuado, pontilhado de brigas e discussões, além de muita sujeira e, afinal, perto de sair o resultado, ninguém mais já lutava limpo mas, como Ivan e sua advogada começaram a patifaria com mais antecedência, levavam vantagem sobre as demais famílias...E o veredicto, afinal, saiu:  A família Reinholdt fora a vencedora na luta pela adoção do anjinho e começaram os preparativos para o longo processo. Houve muito choro e ranger de dentes por parte dos perdedores mas, a família de Ivan exultava!...Houve então, em uma manhã, o primeiro encontro entre a família candidata e o objeto de seus desejos. A imprensa deu destaque ao caso que, desde seu começo, era sinônimo de boa audiência na tevê e muitos jornais e revistas comprados...O anjinho foi acariciado e abraçado por Ivan, sua esposa e pelas duas filhas do casal que não cabiam em si de contentes ao ter contato com seu novo irmãozinho...O anjinho, por sua vez, reagiu muito bem ao contato com seus possíveis novos pais e irmãos...Ele pareceu gostar das carícias daquela gente e, até retribuíra alguns afagos para sua possível mãe e irmãs, mantendo-se, porém, um pouco reservado com Ivan, quando este o abraçou, enternecido...Mas o menino não reagiu mal a ninguém e tudo parecia ir às mil maravilhas...Afinal a visita encerrou-se e foi marcada uma nova, para as duas partes poderem acostumar-se mais entre si e, a certeza de que aquela era a melhor coisa a ser feita, instalasse-se de modo indelével.
       Após o primeiro encontro com a família Reinholdt, o comportamento do anjinho mudou muito...Ele era agora, uma criança risonha e animada, que brincava com as outras crianças e os funcionários do orfanato, enchendo a todos de júbilo...e crescente tristeza por, talvez brevemente, ter de sair dali, para sempre...Mas, se ele gostara mesmo de seus futuros pais, não havia o que ser feito, sua felicidade era mais importante do que tudo...Na casa dos Reinholdt tudo era uma festa só...O quarto de seu futuro membro, construído há já algum tempo ( tão certa a família estava de ser a escolhida ), era agora, decorado e arrumado por mãe e irmãs, transbordantes de felicidade...Mas, com Ivan, entretanto, o mesmo não ocorria...Desde a primeira visita no orfanato, o patriarca do clã dos Reinholdt não era mais o homem animado e confiante que sempre fora...Despertava quase todas as noites, vítima de horríveis pesadelos, alimentava-se mal, parecia doente...Quando perguntavam-lhe o que sentia ( afinal, sua mudança de comportamento dera, imediatamente, na vista de todos os que o conheciam ), ele desconversava, atribuía seu estado de espírito a alguma doença, um vírus renitente que o infectara, possivelmente no trabalho ou algo assim...Stella, sua mulher andava muito preocupada pois, era a testemunha dos pesadelos que acometiam seu marido, durante as noites, a maioria delas...O que teria acontecido?...Aline e Jacqueline, as gêmeas de onze anos também estranhavam o novo comportamento do pai mas, a mãe dizia-lhes que o papai estava com uma forte virose e que, quando o anjinho viesse para sua casa, tudo iria melhorar, que tivessem todas, paciência, aquilo era passageiro.
       Aconteceu então a segunda visita da família de Ivan ao anjinho e, ao ver aquela gente, o menino ficou animadíssimo e, mesmo, correu para eles, abraçando-se com as gêmeas e sendo logo, por elas, erguido do chão, para felicidade total. A imprensa desta vez, noticiou o caso com mais discrição afinal, o assunto já dava mostras de esgotamento mas, o pessoal do orfanato, apesar da saudade que iria, certamente sentir, vibrava junto com o menino e sua nova família, sabendo que aquela criança maravilhosa, encontrada quase morta em uma estrada erma, iria ter a felicidade que merecia, fosse o que fosse o que ela sofrera antes de chegar até ali...Quando Stella passou o anjinho para os braços do marido, o menino já estendia seus bracinhos rosados de mãos gorduchas para ele mas, quem viu poderia jurar que Ivan estava hesitante em segurar a criança, coisa que acabou fazendo, entretanto, limitando-se a encarar o rostinho sorridente que se lhe apresentava, devolvendo logo o menino para a esposa, que não o largou mais...a visita acabou e a família voltou para casa, nervosa com a morosidade do processo e tantas preliminares...Ora, o menino não gostara de seus futuros pais e irmãs?...Aquela família não adorava de paixão o garoto?...O que faltava então?, aquilo era enervante...
       Após a segunda visita ao pequeno, a vida de Ivan, contudo, piorou muito...Os pesadelos agora eram piores que os anteriores, ele assustava sua esposa que não entendia o porque daquilo...Seu marido acordava chorando e continuava a chorar, mesmo desperto...Era um custo para Stella, consolar seu cônjuge e, uma impossibilidade, saber o motivo daquilo afinal, parecia que nem o próprio Ivan sabia o que acontecia-lhe...Foram muitas noites perdidas com aquilo, Stella ficava aflita, preocupada com Ivan...Ele, após muito tempo, veio com uma história de que os pesadelos traziam lembranças amargas de sua vida, coisa que nunca dividira com ninguém e que, um dia, contaria à esposa...Ela fingia aceitar, penalizada que ficava com o estado daquele homem, o pai de suas filhas, que parecia estar ( ah, o horror dos horrores ), por algum motivo desconhecido, enlouquecendo...
       Chegou então o dia da terceira visita e, para cobri-la, estava presente apenas o pessoal de uma revista de pouca circulação. Quando os Reinholdt chegaram, o anjinho ainda estava sendo banhado e vestido para a visita e, conforme as irmãs disseram, divertidas, ele estava fazendo a maior algazarra, ansioso que estava pelo encontro...Ivan parecia uma sombra do homem que já fora...Muito magro, abatido, os olhos sempre úmidos, aparentava estar muito doente, mesmo...Seu jeito geral atraiu mesmo, a atenção de uma assistente social que estava lá, naquele dia e, com aquele homem combalido e sua esposa, ela conversou um pouco, enquanto o anjinho não chegava...Falaram de coisas simples, a assistente fez algumas perguntas, Ivan quase não disse nada, parecendo em transe, o olhar parado e turvo...E, afinal, eis que surgiu o anjinho, correndo em direção a sua nova família...Ele não quis ser levado até eles pelas enfermeiras, ansioso que estava pelo encontro...Ao avistar Ivan, correu para ele, o rosto afogueado e sorridente, os bracinhos erguidos para seu futuro papai...Quando o menino chegou à distância de cerca de metro e meio do homem, este puxou de dentro da paletó, o revolver que trouxera escondido e, apontando a arma para aquela carinha de anjo, sem a menor hesitação, fez fogo!...


       Apenas uma revista noticiou a tragédia e o fotógrafo captou o instante exato em que os disparos transformavam uma cabecinha com cabelos dourados em uma massa de ossos, carne, sangue e cabelos...Essa foto, jamais publicada mas, com veiculação clandestina garantida, via Internet, foi exibida, em uma grande ampliação, durante o julgamento, fazendo alguns jurados chorarem de ódio e revoltando, igualmente, o juiz...Após fazer o que fez, Ivan agarrou pelo pescoço, em uma “gravata”, a assistente social que falara com ele, antes do acontecido e, de posse dessa refém, ele refugiou-se em uma sala do orfanato, a primeira que encontrou, trancando-se lá e aparecendo em uma janela com o revólver apontado para a cabeça da moça, solicitando aos gritos, a presença da polícia e de sua advogada...Enquanto isso, no pátio onde davam-se os encontros, duas irmãs de caridade jaziam desmaiadas no chão enquanto as outras, juntamente com as enfermeiras, choravam histericamente e nem lembravam-se de acudir as desfalecidas...A polícia foi, naturalmente, chamada e os dois repórteres da tal revista, a única presente, uma moça e um rapaz - o fotógrafo- ainda tiveram a presença de espírito de impedir que alguém tocasse nos restos do menino...A moça parecia ter nervos de aço e tentou controlar a situação, enquanto mandava o colega documentar a tragédia, o que seria útil para a perícia...Mas o pobre rapaz estava também um trapo e, após um momento de mais atuação, apenas chorava e chorava, de dar pena...A moça então, fazendo coração das tripas, tomou-lhe a máquina e tirou, ela mesma, várias chapas, de vários ângulos do horrível desfecho de uma simples visita de adoção...A um canto, Stella, Aline e Jacqueline eram a imagem da dor e do desespero...Muito agarradas, as três estavam inconsoláveis e, a esse tempo, mais e mais gente chegava, sendo mantida afastada, por funcionários do orfanato do corpo do anjinho que, àquela altura, já fora coberto por um lençol branco, tingido de sangue e já contava com uma vela acesa por alguém, a seu lado...
