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O décimo terceiro degrau

       Na casa onde eu morei, durante pouco mais de uma semana, em um local bastante isolado, um terreno amplo à beira do rio, havia uma escada de madeira, bastante robusta, que ligava a sala de estar, no andar térreo ao primeiro pavimento, onde ficavam os dois quartos. Partia ela, de um dos cantos da sala, a partir de um patamar de madeira e, presa à parede, terminava em uma espécie de jirau, com um parapeito, tudo em madeira, bastante sólida. A escada não tinha corrimão, ficava aberta ao espaço em um de seus lados, o que dava um certo medo de subi-la, no início. O jirau, ou tabique, projetava-se da parede dos fundos da sala apoiado na parede lateral e em um pilar de madeira, quadrada e bastante grossa e sólida, para suportar o peso da plataforma de onde partia a escada. O pé direito da sala era bastante alto, ocupando toda a altura da casa e, tendo por cima dela, apenas o telhado, do qual sobressaiam-se apenas, as vigas mestras...todo o madeiramento e telhas estavam ocultos, atrás de painéis de madeira compensada, pintados do verde musgo; as vigas, de madeira avermelhada, eram envernizadas, resultando daí, um bonito efeito de cores.
       A escada, de madeira escura e sem ser aparelhada, era constituída por duas longas vigas, bem espessas, que comportavam dezessete degraus, também bastante espessos, que eram presos às vigas, através de batentes, nos quais eram aparafusados e os degraus, presos aos batentes, por intermédio de pregos enormes. A impressão que dava era a de solidez à toda prova; um elefante poderia subir aqueles degraus e a escada nem rangeria, era o que eu achava...De tudo o que havia naquela residência, o que me impressionou mais foi, sem dúvida, a escada...e, logo, essa impressão degringolaria em coisa muito pior, como saberão.
       A casa, de poucos mas, amplos cômodos, em estilo rústico, isolada no meio de um terreno enorme, a poucos metros do rio, era magnífica e, à época de sua compra, pareceu-me o próprio “Negócio da China”. Para uma casa daquele tamanho, cercada por uma generosa porção de terra, servida de água, luz e telefone, o preço havia sido baixíssimo, quase de graça e, as investigações, minuciosas, que fiz, no imóvel e nas imediações, não revelaram um real motivo para uma casa tão boa estar à venda por um preço tão ínfimo.
       _ Motivos pessoais, meu senhor –disse-me o proprietário, quando indaguei-lhe o motivo do baixo preço- Desejo apenas desfazer-me dessa casa pois, nela vivi uma grande tragédia em minha vida e quero apenas uma coisa: Esquecer...Poderia até “dar” a casa para qualquer um mas, isso seria complicado, apesar de parecer um negócio simples...Assim, desvencilho-me dela, por um preço simbólico e vou tocar minha vida...Espero que o senhor não seja supersticioso e acredite em “maus fluidos” e coisas desse gênero...digo, o senhor achar que herdaria as desgraças de outra pessoa, absorvidas pela casa...
       _ De modo algum, eu não sigo tal linha de raciocínio –disse-lhe eu-  Comigo, as coisas são bem “pé no chão”, porque a vida que a gente vive, é aqui na Terra e, em mais lugar nenhum...Lamento seus motivos para vender sua moradia mas, de modo algum, posso perder este negócio.
      _ Ótimo ouvi-lo falar assim...Por mim, o negócio já está fechado.
      Fora verdade, o que eu dissera ao homem; a vida é vivida na Terra e não em outros planos espirituais e outros quetais. Um objeto inanimado, no caso, uma casa, não é capaz de “absorver” emoções, vibrações ou seja lá o que for. E, pensando assim, fechei o negócio e tratei de mudar-me logo, para meu novo lar, que eu pretendia ser o definitivo, após um período em minha vida, marcado por sucessivas mudanças de endereço, uma história que não vem ao caso, na presente narrativa...Após muitas aventuras e, vendo o inverno de minha vida a aproximar-se, julguei que meu novo imóvel seria a moldura perfeita para o quadro da velhice tranqüila e solitária, de um homem que nunca soube relacionar-se naturalmente, com seus semelhantes e, após o que eu julgava ter sido, uma vida de aventuras e empreendimentos, eu sinceramente, acreditei que, daí para a frente, até o fim de meus dias, eu teria paz.
       Mas eu estava enganado...
       Como sóe acontecer nas grandes tragédias, tudo começou de mansinho, quase que imperceptivelmente e prosseguiu em um “crescendo”, até desembocar em um cenário de horrores totais devido, acredito eu, a um estranho “acordo”, feito entre pessoas e...não pessoas, acho...Vejamos como tudo aconteceu...
       Eram dezessete degraus, a formar uma escada muito resistente e sólida, a ponto de, nem ranger quando alguém subia-lhe ou descia-lhe a robusta estrutura, por mais pesado que fosse o freguês...ou freguesa...O fato é que, todos os dezessete degraus, eram presos com muita firmeza, às duas vigas, que sustentavam tudo aquilo, com a exceção de um deles: O quinto, para quem descia e, o décimo terceiro, para quem subia...Os dois batentes de madeira, que os sustinham, presos por enormes parafusos às duas vigas, viviam frouxos, como se alguém estivesse a desapertar os tais parafusos a todo momento e esse alguém, certamente, não era eu, que apertava aquilo, com freqüência, várias vezes por dia, sem qualquer sucesso...Durante os quase dez dias que ali passei, essa era uma rotina constante e maçante...Acreditei que fosse um defeito adquirido durante a montagem da escada e decidi que, um dia, reformaria aquela peça de madeira, corrigindo o erro, definitivamente mas, por ora, continuaria apertando os parafusos, passando a não dar maior importância a tal incômodo.
