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Quercus Robur


    ...Já fazia tempo que estava ali...Não saberia dizer o quanto, dadas as circunstancias...Tempo era algo por demais relativo mas, achava que estivera andando há muito tempo...horas...perdida...cercada pela vegetação densa, que limitava seu campo de visão a apenas alguns poucos metros, o suficiente, no entanto, para saber onde encontrava-se...Os pés mergulhados até os tornozelos na água parada e infecta, a emanar gases resultantes da decomposição vegetal...Pisava em raízes submersas, cobertas de limo; aquilo devia ser pra lá de escorregadio, ainda mais para alguém com os pés descalços, como era o seu caso mas, apesar de tudo, ela não escorregava e seguia andando como se, em terra firme estivesse...Trajava apenas suas calcinhas de algodão com um urso pintado na frente; lembrava-se que, momentos antes, ainda vestia sua camisola rosa, cheia de bordados, tão linda...Mas, ela sumira em uma das voltas daquele caminho de confusões e ela não importava-se mais com isso, nem mesmo se alguém aparecesse em seu caminho e a visse daquele jeito...Só esperava não perder também aquela última peça de roupa, o que ela acreditava que não aconteceria, lembrando das outras vezes. E assim, praticamente nua como estava, prosseguiu em sua jornada, torcendo para que o desenrolar dos acontecimentos seguisse como o previsto e ela pudesse ter alguma revelação a mais além do pouco que já conhecia acerca daquilo tudo...

       Sabia que estava sonhando, aquele sonho já acontecera-lhe por diversas vezes ao longo de sua, ainda curta, vida; desde que dera-se conta de que existia na face da Terra, isso há poucos anos passados...Nas primeiras vezes em que aquilo acontecera-lhe, lembrava que morria de medo e despertava aos gritos e era prontamente socorrida pela mãe, que estava sempre a seu lado quando os pesadelos acometiam-na, ainda bem...Envolvida por aqueles braços carinhosos e ouvindo a voz consoladora da pessoa mais importante em sua vida, ela sempre acalmava-se e voltava logo a dormir, sem ser atacada por novos sonhos ruins e embalada pelas cantigas, estranhas mas bonitas que só a mamãe sabia cantar.
       Com o tempo, o mesmo sonho repetiu-se de vez em quando...Sempre igual...E essa repetição motivou, como que um costume, um pouco incômodo é bem verdade mas...um costume...Sabedora de que nada daquilo existia senão em seu pensamento e, livre do medo, em decorrência a tal conclusão, passou então a prestar atenção naquilo tudo pois, devido à repetição, ela parecia perceber que uma história era contada em sua cabeça, no meio de seu sono. Uma história que desenrolava-se mas, apenas até certo ponto pois, quando uma importante revelação ia ser feita, ela despertava subitamente; sempre fora assim...E agora, a coisa acontecia novamente após um tempo meio longo, maior do que das outras vezes e, quem sabe, daquela vez, algo novo suceder-se-ia? A falta de sua roupa de dormir ocorria algumas vezes, não sempre mas, o cenário era o mesmo: uma floresta misturada com pântano, alagada, malcheirosa, mergulhada em uma bruma fina...Um ambiente atemorizante, composto de árvores escurecidas e limosas, antiqüíssimas, retorcidas, como presenças ameaçadoras, a aumentar sua sensação de fragilidade...Antigamente, quando não sabia que tudo aquilo não era real, entrava logo em prantos, gritando pela mãe pois, temia o que logo mais poderia acontecer-lhe...
       E estava acontecendo agora...O chão vibrava, formando ondas concêntricas naquele charco, a indicar a aproximação...da coisa...Ela não correu, espavorida e gritando como louca, como fazia, antes de acostumar-se àquela loucura e continuou a andar, esperando ver afinal, algo que ainda não vira...e que desejava ver...Sabia agora, como aquilo iria prosseguir e avançou mais, na esperança de ter uma nova revelação...Desconfiava de como seria a forma da coisa que a ameaçava e cercava, aproximando-se cada vez mais e desejava saber se o que achava que era, era mesmo...Desejava ver o monstro em sua horripilante totalidade ainda mais, sabendo que ele não poderia fazer-lhe o menor mal físico...Estava intrigada, queria saber como algo que existia desde quase o início do mundo para ser escravo da imobilidade, movia-se, contrariando as leis da natureza...Bem, como era um sonho, tudo era possível...E a coisa aproximava-se mais e mais, provocando pequenos tremores no solo, devido a seu peso descomunal em pleno movimento e em breve, aquelas passadas monstruosas deixariam de ressoar por detrás dela quando o monstro, desejando acuá-la de verdade, passaria a cercá-la pela frente, após um salto gigantesco, que abalaria de vez o chão inundado, quando aquilo tocasse, de novo, o solo e que, durante seu trajeto, provocaria uma nojenta chuva de água podre, fragmentos diversos e limo, por cima dela, um verdadeiro horror...
       Tudo aconteceu conforme o previsto: o salto, a chuva infecta, o baque estrondoso no chão alagado...A coisa agora estava diante dela, oculta pelo arvoredo ameaçador e pela bruma que começava, de modo angustiante, a adensar-se mais e mais...Ouviu então o ruído de madeira sendo quebrada enquanto o monstro da floresta avançava em sua direção, rompendo o mato e abrindo uma enorme trilha na selva...Logo, logo, alcançar-lhe-ia e era nesse momento de terror absoluto em que, nas primeiras vezes, despertava horrorizada e chorando...Pois agora, não chorava mais, não tinha mais medo...Desejava –isso sim- ver algo que a perseguia durante toda a sua vida; algo de que não tinha mais medo, pois esse medo fora substituído por uma enorme curiosidade, que só fazia aumentar a cada vez que aquele horror invadia-lhe os sonhos...Será que, daquela vez o desenlace seria outro? Veria ela, afinal, algo que estava virando uma obsessão sua?...As passadas rápidas estremeciam o solo, a água deslocada pelas passadas ciclópicas já logravam atingi-la, manchando-lhe a pele em respingos esverdeados e asquerosos, o ruído de água sendo revolvida e do chão sendo sulcado por uma coisa monumental já era quase ensurdecedor...E, de repente, a imensa sombra, a maligna sombra cresceu diante dela enquanto as últimas arvores eram arrancadas pelas raízes para não a estorvarem mais e o cheiro peculiar invadiu suas narinas...Ela ergueu então, a cabeça para ver...



