celsodyer
contando histórias
CapaCapa
TextosTextos
FotosFotos
Livro de VisitasLivro de Visitas
Textos

O negrinho

       Era um menino negro, bem retinto...Era bastante pequeno e sua idade, incerta mas, seguramente, era muito novo para sofrer, como sofria...De corpo mirrado e cabeça grande em relação ao corpo, indicava ter todos os sinais da subnutrição...Vivia largado, sem ter para onde ir, onde dormir, o que comer direito...Tanto maltrato em cima de um corpinho tão jovem e frágil, podia ser visto em seu rosto triste, de carvão, em sua seriedade constante...Ele jamais ria, o que era uma pena afinal, seus dentes, grandes e brancos, eram muito bonitos...E, em seus olhos, redondos e muito limpos, um quê de profunda tristeza, mesclava-se a uma impressão de raiva e revolta...Vivia assim, ao léu, naquela fazenda, onde nascera e onde seu pai trabalhara e sempre cuidara do filho, sem a mãe, com muito desvelo...Um dia, seu pai fora morto, assassinado e, a partir daquele dia, sua vida mudara muito e, para pior...Ninguém cuidava dele por ali, o que comia era o que conseguia, através de alguém que apiedasse-se mais de seu estado ou, catando restos de refeições de outrem...Mas não reclamava, não chorava sua dor de modo a desafogar-se e, nas poucas vezes em que falava com alguém ou respondia a alguma pergunta, o fazia sempre, em tom baixo de voz e com os grandes olhos, igualmente baixos...Alguns dos peões da fazenda gostavam de pilheriar com o menino e seu triste estado e, alguns poucos, mesmo, gostavam de maltratá-lo, como se maltrata um bicho pequeno e doente, que não é capaz de defender-se...Dentre os poucos que o maltratavam, destacava-se um tal de Abissolon, um tipo troncudo e baixote, metido a forte e valentão, com testa curta, barba hirsuta e uma única sobrancelha a enfear-lhe ainda mais, o rosto mal encarado...Pois o Abissolon tinha especial predileção por fustigar o menino com o rebenque , chegando algumas vezes – sabia-se lá qual o motivo- a bater nele, seriamente, deixando seu corpinho escuro e eternamente mal coberto, cheio de riscos vermelhos...Uma única pessoa tratava o menino com um mínimo de consideração: A velha, lá da curva do rio...
       Uma mulher misteriosa, negra como o menino e com ares e fama de feiticeira...Sempre habitara o mesmo casebre, construído à beira da curva do rio que cortava a fazenda, ainda dentro dos limites desta...Mais temida do que respeitada, a velha gozava de algum prestígio junto ao fazendeiro que, às escondidas de todos, sempre ia aconselhar-se com ela, acerca de diversos assuntos, relacionados aos negócios e, mesmo, a sua vida particular...Era a velha que dava de comer ao negrinho, quando ele passava pela casa dela, em suas caminhadas a esmo, dava-lhe ela, também, muitos conselhos e contava-lhe histórias, algumas sobre seu falecido pai. O negrinho era muito fraco e pequeno para trabalhar duro, como o resto da peonada mas, fazia algumas pequenas tarefas, em troca de alimento ou de alguma roupa, menos esfarrapada do que a que usava no momento...Assim era a vida daquela criança largada ao Deus dará, abandonada por todos e, literalmente, vivendo por viver.
       Em uma noite especialmente fria e escura, de lua encoberta, dois homens chegaram e fizeram-se anunciar ao fazendeiro...Vinham de uma cidade distante e estavam ainda um pouco surpresos com o fato de sua fama haver logrado chegar a semelhantes “lonjuras”...Iam agasalhados, de modo a escapar ao frio cortante e haviam escolhido aquela noite em especial, para irem até aquele local, convidados que foram, pelo dono da fazenda, a ir até ali. Este, os recebeu com muita cortesia e animação, parecendo mesmo, estar muito feliz com a chegada dos dois que, decidiram-se por aceitar seu convite...Um dos visitantes era um pesquisador e professor, que já havia publicado extensos tratados, acerca de acontecimentos e entidades sobrenaturais, sem conseguir, entretanto, angariar para si, fama e respeito afinal, seus trabalhos eram recebidos no meio acadêmico, com indiferença e descrédito e, para o grande público, tudo aquilo, embora bem escrito e até, interessante, não passava de “conversa pra boi dormir”...Era ele, o Professor Eleutério Faron, um homem muito alto e muito magro, com uma cabeleira negra e rebelde, óculos de alto grau e um renitente bigodinho...Seu companheiro era um homem que trabalhava como seu secretário há já muito tempo; era gordo e baixote e sua face era lisa como a de um bebê...Seu nome era Asclepíades Crum e, por seu patrão, ele nutria a mais cega devoção...Olhando os dois, naquela noite, montados a cavalo, único modo de se chegar àquelas distâncias, qualquer um poderia compará-los a Dom Quixote e Sancho Pança, aqueles de Cervantes...
       Mas, como já foi dito, o fazendeiro recebeu-os com extrema cortesia e animação; providenciou-lhes boas acomodações, boa comida e bebida e deixou-os em paz naquela noite, de modo a descansarem da longa jornada empreendida até ali mas, prometendo que, no dia seguinte, conversariam...Cansados, aqueles dois estavam, sim, e muito...Agradeceram a hospitalidade de seu anfitrião, assim como seu amável convite e trataram de usufruir das benesses postas a seu dispor por aquele homem rude mas, tão simpático e acolhedor.
       Enquanto comia, o Prof. Faron reparou, pela primeira vez, no menino negro, esquálido, muito pequeno mas, a exibir no olhar, um brilho estranho, algo que ele não conseguiu identificar de imediato...O menino o observava de longe, como um animalzinho arredio mas, daqueles olhos escuros saía algo que causou-lhe um sentimento estranho...e bom...Mas, logo, teve a atenção desviada por algo que acontecia na imensa cozinha –o local mais quente da casa-, onde fazia sua refeição, junto com seu secretário, em volta dos dois, um ou outro peão e a criadagem da cozinha. Quando o professor procurou com o olhar, dali a pouco, não logrou encontrar novamente o menino com um universo inteiro no olhar, segundo sua própria opinião...Foi dormir impressionado mas, não chegou a sonhar com o negrinho, mal vestido, mal alimentado mas...com uma dignidade perturbadora.