       Mas, com o passar dos dias, fui reparando em algo que sempre me acontecia quando eu subia a escada, em direção a meu quarto de dormir: Quando eu pisava o degrau número treze e, eventualmente, sentia sua frouxidão, sentia um “lapso” momentâneo, em minha cabeça, como se, durante uma fração de segundo, eu não soubesse o que fazer, ficando com o passo seguinte, suspenso no ar, sem atingir o próximo degrau, apoiado em apenas um pé e com grande risco de perder meu equilíbrio e rolar escada abaixo ou cair para fora dela, com sérias conseqüências para minha integridade física...Aquilo passou a me incomodar demais, devido à enervante repetição de tal incidente, Não atinava no que poderia ser aquilo e o porque de acontecer apenas em um momento específico e com um degrau específico; passei então, a evitar o décimo terceiro degrau, pulando por cima dele e, de fato, os lapsos cessaram, achei que, pelo fato de eu ter de prestar atenção na hora de pular o degrau mas, na verdade, por outro motivo, conforme eu iria saber, pouco tempo depois.
       Ao final daquela semana eu, um ermitão empedernido e ferrenho, incapaz de dividir o que quer que fosse com outrem, ainda mais um espaço achei, afinal, que havia adaptado-me bem a minha nova casa, que parecia ter, sim, suas “neuras”, apesar de ser apenas, um objeto inanimado...Naquele sítio retirado, à margem do rio, eu sentia-me bem distante de quem pudesse perturbar meu sossego com sua presença...Naturalmente, eu falo de gente, pessoas e, não foram pessoas que tiraram o meu sossego, pouco tempo após eu haver-me instalado ali...
       Primeiro foram os ruídos, quase imperceptíveis e sempre à noite, a chegarem a meus ouvidos, na escuridão de meu quarto de dormir, chamando mais e mais minha atenção, a ponto de fazer-me perder o sono e temer a presença de invasores noturnos em meu recanto...No início eu pensei que fosse alguma acomodação no madeiramento da casa, devido à mudança de temperatura, do dia para a noite; depois, julguei que fossem ratos ou mesmo, insetos, a perambular pela casa mas, uma busca minuciosa durante o dia, não revelou nem sequer vestígios de insetos ou roedores inoportunos. Passei a prestar cada vez mais atenção aos barulhos, como a tentar decifrá-los e, percebi que parecia que coisas eram arrastadas, móveis eram abertos em suas portas e gavetas, para serem vasculhados...Tive então, a certeza de que, gente como eu, divertia-se à noite, invadindo minha casa para mexer no que era meu mas, lembrando de minhas vistorias, jamais notei algo fora do lugar e nem faltando, assim como, jamais vi  portas e janelas forçadas e muito menos, abertas...Se não eram ladrões, pensava eu, e nem curiosos ou vândalos, quem estava há dias, invadindo meus domínios e tirando o meu sossego? Já no terceiro dia, desde seu início os ruídos, que pareciam restringir-se ao andar térreo, passaram a aproximar-se de meu quarto pois, eram cada vez mais audíveis e, em determinada noite, eu tive a certeza de que, apenas a pesada porta de madeira de meu aposento, separava-me de meu visitante -ou visitantes- noturnos e isso causou em mim, um sincero medo, sentimento que eu conheci por poucas vezes, durante toda minha vida...Agora eu o sentia, a insinuar-se por debaixo de minhas cobertas, tocando-me e tomando-me por inteiro...Felizmente a porta do quarto estava trancada, um velho e arraigado hábito meu e, tal certeza deu-me algum alento mas, não evitou que eu passasse a noite em claro, mesmo com a cessação dos barulhos, após alguns angustiantes momentos, que poderiam ser, poucos minutos ou mesmo, horas inteiras...
       O dia demorou a nascer e eu consegui dormir apenas quando a luz do Sol já filtrava-se pelas venezianas da janela. Acordei apenas pelo meio do dia, atemorizado com a possibilidade de ter meu lar invadido por pessoas mal intencionadas, que compraziam-se em tirar o sossego dos mais idosos...Uma inspeção rigorosa por toda a casa, novamente revelou que tudo estava no lugar, nada fora removido, afastando novamente, a possibilidade da presença de ladrões ou vândalos...O que seria então, aquilo?...Assim eu pensava, ao apertar novamente, os parafusos do décimo terceiro degrau, para quem subia a escada, achando, mais uma vez que, uma queda dali, poderia ter sérias ou, talvez, definitivas conseqüências para meu velho e alquebrado corpo...Naquela noite, apesar de achar que, quem me visitava à noite, possuía alguma consideração comigo, tratei de tomar algumas providências para minha própria segurança e, a principal providência foi, reativar meu velho “quarenta e cinco”, deixando-o limpo, lubrificado e totalmente carregado, em plenas condições de uso...Eu comprara aquela arma, muitos anos atrás, quando eu ainda estava em atividade, de um camarada meu que, sabendo de minha opção pelo isolamento, convenceu-me a comprar seu “trabuco”, por um preço de ocasião o que, afinal, fiz, sem nem sequer questionar a procedência da arma, convencido que fui, por seus argumentos...mas nunca precisara dela, até aquele momento e, assim preparado, fui deitar-me, muito tarde, certa noite.