       Encarapitada em sua cadeira predileta, alta o suficiente para que sentada, pudesse ficar diante da janela da sala olhando para o mundo lá fora, pensou em sua vida...Estava de férias, depois de cursar meio ano em uma escola nova, após uma mudança de lar que parecera-lhe mais uma fuga às pressas, do outro apartamento, onde morava com os pais...O novo apartamento era melhor do que o antigo que era de fundos, sombrio, com um quarto apenas, dividido em dois ambientes mas, com uma janela, apenas, que dava, como a janela da sala, para a horrenda garagem do prédio, situada entre os dois blocos...Agora, tinha um quarto apenas para si e o apartamento, embora pequeno, como o anterior, era de frente para a rua, bem iluminado e arejado. Os dois quartinhos eram independentes entre si e cada um tinha a sua janela. O quarto da frente, que tinha a mesma vista da sala, ficara para ela e o que dava vista para uma área interna, ficara para o pai e a mãe, talvez por ser um pouquinho maior do que o seu...Bem, agora podia ver o mundo e o que via era um conjunto de praças, em frente ao prédio...Praças arborizadas e bem cuidadas, com amplos gramados e muitos bancos de concreto, longos, a acompanhar os sinuosos desenhos dos canteiros. Eram bem umas cinco praças e a maior delas exibia-se, inteira, diante da janela onde estava.
       Era três horas da tarde de um dia de muito sol e ela, muito tímida e pouco afeita a turminhas, com bem poucos amigos, ao invés de ir brincar na praça com o resto da meninada e sob o vigilante olhar de sua mãe, preferia apenas ficar olhando para aquela área ampla, muito freqüentada e animada, até por preguiça de sair, reconhecia...Quando viera para aquele novo prédio, uma das praças, a última, antes do conjunto de casas de madeira sobre um chão de terra, que serviam de moradia para famílias de poucos recursos, em mais uma iniciativa do Governo no sentido de fornecer teto a quem não tinha; essa última praça estava em obras, algo estava sendo construído sobre ela e, em meio a um passeio por aquelas bandas, acompanhada da mãe, esta perguntou a um dos operários que cavava uma vala, o que sairia dali e teve como resposta:
       _ Uma escola.
       E, de fato, em tempo recorde, uma escola foi levantada sobre a praça vazia...Uma escola muito feia e esquisita, que parecia ser feita de papelão, na verdade, um material sintético, desenvolvido logo depois da segunda grande guerra, lá em terras estrangeiras, para construir abrigos para milhares, talvez milhões  de sem–teto, resultantes da enorme hecatombe acontecida no mundo e terminada há mais de vinte anos atrás...Ela detestara o prédio assim que o vira pronto, diante de si quando, logo após o término das obras e subseqüente entrega da escola à população fora, nela, matriculada...Mas, antes assim, ela odiava mais ainda a escola antiga, que ocupava um enorme prédio, velho e sombrio, no qual  não fizera um amigo seque durante os dois anos em que, lá estudou.