       No dia seguinte, bem cedo, ele já estava desperto, andando pelo pátio fronteiriço ao imenso casarão, o ambiente coberto por uma névoa espessa em meio a um frio cortante...Viu quando o fazendeiro aproximou-se dele e o saudou com efusão, convidando-o para um passeio a cavalo, quando então, explicar-lhe-ia o motivo dele estar ali...Bom cavaleiro, o prof. Faron aceitou o convite e montou uma égua muito gentil, da fazenda mesmo, enquanto seu anfitrião montava seu alazão preferido...A esse tempo, o secretário Asclepíades ainda estava “apenas” em seu oitavo sono. Saíram os dois, em meio àquele cenário lúgubre e frio, através de uma trilha que seguia pasto adentro...Foi quando o fazendeiro contou afinal, porque chamara um pesquisador de casos estranhos para seu rincão...Foi direto e sucinto ao dizer...
       _ Pois veja, professor...”assucede” que, de uns tempos pra cá, uma maldita de uma fera cismou de vir até aqui pra fazer suas malvadezas...E a excomungada da criatura tá acabando com a minha paz e ameaçando a minha vida...Me falaram do senhor e eu pedi pra que viesse..’’mode” caçar a coisa excomungada e dar um fim à vida dela, que eu fui informado que o senhor sabe como fazer...
       _ O senhor disse “uma fera”...De que tipo? –o professor Faron ainda não havia captado a essência daquela conversa-...Uma onça, talvez...Ou...algo pior?
       _ Com certeza, algo muito pior...Se fosse onça, eu não ia nem dar pro senhor, o trabalho de vir até aqui...Cuidava eu mesmo do assunto, eu e uns capatazes...O que invadiu minhas terras, “seu professor”, não é deste mundo de meu Deus, é um enviado do cão...do cão mesmo...isso é que ele é...o próprio cão...
       _ Um cão?...Um cachorro grande?...Um lobo?...Mas, que eu saiba, não existem lobos nesta região.
       _ Se fosse só um lobo, a gente cuidava dele...Mas, é mais que isso...muito mais...Nas noites com lua cheia o maldito sai da toca e vem fazer seus estragos...No início, “eram” só a ovelhas, as galinhas, os porcos...A coisa tem uma fome que parece que não tem fim, a gente só ia vendo os restos que deixava...Com o tempo, passou a atacar os bois e, mais recentemente, as pessoas...
       _ Como é o aspecto...a aparência desse monstro? – o prof. Faron estava visivelmente incomodado com a revelação.
       _ Ninguém sabe...Ninguém viveu pra contar...Pelos latidos e os uivos, o pessoal acha que é um cachorro gigante e mau...A gente ouve o desgraçado no escuro, ao longe...zombando da gente...assustando esse povo...matando menos pra comer do que pra demonstrar força, pra intimidar.
       _ Pois eu acho que o senhor chamou a pessoa certa...- O Prof. Faron estava agora, visivelmente excitado-...Há tempos eu venho estudando esse tipo de “fera” mas, até agora, não encarei nenhuma, de frente...São muito arredios, esses bichos...Mas, se esse em especial, é agressivo a esse ponto, eu tenho muito interesse em caçá-lo para o senhor...Mas não trouxe material, não sabia que era esse tipo de serviço o que eu teria de fazer...Armas, eu ainda trouxe mas, não a munição apropriada.
       _ Que tipo de munição?...Posso providenciar o que precisar...
       _ Bem, vamos precisar, principalmente de...balas de revólver ou carabina...moldadas em prata de lei.
       _ Prata...- o fazendeiro parecia esperar por aquilo-...Bem que a vel...bem que me disseram que era isso...Eu chamei a pessoa certa, mesmo...Ande lá, me diga só o calibre das armas e a quantidade de balas de que precisará...O resto é comigo.
       Falaram-se mais ainda, durante o passeio moroso, parecia que a névoa não arredaria o pé dali com rapidez...O prof. Faron parecia querer perguntar algo mas, não decidia-se, hesitava...Mas a conversa foi evoluindo e, em determinado momento, ele julgou ser o momento apropriado para perguntar...
       _ O senhor desconfia de algum de seus empregados?
       _ A respeito de que?
       _ Da fera...Quem lhe falou sobre mim e sobre as balas de prata, decerto avisou que essa coisa pode se transformar em homem ou mulher, durante o tempo em que não há lua cheia...
       _ É...me disseram isso também...E deve ser mesmo, gente da fazenda mas, quem é, eu não sei e nem desconfio de ninguém...Eu não ando de intimidades com essa corja...Eles fazem o trabalho deles e tá bom assim.
       ¬ Claro, é claro –retorquiu o professor, percebendo que havia tocado em um ponto delicado-...Claro que o senhor nem poderia desconfiar, esse tipo de criatura é muito ladino, exatamente por ser meio humano...Muitas pessoas a fera já matou?
       _ Não muitas mas, o bastante pra tirar o sossego de todo mundo, nas noites de lua cheia...Um dos poucos que o maldito matou foi justamente, o velho “nhô” Bernardo...Negro de minha confiança absoluta, trabalhador como ele, nunca vi...Pois a fera o matou e despedaçou seu corpo, sem comer nada, pelo prazer de matar...Disseram que tinha raiva dele, porque era negro mas, essa gente fala demais...Como se ser negro fosse alguma coisa ruim...Ele deixou um filho, o Joãozinho...Quase ninguém o trata pelo nome, só o chamam “negrinho”, como se fosse um xingamento...Eu gosto do garoto, procuro cuidar dele mas, realmente, não tenho tempo para essas coisas...é pena...
       _ Joãozinho?...È um menino pequeno e mirrado que eu vi andando pela cozinha?
       _ Ele mesmo...O pessoal judia demais do pobre, não respeita ele, nem seu nome chama...Pra eles é só “negrinho” mesmo...isso às vezes até me chateia.
       Tocado pelo senso de humanidade que aquele rústico dono de terras, solteiro e meio embrutecido, o prof. Faron ainda comentou vários assuntos com ele, antes que voltassem para a sede da fazenda. Despediu-se então, do fazendeiro e prometeu, mais tarde passar-lhe a lista do material de que precisaria para dar caça ao monstro assassino...Quando chegou, notou que seu auxiliar ainda dormia e decidiu por um fim a tamanha indolência...Uma vez desperto, Asclepíades Crum foi ajudar seu patrão nos preparativos para uma sobrenatural expedição de caça. Enquanto esperava que o tempo abrisse um pouco, o professor e seu auxiliar checaram o material que haviam trazido e concluíram que era suficiente para aquela empreitada, faltando apenas as balas de prata...Calcularam quantas precisariam e, juntamente com um ou outro item de menor importância, escreveram a lista de materiais a ser entregue ao fazendeiro, quando ele fosse localizado, durante o dia.