       Lá pelo meio da madrugada, estando eu alerta, os ruídos recomeçaram, cada vez mais próximos e, em determinado momento, achando eu que “eles” estavam próximos demais, apontei para a porta do quarto, o facho de uma potente lanterna, que mantinha ao alcance da mão, junto com o revólver e vi, com nitidez, a maçaneta da porta de meu quarto sendo torcida, com lentidão e cuidado, por parte do invasor, do outro lado mas, notando a luz que eu produzia, o invasor bateu em retirada, deixando minha maçaneta em paz...Sentado em minha cama, já suando frio, sentindo um medo muito real, eu fiquei durante alguns momentos, sem ação, não sabendo o que fazer...Mas aí, a indignação falou mais alto e eu, adquirindo uma coragem súbita, lancei-me em direção `a porta de meu quarto, a qual abri e, de imediato, já senti algo estranho no ar, no momento em que transpus aqueles umbrais, a arma carregada e desengatilhada na mão...A outra mão logrou encontrar um interruptor e eu banhei o aposento de luz, passando a reconhecer o território para não ser pego de surpresa...Mas nada vi de meu inesperado e inoportuno visitante, não no tabique, em frente a meu quarto e, tão logo tive a certeza disso, cada vez mais senhor de mim, fui examinar o resto da casa...Ao pisar o décimo terceiro degrau ( de quem subia a a escada ), senti-lhe, imediatamente, a frouxidão...e eu havia apertado aquilo antes de ir recolher-me...Desci a escada e percorri as salas do andar térreo, nada encontrando fora do lugar, como antes mas, sentindo desta vez, que havia mesmo algo estranho no ar, conforme eu percebera, ainda lá em cima...Era um cheiro, eu apercebia-me disso, agora...Um odor estranho, que emanava de tudo à minha volta...móveis, tapetes, portas, objetos...Era algo meio desagradável mas, suave...parecia o cheiro enjoativo de um corpo humano que, após dias ou semanas sem banho, procurasse disfarçar a própria “inhaca” com perfume barato...e isso emanava de diversos pontos de minha casa, a acompanhar o que eu percebi ser uma umidade, meio oleosa, que encontrava-se em quase tudo mas que, com rapidez, evaporava no ar, dissipando e eliminando o cheiro ruim...Naturalmente, quem andava mexendo em minhas coisas, nelas largava aquele tipo de muco nojento mas, perene...O resto da noite, eu passei acordado, vendo televisão e, apenas quando o dia surgiu, eu fui dormir, despertando pelo início da tarde, sem ser molestado, eu acreditei nisso...
       Na noite seguinte, eu achei que estava melhor preparado para os invasores, caso eles surgissem por ali, novamente e, alta madrugada, eu já aguardava por eles, sentado em minha cama e com o “quarenta e cinco” nas mãos, pronto para atirar, nem que fosse em direção à porta, à guisa de advertência...Eu não sabia o que fazer e nem o que aconteceria a mim nas próximas horas...Sem outra alternativa, pagava para ver o que resultaria daquilo tudo...E achei que pagaria caro, ao deparar-me com os acontecimentos seguintes, que quase tiraram-me dos eixos!...Eu ouvi, do outro lado da porta, uma espécie de zumbido, como se um bando de abelhas lá estivesse e ouvi depois, os baques! Apontei minha lanterna para a porta e vi, com todas as cores, os cinco dedos amarelos e compridos que, passando por baixo da pesada peça de madeira, agarravam-na e puxavam-na para fora, com uma força incomum, com a nítida intenção de arrancar a peça de madeira de seu batente para, então, a coisa que fazia aquilo, lançar-se sobre mim, fazendo-me em pedaços...Após o terceiro puxão, a porta sólida, de fato, começou a sair do lugar e minha reação foi tão automática que eu nem lembraria como fiz o que fiz, em detalhes, posteriormente...O fato é que fiz fogo, por três vezes, contra aquela mão monstruosa e tive a certeza de que ferira seriamente meu candidato a executor, pelo barulho que ouvi do outro lado da porta...algo como isopor sendo atritado contra vidro, um guincho altíssimo e horripilante...Era, sem dúvida, um grito de dor, vindo de meu pretenso agressor que, provavelmente, não contava com uma reação daquelas, vinda de sua “vítima”...Com uma valentia súbita, advinda do poder de meu revólver, lancei-me, novamente, porta afora de meu quarto mas, apenas abri a porta semi destruída e fui ao chão, após escorregar em algo, caindo deitado por sobre algo que parecia um mingau e que fedia terrivelmente!...Um misto de peixe podre com mau hálito humano, algo de revirar o estômago de qualquer um...e eu besuntava as costas com aquela nojeira...Mas, sem dar importância a isso, levantei-me mais do que depressa e fui em direção à escada, certo que, desta vez, encurralaria meus agressores, fossem lá eles, o que fossem e os abateria a tiros, sem piedade...Desci então, os primeiros degraus de madeira...e fui projetado em um vazio escuro, perdendo qualquer noção de espaço, vindo a chocar-me, a seguir, com um chão úmido, lamacento e malcheiroso...Mergulhado em total escuridão, eu me debati