       Chamava-se Márcia Cecília e achava seu nome um pouco pomposo demais para uma menina tímida e sem graça, como considerava-se...Para que dois nomes? Um deles, apenas, já a satisfaria afinal, achava os dois nomes, bonitos; gostava tanto de Márcia quanto de Cecília...Talvez, um pouquinho menos de Cecília...Uma vez, em conversas com a mãe, tocara no assunto e esta explicara-lhe que seu nome era a união dos nomes de suas duas avós, ambas já falecidas. A mãe explicara que seu duplo nome era uma homenagem às duas parentes que sua filha não conhecera pessoalmente e aproveitando o ensejo, a jovem mãe fez um breve relato sobre as personalidades de sua própria mãe e de sua sogra, tecendo comentários muito elogiosos para com as duas mas, com uma voz  que ia, pouco a pouco, revelando uma tristeza muito profunda, a ponto de ela, Márcia, abreviar um pouco a conversa, temendo provocar lágrimas nos doces olhos de sua mamãe, algo que passara a odiar com todo o seu coração depois daquela tarde horrível de domingo...


       Olhava, preguiçosa, para a tarde ensolarada e convidativa com um céu especialmente azul e nuvens que pareciam carneirinhos lanosos; tão silenciosa, naquele dia de julho de mil novecentos e sessenta e dois, um dos primeiros do início de suas férias de meio de ano...A mãe viera, minutos antes, perguntar se ela queria ir à praça mas declinara do convite, preferindo apreciar seu novo pedacinho de chão e céu, acostumando-se a ele, sem maiores traumas...Lá longe, do outro lado das praças, estava o estádio de futebol, pertencente ao time mais famoso de sua cidade ( e de todo o país, dizia seu pai, torcedor fanático do time em questão )...Achava aquela arquibancada de concreto muito feia, quase estragando o cenário que via diante de si, à altura do segundo andar do prédio que não tinha apartamentos no andar térreo sendo este, inteiramente ocupado pelo comércio que ia, de barbearias e farmácias a oficinas mecânicas, como a de “seu” Acácio, o português, pai do Gil, seu colega de turma, um sujeitinho muito irritadiço que detestava que zombassem de seu jeito de falar, assim como seu sotaque lusitano.