       A esse tempo, o dia havia, finalmente, clareado mas, ainda estava um pouquinho nublado, nada que toldasse a visão dos arredores, como estava, horas atrás. O Prof,. Eleutério Faron e Asclepíades Crum saíram então em campo, com a finalidade de refazer a trilha da fera pois, como o professor sabia, essas criaturas das trevas são extremamente metódicas e costumam repetir sempre os mesmos atos e trilhar os mesmos caminhos, salvo algum imprevisto, caçadores por exemplo...Cientes de sua superioridade física contra os humanos e da impenetrabilidade de seus corpos a armas usuais, tais seres pouco tinham a temer de homens e mulheres que desconhecessem seus pontos fracos...Os dois caçadores logo encontraram o que seria uma das trilhas do monstro e, após um exame acurado de pegadas e vestígios na vegetação em derredor, o professor concluiu, com muita propriedade que, aquela era, sem dúvidas, uma das trilhas da criatura...Uma delas sim pois, esses seres sanguinários e famintos de carne, geralmente utilizam-se de três trilhas distintas, raras vezes passando esse número. Aquela era uma delas, oxalá fosse a principal...Seguiram os dois através do mato, que tornava-se cada vez mais denso à sua passagem e descobriram que estavam indo em direção ao rio que cortava aquelas terras...Em determinado momento o mato alto cedia lugar a um tipo de charco que unia-se, adiante, ao rio.
       _ Escolhemos mal –disse o professor- ...Esta é a sua trilha de beber...Mesmo as criaturas mais fantásticas têm sede às vezes não é, companheiro?
       _ Com certeza, o senhor está certo, professor...totalmente certo...
       Ao contrário do Prof.Eleutério que, embasado em seus estudos e pesquisas, acreditava-se senhor de si, diante de um embate com feras sobrenaturais ( Ele costumava dizer frases do tipo “Só tenho medo do medo” ou ainda “A segurança e o conhecimento evitam o temor” ), O jovem e gordo Asclepíades, de vinte e oito anos, não era um primor de segurança e conhecimento e, por isso, estava morrendo de medo daquela primeira missão de campo...Ao saber o que iriam caçar, sentiu um aperto forte na boca do estomago e ficou muito desanimado com aquela história a qual, julgou que seria algo diferente e inofensivo...Mas não fraquejou diante de seu chefe, em quem tinha uma confiança absoluta, beirando o fanatismo...O professor Eleutério Faron era seu ídolo, ele o admirava e, nele confiava cegamente; por isso acatou a missão que o aguardava, certo de que a sapiência e a coragem inconteste de seu patrão seriam suficientes para evitar que o pior acontecesse-lhes.
       De volta ao início da trilha, o professor logo descobriu uma outra que cruzava com a primeira e, por ela seguiu, indo novamente em direção ao mato alto e embrenhando-se através de caminhos que já apresentavam-se como atemorizantes...Andaram muito desta vez e viram-se em direção a uma mata fechada, bem nos confins daquelas terras.
       _ Acho que esta é mesmo, a trilha principal –anunciou animado o professor -...Está com medo, parceiro?
       _ Nã..nã..não, professor, o que é isso?...O senhor me conhece, eu tenho esse hábito de rezar por qualquer motivo...Sou muito religioso, o senhor sabe...
       _ Sei sim, meu amigo, sei sim...Você faz bem em rezar e agarrar-se com seus santos...Pois que, se tudo correr como eu estou prevendo, em breve você vai ver coisas que o farão até duvidar de suas crenças.
       _ Não fale assim, professor...Eu nunca vou duvidar do que acredito...
       _ Faço votos...Bem, vamos em frente.
       _ É mesmo necessário?
       _ Precisamos saber em que tipo de terreno, pisamos...Não se apoquente meu caro, a fera não vai aparecer sob a luz do dia...Apenas a força do luar tem o poder de despertar a besta oculta no corpo de um homem...ou mulher.
       Adentraram a mata seguindo a trilha que facilitava o acesso, andaram durante algum tempo e, durante o trajeto, o professor Faron escrevia muitas anotações em uma de suas cadernetas, onde registrava todo seu trabalho de pesquisador...A luz baça de um céu encoberto, eles prosseguiram por mais alguns metros e começaram a sentir o cheiro desagradável de carne em decomposição.
        _ O covil da fera está próximo –disse o professor-...Convém agirmos com, cada vez mais cautela...
        A trilha agora apontava para uma pequena clareira aberta na mata, por causas naturais ou não...Ao fundo da clareira, uma imensa figueira , a maior já vista pela dupla, ostentava em seu tronco de enorme diâmetro, uma parte escavada que adentrava um pouco pelo idoso vegetal. Aquilo poderia ter sido causado por um incêndio ali, há algum tempo, talvez provocado por um raio, formando inclusive, a tal clareira;
       _ É ali – disse então, o professor-...É ali que o fera se esconde após seus ataques...
       Iam avançar um pouco mais em direção à figueira quando o Prof. Faron deteve-se de súbito, alertado por algo que apenas seus sentidos alertas perceberam.
       _ Estamos sendo seguidos...Algo nos observa desde que entramos neste trecho de mata...
       _ M-m-mas o senhor disse...
       _ Não, não é a criatura que nos segue...È alguém humano...pode ser a forma humana da fera, examinando-nos...Melhor voltarmos daqui.
       _ Concordo plenamente...Mas...e se o “cabra” nos der um tiro?
       _ Acho que não...Isso sabe quem nós somos, acho que vai querer “provar” um pouco de nós, antes de tentar nos matar...
       _ Credo em Cruz, professor!
       _ Vamos agir normalmente...Vamos embora, como se já quiséssemos isso...Sem pressa, com tranqüilidade.
       _ Falar é fácil.