um pouco em um mundo que não era o meu mas, logo consegui ficar de pé, a roupa encharcada da gosma que recobria tudo por ali, como uma espécie de muco nojento...Tão logo movi os braços, na tentativa de localizar-me, toquei a parede mole e vertical, na qual eu quase encostava e, percebi logo, algo a mais...uma escada, um tipo de escada de corda, embebida da mesma gosma que recobria tudo por ali mas, um ponto de referência, afinal...Eu começava a subir por aquilo, julgando que encontraria ao final, algo reconhecível, quando ouvi à distância, os zumbidos de abelha, soando alto e aumentando de intensidade, a revelar que algo aproximava-se de mim... Seria, sem dúvida, o dono dos dedos que eu atingira ainda há pouco, que vinha tirar satisfações comigo...Mas, não esperei por ele, subi a tal escada vertical com toda a rapidez que consegui, mesmo a despeito de todo aquele visgo que a recobria...e logo senti que saía de novo, em minha casa, mais especificamente, em minha escada, certamente através do espaço compreendido pelo décimo terceiro degrau, para quem subia...Sentindo fedores ultrajantes e sentindo a roupa que usava, grudada no corpo, através de um muco sobrenatural, ou coisa pior, corri ao interruptor que havia no alto da escada e acionei-o, na tentativa de entender algo do que acontecia, naquela madrugada de horrores...E vi o buraco escuro, que ocupava o espaço onde outrora esteve o décimo terceiro degrau...Parecia a entrada de um alçapão, limitado pelos degraus de cima e de baixo...Uma espécie de buraco solto no ar, algo incompreensível, totalmente fora da realidade, do mundo real...Em um rasgo de ousadia, tentei espiar para dentro daquilo, apesar da escuridão de tal poço mas logo desisti, ao ouvir o primeiro disparo e quase sentir a bala roçando meu rosto!...Com a queda, eu perdera o meu revólver e a coisa lá em baixo, havendo encontrado-o, fazia fogo contra mim, esvaziando o pente carregado...Não sabendo como, percebi que a coisa temia a luz e não sairia pela abertura negra, limitando-se a manter-me à distância, com seus tiros...Quando afinal o pente foi descarregado, eu ainda ouvi o grito de dor, o horrível guincho que ouvira, momentos antes, após eu dar meus tiros, ainda no quarto...Mas os guinchos não vinham do buraco escuro e sim, de fora dele...Foi quando, a virar a cabeça para o lado e para baixo, pondo em foco, o espaço compreendido por minha sala, logo abaixo da escada, vi, simplesmente, em toda sua totalidade e lúgubres cores, uma das coisas que tentava atacar-me pois, eu sabia agora, não fora apenas um ser, quem atentara contra mim...Certamente a coisa estava no andar de baixo, bisbilhotando, enquanto a outra tentava arrancar-me de meu quarto e, ao ouvir o tumulto, viera ter à sala e fora atingido em cheio pela luz, passando a gritar de dor...E eu olhava para aquilo e meus olhos brigavam com meu cérebro, na tentativa de uns convencerem o outro de que aquilo, de fato,  existia...
       Difícil descrever o que era...Não era humano, em absoluto, apesar de parecer-se vagamente com um ser humano...Era uma espécie de hominídeo, totalmente nu e muito magro...a pele, amarelada, era muito clara e as pernas, curtas e fortes...Os órgãos genitais eram pequenos e reconhecíveis e o tronco, que parecia ter sido estirado à força, dava à criatura uma altura espantosa, seguramente mais de três metros...Os dois braços, muito compridos, eram musculosos mas, finos e os dedos –cinco, como nas mãos humanas- eram compridos e delgados, com mais do que três articulações a dobrá-los e esses dedos terminavam em unhas, curtas e escuras. O corpo despido, parecia ser desprovido de qualquer pelo e a cabeça, muito grande, era pulsante e mole, como uma bola de encher, parcialmente preenchida com ar ou qualquer outra substância. Era irrigada, profusamente, através de veias e vasos, muitos, perfeitamente visíveis por sob a pele fina...O rosto, no meio de tal cabeçorra, era pequeno demais para ela, assim como as orelhas e os olhos. Estes, eram de cor vermelha forte e eram apenas dois; o nariz, quase inexistia e a boca, também pequena, era guarnecida de uma miríade de dentes que assemelhavam-se a espinhas de peixe, longos, finos e translúcidos...dentes que, talvez apreciassem rasgar carne humana...A coisa buscava proteger seus olhos vermelhos da luz, nem tão forte, da sala, enquanto seu corpo todo, parecia fumegar, exalando mais mau cheiro, a somar-se ao que eu já sentia...Ao avistar-me, soltou um silvo ainda mais agudo, como o de uma cobra e avançou escada acima, em minha direção, um dos braços em torno do rosto e o outro, a golpear o ar, em nítida posição de ataque. Eu recuei dois passos escada acima, ao ver semelhante monstro vindo em minha direção e, ao chegar ao jirau, tropecei no degrau, que fora retirado da escada e, lá posto, caindo de costas mais uma vez e já esperando ver crescer sobre mim, o tal monstro amarelo, ávido por vingança...