       Tinha ela, oito anos de idade e lembrava-se que dera conhecimento de si aos seis, quando iniciara a relacionar os fatos ocorridos em sua vida de modo consecutivo, como nas histórias que lia nos livros. Antes dos seis anos, o que lembrava eram pequenos “flashes” de acontecimentos isolados e independentes entre si ( ela achava )...Lembrava, por exemplo, de uma casa meio isolada em algum canto do mundo...Uma casa grande que tinha à sua frente, um imenso descampado, quase sem fim e em meio a tal deserto, muito longe, sob seu modo de ver as coisas, uma espécie de barraca comprida, de madeira, onde vendia-se frutas, legumes e carne...Uma espécie de mercado local em um tempo em que não deveria existir, ainda, supermercados...Ela lembrava que, ainda no colo da mãe, era levada até ali para que as compras da casa pudessem ser feitas; sua noção de tempo naqueles tempos de bebê, deveria ser muito distorcida porque, logo após a visão do descampado, lembrava-se do mesmo local profusamente arborizado mas, nem por isso, belo...O local onde estava a tal estrutura de madeira, coberta por um telhado azul de duas águas, o tal mercado, transformara-se em um pântano horroroso mas, o mercado ainda estava lá só que, totalmente destroçado, como se as árvores; árvores feias, ameaçadoras, retorcidas, imensas, tivessem nascido e crescido sobre ele até destruírem-no...E isso deveria ter levado muito tempo pra acontecer mas...lembrava que ainda era um bebê de colo, quando registrara tão lúgubre visão...Lembrava também de uma outra casa em um outro local, um local mais habitado mas que tinha à sua frente, uma espécie de praça, muito mal cuidada e repleta de árvores plantadas a esmo, como em uma floresta e, também essas árvores eram velhas, enormes, retorcidas e feias...Lembrava de si própria, sentada em um chão coberto de musgo, olhando para sua casa; recordava um cenário sombrio e opressivo, a forte sensação de umidade no ar e, em um relance fugidio, lembrava da mulher já idosa, que avançava para ela com uma expressão de pânico no rosto e, daí para a frente...nenhuma lembrança a mais...Quem seria aquela mulher de cabelos cinzentos que parecia correr em sua direção para protegê-la de algo?...Seria sua avó Márcia...ou sua avó Cecília? Jamais comentara tais lembranças com a mãe, quando elas passaram a vir mais com mais nitidez pois, temia magoá-la, recordando de coisas que, instintivamente, sabia que não deviam ser comentadas.
       Lembranças como aquela outra, a do bebezinho, no porão do que achava ser sua casa; o pequeno corpo deitado em uma cama, com uma agulha de soro espetada em seu bracinho e, cercado de gente que não lembrava quem era, tudo isso entrevisto durante uma brincadeira com uma outra menina de sua idade, através da janelinha ao nível do chão, que dava para o subsolo, onde havia um quarto...Márcia tinha quase certeza de que tivera em algum momento de sua vida, um irmão ou irmã...lembrava-se de ter ouvido comentários vagos a respeito, entre seus parentes, algo a respeito de uma outra criança que não ela...Lembrava também de que havia algo estranho na cena da vigília do bebê doente mas, não sabia bem o que era, achava que tinha algo a ver com o soro, que escorria do frasco de vidro através do tubo de plástico para o braço do bebê...o que seria?...E recordava, por fim, que via sua mãe, muito mocinha, chorando enquanto seu pai tentava consolá-la...Seria aquele bebezinho, sua irmã ou irmão?...Seria aquela cama o leito de morte de um bebezinho?...O que havia de errado com o soro?...Tais lembranças também jamais foram comentadas com ninguém.

       De qualquer maneira, não seria filha única por muito tempo...Sua mãe estava grávida e contara-lhe o porque do tamanho da barriga e como os bebês nasciam mas, não explicou como aquela criancinha havia ido parar dentro dela, para desenvolver-se bem protegida e depois nascer, saudável como ela, Márcia, era...Gostara muito das explicações e entendera tudo do pouco que fora-lhe explicado, passando a aguardar a chegada do novo membro da família com ansiedade...Se ela, Márcia, nascera bem, certamente o novo bebê também nasceria e sua mãe não teria motivos para chorar, além do que, ela teria uma companhia pois, com poucos amigos e sendo tímida como era, às vezes sentia-se muito só...