       As negociações com o assassino duraram horas e entraram pela noite...Uma multidão enfurecida ameaçava invadir o orfanato, tão logo a horrível notícia ganhou ruas e casas...A única repórter presente à tragédia, era assediada por colegas seus, de publicações rivais e tornara-se uma súbita celebridade mas, seu colega fotógrafo sumiu de circulação...O assassino, ensandecido, ameaçava matar sua refém, caso sua integridade não fosse garantida pela polícia quando se entregasse pois, era essa, a sua intenção...Informaram-lhe que sua advogada não fora localizada, estava em viagem e a polícia deu-lhe total garantia de vida, mesmo sendo do conhecimento geral que, qualquer um daqueles policiais, com tranqüilidade, encostaria o cano de uma arma naquela cabeça, passando a disparar até que as balas acabassem...do mesmo jeito como ele fizera...Ao perguntar pela esposa e filhas, o assassino foi informado de que elas estavam internadas em um hospital, em estado de choque...Essa notícia, visivelmente, aliviou aquele homem que avisou então que, iria entregar-se mas, avisou que iria manter sua refém até o instante em que adentrasse a cela que iria ocupar, não antes...E impôs que a imprensa estivesse presente em peso ao local de sua prisão, para que o risco de alguma “bala perdida”, o atingir, acontecesse, sem que ninguém visse...A polícia agiu com presteza e profissionalismo e, naquela madrugada, todas as emissoras de tevê transmitiram ao vivo, o encarceramento da pior besta humana que já pisara aquela cidade, aquele estado e aquele país...Ele ficou isolado em uma cela, não deu entrevistas e nem teve companhia pois, os presos daquela delegacia avisaram que, se ficassem ao lado daquele monstro, fá-lo-iam em pedacinhos, no momento em que a porta fosse trancada...Durante dias, uma aglomeração de pessoas permaneceu à porta da delegacia, pedindo justiça ou vingança e a polícia não fez a menor menção de dissipar os manifestantes.
       A vingança, afinal, não veio mas, a justiça, sim e, um Ivan de semblante calmo, distante da tensão em que estivera mergulhado, deu início ao cumprimento de sua pena...Recusava-se a receber visitas, não dava entrevistas e nem com a família queria encontros...e, se quisesse, não os teria: sua esposa e filhas, agora o odiavam ferozmente e difícil seria dizer se tamanho ódio, um dia, arrefeceria...Stella desfez-se de todos os negócios que o marido tinha e refugiou-se com as filhas em algum canto bem distante, evitando contatos com a imprensa ou quem quer que fosse...Nem a própria advogada, que lutara tanto por ele, no tribunal, que falara com ele sem o ódio habitual e geral, que o tratara como uma pessoa e não, como o monstro que diziam que era, nem ela, Ivan quis ver e foi preciso que a profissional suasse muito a camisa para inverter aquele estado de coisas...Mesmo com o risco de levar “sobras” do ódio geral da cidade, por ousar falar com alguém que não era humano, a doutora Lúcia Weiss, de vinte e cinco anos, recém formada e muito competente, insistiu obstinadamente com seu cliente, até que conseguiu dobrá-lo, marcando uma entrevista com apenas uma condição: os dois ficariam isolados de todos e o encontro podia ser filmado mas não, gravado; a doutora Lúcia insistira nesse ponto e, afinal, fora atendida pela diretoria do presídio...E ela finalmente, encarou seu cliente, vendo a imagem de um homem e não a de um monstro à sua frente...Ele falou com ela, calmo, do outro lado do vidro à prova de balas que os separava, através de telefone...Ela deu-lhe notícias da família, disse que estavam bem mas, retirados, ainda sofrendo por sua causa...Disse que estavam ressentidos com ele mas que não o odiavam, como o resto da população e suas palavras tiveram um efeito estranho sobre o prisioneiro...Em determinado ponto do diálogo, ele abaixou a cabeça e começou a chorar, pedindo que a visita fosse encerrada por ali, ao que a advogada acedeu...Ela marcou outro encontro, nos mesmos moldes, com seu cliente e o pessoal da cadeia que, muito impressionado com a altivez daquela advogada lourinha, tão bonitinha e jovem, pouco a pouco, fazia tudo o que ela pedia...Iriam conversar fora do horário de visitas e os encontros não teriam o som registrado.
       Mas, apenas durante o terceiro encontro entre os dois, a Dra. Lúcia conseguiu tocar no assunto do assassinato do anjinho...Ela insistiu muito daquela vez...Antes, disse que, dias atrás, o velho que encontrara o menino em uma estrada, falecera de infarto agudo, em sua casa...meses antes ele havia perdido a esposa para o câncer e, justamente, quando encontraram o anjinho, estavam voltando para casa após uma sessão de quimioterapia da esposa que, ficara muito triste de não poder, ela mesma, cuidar da criança...Os jornais, ao saberem quem era o velho, declararam-no a outra vítima do ”monstro”, que morrera de coração partido, após perder a esposa amada e a criança que encontrara e não pudera adotar...Tal notícia, naturalmente, incendiou corações e aumentou o grau de ódio do povo contra aquela ”besta humana”...Fosse outra criança a vítima e a reação do público não seria a mesma...Haveria revolta, haveria ódio mas...a coisa passaria com o tempo...Mas o anjinho era especial...Cativara toda uma cidade, um país...Sua morte teve repercussão até no estrangeiro, aquela era, sem dúvidas, uma criança especial...Tudo isso a loura advogada disse a seu cliente e, agora, via-se no direito de, não pedir mas, exigir, uma explicação para tudo aquilo...Ela tentara por todos os meios, defendê-lo de uma população feroz, mesmo sem ter a menor condição e embasamento para fazê-lo...Arriscara a própria carreira por ele, por desejar saber o motivo de tudo aquilo e ele, em nada ajudara, mantivera-se apático e distante, durante a preparação de sua defesa e durante o julgamento...Ela queria saber o porque daquilo tudo e não sairia daquela sala enquanto ele não dissesse algo que prestasse. Ele disse:
      _ Doutora, não perca mais seu tempo comigo, não há explicação para o que eu fiz, apenas fiz e é só...O que há de melhor a se fazer é todos esquecerem de mim mas...parece que isso não é lá, muito possível...Não tenho nada para dizer, doutora...Eu agradeço a sua preocupação e atenção comigo mas, isso é tudo, não sei o que dizer...
       _ EU NÃO ACREDITO!!! VOCÊ TEM ALGO PARA ME DIZER E TEM QUE DIZER!!!- Naquele momento algo estranho e inesperado aconteceu. A Dra. Lúcia que parecia tão calma e centrada, perdeu o controle e começou a chorar e a gritar nervosamente.
     _ Eu pesquisei a sua vida, eu sei muito sobre você...Você não é um assassino frio e cruel...Você não é um monstro, teve um motivo para fazer o que fez...Me diga esse motivo, pelo amor de Deus, ou eu vou enlouquecer...Por favor, pelo amor que você tem à sua esposa e suas filhas...por favor...me diga...
       Muito espantado com aquele súbito descontrole emocional de alguém que julgava ser a mais centrada das pessoas, Ivan assistiu sua advogada esconder o rosto nos braços apoiados sobre a mesa à sua frente, largando o telefone e ouviu, muito baixo, devido à vidraça à prova de balas, ela repetir e repetir, em lágrimas.
       _ Me diga...por favor...me diga...
       Uma idéia assaltou-lhe então, o pensamento: a Dra. Lúcia, durante muito tempo, desde antes do crime que ele cometera, mostrara ser a pessoa mais solícita com ele, mais preocupada com ele...Empenhara-se de corpo e alma no processo de seleção para a família que adotaria o anjinho e, mesmo depois da desgraceira que ele fizera, permanecera a seu lado, tentara ajudá-lo, defendera-o em um caso sem defesa, colocara a própria carreira em risco, ao fazê-lo...Estaria a Dra. Lúcia, a “advogada lourinha”, como era chamada no presídio...apaixonada por ele?...Só podia ser isso: tamanha devoção, tamanho empenho, apenas disfarçavam algo mais profundo e isso o comoveu muito...De repente, pareceu acordar de um sonho estranho, no qual mergulhara durante meses a fio e sentiu então, a necessidade de extravasar o que guardava dentro de si...Precisava falar com aquela mulher e não mais, profissionalmente...Precisava dela como amiga, como confidente...Não a amava, no sentido amplo da palavra mas, sentia por ela uma afeição imensa, além de uma forte admiração, devido a seu jeito tão frágil mas, tão decidido...Seria fácil então, amar de verdade aquela mulher, se fosse mesmo verdade que ela o amava...Bateu no vidro com insistência para arrancá-la de seu desespero e, quando ela levantou a cabeça de cabelos amarelos e cortados curtos, com os olhos congestionados pelo choro, ele fez-lhe sinais para que tomasse novamente do fone e ouvisse o que ele tinha para dizer...Ela encostou o aparelho no ouvido e ele disse:
       _ Não chore, Lúcia, por favor...Eu...acho que entendi tudo...Eu tenho muito a dizer...para você...Apesar de todo o absurdo, apesar de nem eu acreditar em mim...Eu vou lhe falar, vou contar tudo...Mas não aqui...Apesar das garantias que deram, eles podem estar ouvindo e gravando o que estamos dizendo e, o que eu quero...o que eu preciso dizer...Terá de ser apenas para você...Precisamos ficar a sós sem um vidro a nos separar, será que você poderia conseguir algo assim, para nós?
       _ Eu...eu acredito que sim, Ivan...Não, eu tenho certeza...Eu posso conseguir o tipo de encontro que você deseja...Eu te aviso quando conseguir...Mas, agora eu preciso ir porque sei que você vai me dizer o que eu preciso ouvir...Então, até mais, eu voltarei em breve.
       Ia pousar o fone no gancho quando escutou que ele ainda a chamava, para uma última palavra.
       _ Lúcia...
       _ Sim?
       _ Um beijo pra você...
       _ Outro pra você...meu querido...