       Mas, nada aconteceu, os ruídos todos cessaram e a monstruosa criatura não me atacou, passando a fazer um pesado silêncio no local. Eu, que já me via agarrado e esquartejado pela coisa, levantei a cabeça, em direção à escada, para ver o que lá acontecia e, não vi nada...levantei-me, então e olhei para onde deveria haver um buraco escuro e malcheiroso mas, o que vi, foi o chão da sala, visto através da falha na escada, provocada pela falta de um degrau...As criaturas haviam fechado aquela passagem, elas podiam faze-lo...Mas...o que era aquilo tudo? Minha casa comunicava-se com o próprio inferno? Foram demônios que invadiram-me o lar e tentaram levar-me com eles? Decidido a não pagar mais para ver, subi até meu quarto, fiz as malas com o máximo de coisas que pudesse carregar comigo e saí, notando os restos de dedos do demônio amarelo, decepados por meus tiros...Apesar dos tiros terem sido deflagrados há poucos minutos atrás, parte do muco repulsivo que seria o recheio daquela coisa já evaporara em pleno ar e não cheirava mais tão fortemente, enquanto que os restos de dedos já pareciam-se com cinza de charuto, a desfazer-se totalmente...Impressionado com mais aquilo mas, ainda com as roupas impregnadas de gosma infernal, saí, afinal, pela porta da frente, disposto a nunca mais retornar àquele local de horrores...Que a casa ficasse de vez com os monstros amarelos, mesmo sendo minha, o que eu queria era esquecer que um dia pisei naquele local...Pus as malas no automóvel, estacionado na garagem que havia do lado da casa e voltei lá, para pegar mais alguma coisa. Estava eu já no centro da sala quando, de repente, as luzes apagaram! Não pensei duas vezes, saí correndo de lá, o mais depressa possível e, ao trancar a porta da frente, ouvi lá dentro o barulho de décimo terceiro degrau sendo varado longe. Como se tivesse o próprio Demo aos calcanhares ( e talvez o tivesse mesmo ), corri para o automóvel, dei a partida e saí a toda velocidade, através da estradinha que ligava o portão da propriedade com a casa...Mas, apenas para frear bruscamente, próximo ao portão, ao ver o vulto humano que acenava como louco, para mim, ao lado do caminho. Parei junto ao inesperado personagem, ao ver que era mesmo, um homem e não, um monstro e logo o reconheci à luz dos faróis acesos: Era o homem que me havia vendido a casa, quem pedia-me para parar, por algum motivo. Ele aproximou-se de mim e disse-me, apressado.
       _ Vamos sair daqui, eles podem ser perigosos, se sentirem-se ameaçados.
       Nada perguntei, apenas deixei que o inesperado personagem entrasse em minha velha picape e afastamo-nos os dois daquele local deserto, rumando para a cidade. O homem disse então.
       _ Um grande erro foi cometido, por minha parte, eu ia justamente desfaze-lo com o senhor mas ouvi os tiros e assustei-me, julgando que tudo estava perdido...Mas, felizmente, vi que escapou ileso e, acredito que tenho...coisas para conversar com o senhor...Fui insensato ao vender-lhe a casa, achei que não havia mais perigo...cometi um grande erro, que pretendo redimir...Vamos para um hotel de um amigo meu, lá na cidade, eu pagarei quantas diárias forem necessárias para o senhor, até que ajeite sua vida...Lá no hotel, após acomodá-lo, conversaremos...
       Não entendi metade do que aquele sujeito me falava mas, aceitei seu convite para irmos ao tal hotel pois, estava sem eira nem beira em plena madrugada e não sabia o que fazer de minha vida...Rodamos um pouco mais e paramos, finalmente, diante do tal hotel, de tamanho médio e sem grandes luxos...e nem pequenos. Após registrar-me, o vendedor de casas arrependido ajudou-me a levar minhas malas para meu quarto, localizado no último dos sete andares do prédio e disse-me que aguardaria no bar do hotel uma visita minha, para conversarmos sobre tudo o que precisava ser explicado entre nós. Dei um tempo no quarto, troquei de roupa, achando que ainda estava recoberto pelo muco nauseante mas, com surpresa, vi que tudo aquilo já evaporara no ar, não deixando nem sequer um vestígio de cheiro ruim...troquei-me assim mesmo e fui ao encontro do vendedor arrependido, que aguardava-me no bar, conforme o combinado. Sentamo-nos a uma das mesas do local deserto de fregueses, ele pediu uns drinques e, afinal, disse a que veio.
       _ Uma noite dos infernos o senhor teve, não? E a culpa foi minha...
       _ Como sabe que minha noite foi má? –eu disse.
       _ E não foi? Eu vi seu estado ao sair de lá, felizmente nada de grave aconteceu-lhe, se me atrasasse um pouco que fosse, certamente não o encontraria.
       _ Pode me explicar o que aconteceu-me?
       _ Em que sentido? Fala das criaturas? Não sei muito a respeito delas mas, creio mesmo que são menos perigosas do que aparentam ser.
       _ Como pode dizer isso? Eles dispararam contra mim –e contei-lhe o episódio da arma e do posterior encontro com as criaturas amarelas
       _ Aí é que está –disse o camarada- Na verdade, o senhor feriu um deles, primeiro...decerto ficaram com medo e passaram a defender-se...
       _ Com medo? De mim? –comecei a exaltar-me- Pois se não estavam arrombando a porta de meu quarto, para atacar-me.
       _Talvez não desejassem realmente, atacá-lo...Talvez tivessem abusado um pouco da força por não conhecerem nossos hábitos...talvez desejassem um contato amistoso...