      Amigos, não sabia se tinha mesmo, havia os colegas de sala e da escola em geral e, com alguns deles sentia-se bem à vontade...Como o Paulinho, um menino muito pobre morador de uma das casas de madeira vizinhas; as pernas cobertas por uma estranha e feia doença de pele mas na verdade, um grande amigo...Falava muito com ele durante o recreio, conversavam sobre vários assuntos, família, amigos, desejos...Ele tinha uma vida muito dura e sofrida mas era alegre e muito educado para com ela; devia ser um pouco mais velho mas pouca coisa, contava as mazelas a que era por vezes submetido, de modo espontâneo e sem mágoas, como se tudo aquilo fosse normal e, para ele, devia ser mesmo...Ele tinha uma irmã, muito pequena, que estudava em outra turma uma classe abaixo e a tal irmã tinha o corpo marcado por estranhas cicatrizes que Paulinho dizia serem conseqüências de encontros com bichos, especialmente cobras, no antigo lugar onde viviam e Márcia sentia pena da menina, tão pequena e já tão marcada pela vida...Ela não gostava em seu amigo, apenas, o hábito dele de assobiar alto, altíssimo mesmo, a ponto de produzir eco nas arquibancadas do clube de futebol ali perto e o pivete gostava de arreliar com a amiga soltando seus apitos horrorosos nos momentos mais inesperados e inoportunos...
      E havia o Vinicius e seu irmão mais novo, Marcelo...Como irmãos eram também Xisto e Xerxes...Todos os quatro, Márcia considerava amigos seus, a ponto de irem em seu apartamento, para brincar...Raros amigos...Na outra escola ela não fizera nenhum amigo e agradecia aos céus por haver sido tirada daquele inferno...Ali presenciara coisas horríveis que não gostava de lembrar, ainda bem que tudo acabara...Voltando a seus novos colegas, havia o Orlando, de outra turma mas que dava-se bem com ela, apesar de seu aspecto...Também ele era de família muito pobre mas não morava no conjunto de casas de madeira...Parecia um pouco atrasado para a idade, era grandalhão, a barriga saliente aparecendo por baixo da blusa do uniforme, muito curta para aquele corpanzil, o nariz sempre escorrendo...E no entanto, Márcia afeiçoara-se a ele que tratava-a com muito carinho e cortesia...Entre as meninas, Márcia gostava muito de Déa, uma garota gordinha e muito alegre e inteligente que sabia a tabuada de cor e salteado, ninguém podia com ela...Era irmã de um garoto grandalhão de outra sala, muito encrenqueiro, chamado Hasenclever, o nome mais estranho que Márcia já havia ouvido em sua vida...Havia outras garotas em sua sala mas, apenas com a Déa ela relacionara- se melhor naquele meio ano passado...Tinha mais empatia com os garotos, não sabia porque, eles gostavam de aproximar-se dela e isso não desagradava-lhe em nada...Sentada diante da janela, olhando o dia bonito, a menina pensativa ficou por mais um tempo, até que sua mãe chamou-a para lanchar, afastando-a um pouco de suas lembranças.

       Férias mais chatas aquelas...O pai trabalhava o dia inteiro e tinha umas poucas horas para ela, à noite...às vezes chegava meio “irritadinho” do serviço e nem dava-lhe muita atenção...A mãe, sempre ocupada com os afazeres da casa, afinal, eles não tinham empregada ( chegaram a ter uma quando Márcia era pequena mas, acontecera uma coisa muito ruim relacionada a ela, e a tal serviçal...de qualquer maneira, não tinha a menor lembrança do ocorrido, além de alguns comentários ouvidos atrás da porta ) e era um tal de ir às compras e varrer e lavar que ela nem sabia...Às vezes ia junto com a mamãe, ajudar nas compras mas, por vezes, ficava sozinha em casa, cumprindo à risca a recomendação de “não abrir a porta nem dar conversa a estranhos”...Nos sábados, saía um pouco com a família, passeavam, iam à praia mas isso não tinha nada a ver com as férias, passadas quase todas ( até o momento ) dentro do apartamento...Os domingos eram, via de regra, os dias mais chatos da semana...De manhã, era obrigada a ir à missa ( ela detestava isso ) e depois ficava a família presa em casa com o pai tirando enormes sestas após o almoço, a mãe fazendo um mundo de coisas e ela, largada em algum canto...isso quando as tardes modorrentas não eram passadas com o irritante barulho do rádio, sintonizado em partidas de futebol...Ela não entendia nada, aquela voz irritante do locutor falando rápido, gritando, uh! Que irritação...O pai era fanático por futebol e não foi uma nem duas vezes que ele tentou levar a filha para ver treinos de seu clube no estádio em frente ou mesmo, partidas de verdade, no estádio gigante ( “o maior do mundo” ele dizia com orgulho ) lá bem longe, na zona norte da cidade mas ela não ia...Fazer o que? detestava futebol, quase tanto quanto suas obrigações religiosas ( passando pela chatura extrema de sua primeira comunhão )...Após algumas tentativas frustradas, seu papai deixou de incomodá-la com desportos...