       A  mocinha, despida de seu verniz de profissionalismo, saiu então da sala de visitas e o carcereiro veio buscar o “monstro” para levá-lo de volta à sua cela...Ciente de que era o alvo amoroso de uma outra mulher além de Stella, cujo amor já não manifestava-se com tanto vigor há já um bom tempo, Ivan Reinholdt, o outrora bem sucedido comerciante de alimentos e agora, uma chaga na sociedade, o assassino de uma criança que virara um símbolo, não conseguiu dormir naquela noite, pensando na esposa e nas filhas que - a imprensa dizia – odiavam-no tenazmente e, em Lúcia, que tinha confiança nele, que acreditaria no que ele teria a dizer-lhe...Sua tábua de salvação no naufrágio em que transformara-se a sua vida em simplesmente, uma fração de segundo...Lúcia...Sua imagem sobrepunha-se a todas as outras e, agora, reinava soberana na mente do “monstro”...Ela o amava e ele, em muito pouco tempo, a amaria também...Sim, ele a amaria também...


       A partir daquele dia, Ivan recuperou um pouco a vontade de viver, perdida desde o momento em que puxara o gatilho...A idéia de que iria dividir com outra pessoa, um peso que o arrasava e a certeza de que essa pessoa nutria por ele, mais do que interesse profissional, tudo isso fez com que desejasse viver, mesmo não saindo mais daquela cadeia...Passou a contar os dias, isolado em sua cela particular, posto que o resto da carceragem jurara-o de morte, pelo que fizera a um menino angelical...Matava o tempo do jeito que podia, aguardando um novo contato de sua querida Lúcia...Contato que, afinal, chegou, uma semana desde o último encontro deles...Ela mandou avisar que ele seria levado ao pátio durante um dia de visitas, incógnito e ela estaria lá para falar-lhe...No dia marcado, um canto do pátio, pouco usado e, naquele momento, deserto, foi reservado para o encontro do casal...Ele a achou linda, como nunca havia achado antes, quando chegou...Como não havia reparado antes, o quanto era bonita sua advogada?...Mais do que Stella ou qualquer outra mulher que conhecera antes de casar ou mesmo, depois...Ele não a tratou com muita intimidade, além da supressão de seu título “doutora”, hábito que já adotara na última visita...Estava inibido, não tinha plena certeza dos sentimentos dela para com ele mas, poderia jurar que ela arrumara-se mais do que o usual, para vê-lo...Mas ela também usou de um tom formal, talvez para não atrair a curiosidade dos poucos presos em volta...Ninguém sabia que aquele homem era “o monstro”, se soubessem, poderia haver um incidente de graves conseqüências, durante um dia de visita comum, em uma penitenciária...O risco era uma realidade mas eles não intimidaram-se e levaram o encontro adiante...Sentaram-se em um banco feito em concreto, que havia ali e puseram-se a conversar...Ela desculpou-se pelo tempo que gastara para conseguir a autorização para o encontro mas ele logo a interrompeu, ávido por dizer a verdade que o sufocava...
       _ Lúcia, não fique se explicando, nosso tempo é curto.
       _ Bem, estamos aqui, -ela disse então-...Me diga, porque você fez o que fez?
       _ Eu vou dizer...Eu vou dizer tudo...Eu fiz o que fiz...Eu matei aquela criança, que todos chamam de “anjinho” mas que, por motivos que eu conheço e sei serem verdadeiros era, na verdade, um monstrinho muito pior do que eu...Para salvar minha família...Para evitar que Stella, que Jacqueline...que Aline...fossem assassinadas de modo cruel...e desumano...eu matei aquele menino...
       Ele esforçava-se por manter-se calmo e falar com clareza mas, ao relembrar os acontecimentos que puseram um fim em sua vida, emocionava-se de modo incômodo e sua voz já não saía mais e o que ele conseguia emitir eram apenas, soluços...Lúcia então, abraçou aquele homem destruído e procurou acalmá-lo com palavras de ânimo, fazendo-o recuperar parte de seu controle e cessando seu choro...Isso foi conseguido, logo ele retomava seu tom de voz emocionado mas, desta vez, conseguia articular-se bem, fazendo-se compreensível. Ele continuou então.
       _ Foi um erro...Um erro terrível, termos lutado tanto, nos empenhado tanto, para conseguir a adoção daquele menino...O modo como eu conheci a verdade é tão absurdo que, eu nem sei se mais alguém, além de mim, irá acreditar nele...
       _ Vá em frente...Eu estou aqui para isso...
       _ Tudo começou após aquele maldito primeiro encontro...Eu amava aquele menino, estava encantado com ele e com a idéia de que seria seu pai...Minha família estava nas nuvens...eu agi torpemente para conseguir aquele momento...
       _ “Nós” agimos...
       _ Que seja...nós jogamos sujo, prejudicamos outras famílias, apenas para que eu tivesse tal prazer, tal vitória...Mas eu estava mesmo, louco pelo menino, ele parecia um anjo...mas era apenas um demônio travestido de anjo...Naquela noite, após a visita, eu tive o pesadelo pela primeira vez...Ele repetiu-se e repetiu-se, todas as noites, tirando-me a sanidade, enlouquecendo-me mais e mais...Eu não podia comentá-lo com ninguém, soaria ridículo demais...Mas, eu soube, aquilo não era apenas um simples sonho mau...Era um aviso...Era um aviso, vindo não sei de onde, enviado não sei por quem...Um aviso para evitar algo que mataria minha família...e a mim...
       _ Que pesadelo foi esse?
       _ Eu vivi aquilo tudo...Noite após noite...Eu vi a cor do sangue que espirrou do pescoço dela...Eu senti a faca penetrando na carne dela...e na minha...
       _ O que você sonhou?
       _ Eu vi o futuro...como se fosse o presente...Eu senti o tempo acelerar a achei aquilo normal...Eu vivi a assinatura dos papéis que formalizavam a adoção...Eu vi a felicidade no rosto de Stella e das garotas...Eu vi o brilho nos olhos daquele menino...Nosso novo filho...Durante muito tempo ele foi o centro das atenções, todos nos invejavam, éramos uma família plenamente feliz...O menino cresceu, aprendeu a falar, foi à escola, crescia cada vez mais lindo e parecido com um anjinho...Foi na escola que a coisa começou a acontecer...Apesar de ter de nós, os melhores ensinamentos, mostrava ser um menino mau...Por qualquer motivo, machucava seus coleguinhas, mentia, fazia intrigas, buscava colocar as pessoas umas contra as outras...Nós achávamos as queixas que vinham da escolinha, exageradas...Aquele não podia ser o nosso anjinho...Ele era tão calmo, tão amigo, em casa...Ele foi expulso de todas as escolas que freqüentou e, conforme crescia, já mostrava em casa, de que matéria era feito...Ele agredia as irmãs com violência, por qualquer motivo, bastava ser contrariado...Uma vez, machucou Aline tão seriamente que ela teve de ser socorrida no hospital e eu, cego de ódio, bati naquele menino pela primeira vez...Bati muito, muito, já o odiava...E ele tentou reagir, o que aumentou meu ódio e minha violência...Ele só parou de lutar quando viu que, sendo eu, mais forte, acabaria por matá-lo de pancadas...
       E assim ele foi crescendo, um garoto insuportável, violento, agressivo e egoísta; apenas a minha força bruta ele respeitava...Não sei como mas, fomos levando a vida desse jeito e ele tornou-se um pré adolescente e depois, um adolescente que não ia mais à escola, que fumava, que bebia, que drogava-se...Passou a fazer parte de uma quadrilha de delinqüentes especialista em surrar crianças mais novas...Eles mataram um menino, durante uma surra...Eles destruíram o corpo de um menino de doze anos durante um “acerto de contas”...Não foi difícil para a polícia apurar a culpa do linchamento e o maldito rapaz foi detido, foi a primeira vez, de muitas...Como era menor, logo foi liberado e apenas nós, sua família, fomos responsabilizados por seus atos de violência...Naquela noite, eu investi contra aquele criminoso, disposto a espancá-lo até a morte mas ele, agora não mais uma criança e sim, um rapaz forte e hábil na briga...Ele pegou um garfo que estava em cima da mesa e atravessou meu braço com aquilo, fugindo depois...
       Precisei ser internado em um hospital, tamanha gravidade teve o ferimento que aquele maldito me infringiu...Na verdade, dor mesmo, eu não sentia pois, era como se um filme estivesse passando para mim só que, estando eu, dentro dele...Nunca mais o vimos, ele desapareceu completamente de nossas vidas e eu não vou dizer que lamentei isso...Passado algum tempo e, julgando eu que aquele rapaz era uma página virada na história de minha família, fui com ela para umas férias, na fazenda que tenho...ou tinha, sei lá, não importa mais...Fomos lá e, após alguns dias de paz e diversão, precisei voltar à cidade para continuar um negócio que ficara iniciado quando entrei em férias...Eu ficaria fora três dias, não mais que isso e, pouco antes de eu viajar, Aline me pediu para ir junto...Ela não gostava muito da fazenda, nunca fora muito fã da vida na roça, achava aquilo muito chato e eu sabia disso...Concordei com o pedido e até gostei de ter uma companhia durante as quase sete horas de estrada que enfrentaria...Fomos conversando, cantando e fazendo piadas...a Aline sempre foi uma garota muito especial para mim...E chegamos na cidade e em casa, já de noite e, preparamo-nos para passar a noite; logo no dia seguinte eu iria tratar dos negócios e Aline iria ficar com suas amiguinhas e seu namorado durante o tempo em que ficássemos por ali.