       _ Amistoso, sei...
       _ Veja, bem, quando o senhor tropeçou no degrau, no alto da escada, segundo suas próprias palavras, a criatura teve todas as chances de atacá-lo mas, não o fez, preferindo fugir pela “passagem”.
       _ Estava cego pela luz, seu próprio corpo dava a impressão de estar desintegrando-se, ao ser atingido por ela...o que a coisa fez foi, apenas, fugir de um inimigo natural: a luz...Mas...de onde essas coisas vieram? Que “passagem” foi essa que o senhor acabou de citar?
       _ Sobre isso, eu sei alguma coisa. Quando construí a casa e algo semelhante ao que aconteceu ao senhor, sucedeu comigo, eu estudei um pouco o caso e cheguei a algumas conclusões...O senhor já ouviu falar ou leu algo sobre “portas dimensionais”?
       _ Creio que não...
       _ Paralelamente a este mundo em que vivemos, existem outros, com suas próprias realidades e formas de vida, alguns desses “mundos paralelos” podem ser bastante semelhantes ao nosso mas, outros são, sem dúvida, bem diferentes e o caso em questão, atesta justamente isso...Eu andei estudando o assunto e soube de, pelo menos, dois casos documentados acerca de tais mundos, um deles ocorrido em alto mar, a bordo de um transatlântico e o outro ocorrido em uma ilha fluvial, em um rio, em algum ponto da Europa...nos dois casos, houve um contato de pessoas com criaturas vindas de outros mundos que, em locais específicos “tocam” nosso mundo, abrindo tais passagens.
       _ Como terminaram tais encontros?
       _ Não soube de muitos detalhes mas, certamente, não houve crimes de morte em nenhum dos dois casos, o que me leva a acreditar nas possíveis intenções pacíficas dos habitantes desses mundos paralelos.
       _ Será? Não me convenceram muito de suas “boas intenções”.
       _ Mas estou certo dessa grande possibilidade...Por sermos tão diferentes fisicamente, é natural uma certa desconfiança mútua advindo daí, possíveis desavenças...Mas, o que eu queria mesmo, falar com o senhor é sobre o erro que cometi, ao vender-lhe a casa que construí e na qual morei durante alguns anos, mesmo a despeito da presença dos “estranhos”, vamos chamá-los assim...De fato, sendo habitantes de um mundo de trevas, eles temem a luz, como o senhor teve a oportunidade de descobrir e esse foi mais um erro meu: não tê-lo advertido sobre a presença deles e seu temor à luz, vinda de qualquer fonte...Mas, veja bem: eu precisava vender meu imóvel com rapidez e julguei que, confrontado com os “estranhos”, o senhor mesmo haveria de entender-se com eles, como eu me entendi...Fui desonesto, admito, irresponsável até mas, acredite: o remorso não me deixou em paz, durante o pouco tempo após fecharmos nosso negócio e, afinal, eu fui procurá-lo para desfazer semelhante equívoco, comprando de volta a casa, pelo mesmo preço que a vendi, ou até mais caro, e fechando o imóvel, definitivamente, de modo a que seus visitantes não incomodem mais gente honesta e trabalhadora...Só não tenho os papéis aqui comigo, precisava sondá-lo antes, caso aceite o negócio, marcaremos um novo encontro, o que me diz?
       Havia algo de muito estranho com aquele homem à minha frente, a contar sua história absurda e seus remorsos que, de modo algum, convenceram-me. Mas decidi-me por fingir entrar em seu jogo, ao menos para ganhar tempo e, fazendo-me de aliviado por livrar-me de um mau negócio, disse-lhe que concordava com seus termos e, com alívio, devolver-lhe-ia o imóvel assombrado; o homem parecia satisfeito ao dizer-me que, tão logo amanhecesse, trar-me-ia os contratos, para serem destruídos, tornando o negócio desfeito; na ocasião, devolver-me-ia ele, o pagamento, integral, que eu fizera, na época do fechamento do negócio, ao qual acrescentaria o que eu pedisse a mais. Aparentando uma certa euforia, o vendedor arrependido pediu-me que ficasse eu, no hotel, até que ele retornasse com a papelada e disse ainda que, fazia questão de pagar minha diária ali, ou as diárias que eu precisasse usar até ajeitar minha vida, assim como, tudo o que eu consumisse no âmbito do hotel, à guisa de um pedido de desculpas por ter-me envolvido em uma história de monstros e escadas assombradas. Foi a minha vez de fingir satisfação e agradecimento por tamanha generosidade e, em um clima de total falsidade, despedimo-nos.