       Mas, os dois caçadores conseguiram sair da tal mata sem maiores problemas...Já em campo aberto, apesar do mato muito alto, o campo de visão dos dois abrangia uma área maior e eles olharam em torno, em busca do indício de que alguém estivesse por perto mas, nada encontraram. Retornaram então à casa da sede da fazenda e lá, encontraram o fazendeiro...Aproveitaram para entregar a lista de material de que precisavam e o fazendeiro disse que, tão logo tivesse o material nas mãos, procurá-los-ia...Que descansassem por ali durante a espera que não deveria ser longa.
       Mas foram precisos três dias até que as balas de prata ficassem prontas e, durante esse tempo, o professor e seu assistente elaboraram uma estratégia para caçar a fera, baseados nas pesquisas que fizeram, nas terras da fazenda. Uma tarde, o fazendeiro chamou os dois e entregou-lhes o material pedido, diante dos peões que trouxeram a encomenda, entre eles, o carrancudo Abissolon, que exibia no rosto feio, um ar de enfado, como se achasse tudo aquilo uma grande palhaçada...No quarto que ocupavam, o Prof. Faron e Asclepíades conferiram o material recebido e aprovaram o trabalho muito bem feito, obra de algum armeiro de grande competência. Aquilo animou bastante o pesquisador que declarou que, dali a mais uma noite, haveria lua cheia no céu...Seria o momento...Guardaram seu material em um local que pareceu-lhes seguro afinal, aquela prata toda valeria, decerto, muito dinheiro e a “peonada” que circulava pela fazenda não era merecedora de total confiança, apesar do fazendeiro confiar naquela tropa...O local onde as balas foram guardadas parecia ser bastante seguro e os dois continuaram a planejar sua caçada sem maiores preocupações que não fosse às que tinham em relação à fera.
       E a noite de lua cheia chegou, fria mas, com um céu muito limpo...Por volta das dez da noite, o professor chamou o assistente e anunciou:
       _ Vamos lá...A criatura deverá iniciar seu  ataque por volta da meia noite...Estaremos esperando por ela, no local escolhido.
       Pegaram as balas escondidas no lugar onde as deixaram, carregaram carabinas e revólveres, prepararam tudo e partiram, rumo ao local onde as duas trilhas detectadas do monstro, cruzavam-se...Seria ali que aguardariam a passagem do animal, quando ele fosse beber água...Antes disso, a coisa já teria atacado alguém, fosse animal ou humano mas eles não podiam impedir tal ataque, optando por aguardar a fera em um local onde, fatalmente, passaria...À beira da trilha, ocultos pelo mato alto, atrás de uma touceira especialmente grande e cerrada, eles puderam ocultar-se das vistas da criatura e lá, o professor acendeu uma espécie de incenso só que, de cheiro desagradável, de modo a confundir o faro do monstro, caso ele sentisse-lhes o cheiro, ao aproximar-se...Os dois portavam tochas que, no momento, estavam apagadas...Caso precisassem chegar mais perto da fera para dar-lhe combate, o fogo seria uma proteção adicional; o professor Faron estava confiante no sucesso de sua empreitada...talvez, confiante demais mas, alerta e atento a tudo o que passava-se ao redor...Após cerca de meia hora de tocaia, ele disse ao companheiro.
       _ Asclepíades...Não estamos sós, nós dois, por aqui...Alguém nos observa há já algum tempo e, antes que você pergunte, eu digo que não é a fera...É gente como nós que está bem perto, oculta pelo mato, como nós...Só não consigo imaginar quem possa ser e o motivo por estar aqui, conosco.
       _ O que faremos professor?
       _ Nada, eu acho, a não ser, esperar...Seja quem for, parece aguardar o monstro, também...Não deve querer nosso mal, é isso o que eu acho...
       E foi nesse exato momento que escutaram o rosnado baixo, vindo de, não muito longe...Com os nervos tensos, os dois caçadores espiaram por entre as folhas da moita em que ocultavam-se e viram, a coisa de uns dez metros, entrando na trilha que iria dar no rio, o enorme e sinistro vulto, a mover-se com certa lentidão, parecendo carregar algo consigo.
       _ C-c-como é grande –sussurrou baixíssimo o apavorado Asclepíades-...P-pensei que fosse como um cachorro grande, a andar de quatro...M-m-m-mas isso...
       À luz do luar, a fera revelava-se em horripilantes detalhes...Era alta, muito alta, teria perto de dois metros de altura e suas orelhas, desproporcionalmente grandes, pareciam elevar ainda mais sua estatura...Era totalmente coberto por uma pelagem que parecia ser cinzenta ou castanha mas, em determinados pontos do corpanzil, uma pele escura, brilhante e úmida podia ser entrevista além dos pelos. O professor Faron segredou a seu assistente.
       _ Veja, Asclepíades...Essas coisas realmente, em sua forma humana, têm os pelos virados para dentro do corpo...Quando transformam-se, literalmente “viram-se pelo avesso” e a pele humana e até as roupas que usam, vão para “dentro” de seu corpo.
       _ Que coisa horrível, professor...E o cheiro da coisa, estou com o estômago embrulhando...Ainda bem que não comi nada antes..
       _ Esse cheiro é nosso, seu tolo, vem de nosso “incenso”...Você pode não ter comido nada mas o monstro comeu...está carregando os restos de algum animal médio, um bode ou carneiro...Não parecem restos humanos...
       O tronco da fera misturava as anatomias humana e lupina e era grande como um tonel, afinando-se muito, na área da cintura...Grossas coxas partiam daquele ponto e seguiam em pernas relativamente curtas e finas, terminando em pés que apoiavam-se nas pontas dos dedos, como um quadrúpede carnívoro...Uma cauda espessa e comprida completava o conjunto...Os braços, muito longos e musculosos, como os de um macaco, terminavam em mãos de cinco dedos, muito compridos e terminando em garras recurvadas que quase tocavam o chão; uma daquelas mãos arrastava uma carcaça semi devorada de algum animal da fazenda...Talvez a primeira vítima daquela noite...A cabeça da besta era a de um cachorro ou lobo, muito grande, até a altura dos olhos, muito juntos e a exibir um estranho brilho avermelhado, a partir daí, uma testa alta projetava-se para cima, configurando uma cabeça humanóide de onde duas formidáveis orelhas brotavam dos dois lados...A enorme boca, congelada em um esgar arreganhado de raiva, exibia os maiores dentes que a dupla de caçadores já vira em um animal...Dentes enorme e pontiagudos, muitos, mais do que poder-se –ia encontrar na boca de um lobo...E aquilo resfolegava e rosnava, sem hesitação, como se dissesse “ Estou aqui, venham me pegar”...A fera foi chegando com seu passo lento até próximo ao local onde o professor e seu assistente aguardavam...e então, parou e começou a farejar o ar, sentindo um cheiro estranho, desconhecido...O tal incenso do professor...Não identificando tal odor, a repulsiva criatura pareceu dar de ombros e seguir seu caminho, passando pelo ponto da tocaia...Quando já estava a uns cinco metros de distância, o Prof. Faron sussurrou entredentes:
       _ É agora.