       Tarde da noite eu, ainda sonhando –sonhando dentro de um sonho- senti a pressão da lâmina em meu pescoço e algo que deveria ser, dor...Acordei assustado mas não podia me mover...O “anjinho” estava com o joelho em cima de meu peito, imobilizando-me e encostava em meu pescoço, a lâmina afiada de uma das facas da cozinha, a maior delas...Perguntei àquele demônio o que ele queria de mim e ele disse que, estando eu fora, viera passar uns dias na casa que também era sua mas, com surpresa, notara que eu retornara com uma de suas irmãs...Planejara tudo na hora: iria levar o conteúdo do cofre, que havia naquele quarto e sumir de minha vida e do resto da família, definitivamente...Sentindo ainda o contato do metal da faca contra minha garganta, não acreditei nele e neguei-me a revelar a combinação...Dentro do cofre havia jóias de valor altíssimo, maços e maços de notas de moeda estrangeira e muito mais coisas de grande valor , não daria tudo àquele canalha “de mão beijada”, apesar de não ter a menor condição de argumentar...Disse-lhe que me matasse logo porque eu não dar-lhe-ia nada e, mandei que fosse direto para o inferno...Mas ele parecia já saber que essa seria a minha reação e continuou com seu plano sujo...Afastou-se da cama e apontou para mim, o revólver que eu mantinha escondido na casa, para me defender...Mandou que eu me levantasse e fosse até a sala, o que fiz, querendo ver onde aquilo iria acabar...E, ao chegar na sala, senti como que meu coração ameaçasse parar, tamanho foi o choque recebido!
       No meio da sala iluminada, sentada em uma cadeira, amarrada, amordaçada...nua e com o rosto e corpo coberto de riscos sangrentos, estava minha filha Aline...Aline por quem eu tinha um amor todo especial...Aline, tão nova e tão madura e responsável, a ponto de já namorar um garoto bem mais velho do que ela...Eu era contra tal namoro mas, fazia “vista grossa” para aquilo, apenas para não contrariá-la...Ali estava ela, machucada, ferida por aquele monstro, que já fora seu irmão...Ele tinha um ódio especial por ela, era quem mais maltratara quando sua verdadeira natureza revelou-se...Ao ver aquilo, quando dei por mim, estava de volta ao quarto, abrindo o cofre e retirando todo o seu conteúdo, lançando tudo ao chão enquanto, em prantos, pedia por piedade para minha filha, implorava por ela, não sabia o que dizia, estava fora de mim...O “coisa ruim” apenas juntava o que eu lançava ao chão, sempre com o revólver apontado para mim, com um sorriso obsceno no rosto...Tive a certeza, então de que ele estuprara Aline antes de a torturar como o fizera...Eu estava cego de ódio...e de medo...Temia por Aline, pedia por sua vida...Depois do saque, o miserável e eu, voltamos à sala e ele andou em direção à porta da frente, para alívio meu...Mas logo fez o que iria fazer de qualquer modo: Voltou para junto de minha filha, levantou-lhe a cabeça por trás, expondo seu pescoço e, sem a menor hesitação, degolou a menina em minha presença!...sua cabeça pendeu para a frente, presa ainda pela coluna enquanto um mar de sangue brotava do horrível ferimento...Investi como um louco, disposto a matar aquele monstro com as mãos nuas mas, recebi em cada uma das pernas, um tiro, desabando no chão sem poder mais andar...Meus dois braços foram os alvos de outros dois tiros e fiquei totalmente imobilizado...O “Anjinho”” então, agachou-se diante de mim e começou a falar e a falar e eu não entendia nada mais do que ele dizia...Com a faca, ele começou então a me mutilar, com prazer e calma, enquanto ia falando e falando e eu o sentindo cada vez mais distante, mais distante...Foi quando consegui emitir um berro além das forças que eu tinha e, afinal, acordei...
      _ Aquele foi o início de meu fim...Arrasado pelo pesadelo, não comentei nada com ninguém, desconversei, dei desculpas...Mas achei que fora apenas uma vez e que aquilo ia parar por ali mesmo...Como eu me enganara...

       Buscando controlar-se e não sucumbir à dor, aliviado que estava começando a sentir-se por dividir seu segredo, Ivan prosseguiu, deixando apenas que as lágrimas viessem fartas a seus olhos exaustos.

       _ Como eu me enganara...O pesadelo repetiu-se, noite após noite, da mesma forma, com os mesmos detalhes...Durante o sonho eu nada sabia do que aconteceria e vivia tudo de novo mas, ao acordar, percebia que  a coisa repetira-se e assim foi, até um ponto além do que eu poderia suportar...Tive a certeza então, de que aquilo não era apenas um sonho mas...um aviso...Aquilo iria acontecer de verdade e com todo o horror, se eu levasse aquela adoção em frente, eu tive plena certeza disso mas, não podia contar a ninguém, era absurdo demais...
       _ Mas então, não seria apenas o caso de desistir da adoção?...Desistir e esquecer o assunto?...
       Ivan sentiu que uma grande paz descia sobre ele, naquele momento porque, sua querida Lúcia parecia acreditar em sua história fantástica...Ele prosseguiu então...quase feliz:
       _ Foi isso que decidi fazer, tão logo pudesse...Desistiria da adoção, inventaria uma desculpa para a família e os meios de comunicação e recuperaria minha paz...Ledo engano...Durante a segunda visita eu nada pude fazer na frente de toda aquela gente, fiquei bloqueado, achei que uma cena assim não iria pegar bem...Resolveria o caso no dia seguinte, talvez, apenas eu e a diretoria do orfanato, o juiz de infância, não sei quem mais...Segui com a farsa e segurei nas mãos a criatura que iria desgraçar minha vida e a de minha família, no futuro...Desejei nunca ter encarado aquele rosto de anjo que abrigava um demônio adormecido e, após toda aquele sofrimento, voltei para casa, achando que, em breve, livrar-me-ia dos pesadelos mas, o que aconteceu foi que, apenas, eu tive a segunda revelação...Tocar naquela besta infernal, esse era o veículo para as revelações virem a mim, durante a noite...E se a primeira visão foi o que eu acabei de contar, a segunda foi...muito pior...
       _ Meu Deus, Ivan!...Como foi a segunda revelação?...
       _ Eu me vi, desfazendo a adoção e recebendo em troca, a fúria de minha família e o assédio da imprensa, diante de tão inesperado gesto...Suportei o tempo enorme que minha família me pôs “no gelo”, em represália à decepção de não ter mais, no seio de nossa família, aquela criança supostamente angelical...Suportei o ar de revolta de minhas filhas, suas más criações para comigo, suportei, mesmo, as ameaças de separação que Stella jogou em minha cara, por diversas vezes...Mas não arredei o pé por nem um segundo sequer, de minha decisão e nem a expliquei a ninguém...Tornei-me uma torre de obstinação e impenetrabilidade, fosse para minha família ou para fora dela, a vida de Aline valia, para mim, muito mais do que qualquer contratempo a que viesse a ser exposto, minha filha viva valia qualquer injustiça que eu viesse sofrer, disso eu tinha certeza.
       Eu vi, então, no orfanato, as lágrimas de decepção e revolta que vieram aos olhos azuis do anjinho, quando ele soube que não seria mais adotado...Vi o modo como a imprensa explorou o caso e suas repercussões, para mim, em meu sonho, grandemente benéficas...Com minha desistência da adoção, era de se esperar que um bando de famílias, ávidas pela posse do menino, “pulasse sobre ele”, pleiteando a adoção...Mas, devido ao modo como a mídia tratou a novidade, uma onda de desconfiança varreu lares e famílias e ninguém quis mais adotar o menino...Acharam todos que “onde havia fumaça, havia fogo”, se alguém que empenhara-se como louco, para ter o menino em sua casa, desistira sem mais nem menos da adoção, era porque, motivos havia e, esses motivos inconfessados, puseram a todos com “o pé atrás” e ninguém mais quis saber do anjinho...
       Ele cresceu uma criança triste e solitária, não brincava mais, não sorria, não comunicava-se como antes, não era mais o menino alegre e iluminado de antes, perdera totalmente seu brilho e, por conta disso, um ou outro tablóide ainda me atacou, chamando-me de “destruidor de ilusões de uma criança”, o que não sensibilizou, contudo, ninguém, eu em especial que, mesmo às turras com minha família, estava aliviado por saber que outros não sofreriam o que eu iria sofrer no futuro, caso levasse a coisa adiante...