       Não precisei nem de uma hora inteira para, após a saída daquele promotor de encontros inter dimensionais, adivinhar-lhe as intenções e concluir em que ponto eu inseria-me naquela história absurda...e aperceber-me do perigo que eu corria...Uma “ova” que aqueles monstros amarelos eram pacíficos e bem intencionados...Aqueles dentes de peixe, compridos e afiados denunciavam sua predileção por carne...e humana...Aquela casa era uma armadilha para conseguir comida para criaturas de outros mundos, era tudo muito claro para mim, bastou apenas pensar um pouco, com a cabeça fria...Meu “amigo”, o vendedor arrependido de casas estava de conchavo com aquelas criaturas demoníacas, fazia o jogo delas, arranjando-lhes “comida”, através do golpe da casa vendida a um preço baixo...Eu me perguntava então, quantas pessoas, talvez famílias inteiras...crianças...haviam perdido as vidas nos dentes afiados daqueles seres horrendos...Que tipo de acordo aquele tipo, que entregava seus semelhantes “de bandeja” para monstros sanguinários, havia feito com eles? Decerto pagavam bem por seu serviço sujo, riquezas de um outro mundo, talvez... e o canalha traía sua raça, com a maior “cara lavada”, em troca de presentes...naturalmente, sempre a querer mais e mais...E eu me dei conta de que, naquele momento, estava, novamente, prestes a ser entregue a meus “candidatos a comensais”, após ter conseguido escapar do primeiro ataque deles...Bendita a hora em que decidi comprar aquele revólver; perdera-o, infelizmente mas, ele salvara minha vida...e, por pouco, não dera cabo dela, quase logo a seguir...Acho que ninguém, naquela confraria de “gourmets” e associados traidores de sua própria raça, imaginaram que eu pudesse estar armado, caso contrário, não seriam tão “escancarados” em suas intenções malignas...Eu escapara mas, apenas, de seu primeiro ataque. Lembrava agora, da súbita falta de luz na casa, quando eu atravessava a sala para sair dali...Tentaram pegar-me até o último instante; meu “amável” vendedor cortou os fios de energia, de onde estava, próximo ao portão de entrada...Frustrado, interceptou-me em plena fuga, com suas “conversas pra boi dormir” e agora eu estava, novamente, em suas mãos...Possivelmente, viriam pegar-me quando eu estivesse dormindo, naquele quartinho miserável de um hotel barato que, eu poderia jurar, estava vazio, à exceção de mim...Porque ele hospedou-me então, no último andar de um prédio deserto? Naturalmente, para dificultar uma possível fuga, caso eu escapasse ao ataque noturno que, certamente, viria...Se eu saísse do hotel naquele exato instante, pegasse meu carro e fugisse, certamente seria perseguido e assassinado em algum canto escuro daquele local remoto em que o hotel ficava...De dia, não conseguiria fugir pois, sabia que aquela seria minha última noite sobre a Terra afinal, após ter fugido de um desagradável jantar, que seria eu mesmo, eu sabia de coisas que deveriam manter-se em segredo...Definitivamente eu sabia demais, o que fazer?
       Fugir, naturalmente e, logo, sem levar nada, apenas a roupa do corpo e minha vida; de todo o resto eu podia prescindir, nunca fui muito apegado a objetos, mesmo...Após pensar um pouco, tracei meu plano de fuga e coloquei-o em execução. Saí de meu quarto e comecei a descer as escadas do prédio, rumo ao primeiro andar; se fosse abordado por alguém, no meio do caminho, já tinha a desculpa na ponta da língua: Estava indo comprar cigarros e não andava em elevadores pois tinha medo deles...Decerto mandar-me-iam de volta para meu quarto e comprariam os cigarros por mim...e eu voltaria mas, para aplicar o plano de fuga alternativo que engendrara mas, acreditava que não seria abordado no âmbito do hotel, seria óbvio demais...E não fui abordado mesmo, consegui chegar ao primeiro pavimento com relativa tranqüilidade e preparei-me então, para a parte mais arriscada de meu plano: Eu ia arrombar uma das portas dos quartos da parte de trás do edifício, confiando na certeza que tinha, de que o hotel estava mesmo, vazio...Não foi difícil forçar a frágil porta de madeira de um hoteleco de baixa qualidade daqueles e, em poucos momentos, eu me vi dentro do aposento, deserto, naturalmente, do jeito que eu esperava. Fui até a janela e olhei para baixo...dava para um pequeno pátio, cercado por um muro e, além do muro, estava a rua e minha liberdade...A distância da janela para o chão não era grande, eu já havia pulado de alturas maiores do que aquela, em tempos antigos, e eu acreditava que ainda podia executar tal tarefa...E o fiz, sem maiores dificuldades, sem nem, quase, doerem-me os pés...Mais um salto por um muro de dois metros e pouco de altura e eu era livre, escapara da morte mais uma vez, em uma única noite...Saí andando pelas ruas escuras, ainda temendo uma abordagem e, afinal, após muito andar, eu descobri onde estava e, tratei de encontrar a estação rodoviária, que não estava longe, felizmente. Lá chegando, comprei uma passagem para um local bem distante e desapareci das vistas, levando apenas, dinheiro e documentos, as malas, eu deixei para “eles”, como recordação de um “jantar frustrado”.