       E, sem qualquer hesitação, ficou de pé por detrás do mato e, apontando sua carabina para as costas da fera que afastava-se, fez fogo!...uma, duas, três vezes, acertando todos os tiros...E então, algo surpreendentemente imprevisível aconteceu...A fera, ao invés de cair ao chão com morte quase instantânea, em decorrência ao envenenamento por prata, apenas largou no chão a carcaça que carregava e lançou-se em corrida, usando patas e mãos, afastando-se do local com surpreendente facilidade...Enquanto isso, Asclepíades punha-se também de pé e estranhava o que via.
       _ O senhor errou, professor? –perguntou, alarmado-...Mas, tão de perto...
       _ Não, eu não errei nenhum dos tiros, tenho certeza.
       _ O que aconteceu então?
       _ Não sei...Me vê a outra carabina e acende as tochas.
       À luz do fogo, o professor descarregou a arma e observou as balas...Parecia tudo normal, as pontas prateadas estavam ali...Súbito, movido por uma desconfiança, o professor sacou de um canivete e, com o uso de uma das lâminas, raspou a ponta de uma das balas, exclamando após um sonoro palavrão.
       _ Fomos enganados, Asclepíades!...Alguém trocou as balas de verdade por falsas, veja...São balas comuns, pintadas de prateado...Eu conferi a munição, cartucho por cartucho...A prata era verdadeira!...Mas agora, estamos em perigo...
      _ Foi pra vender a prata que nos roubaram?
      _ Talvez mas, desconfio de coisa pior...Foi uma armadilha da fera em sua forma humana...Nós armamos uma armadilha para ele e ele, uma para nós...Eu acho até que...
      O urro agressivo e descomunal interrompeu a conversa e, vindo diretamente de trás e acima das cabeças daqueles homens, a pata monstruosa e humanóide agarrou o pescoço do professor Faron, erguendo-o do chão com violência...Com a outra pata, a fera buscou o gordo pescoço de seu ajudante mas, apenas resvalou nele...Com uma agilidade inédita, Asclepíades fugiu com o corpo do ataque do monstro e rolou para o lado, ficando em pé, novamente, passando a observar o que acontecia, não conseguindo arredar o pé dali...Via seu patrão e amigo sendo lentamente sufocado pela besta que, desistindo por completo dele, voltava sua atenção apenas para o professor por sabê-lo, seu inimigo declarado...O professor, com voz sumida, as mãos agarrando o braço peludo que o subjugava, ainda conseguia fazer-se entender e dizia a seu ajudante.
       _ Fu...ja...Fu...ja...As...cle....
       _ Não posso fugir, patrão!...eu vou livrar o senhor – o pobre Asclepíades, mais morto que vivo, não conseguia abandonar o homem a quem devia tanto respeito e admiração...E, em um momento, vendo que nada podia fazer para salvá-lo, entrando em uma inesperada crise histérica, caiu sentado no chão, chorando como uma criancinha e babando-se todo, enquanto a horrível fera abria a bocarra e levava a cabeça do professor até ela, com a óbvia intenção de decapitar aquele homem com os dentes...com o restinho de vida que ainda tinha, O Prof. Eleutério Faron viu aquele abismo vivo, coalhado de dentes, a exalar um odor pútrido e repleto de voracidade, aproximar-se mais e mais e, seu último pensamento foi uma lamentação por si próprio, por terminar daquele jeito, em um fim de mundo qualquer, sem qualquer chance de escapar...Viu, muito rapidamente, quando já desmaiava, o fogo...Ouviu o berro e o ganido sobrenaturais...e sentiu, em um baque, o chão abaixo de si, enquanto lutava para recobrar a consciência pois, seu pescoço agora estava livre e ele respirava com dificuldade...Sentiu-se então, puxado por mãos fortes e viu, diante de seu rosto, a face redonda e ansiosa de...Asclepíades...O que acontecera?...
       _ Olhe, professor...olhe!
       Era seu ajudante quem o reanimava e chamava sua atenção para algo que acontecia ali perto...À luz das tochas ele viu o pequeno corpo trajado de andrajos, que tinha em uma das mãos, justamente a tocha que o professor segurava e que derrubara no chão, ao ser capturado pelo monstro...a outra tocha estava com Asclepíades, ainda...Joãozinho...O menino a quem todos chamavam apenas de “negrinho”, estava de costas para os dois e de frente para a fera que já recuperava-se do que havia sofrido...O garoto saíra de seu esconderijo, onde tudo observava e interpusera-se entre a criatura das trevas e o professor, passando a enfiar-lhe na horrenda goela, a tocha que juntara do chão...Cego de dor, a fera soltara seu prisioneiro e agora apertava o próprio pescoço, atingido em cheio, por dentro, pela chama da tocha que mantivera-se acesa...Procurando uma distância mais segura, os dois homens permaneceram ali, hipnotizados pela coragem ou loucura daquele menino por quem ninguém dava nada...E ouviram-no, quando gritou alto, a voz débil, fina e cheia de ódio, desafiando aquela criatura das trevas.
       _ Besta dos infernos, pai de tudo quanto é ruim neste mundo, demônio esconjurado, chegou a tua hora!...Tudo aconteceu como a velha disse: o dia, a hora, a chegada dos moços da cidade pra te tirarem da toca...Tudo isso foi previsto e agora, o resto é comigo...Me encara, maldição!...Olha pra quem vai tirar a tua vida miserável, de só fazer o mal!...Olha, desgraçado!...Tu matou o meu pai...”matou ele” porque era negro...Tu detesta negros, coisa comum pra uma aparição do inferno, que nada tem a ver com gente...Tu me detesta também mas, eu te detesto muito mais e vou acabar contigo!...E, antes de te matar, Coisa Ruim, vou fazer tu me respeitar...Meu nome é João Boaventura Cipó, meu pai me batizou assim...Sou filho de Bernardo Anacleto Cipó e neto de Simeão da Conceição Cipó...Eu tenho família e tu não tem nada! Eu sou negro, meu pai me ensinou a ter orgulho disso, apesar de tudo o que a gente sofre nas mãos dos brancos...Eu sou um negrinho mas, tenho um nome e, de agora em diante, todos vão me tratar por ele, o nome que meu pai me deu e que eu carrego com orgulho e respeito...Respeito que eu exijo de ti, cão do diabo!...Vem!...me enfrenta, covarde...Vem brigar com alguém do teu tamanho!