       O anjinho ficou mais uns três anos no orfanato, incomunicável, até que, certo dia, de lá, fugiu, tomando rumo ignorado...A imprensa cobriu superficialmente, a fuga pois, o garoto, agora com cerca de sete anos, já não despertava muitas atenções...Durante anos, não ouviu-se mais falar dele e a vida seguiu em frente...Até que começaram a aparecer as primeiras notícias...As notícias de sua nova vida...Após sua fuga, o menino de olhos azuis e cabelos louros, viveu entre mendigos e marginais...Aprendeu a roubar, a ser agressivo para defender-se...Viciou-se em drogas, fumava e bebia desde muito cedo...De pequenos furtos, passou a assaltos à mão armada e, quando tinha pouco mais de nove anos, cometeu seu primeiro latrocínio, o primeiro de uma série que pareceria não ter fim...Já não era mais “O Anjinho” e sim, “O Demônio Louro” que adorava matar gente, durante seus assaltos e fora deles...Aos dez anos, já era o líder de uma quadrilha por demais cruel, especialista em assaltos sangrentos, extorsão, tráfico de drogas e seqüestros...Todos agora, sabiam quem ele era mas, a polícia jamais conseguiu colocar-lhe as mãos em cima, ele escapava de qualquer escaramuça armada contra si enquanto ia deixando em seu caminho, um rastro de sangue e destruição
       A imprensa marrom ainda tentou colocar em minhas costas, a culpa pela transformação de um anjo em um diabo mas, tal argumento não “colou” e sim, um outro, segundo o qual, eu havia visto o mal naquela criança e a repudiara por isso...Passei a ser então, o herói da vez e, pelos jornais, as famílias agradeciam a mim, o fato de eu haver aberto os olhos do mundo para que tipo de gente, o anjinho era, de fato...Em minha família porém, apenas a doce Aline, agora com dezessete anos de beleza, juventude e sabedoria, ficou do meu lado, convencida de que eu salvara nossa família das garras de um monstro...” Quem é mau, já nasce feito, pai” –dizia-me ela-....”Cedo ou tarde, esse menino ia-se acabar virando contra nós”...E eu, apenas eu, sabia o quanto disso, era verdade.
       O anjinho, ou “demônio louro”, continuou seu rosário de perversidades, sendo sempre seguido de perto por toda a mídia, que nunca tivera conhecimento de alguém tão cruel e desumano e, com tão pouca idade para isso, nos anais da história criminal local....Eu estava aliviado, livrara minha família daquele monstro, apenas seguindo minhas intuições e, devido à influência benéfica de Aline, voltava a ser tratado com o antigo carinho, pelos meus, após alguns anos de mal-entendidos...E a vida seguiu assim, sem maiores problemas...até que aconteceu aquela nossa viagem à fazenda...

       Foi uma viagem comum, de férias, como tantas outras...Desta vez eu não precisaria ir à cidade resolver pendências e tinha três semanas, apenas para relaxar e curtir a solidão das distâncias rurais...Mesmo Aline que, ao contrário da irmã, não gostava da roça, parecia bem e chegara-se muito mais a mim, após a revelação de, quem de fato era, o anjinho...Estávamos felizes, com a dose certa de conforto e isolamento, lidando com gente simples e boa, do campo e eu apenas lamentava o que, para mim, era um período demasiado curto para repouso e distração...O tempo passava preguiçosamente, Stella saía de um período de crise e, quase voltava a ser a companheira que sempre fora, Jacqueline, adepta do isolamento, gastava os dias em passeios longos, andando a esmo, mergulhada em seus pensamentos e planos, Aline, sempre a meu lado, começava a dividir segredos seus, comigo...Falava de amor, de sexo...de decepções com o namorado que a queria apenas como amante, o que recusara, desistindo da “peça”...Eu contava-lhe histórias de minha mocidade, nada muito vibrante mas, minha filha predileta parecia adorar ouvir-me, assim como, minha companhia...Estávamos bem.
       Um dia, Jacqueline saiu a passear e não voltou...Ao cair da tarde, como loucos, eu e o pessoal da fazenda, varríamos cada centímetro de chão à sua procura, sem sucesso...Desesperado, chamei a polícia e uma busca ainda mais rigorosa foi feita mas...nada do paradeiro de Jacqueline...Eu cheguei a pensar que ela fugira de nós, por algum motivo secreto afinal, ela sempre foi muito misteriosa e reticente...Decidi então, ficar por ali até encontrar a menina e a polícia retirou-se, indo fazer suas investigações, ficando eu, Stella e Aline, as duas inconsoláveis, aguardando o que poderia acontecer...
       Três dias, Jacqueline ficou desaparecida...três dias de tensão e desespero, três dias que culminaram na mais terrível tragédia que poderia nos acontecer...Em uma noite, estávamos, eu e Stella, na sala, vendo televisão mas, sem ver, ainda pensando em nossa filha desaparecida, enquanto Aline, na varanda da casa, mesmo enfrentando a sanha dos pernilongos, sentada em uma cadeira de balanço, olhava as escuridões à distancia, buscando ali, o vulto da irmã, talvez...Estávamos assim quando, um ruído, atraiu a atenção, minha e de minha mulher...Voltamo-nos para ver o que era e, o que vimos, provocou em nós um indizível horror, arrancando da garganta de Stella, um grito descomunal, de pânico!
       Diante de nós, vimos Aline, amordaçada e subjugada por um homem de aspecto monstruoso, olhando para nós com os olhos arregalados...Junto a eles, outros homens, muitos, talvez uns dez, invadiam nossa sala, demonstrando logo que não vinham-nos visitar cordialmente...Aqueles eram bandidos, assaltantes e seus motivos para estarem ali, estampavam-se em suas faces hediondas...A comandar tamanha súcia, logo notamos...um menino...muito novo, com cabelos louros, desalinhados, os olhos muito azuis e um corte ainda não cicatrizado que descia-lhe da testa e corria por todo o lado direito de sua face, indo morrer no queixo...Aqueles olhos azuis lançavam a nós, faíscas de ódio e loucura...A mesma loucura que o fizera assassinar, mutilar e aleijar muitos seres humanos, em uma senda horripilante de crime e maldade...Diante de nós, em todas as suas tétricas cores, estava o Anjinho...agora, Demônio Louro...
       Com um gesto de uma das mãos muito brancas, ele fez  virem a nossa presença, novos personagens, ainda não vistos, enquanto eu e Stella éramos mantidos sob a mira de várias armas, algumas de desmesurado calibre...E as novas presenças sacudiram-me, novamente e, com violência, o coração, enquanto, da boca de Stella, um outro grito partia, mais terrível do que o anterior:
       _ JACQUELINE!!!!
       Aqueles monstros expunham para nós o que, um dia, fora nossa amada filha...Mais pendurada do que em pé, Jacqueline tinha o rosto deformado por diversos hematomas, seus olhos, roxos, estavam cerrados, sua boca era um só inchaço, ela apanhara barbaramente, desde que fora raptada, durante seu passeio...Estava praticamente nua, as roupas muito rasgadas deixavam ver generosas porções de seu corpo de menina e o sangue seco que marcava a parte interna de suas magras coxas, fizeram-nos ver o estrago que fora, ali, cometido...Estávamos em estado de choque, não sabíamos o que pensar...Víamos, diante de nossos olhos, nossas filhas, subjugadas, uma delas, seviciada ao extremo, agredida com brutalidade...E já desconfiávamos do modo como tudo aquilo terminaria...a um gesto do anjinho, aqueles patifes lançaram-se contra mim e eu fui agredido em meu rosto e corpo, com socos, bofetões e pontapés...Como se aquelas bestas humanas sentissem ódio de mim, sem ao menos, conhecer-me...Após tamanha surra, fui amarrado em uma cadeira mas, não puseram-me mordaça...Eu estava semi inconsciente, não conseguia gritar ou pedir socorro...Mas estava lúcido o suficiente, para ver o que aqueles seres, vindos do pior dos infernos, fizeram com Stella e Aline...Na minha frente, eles despiram as duas, como fizeram com Jacqueline e atiraram-se sobre elas, como urubus à carniça...E elas foram estupradas por vários homens, ao mesmo tempo, em uma orgia de sangue e selvageria...As duas gritavam muito e eram, por vezes, silenciadas com socos, dados com vontade...Em breve, elas estavam no mesmo estado em que encontrava-se Jacqueline, que passara por aquilo por três dias e que fora jogada ao chão, ali ficando, sem poder andar e eu vi, escorrerem por sob a mascara de sangue e tecido lesado, que eram seus olhos, lágrimas e mais lágrimas...Impassível, olhando semelhante festim dos diabos, ele próprio, novo demais para participar de semelhante orgia, o anjinho aguardava...Quando aquela caterva de monstros julgou-se satisfeita em suas bestialidades, juntando as três moças em um grupo, a um canto da sala, como verdadeiros trapos humanos, as três igualmente descompostas seviciadas e machucadas, a atenção do chefe menino daquela quadrilha de sádicos voltou-se para mim...E ele acusou-me de tê-lo transformado no que era...Lembrou a infância solitária, passada no orfanato e nas ruas, aludiu a mim o abandono em que fora  jogado, culpou-me por tornar-se um marginal...E declarou que nossas contas seriam acertadas naquela noite mesma...Minha esposa e minhas filhas receberam permissão para cuidar-se e foram levadas para dentro da casa, sendo trancadas no banheiro maior...Até fiquei aliviado com aquilo, talvez elas, até escapassem com vida daquele horror...Quanto a mim...
       Horas passaram-se enquanto aqueles monstros ficaram vagando pela casa, avaliando nossos pertences e fazendo uma coleta geral no que havia de valor, sendo tudo reunido a um canto, apenas aguardando o veículo que deveria chegar para transportar aquilo tudo...Durante esse tempo, esqueceram-se de mim e eu até acalentei uma esperança de, eu próprio, sair vivo daquele horror...Lá pelas tantas, o ruído inconfundível do motor de um caminhão ressoou do lado de fora da casa e uma parte daqueles criminosos começou a levar nossas coisas para fora, com tempo e calma...enquanto isso, a anjinho, a meu lado, destilava um pouco mais de seu veneno, contra mim, lançando-me novas acusações e começando, ele próprio, a atacar-me...Torturou-me com uma faca, fez desenhos em meu rosto e peito, com a ponta de metal, enquanto falava e falava...Eu, completamente desesperado e já, vítima de incontinência, urinava-me todo, implorava por seu perdão, chorava como um covarde, temendo novamente por toda a minha família e, meu desespero apenas alimentava aquela alma distorcida, de desejo de vingança...Enquanto os outros trabalhavam, ele ofegava sobre mim, como em um crescendo, deixando que a loucura e o ódio o incendiassem mais e mais até que, com um berro fino, ordenou a todos os que ali estavam.