        Outras vezes passava futebol na tv e ela via só um pouquinho daquilo, de relance...Jogadores minúsculos, filmados de longe, correndo atrás daquela bola, em partidas intermináveis que avançavam pela tarde...O dia escurecia então, lentamente e uma sensação de vazio tomava conta de seu ânimo, derivando em uma falta de vontade para tudo e uma sensação de que não aproveitava bem sua vida... E, no dia seguinte...aulas...Primeiro, naquela escola horrível, ela chegava a ter medo de ir à aula e, por vezes, até conseguia faltar a elas, fingindo-se de doente, isso quando era bem convincente, o que não acontecia sempre, que pena...

       Com a nova escola e os novos amigos, ela até desejava que os domingos chatos passassem logo e que viesse a segunda feira mas agora, de férias, não podia nem esperar por isso...Umas poucas vezes a mãe a convidada para uns momentos de lazer lá na praça em frente e ela até ia mas, sem lá muito ânimo...Ainda sentia-se traumatizada por aquele domingo horrível quando fora capaz de fazer o que fizera com a mãe...Depois daquele dia ficara toda cuidados para com aquela a quem amava mais do que tudo e, por isso, buscava superar o incidente, tentando distrair-se com as árvores e as crianças que encontrava por lá.

    Acontecera uns poucos anos atrás, ela era bem pequena mas recordava de tudo...Ela e sua família moravam em uma casa pequena em frente a uma grande praça, bem maior do que a que, agora, via da janela do apartamento...Eles moravam próximos a uma lagoa muito grande e cercada de um número reduzido de residências, fossem casas ou prédios de poucos andares. A praça em questão era maior e mais arborizada e as árvores eram muito mais altas do que as que ornavam o cenário que ora mostrava-se a ela. Márcia adorava aquela imensa praça que parecia estar ali apenas para ela pois, era pouco freqüentada por seus vizinhos. Havia uma parente, ela não sabia se era uma tia ou prima; era uma moça bem bonita e mais nova que sua mãe e estava sempre por perto, fazendo companhia, conversando ou fazendo visitas em casa mas Márcia, de fato, não recordava-se com detalhes dessa parente...Certa tarde estava ela junto com sua mãe e ela própria, a brincar sozinha perto das grandes árvores que não cansava de observar e admirar-se com seu tamanho...

       Estando a mãe e a tal parente entretidas em uma conversa sem fim, decidiu pregar uma pequena peça na mãe, talvez por desejar sua companhia naquele momento e por não gostar muito de dividir sua atenção com aquela moça chata e faladeira...Sem ser vista, escondeu-se atrás de uma das árvores e aguardou, quietinha, o desenrolar dos acontecimentos...Esperou um pouco mas nada acontecia, parecia que a tia, ou prima, chata, monopolizava a atenção da mãe. Foi então que ouviu os gritos desesperados e seu coração pulou dentro do peito. Quem gritava era sua mãe e chamava por ela, Márcia, que ouviu algo como “minha filhinha...levaram minha filhinha!”, isso em total desespero...”foram elas, foram elas!” julgou ouvir também, como ouvia a voz da outra moça, tentando controlar sua mãe e ao mesmo tempo, procurar-lhe a filha...O que ela fizera? Por causa de uma brincadeira boba, causava um tumulto inesperado e agora, não sabia o que fazer; permanecia em seu esconderijo sem se mover, sem saber como proceder, imóvel como a arvore atrás da qual escondia-se...A praça não estava muito cheia mas, atraídos pelo escândalo que sua mãe fazia, todos os freqüentadores procuravam por ela, que sentia-se mais e mais acuada...Não demorou muito e alguém a encontrou e a levou de volta para sua desesperada mãe que, ao ver a filhinha incólume, atirou-se sobre ela e prendeu-a nos braços durante muito tempo, chorando nervosa e dizendo coisas que Márcia não chegou a entender quase nada...A tia ( ou prima ), ao lado, olhava para ela com uma expressão raivosa, por causa da travessura mas nada dizia, aliviada que estava, também, com o término de tal incidente...A coisa morreu por ali, a mãe não quis saber se a filha fizera uma brincadeira ou não, apenas ficou grudada nela até a hora de irem dormir e Márcia arrependeu-se profundamente por haver magoado sua mãe daquela maneira, mesmo sem entender o porque daquilo tudo e acabou fazendo coro com a mãe em uma choradeira dupla que demorou a arrefecer...Afinal, confessando a travessura, pediu muitas desculpas pelo mal feito e ficou bastante marcada por tudo aquilo...À noite, em seu quarto, ainda ouviu a mãe choramingando e sendo consolada pelo pai, que dizia, repetidamente, à guisa de conforto.
       _ Já passou, já passou, meu bem...Foi só uma brincadeira dela...E ela não sabia...não podia saber...E eram eucaliptos, meu bem, eram eucaliptos, você sabe disso...Não havia o que temer...