       Deixei passar algum tempo antes de entrar novamente em ação, executando o plano que  engendrara durante meu período de “ostracismo”...Eu decidira que, o aperto pelo qual passara não ia ficar sem troco, em meu nome e em nome dos que não escaparam de tão sinistra armadilha...A casa ainda era minha, não podia ser negociada e, portanto, deveria estar fechada. Dentro em breve eu iria conferir isso...Um dia, tranquei a porta da casinha em que morava, agora e fui, afinal, em busca do que achava ser minha missão. Viajei de volta por uma distância que, não percebera ser tão grande, quando fugira, decerto por que, o medo que sentia alterou-me o pensamento...E, afinal, voltei àquele sítio maldito, não sem uma sensação estranha, misto de receio e nojo, algo assim, resquícios das imagens grotescas que presenciara, dos odores que sentira, tempos atrás...E encontrei tudo como achei que deixara, ao fugir dali. Olhei para o fio de eletricidade e ele estava em seu lugar, não fora cortado, como eu acreditei...Ou foi cortado e, depois, religado, talvez para compor, novamente, a armadilha da qual eu quase fora vítima...Certamente outros, depois de mim, talvez uma família toda...ou mais de uma família, havia encontrado seu fim nos dentes de peixe daquelas criaturas malignas e famintas...Eu experimentei a chave do portão e ela moveu-se, abrindo aquilo.Nem deram-se ao trabalho de trocar a fechadura, decerto concluíram que eu fugira como um cachorro assustado para nunca mais voltar...mas eles enganavam-se...Entrei então, com o carro e parei na garagem, como fazia e, dirigi-me à porta da frente, a qual abri sem dificuldades afinal, a fechadura era, ainda, a mesma. Entrei, esperando ver uma coisa e, com surpresa, vi outra: Ao invés de encarar uma casa vazia, sem nenhum móvel ou aparelho, encontrei tudo como havia deixado, tempos atrás, meus móveis, eletrodomésticos, peças de decoração, tudo em seu lugar, como eu lembrava que era; aparentemente ninguém mexera em minhas coisas e nem outras pessoas estiveram na casa, desde que eu partira. A luz funcionava perfeitamente, os alimentos na geladeira haviam deteriorado e nada indicava que ali ocorrera um sério conflito, envolvendo humanos e alienígenas de outra dimensão. Subi então a escada e vi que o décimo terceiro degrau (para quem subia) estava fora do lugar, como eu deixara mas, a tal “porta dimensional” estava fechada...Procurei por uma chave de fenda e aparafusei o degrau, novamente, pela última vez. Sim, pela última vez porque, eu tinha planos para acabar com aquela armadilha que quase dera cabo de minha vida e, nem a atual falta de evidências iria deter-me, eu estava resolvido...Perderia uma pequena parte de meu patrimônio, em móveis usados e gastos e, um imóvel, que suara para adquirir mas, nada disso importava, o que eu queria era, apenas, terminar com algo cruel e imoral, uma armadilha que transformava vidas humanas em alimento para monstros...
       Tratei, então, de agir rápido, não tinha tempo a perder; dei uma busca detalhada pela casa para recuperar objetos pessoais, documentos e tudo o que eu pudesse carregar de mais importante e, assim, lotei o carro. Quando dei-me por satisfeito, então, pus em execução meu plano de retaliação contra os monstros e  encharquei cada cômodo da casa com as dezenas de litros de gasolina que eu trouxera em vários bidões, cuidando para que tudo inflamasse-se com rapidez. Passei então a ocupar-me da escada e de seu degrau maldito e espalhei ao longo da ampla estrutura de madeira, as diversas bombas de fabricação caseira, que aprendera a fazer, através de um livro que li durante meu “exílio”. Tudo pronto, abri a porta da sala, acendi um fósforo, lancei-o ao chão e, antes que o fogo alastrasse-se de verdade, entrei no carro e fui para a frente do terreno, a uma distância segura, admirar o espetáculo.
       Quando os bombeiros chegaram, chamados certamente, por algum vizinho solícito, já não havia mais o que fazer, a casa já não existia mais, as bombas plantadas saíram-me melhor do que a encomenda e, além de levarem pelos ares a escada maldita, praticamente implodiram a casa toda, desmantelando as paredes internas e levando as externas junto, tudo muito rápido...Com satisfação, eu vi o fechamento definitivo da tal “porta inter dimensional”, quando as explosões aconteceram e, fugi dali rapidamente, antes que começasse a chegar muita gente. Fui esconder meu carro longe dali, voltando depois, a pé, apenas para ver os estragos, como um popular qualquer...Quando voltei, o local já estava apinhado de gente que abrira meu portão e invadira-me o terreno para admirar a pilha de escombros fumegantes e, ainda ardentes, em alguns pontos. Minha missão estava cumprida e eu abri caminho através da multidão, para ir embora e, ainda vi quando os bombeiros chegavam, com seus caminhões vermelhos, suas luzes piscantes e sua algazarra de ruídos, tudo era uma festa para mim.
       O tempo passou, eu voltei para minha casa, distante da que destruíra e, procurei não pensar mais em dimensões paralelas e monstros amarelos, comedores de gente...sem conseguir, entretanto...Volta e meia eu lembrava de minha insólita aventura, quando flertei com o desconhecido e ganhei uma batalha...Ganhei mesmo?...será que houve mesmo, uma batalha?...Por duas ou três vezes, eu voltei ao terreno na beira do rio com seus escombros no centro exato...e eles ainda estavam lá, intocados...talvez um pouco mexidos pela curiosidade justificada de pessoas, talvez objetos ainda inteiros, encontrados ali, houvessem sido removidos mas, olhando os restos carbonizados da escada que ligava duas dimensões paralelas, eu me perguntava se, de fato, uma noite, vira monstros amarelos, estivera em um hotel suspeito ou mesmo pusera, eu, fogo naquela casa...que já duvidava, mesmo, que, um dia fora minha...Tudo parecia tão estranho e inverossímil, tão absurdo e perdido no tempo que, confundia-me um pouco a memória e, o que era uma certeza, passou a ser uma dúvida, uma cisma que, com o passar do tempo, se Deus quisesse, finalmente, eu haveria de esquecer de uma vez por todas.
celso dyer
Enviado por celso dyer em 17/12/2017
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