       _ Chega!...Vamos terminar isso agora mesmo!...Tragam as três putas...pra cá, agora!
       Minha mulher e minhas filhas, lavadas, parcialmente medicadas e enroladas em toalhas, foram trazidas de volta, aos gritos e pedidos de piedade...As toalhas foram removidas, seus corpos expostos e uma nova sessão de estupro e violência teve lugar, participando dela, desta vez, até a combalida Jacqueline...O anjinho gritava, possesso.
       _ Acabem com elas! Vamos!...Acabem com essas desgraçadas...
       As três já não gritavam mais, não debatiam-se ou exprimiam qualquer reação enquanto sofriam de toda a sorte de violências sexuais e físicas...Stella foi a primeira a desmaiar e, a um comando do anjinho, ela foi arrastada para o centro da sala e dois ou três daqueles monstros passaram a destroçar seu corpo com as pesadas cadeiras de madeira, até que a matassem de forma horrível e violenta, diante de meus olhos...Eu berrava como um porco sangrado, em puro desespero e isso, decerto, dava enorme prazer ao menino louco a meu lado...a um novo comando seu, um dos capangas veio de longe e, levantando o próprio corpo do chão, em um ágil salto conhecido como “voadora”, atingiu-me o queixo com os dois pés, calçados de botas com solas de madeira, lançando meu corpo longe...Eu já não gritava pois, não sentia mais meu queixo, a mandíbula fora quebrada...Novamente, eu não sentia dores devido ao fato daquilo ser um sonho mas, as impressões más que eu sentia, o desespero, a pena de ver o que as meninas sofriam, tudo isso era muito real...O anjinho subiu em meu peito e, encarando-me com seus olhos azuis, repletos de loucura, começou então a me castigar de verdade com a faca, visando meu fim...Ele enterrava a lâmina em meu peito, meu pescoço, uma duas, dez vezes...Eu via meu sangue espirrando em grandes porções e via a imagem daquele assassino desvanecer-se, os sons ficando longínquos... enquanto fazia o serviço, o anjinho gritava, de modo cada vez menos audível.
       _ Morre, desgraçado!...Morre, maldito!...Filho da puta!, Morre, morre, morre!...
       Um berro descomunal, ainda pior do que o anterior, acordou-me na madrugada, assustando toda a família e deixando-me em estado deplorável...Eu agora sabia tudo...Ao tocar naquele monstrinho com cara de anjo, eu unira a minha alma à dele, de modo definitivo....Se o adotasse, eu e Aline, morreríamos...Se não o adotasse, seria toda a família que pereceria em suas mãos...O que fazer?...Convivi com tal dilema e com os sonhos até a próxima visita a ser marcada...Quase não dormia, tomava calmantes mas, minhas horas de sono resumiam-se a breves cochilos...E eu pensava e pensava no que fazer, tentava chegar a alguma conclusão...Eu odiava com toda minha alma, aquele monstro, aquela criatura inumana que mataria minha família e a mim, se permanecesse viva...
       Era isso...Ela não poderia permanecer viva...Eu devia isso a Stella, a Aline, a Jacqueline...A toda a humanidade...quando, afinal, a terceira visita foi marcada, eu já sabia o que fazer...e fiz...Quando vi o monstrinho correndo para mim, com os braços levantados eu não estava em estado de supressão de sentidos...Eu sabia o que estava fazendo, era a única alternativa que tinha e, me acredite Lúcia...Eu gostei de matar aquela coisa...Gostei do modo como sua cabeça desfez-se diante de mim...eu teria pisado naquilo, no chão, se tempo eu tivesse...Ao menos eu sabia que Stella e as garotas...viveriam...
       O final da frase foi quase inaudível e um aliviado mas arrasado Ivan, entregou-se novamente à dor e ao pranto, sendo abraçado por sua advogada e amiga que sussurrava-lhe docemente, à guisa de consolo...
       _ Eu sei, eu sei meu querido,...Mas tudo já passou...já passou....Elas vão viver...graças a você...elas vão viver...
       Após aquele encontro redentor, onde a verdade foi afinal, esclarecida, a advogada Lúcia ainda fez várias visitas a Ivan e eles conversavam muito sobre vários assuntos, inclusive, sobre a pena a ser cumprida...Uma vez, desentenderam-se e Ivan deixou Lúcia falando sozinha no pátio da carceragem, onde encontravam-se quando o assunto a ser tratado era mais privado entre os dois...Durante muito tempo, Ivan recusou-se a receber a visita da advogada mas, após muita insistência desta, ele acedeu em falar com ela, novamente e, parece que o que ela teria a dizer-lhe, esclareceria antigas divergências afinal, ele voltou a falar e aconselhar-se com ela, como fazia antes...


       A esse tempo, Stella Reinholdt e as filhas reconstruíam sua vida, fragmentada que fora, com o tresloucado ato do pai das meninas...Pouco falavam dele, enquanto Stella voltava a trabalhar e começava a ser o novo centro provedor da família...Inspiradas pelo exemplo da mãe, as duas garotas também pleiteavam seus empregos no concorrido mercado local...em decorrência disso, Jacqueline já estava praticamente contratada, como vendedora em uma butique de grife, no shopping center da cidade, onde agora a família Reinholdt vivia...Ela fizera até um trato com a irmã: se fosse mesmo, efetivada, dividiria o emprego com a mana, aproveitando o fato de que as duas eram idênticas...Assim, enquanto uma ia aprendendo como trabalhar, a outra poderia ir à praia em algum dia da semana, sem remorsos...Em uma semana, Jacque trabalharia quarta e sexta feira e Aline, terça, quinta e sábado...segunda feira era dia de folga e o domingo ficava vago, com a preferência para Jacque...Era apenas uma brincadeira entre as duas mas, poderia até funcionar...O salário, elas dividiriam, naturalmente...Parecia que as três Reinholdt encontravam seu rumo, após um período triste e tempestuoso, em que estiveram à deriva em um oceano de desgraças...Agora, com o carinho e a ajuda de parentes e amigos, tocavam suas vidas, truncadas, subitamente, por uma loucura cometida pelo pai das garotas...
       Na tarde em que Jacqueline teve confirmada sua contratação, ligou toda feliz para a mãe e esta foi encontrá-la no shopping, onde estava e lá, após tomarem um lanchinho, mãe e filha voltaram para casa...Apenas para encontrar um cenário de tristeza, protagonizado por Aline...A menina foi encontrada sobre o sofá debulhando-se em lágrimas, chorando como se sangrassem-lhe o coração, diante da tevê ligada, onde o noticiário da tarde justamente terminava...Alarmadas, temendo uma nova desgraça, as duas atiraram-se à pobre garota, perguntando o que havia com ela, o que sentia, porque estava daquele jeito...Mas Aline apenas chorava e chorava agarrada agora, à mãe e à irmã...Nada disse, não conseguia falar, estava em choque...Atingida por algo terrível demais, só conseguia buscar ajuda nos braços da mãe e da mana que, aflitas com aquilo, não sabiam mais o que dizer à inconsolável garota....Todo e qualquer clima de festa cessou naquela noite e os cuidados foram todos para Aline que, após o choro, caiu em uma prostração que chegava a pesar no ar ao seu redor...Em pouco tempo ela adormecia, sendo acalentada pela mãe, penalizada com seu estado, fosse qual fosse o motivo...
       Noite alta, Stella em seu quarto, menor do que o que dividia com o marido, na outra casa ( precisava vendê-la logo ) mas, igualmente acolhedor, terminava seu drinque ( hábito novo, adquirido após toda a desgraceira acontecida ) e ia deitar-se  ligando, então, a tevê do quarto, onde estava começando o jornal da noite...Já na primeira notícia do resumo do dia, uma estupefata Stella deixou cair o cálice que segurava, espatifando-o no chão, enquanto gritava, nervosa.
       _ Jacqueline!!! Jacqueline de Deus!!!
       _ Que é, mãe? –perguntava a filha que acabava de chegar, seguida pela irmã que, tão logo pisou no quarto, deu meia volta e sumiu-se corredor afora, chorando novamente.
       _ Jacque, minha filha! –disse a mãe com a voz alterada pela emoção-...Olha ali!...Olha ali!...Era isso!