       Ato contínuo, João Boaventura investiu com fúria contra a fera...e foi colhido em meio a seu ataque, sendo seguro pelos ombros e desarmado de sua tocha...A fera,ensandecida de raiva, fechou a bocarra por sobre o ombro direito do menino, retirando dali um grande bocado de carne e ossos, que cuspiu de lado, com nojo...A cabeça do menino pendeu, sem vida, para o lado e a fera literalmente rasgou seu pequeno corpo em dois pedaços, espalhando suas vísceras pelo chão...Não satisfeita em sua fúria, passou então a desmembrar o que sobrara, arrancando braços, pernas e atirando tudo longe, o mais longe que conseguiu...Apenas depois de semelhante exibição de selvageria, voltou sua atenção aos dois homens que, dominados pelo ódio, descarregavam suas armas, inutilmente, contra a fera. Apenas quando o monstro investiu contra os dois foi que, afinal, arredaram o pé dali, saindo em uma desabalada correria campo afora, com a besta em seu encalço...Corriam sem rumo, desesperados e a fera não os alcançava de propósito...Antes determinava o caminho que aqueles dois homens deviam seguir, aparecendo-lhes pelos lados, cortando sua passagem...E esse caminho era em direção ao trecho de mata, onde montara seu covil...Para lá forçava sua presa de modo a tirar-lhes a vida, apenas após uma interminável e inominável sessão de tortura...
       Esbaforidos, aterrorizados, os dois homens quase chocaram-se coma velha figueira semi destruída e, lá, pararam de correr, extenuados que estavam...Viram-se os dois então, em um cenário de morte e podridão, cercados por restos mortais de homens e animais, o chão coalhado de ossos e o ar irrespirável, à luz da lua cheia, todo um ambiente colorido por um azul mórbido...A fera aproximava-se, lentamente...Viam-lhe quase com nitidez as feições animalescas que pareciam exibir um horrendo sorriso...Um sorriso de vitória sobre o inimigo e o gozo antecipado de mais um festival de bestialidades...Aquilo ria e rosnava de modo horrendo e assim, foi aproximando-se mais e mais...mais e mais...Até que, parecendo haver tomado uma decisão, em um salto, investiu contra os dois!
       A luz azul, forte mas, longe de ser cegante, interpôs-se entre eles e o monstro, no último momento, chocando-se contra a criatura e lançando-a longe, acompanhada de um ganido alto, de dor...Mais uma vez a salvo dos dentes da besta, o professor Faron e Asclepíades viram a luz azul que parecia viva...e tinha a forma...de um corpo humano...um corpo humano pequeno e muito magro.
       _ João...João Boaventura...-sussurrou o professor, extasiado-...Ele voltou...Ele sabia que voltaria..
       O corpo do João, cercado pelo brilho azulado e intenso, mostrava-se agora em detalhes e os dois homens viram que este ainda encontrava-se todo desmembrado mas, os pedaços flutuavam no ar azul, muito próximos mas, sem tocarem-se, formando seu corpo, ainda vestido com os restos da roupa que usava...Suas mãos tinham as palmas voltadas para cima, seus pés não tocavam o chão e seu rosto, muito calmo, tinha uma expressão neutra e, de seus olhos, fachos de uma substância negra, como uma luz em negativo, escapavam, como se, pequenos e negros faróis, fossem...Ele voltou o rosto em direção à fera, que retornava de um passeio forçado e retomava a carga..A aparição de João foi-lhe ao encontro e, em mais um doloroso choque frontal que ressoou alto, lançou o corpo do bicho para longe dos dois homens, estatelando-o no chão, ganindo como um cachorrinho de madame...
       Mas a coisa não deu-se por vencida e encetou um terceiro ataque, desta vez, contra a própria luz que, a esse tempo, havia afastado-se do chão, ficando à altura da cabeça da fera...Esta enviou-lhe uma terrível patada que teria arrancado a cabeça de um homem mas, que foi detida no ar por duas mãos pequenas e descarnadas...Segura a monstruosa pata, todo o corpo luminoso passou a girar sobre si, torcendo aquele braço assassino até além dos limites de resistência, distendendo músculos e ligamentos, separando ossos e provocando muita, muita dor em quem estava acostumado a infringi-la a outrem...Afinal, o braço foi largado e pendeu mole, do lado do corpo da besta, praticamente derrotada, ganindo desesperadamente e já ensaiando uma fuga...
       Mas a luz não teve piedade e, arremessando-se contra uma das pernas da criatura, chocou-se contra ela com violência, quebrando-lhe os ossos, cujo estalar soou alto e longe, assim como o urro lancinante que partiu de uma goela acostumada a, apenas, aterrorizar...Com um baque surdo, o corpanzil foi ao chão forrado de ossadas e o bicho uivava de dor, quase provocando...pena...nos dois homens que observavam diante de si, tamanho prodígio...Mas, o acerto de contas ainda não estava consumado e a criatura permanecia viva...Com o tempo, recuperar-se-ia dos danos a ela impostos...O espectro de João então, agachando-se diante da fera e sem importar-se com os inúteis ataques de seu braço inteiro, abriu-lhe a bocarra de modo horrível, distendendo músculos e tendões, como fizera com o braço da besta, após o que, invadiu-lhe o interior, alargando o pescoço, rompendo tecidos e deslocando ossos...A esse tempo, a fera já não movia-se e nem emitia qualquer som...Ficou jogada ao chão, enquanto seu peito de tonel inchava-se em decorrência da invasão por um corpo estranho e azulado... Em breve, uma grande protuberância coroou-lhe o tórax e aquilo foi crescendo e crescendo até que, um facho de luz azul surgiu no meio daquilo...E logo depois, outro facho apareceu...e outro...todo aquele peito então rompeu-se e, do buraco aberto, surgiu o espectro de João Boaventura...Imaculado, sem o menor vestígio do sangue que brotava, farto, do terrível ferimento a esgotar aquele corpanzil sobrenatural...O pequeno espectro trazia algo em uma das mãos...algo volumoso, feito de carne e sangue...Era o coração da besta que o menino fora buscar, interrompendo-lhe a miserável vida...Serenamente, ele iniciou um movimento ascendente e lento, subindo mais e mais, aos céus...E enquanto subia, sua luz ia ficando cada vez mais pálida e seu pequeno corpo destroçado foi desaparecendo até que não restou mais nada ali, além da carcaça da fera...morta e sem chance de poder ressuscitar como freqüentemente acontece aos seres vindos das trevas...Sem um coração, era impossível reviver aquilo...O Prof. Faron estava ainda imóvel, fascinado pelo que vira e mal deu-se conta de si quando foi puxado com força pelo braço por Asclepíades que dizia insistentemente:
       _ ¬Pelo amor de Deus, professor, vamos embora daqui...O senhor está muito machucado e não há mais nada para se ver...A fera morreu, tudo acabou...O...menino...o menino...morreu também...