       Depois desse estranho incidente, passou Márcia a ter uma certa aversão a praças, preferindo olhá-las de longe a ir brincar nelas...Após o lanche, desistiu ela de ficar olhando a praça cheia de gente e foi desenhar em seu quarto...Achava que desenhava bem e procurava retratar os sonhos que tinha, através de papel e craions que tinha em quantidade, todos muito organizados, guardados na gaveta de sua escrivaninha, junto com seus lápis, borrachas e canetas....Desenhava muito mas, só mostrava à mãe os desenhos que não retratavam seus sonhos, principalmente aquele que vinha-lhe com maior freqüência: sua aventura no pântano, sem um desfecho...Pensando nos desenhos que andara fazendo, ao longo do tempo, procurou por alguns, mais antigos, que escondia em um local secreto, para a mãe não ver...Achava que ela não gostaria de ver tais imagens e que, talvez, até a proibisse de desenhar, alvoroçada pelos seus desenhos, muito sombrios, a retratarem lembranças suas e sonhos estranhos...Certificando-se de que a mãe estaria ocupada a ponto de não procurar por ela, retirou do esconderijo, o rolo de papéis, enrolados uns sobre os outros e, levando tudo para a escrivaninha, sempre com o ouvido atento aos ruídos vindos de onde sua mãe estaria, passou a rever desenhos velhos, muitos dos quais nem lembrava mais e nem quando os havia feito...Imagem após imagem, ela recordou de coisas em sua vida e no meio de tal exame de seu “acervo”, deu com o desenho, muito velho, que retratava, exatamente, o episódio em que olhara para o porão de sua casa e vira ali, deitado em uma cama, o bebezinho que seria seu irmão ou irmã, a criancinha doente que não sobrevivera...Olhando o desenho, bastante tosco mas bem detalhado, bem do seu jeito, ela notou então, algo que anteriormente, por algum motivo, não havia-lhe chamado a atenção mas, que o fazia agora...A imagem que procurara retratar no papel era em cores ( ela nunca fazia trabalhos em preto e branco ) e um detalhe estranho saltou-lhe à vista após uma releitura de seu trabalho, visto com olhos e mente mais esclarecidos, devido a seu amadurecimento: ali estava a cama, o quarto em torno, as pessoas a observarem a criancinha...sua mãe a um canto, a coluna de metal de onde pendia a garrafinha de soro e, dentro dela, o tal soro...verde...

      Seria aquilo, uma invenção sua ou, de fato, fora o que ela vira?...Não lembrava de tal detalhe mas, acreditava que não inventara algo tão insólito...Juntou então, algumas peças de quebra cabeça em seu pensamento e começou a chegar a algumas conclusões a respeito de certas dúvidas que vinham-lhe assaltando, conforme ia crescendo e tomando conhecimento do mundo ao seu redor...Algo que, de tão absurdo, não era muito relevado, preferindo ela, acreditar que seriam delírios seus, coisas da mente de uma criança solitária e criadora de um mundo todo particular...E no entanto, tudo parecia encaixar-se, trazendo à tona uma realidade estranha e totalmente descabida...Tentava não pensar naquilo mas...o velho sonho recorrente vivia a espreitar-lhe o sono, como a lembrar-lhe que precisava atinar com “coisas” em sua vida...coisas que deveriam ser encaradas e não, esquecidas...Não notou mais nada de estranho, além do óbvio, em seus desenhos antigos e, novamente, enrolou tudo e escondeu em seu local secreto, decidindo-se depois, por ir ajudar a mãe lá na cozinha, de modo a tentar distrair um pouco a cabeça, fervilhante de pensamentos por demais estranhos...