       Jacqueline olhou para onde a mãe apontava – a tela da tevê- e, passado um momento de pura perplexidade, ela atirou-se nos braços de Stella, aos prantos, chocada com o que acabara de ver...Na tela do aparelho, acompanhadas pela voz sem emoção da locutora, repetiam-se as imagens da rebelião que estourara naquela tarde, na penitenciária da cidade tal, algo mais ou menos comum naqueles dias, não fosse o acontecimento de um trágico acerto de contas que estava mesmo para acontecer...A cena mostrava o telhado de um dos pavilhões, repleto de fumaça e de presidiários revoltosos, que dividiam seu espaço com uma moça de “tailleur” grená...Uma refém do bando...A advogada de Ivan Reinholdt, Dra. Lúcia!...Na beira do parapeito do prédio, dois corpos pendiam de forcas improvisadas...A rebelião dera o espaço suficiente para a execução de dois desafetos dos presos...Um deles, estava em condições físicas razoáveis, exibindo um cartaz que atestava o motivo de sua morte por parte dos colegas...Mas o outro corpo estava, literalmente, destruído...Estava coberto de chagas e marcas de queimaduras da cabeça aos pés...Uma das pernas exibia uma horrível fratura exposta na fíbula e perônio, havia vários pedaços de vergalhões de aço que atravessavam-lhe o tronco de fora a fora...E seu rosto, agora irreconhecível, não passava de uma máscara de sangue pisado, ossos fraturados e cabelos arrancados junto com o couro cabeludo...A câmera deu um breve close up naquilo enquanto a locutora dizia.
       _ Assim termina, de modo violento, a vida de Ivan Reinholdt, chamado “o monstro”, após o frio e calculado assassinato do menino conhecido como “o anjinho”, acontecido no dia tal do mês tal do corrente ano...
       _ É o teu pai, Jacque!...É O TEU PAI!!! –Stella agora gritava desvairada, saindo do quarto aos tropeções, levando consigo, a filha que chorava em desespero, rumo ao quarto das duas meninas, à procura de Aline...Fora esse, o motivo de sua prostração, ela vira a notícia à tarde e ficara como ficara...Como Jacqueline estava agora...Na tevê, uma entrevista com populares punha em evidência um varredor de rua, um homem humilde e desfavorecido pela sorte que, naquele momento, tinha uma impressão de triunfo nos olhos e na voz, ao expressar sua opinião.
       _ Ele mereceu...O desgraçado teve o que mereceu...
       A imagem daquele homem simples, manifestando o que toda uma cidade pensava, após conseguir que a vingança viesse depois da justiça, marcou aquela semana e, no programa dominical que misturava reportagens com variedades, aquele testemunho espontâneo foi novamente repetido após a reportagem que trazia novos detalhes sobre a rebelião na penitenciária, ainda no início da semana.
       _ Ele mereceu...O desgraçado teve o que mereceu...
      
*                   *                    *

       _ É...ele tem razão...Eu tive o que mereci...
       O homem abaixou um pouco o som do imenso aparelho de televisão, cuja tela ocupava quase uma parede inteira da sala e olhou para sua jovem interlocutora, encolhida no sofá confortável...Terminou ele, então, seu drinque ( um hábito novo e fácil de ser assimilado ) e decidiu que, naquela noite, não beberia mais...A moça no sofá também tinha uma taça nas mãos e bebericava prazerosamente dela...Ela olhou para ele, sentado em uma poltrona mecanizada que só faltava falar e perguntou:
       _ Como se sente na pele, carne e ossos de Efrahim Dolzani Menendes Salasar, Midas das comunicações e entretenimento, Barão da metalurgia, milionário, filantropo e criador de tendências?
       _ Muita coisa, não é?...Mas, também, com oitenta e seis anos nas costas.
       _ O que você queria?...Ele foi o único que achávamos que iria concordar em ceder sua vida e começar outra...Obcecado pela juventude como era, o velhinho só faltou beijar nossos pés, quando revelamos tudo a ele e fizemos nossa proposta...Precisava ver como ficou alegre...Nem importou-se em abrir mão de milhões e bilhões, disse que, começar tudo de novo seria o desafio dos desafios e, naturalmente, conforme envelhecer novamente, terá juntado uma outra fortuna, nós sabemos disso.
       _ Você me chamou de barão da metalurgia, líder de audiência televisiva ou coisa assim...mas esqueceu de enumerar...”Esposo da Doutora Lúcia Weiss”, competentíssima e corajosa profissional...
       _ ...Que durante algum tempo foi apelidada de “Advogada do Diabo” ou “Advogada do Monstro”...Aquele flagrante meu, no teto da penitenciária foi a gota d’água para o afundamento de minha carreira...Todos os jornais acusaram-me de ser sua amante e condenaram com veemência meu possível comportamento...
       _ ...Notícias que você fez questão de não desmentir.
       _ E precisava? –ela deu de ombros, graciosamente-...Isso é apenas uma fachada, minha função é bem outra, agora você também sabe disso...Que se danem todos, com seus julgamentos pré concebidos e seus rótulos...Agora eu sou milionária, ninguém esperava pelo meu súbito casamento com um velho rico e divorciado...
       _ “A voz do povo é a voz de Deus, minha cara”...O que eu fiz não tinha mesmo, perdão.
       _ Como não?...Deus, certamente já te perdoou, você nunca mais vai fazer algo semelhante...
       _ Não vou mesmo?
       _ Diretamente...é certo que não...
       _ Você precisava estar lá em cima, comigo, feita refém?...Não pensou que poderia morrer também?
       _ Eu já disse que precisaria estar diante de você quando tudo acabasse ou, não iria poder captar sua “essência” e ela iria perder-se no ar, diluir-se...Aí, você morreria de verdade...Era um risco, eu sei mas, minha função está pontuada de riscos...Mas eu tinha certeza de que nada de grave me aconteceria, o alvo daquela gente era você...Morto Ivan Reinholdt, a rebelião perdeu muito de sua força e a polícia me resgatou inteira...E você se esquece, meu devotado esposo que, foi você quem desejou acabar daquele jeito?...Eu me propus a dar um tiro no meio de sua testa, durante uma das visitas...Seria quase indolor e eu poderia até ser, ao invés da “Advogada do Diabo”, “A Redentora “ou “A Justiceira”...A desculpa já estava até armada...O anjinho seria meu filho, que eu não podia assumir, você o assassinaria por algum motivo, eu fingiria estar a seu lado e no momento certo...Bang! – e a bela lourinha apontou um revólver imaginário em direção ao mega empresário, disparando nele, um tiro hipotético.
       _ Muito rocambolesco esse desfecho...É certo que ia fazer as delícias da mídia mas, eu preferi mais o meu...curto e grosso...Você disse que eu poderia simplesmente fugir da prisão, tudo seria arranjado e facilitado mas...puxa...fugir...depois do que eu fiz...não achei certo para com a população indignada...Depois do que eu fiz, eles bem que mereciam a sua tão desejada vingança...E, sabe...Foi também um lance...sei lá...masoquista...De tanto apanhar até morrer, em sonhos, eu meio que desejava saber como seria na vida real...
       _ E soube, certamente...
       _ Quase...Foi tudo muito igual, eu não senti quando me laceravam, me queimavam e me atravessavam com vergalhões...Puxa, aquele pessoal sabe mesmo, vingar-se.
       _ Não suportaria vê-lo morrer em meio a sofrimentos, diante de mim, você não é nenhum Jesus Cristo...Ë comum para nós, o uso do anestésico que lhe dei para tomar...Muitas vezes precisamos cometer violências sérias durante o processo de “eliminação” e, quem morre, geralmente, não sabe o motivo, é quase uma vítima...Então, a eliminação é consumada sem dores...
      _ Seria assim com o “Anjinho”...
      _ Seria...Mas aquele pestinha estava muito mais “danificado” do que supúnhamos...Tinha uma percepção de nossa presença fora de qualquer limite...Quando percebeu que cercávamos sua casa, tratou de envenenar os pais para provocar uma “cortina de fumaça” e fugiu, pântano afora...Também, que gente mais anti social aquela...Que idéia, ir meter-se nos cafundós do mundo, em um casarão no meio de um pântano...Tão reclusa aquela gente era que, acredite, ainda não deram pela falta deles...Quando descobrirem que morreram, nenhuma associação do casal com o anjinho será feita...O parto foi feito em casa, pelo pai, ninguém foi informado...Mesmo nós, demoramos a encontrar a pista daquele “capeta”...Ele andou através de quilômetros e quilômetros e até perdeu parte das roupas durante o trajeto...Por pouco não morre durante sua rota de fuga, o que iria ser ótimo para nós...Mas, aquele casal de velhos o encontrou e cuidou dele...Coitada, a velhinha estava com câncer...Ao sabermos que estava no orfanato, com todo aquele estardalhaço da mídia, nós o localizamos mas, decidimos mudar de estratégia ou ele fugiria novamente, com conseqüências futuras tenebrosas...Aí entrou Ivan Reinholdt, executivo do ramo dos comestíveis, de família sólida e firmes princípios...Sem que soubesse...um dos “nossos”...Eu te procurei e, sem dificuldades, contagiei sua família com o desejo de adoção do “Anjinho” e, começamos então, nosso “jogo sujo”, para conseguir a guarda do garoto, a qualquer custo...Excessivamente auto confiante, ele não detectou nenhum traço de nossa presença por perto e, julgou-se seguro, com todo um futuro a frente...
       _ Um futuro de selvagerias e morticínios sem fim.
       _ Justo...
       _ Todos...todos...”nós”, chegamos a “este mundo” com nosso futuro garantido?
       _ Sempre...As famílias mais equilibradas e estáveis, com posses...Já que podemos escolher, escolhemos o melhor...
       _ Mas, as conseqüências...
       _ Podem ser horríveis e, por vezes, são...Quando não rastreamos com eficácia os “defeituosos”, eles escapam de nós, evoluem e, no tempo certo, agridem este mundo com sua maldade congênita...
       _ O anjinho escapou da “triagem’ e refugiou-se numa família de poucas posses e isolada do mundo...