       _ Mas voltou, meu caro...E salvou as nossas vidas...Ele sabia que teria de morrer e não fraquejou por um segundo sequer...
       _ Por favor, professor, vamos sair daqui, vamos sair deste inferno...
       Asclepíades quase arrastou seu patrão de volta à sede da fazenda e, quando lá chegaram, alta madrugada, deram-se conta do quanto estavam cansados e esgotados...Fazia um frio cortante mas, eles não o sentiam...apenas retiraram as botas que calçavam, deixaram-se cair em suas camas e, em menos de um minuto, já dormiam pesadamente...O Prof. Faron teve sonhos...sonhos horríveis com a fera e criaturas correlatas...Marcado que fora pelo monstro, adquirira uma pequena parcela de sua maldição...Quase tornara-se um deles...Se sua pele fosse rompida, se seu sangue entrasse em contato direto com a criatura, ele estaria fadado a, em seu devido tempo, transformar-se em uma fera também, em noites de lua cheia...Mas escapara disso e, agora partilhava de uma porcentagem muito pequena da horrível maldição...
       No dia seguinte, ao acordarem, muito cedo, os dois homens deram-se conta do quanto estavam sujos e malcheirosos, devido ao contato com a besta, a perseguição e tudo mais o que acontecera na noite anterior...Tomaram banho, arrumaram-se e foram em busca do fazendeiro, de modo a prestar contas...Logo o encontraram e o Prof. Faron, com alguma pompa, declarou que a criatura fora morta e, não mais faria vítimas e, nem sequer, ameaçaria qualquer tipo de vida por aquelas regiões...O fazendeiro recebeu a notícia com um largo sorriso e um brilho de vitória nos olhos...Falou então sem prestar atenção no que dizia.
       _ Foi como a velha disse que seria...Vocês dois iriam ser peça importante na destruição da fera...Sobrou algum cadáver?...Onde vocês a derrotaram?...Podemos ir lá, ver o que sobrou?
       _ Claro que podemos, agora, se o senhor quiser.
       _ Vamos lá então...Isso eu até pago pra ver!
       O professor e o fazendeiro foram então, até o covil da fera, acompanhados de muitos peões e empregados da fazenda, todos ansiosos por verem o horrível monstro que tantas desgraças causara a todos...Asclepíades, por sua vez, declinou da honra da lá voltar e ficou em casa, aguardando....E todos os que foram ver os despojos da batalha viram...jogado a um canto, cercado de ossadas, carne podre e muito mau cheiro, trajando as roupas que usava no momento da transformação, com o braço retorcido, a perna quebrada, dobrada em um ângulo absurdo...o peito inteiramente destroçado, a exibir órgãos e ossos partidos...em tal estado de destruição, estava, morto para sempre...o peão Abissolon...
       Um murmúrio percorreu aquele povo ao deparar-se com tal revelação e o fazendeiro comentou:
       _ Bem que eu desconfiava desse disgramado...Ele era ruim demais, pra ser humano...Vocês fizeram um bom trabalho nele, professor, meus parabéns...Usaram o que pra fazer isto?...bombas?...Bem, isso não importa, importa que eu tenho que pagar o senhor e seu ajudante e vou fazer isso muito bem...Nós não chegamos a combinar um preço, não foi?...Melhor assim porque, eu estou disposto a pagar o que o senhor me pedir, diga apenas o valor e eu providencio, não vou lhe negar nada, se não tiver o suficiente comigo, mando buscar no banco, não demora nada...
       _ Eu não vou querer o seu dinheiro, meu senhor porque, na verdade, bem pouco eu fiz para ajudar em nossa vitória...Vou contar o que aconteceu.
       E, aproveitando que havia muita gente da fazenda reunida e, mesmo com um ambiente tão pútrido, o prof. Faron relatou com exatidão, tudo o que acontecera na noite anterior, durante o “acerto de contas”...Contou da intervenção de João Boaventura, outrora chamado “o negrinho”, e do modo como ele derrotara a besta, mesmo tendo morrido durante o combate...Ao ouvirem o relato, muito daquele povo já comentava em alto som, uma suposta santidade do menino negro, do quanto deviam agora a um ser que fora tão maltratado por quase todos eles, apenas por ser escuro, abandonado e miserável...Mulheres choravam arrependidas, homens olhavam para o chão, envergonhados e, igualmente, arrependidos com seus modos para com João Boaventura, o clima era de total consternação...E o professor Faron então, continuou com seu relato, fazendo então, um pedido.
       _ Ao invés de seu dinheiro, eu quero que o senhor me faça um favor...
       E disse então, na presença de toda aquela gente, o que desejava que fosse feito. O fazendeiro ouvia aquilo e, aprovava com a cabeça, dizendo ao final do pedido:
      _ Tudo será feito como o senhor pediu, professor...Vejo que, além de um homem inteligente, estudado, culto e muito corajoso, é também uma pessoa extremamente justa...A velha sabia o que dizia...Sabia mesmo...Mas, também precisamos dar um jeito neste horror que aqui está...Ô Manuel, reúne uns cabras aí e limpa esse lugar, acaba com esse foco de doenças em minhas terras...Enterra os mortos com decência e queima o disgramado do Abissolon...Junta depois as cinzas e guarda pra mim que eu quero espalhar isso em um local bem longe daqui.
       _ Se me permite, meu senhor –atalhou o professor- ...Eu gostaria de ficar com as cinzas...Para meus arquivos, sabe...