       _ Foi...demoramos muito tempo para localizá-lo...Nem sempre somos bem sucedidos.
       _ Eu fiquei furioso quando soube que fui usado em um processo de “extermínio”.
       _ Eu já te pedi perdão mas, peço de novo...Quando te encontrei, algo diferente aconteceu...Eu me apaixonei por você, perdidamente...Isso me deu mais empenho para levar adiante nosso plano e, quando tudo estivesse consumado, eu podia te deixar apodrecendo na cadeia ou à mercê da primeira rebelião...Mas não pude...Eu te amava...e eu te amo, demais...Eu precisava te contar tudo, te tirar de uma vida em que te jogara, por força de um trabalho...Precisava saber se o processo correra conforme o previsto...Não podia te deixar ser apenas um “dano colateral”...Eu te queria pra mim...Como a Stella jamais te quis...Eu precisei me desesperar de verdade, pra te acordar...E eu soube de tudo...Os pesadelos que eu provoquei funcionaram conforme o previsto, você entendeu todas as mensagens passadas, sem desconfiar de motivos...
       _ Como você provocou os pesadelos?
       _ Lembra das vezes em que fui à sua casa para discutirmos nossa estratégia?...Nunca deu pela falta das chaves da porta?
       _ As chaves...
       _ Eu mandei fazer cópias e depois devolvi tudo...De madrugada eu entreva, noite após noite, em sua casa e ia até seu quarto...Aumentava o volume de sono de você e de Stella e introduzia os pesadelos, saindo logo a seguir...Não fui descoberta, fiz bem a coisa.
        _ Se você precisava captar a “essência” do anjinho, quando ele “empacotasse”, porque não estava no orfanato, no momento do crime?...Eu pedi a sua presença e você só apareceu mais tarde...muito mais tarde...Deixou a “essência” diluir-se no ar, conforme disse que podia acontecer?
       _ Não, isso nunca!...Aquela era uma energia degenerada, não iria dissipar-se nunca...Iria, isso sim, procurar um novo “hospedeiro” no meio daquele povo reunido e iria impor ao coitado ou coitada, uma crise de dupla identidade terrível, até que “matasse” a pobre criatura, por dentro, assumindo sua personalidade...Aí, seria impossível para nós, rastrear o “Anjinho” em um organismo humano...Tudo seria em vão, todo aquele show de horror e morte...Eu estava lá, um pouco modificada, podemos fazer esse tipo de coisa...Eu era a assistente social que falou com você, momentos antes e, a quem você tomou como refém...Achei que, se aparecesse por lá como a Dra. Lúcia Weiss, chamaria uma desnecessária atenção sobre mim...Você talvez escolhesse um outro refém, poderiam advir novas tragédias...Não podíamos arriscar a vida de seres humanos...
       _ Quem é você, Lúcia Weiss?
       _ Alguém que te ama e que será tua Lúcia até o fim da vida...Alguém que não te vê como Efrahim Salasar, uma mera “casca” mas, ainda como Ivan Reinholdt, a primeira impressão tua que gravei, como um homem...Um homem bom que puniu-se pelo mal que causara, sem arrepender-se, contudo e, com razão...Um homem que, em sua nova vida, ainda viverá muito e saberá administrar a fortuna e a filantropia do velho Efrahim Salasar, mesmo porque, em breve, será apenas ele, em sua mente mas, para mim será...Ivan ou Efraim...o meu homem...que, ao “morrer” deixar-me-á como única herdeira e, de posse de sua “essência”, de modo a ser “colocada” em algum corpo mais jovem, que eu escolherei quando chegar a ocasião...algum tempo após minhas “lágrimas de viúva”, é claro.
        O velho milionário ergueu-se de sua poltrona e sentou-se ao lado da esposa e a beijou na boca, longamente, obtendo dela, uma entrega total...Logo, explorava um pouco de seu corpo jovem e firme, por sob o robe que ela usava mas...estava muito desejoso de falar, naquela noite...Sem retirar a mão do pequeno busto, todavia, retomou a conversação.
       _ Como é o nosso mundo? –perguntou e uma excitada mas, contida Lúcia respondeu.
       _ Caótico...instável...Eu estive lá e vi...Você não iria gostar...
       _ Há quanto tempo...”gente como nós” tem sido enviada a este mundo?
       _ Acho que, desde que o primeiro homem teve consciência de sua individualidade...Somos estranhos, simulamos bem a humanidade mas...somos invasores...Bem intencionados mas, invasores...
       _ O amor, é uma simulação também, para nós?
       _ Não...todas as emoções primárias e os instintos, são verdadeiros entre nós...como nos humanos...amamos, odiamos, somos solidários...
       _ Esses...”defeituosos”...chegam com instintos e emoções alterados...
       _ Apenas a parte má, alterada...Eles tem um gosto por destruição exacerbado e incontrolável...Alguns dos que escaparam de “caçadores” como eu, provocaram males sem fim à humanidade...Guerras, genocídio, extermínio...crimes contra os animais, o meio ambiente...catástrofes sem conta...
       _ Quero crer então que, a “maldade humana” não é inerente a ela...é um “vírus ruim”, trazido por alienígenas...
       _ Não exagere, o ser humano tem, sim, um lado mau, nascido com ele...Mas quando a maldade manifesta-se sem qualquer freio, quando é exercida com prazer, aí sim, a culpa é nossa...Quando um ser humano é tão destruidor que não pode ser comparado nem a um animal selvagem, quando a maldade suplanta quaisquer limites...Aí, com certeza, a culpa é nossa...Foi causada por um organismo com defeito, que não foi contido e neutralizado a tempo...
       _ Porque precisamos vir à Terra?
       _ Instinto de sobrevivência...Nosso universo é muito instável e nossa vida, extremamente curta ali...Então, através dos milênios, quem pode vir e tem condições...vem mesmo.
       _ O que eu sonhei...digo...os sonhos com o “Anjinho”...poderiam ser verdade, um dia?
       _ Fatalmente seriam...Eu acho que não “carreguei demais nas tintas”, apenas para convencê-lo...Aquilo poderia ser real e, sem dúvidas, seria...Não apenas para a família Reinholdt mas, para centenas de milhares...milhões de pessoas...Nosso “Anjinho” era especial, estava degenerado até as últimas conseqüências, impossível de recuperação.
       _ O que aconteceu com ele...com a “essência “ dele?
       _ Foi mandada de volta para sua origem e, de lá, não poderá mais sair...Até que dissipe-se naturalmente e deixe de existir...Eu temo apenas uma coisa...
       _ O que?
       _ Algo que aconteceu, após o sepultamento dele...Você estava preso, não soube do caso mas eu guardei a notícia...Saiu em um bando de jornais...Algo a ver com resíduos não detectados...resíduos que poderão contaminar, envenenar pessoas...modificar pessoas...Eu vou buscar...
       Lúcia tentou desvencilhar-se do abraço de seu amor mas este, por pilhéria deixou que fosse mas prendeu com firmeza, seu robe azul claro...Sem ter dúvidas, ela desvencilhou-se daquilo e correu através da sala da imensa mansão, rumo aos quartos, nua em pelo, como gostava às vezes, de fazer, durante o curto período desde que contraíra núpcias com o velho empresário, enquanto este observava seu corpo jovem e cheio de vida, em pleno movimento...Logo, ela voltava com recortes nas mãos, que mostrou a seu amado, enquanto compunha-se um pouco, agora, um pouco envergonhada...Efrahim Salasar, ainda com as lembranças de Ivan Reinhold na mente (  com o tempo, elas desapareceriam e ele seria, apenas o velho Efrahim, Lúcia dissera-lhe ) olhou para tudo aquilo, atenciosamente e concluiu ao final do exame...
       _ ...É...dá mesmo no que pensar...
       Em suas mãos, duas notícias de jornal estavam.




ROMARIAS AO TÚMULO DO ANJINHO PROSSEGUEM COM CADA VEZ MAIS INTENSIDDADE

Diversos milagres já foram atribuídos ao pequeno mártir, assassinado friamente por cruel assassino às vésperas de sua adoção...O sepultamento da pobre criança atraiu milhares de pessoas e, ainda por ocasião do féretro, os primeiros relatos de milagres principiaram a ocorrer.





ESTRANHA FLOR TEM MILAGROSOS PODERES DE CURA

     Nascida ao lado do túmulo da criança sem nome, de prováveis quatro anos de idade, conhecida como “ O Anjinho “, brutal e covardemente assassinada por louco homicida, uma estranha flor, de uma espécie ainda não catalogada, tem provocado controvérsias nos meios médicos. Afirma-se que um chá, produzido a partir das pétalas da flor tem sido a causa da cura de vária doenças, segundo testemunhos diversos de pessoas que fizeram uso de semelhante bálsamo. A ciência ainda não pronunciou-se mas, é certo que tal infusão à parte seus supostos poderes curativos, não causa o menor mal ao organismo humano...Enfermos tratados com o chá, recomendam-no sem restrições e, mudas da tal flor já foram cultivadas por muitas pessoas, segundo elas, para espalhar mais e mais, seus benefícios...Segundo o povo que acredita em milagres e curas fantásticas, esta é a prova inequívoca de que ANJOS NÃO DEVEM MORRER E NÃO MORRERÃO JAMAIS.
celso dyer
Enviado por celso dyer em 17/12/2017
Alterado em 18/12/2017
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.


Comentários