       _ Que seja!...Pessoal, queimem esse “sem serventia” e guardem as cinzas para o professor que eu não estou negando nada pra esse homem de ouro!...Trabalhem bem porque, hoje à noite tem festa da boa com comida e bebida liberadas para todos...Alegria minha gente! Vamos beber a morte da fera e a saúde do grande, apesar de tão pequeno, João Boaventura, nosso verdadeiro herói...Viva o João Boaventura!
       _ VIVA!! VIVA!!!  VIVA!!! –todos gritavam entusiasmados.
       E a festa daquela noite iria deixar doces lembranças em todos, tão animada ela foi...O forrobodó começou na boca da noite e só foi terminar no meio dia do dia seguinte...Muito se comeu, muito se bebeu, muito se dançou e o nome “João Boaventura” já começava a circular naquelas bocas como algo sagrado...No decorrer dos dias seguintes, os pedidos feitos pelo professor foram sendo todos atendidos e, certo dia, uma pesada caixa de madeira deu entrada nos terrenos da fazenda...Dentro dela havia uma lápide, toda esculpida e com uma mensagem talhada a buril em uma das faces...Dias depois chegou um pequeno caixão feito em jacarandá maciço e todo decorado com detalhes em ouro...Jacarandá, uma madeira nobre e escura, que iria conter um corpo...ou quase isso...de alguém, igualmente nobre e escuro...Dias antes, quando da volta do covil do monstro, outro dos pedidos do professor foi atendido e, a peonada, junto com ele, “catou” todos os fragmentos do menino destroçado, até o último deles e tudo foi guardado no frigorífico da fazenda para ser devidamente “remontado” e sepultado.
       Em um domingo inesquecível para todos, veio o padre da cidade encomendar a alma de João Boaventura Cipó, morto e destroçado por uma alcatéia de lobos, quando defendia as criações de seu patrão ( isso foi o que disseram ao padre ), em uma missa muito bonita, de corpo presente, em uma das salas do casarão, entupido de gente devotada a seu “santinho negro”...O padre fez um discurso muito bonito, exaltando as qualidades e a coragem do pequeno herói, que sucumbira no exercício de seu dever e, um mundo de gente chorou durante a cerimônia e, mesmo o fazendeiro, homem rústico, acostumado com uma vida rude, em determinado momento, ficou com os olhos cheios d´água...Quanto ao Asclepíades...”manteiga derretida” assumido, debulhou-se durante quase toda a cerimônia...O prof. Faron, muito sério, apenas observava e filosofava consigo mesmo.
       O sepultamento foi igualmente emocionante, o padre parecia tomado de emoção por ter de enterrar uma criança e, sabendo que ele fora muito devotado ao pai assassinado, exaltou suas qualidade de bom filho e muitos elogios ele fez antes de baixar o corpinho à sepultura, regado por uma chuva de lágrimas emocionadas...Na lápide de granito verde, lia-se seu obituário
  

AQUI JAZ JOÃO BOAVENTURA CIPÓ.
NUNCA HOUVE, ANTES, UM MENINO COM MAIS CORAGEM.
NUNCA HOUVE, ANTES, UM FILHO DO QUAL UM PAI
PUDESSE ORGULHAR-SE MAIS.
A ELE, NOSSA MAIS PROFUNDA E SINCERA GRATIDÃO.
QUE DESCANSE EM PAZ NA COMPANHIA DE DEUS
E DE SEU AMADO PAI, PERDIDO TÃO CEDO.


       Passados mais alguns dias, o Professor Eleutério Faron e seu secretário Asclepíades Crum, montando seus cavalos, retornavam para casa, após terem vivido a mais extraordinária aventura de suas vidas...A marca roxa dos dedos da fera não sumira do pescoço do professor e ele já sabia que aquilo não desapareceria jamais...Era a marca da “maldição do monstro”, sua maldição agora só que, totalmente inofensiva a outros seres humanos...O professor não escondias as marcas, que considerava como “cicatrizes de combate” e delas, já orgulhava-se...Quanto aos sonhos...estava-se acostumando a eles...Sendo “quase” um dos amaldiçoados, vivia uma parte de seu mundo e, através de sonhos, buscava respostas que perseguia há tempos e, ao invés de um “amaldiçoado”, julgava-se –isso sim- um “abençoado” pois, podia fazer suas pesquisas, praticamente “in loco”, que mais poderia querer?...
       Levava entre seus pertences, a urna de pedra, com as cinzas do “disgramado” do Abissolon, isso sim, era um troféu e tanto para ele...Levava também as balas de prata, encontradas nos pertences do “excomungado”...O fazendeiro fizera questão que ele ficasse com aquilo...Apenas quando chegaram em casa, Asclepíades mostrara-lhe o enorme maço de notas de alto valor que o fazendeiro passara-lhe, em segredo, temendo que o professor devolvesse tudo se, ele próprio, recebesse a oferta...Temor este, dividido com o gordo e jovial secretário e ajudante...Enquanto andavam, O professor ainda passara uma última vez diante do túmulo de João Boaventura, que um dia fora “o negrinho” e sentiu uma ternura imensa por aquela criança, a quem devia a própria vida...Ficou feliz em saber que –homem de muitas crenças que era- ...o menino estava bem, com seu pai, em um outro mundo, um mundo muito melhor do que o que deixara...
       E o professor ficaria muito mais feliz se pudesse, naquele momento, ver o que os olhos não conseguem ver...Uma visão da outra vida, tão discutida por tanta gente, em razão de sua existência ou não existência...Perto da lápide, duas pessoas corriam e brincavam...como crianças...Pai e filho, novamente, viam-se frente a frente e comemoravam o reencontro com alegres e descontraídos folguedos juvenis...Brincavam e desfrutavam da mútua companhia, antes de ingressarem, de vez, em um mudo novo, onde não há negros e brancos, patrões e empregados, opressores e oprimidos, ricos e pobres...Um lugar onde não há tristeza, monstros, assombrações e feras...Um mundo de paz, harmonia e compreensão, além das vistas turvadas pela brutalidade do mundo como o conhecemos, um mundo onde, agora, estava, por merecimento, alguém que sofrera demais enquanto vivo, mas, que soubera resgatar todo seu orgulho e dignidade, em seu derradeiro momento de vida...

  
  







celso dyer
Enviado por celso dyer em 17/12/2017
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original. Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.


Comentários