      Mas o tempo passou e, chatas ou não, as férias de julho de Márcia Cecília acabaram e ela voltou à escola...Sua cabeça ainda fervilhava de pensamentos esquisitos e o velho sonho acontecera-lhe umas três vezes sem, no entanto, jamais terminar, esclarecendo sua principal e cruciante dúvida, acerca das conclusões a que chegava a cada momento...As aulas, ela assistia como boa estudante e sempre aprendia algo novo para não mais esquecer, sua memória era, de fato, muito boa e seu desejo de aprender, sempre grande...

     Durante um recreio, quando andava ela pelo pátio que havia atrás da escola, uma grande área cercada e com trechos plantados com grama e plantas e outros com areia, notou, atrás da grade que havia acima do muro baixo, uma grade simples com cerca de um metro e meio de altura, logo acima do muro de cerca de um metro e dez, a pequena figura que fazia-lhe sinais...Aproximando-se viu que quem a chamava era uma menina, muito miúda, mais nova do que ela, devendo ter uns seis anos de idade, magrinha, ruiva, muito branca e sardenta, com belos olhos azuis e bem arrumada em suas roupas e em seu aspecto geral. Parecia estar desacompanhada, mesmo a despeito de sua pouca idade aparente e ela apresentou-se a Márcia como sendo Vilma, uma moradora local que, passando pela escola, parara de modo a pedir algumas informações sobre um lugar no bairro, onde desejava ir. Márcia, que conhecia pouco seu novo bairro, lamentou não poder ajudar a pequenina, que disse que aquilo não tinha importância e que perguntaria mais adiante o que desejava saber...Iniciou então, uma breve conversa com a colegial, informando que morava ali perto e que, ao ver Márcia, de longe, gostara de seu jeito e decidira falar-lhe, sem qualquer outro motivo, que não a simpatia que sentiu naquele momento, ao vê-la...A mãe de Márcia sempre recomendava à filha que jamais desse conversa para estranhos mas, certamente, ela referia-se a adultos e não, criancinhas, como a Vilma, evidentemente, era...Conversaram as duas, separadas pelo muro e pela grade, durante todo o resto do recreio e, ao soar o sinal de retorno às salas de aula, a pequenina disse que outro dia passaria por ali, àquela mesma hora, para conversarem as duas, mais um pouco.

       Em casa, Márcia decidiu não comentar com a mãe o encontro que tivera durante o recreio; não sabia ela como a mãe reagiria ao saber que ela falara com uma estranha, mesmo sendo tão pequena e como andava mergulhada em dúvidas e teorias, decidiu fechar-se até que tivesse algo mais concreto em que basear sua vida...Dois dias depois do primeiro encontro, em uma quinta feira de sol, a pequena Vilma apareceu em pleno recreio, do outro lado do muro gradeado e as duas falaram-se animadamente. Logo, Márcia reparou que sua nova amiga parecia ser mais madura do que seria de se esperar de uma menina de seis anos de idade – a idade dela, mesmo- e perguntou sobre sua família, ao que Vilminha declarou ter, de fato, uma família –pai, mãe e irmãos-, todos morando perto dali, em um edifício que podia ser avistado de onde estavam. Disse a pequena que, como estudava de manhã, em uma outra escola, um pouco distante dali, às vezes saía a passear, sozinha, pelas imediações de seu prédio, responsável e segura de si que era...Muito mais as duas falaram e, apenas a irritante campainha de final de recreio as interrompeu.

     Em casa, Márcia decidiu manter Vilminha em segredo para seus pais, tratando-a como uma “amiga secreta”, não um produto de sua imaginação mas, uma menininha de carne e osso...Tal “segredo” como que a divertia e ela aguardava as visitas da pequena criatura com crescente ansiedade, parando mesmo de comunicar-se com seus poucos amigos de escola, os quais não viam com bons olhos a súbita “invasão” daquela estranha em seu ambiente. Quando, certo dia, Paulinho inquiriu Márcia acerca de sua nova amizade, ela desconversou e disse que era apenas uma menininha que morava ali perto. Disse também que, se parecia dar à garotinha uma atenção maior do que a que dava aos amigos, logo iria reparar aquilo afinal, gostava de todos em igual proporção.

     Mas, não chegou ela, a concretizar sua promessa, isso porque Vilminha parou de aparecer durante os recreios e isso entristeceu um pouco Márcia, que sentia-se apegar à garotinha ruiva de cabelos encaracolados, cada vez mais...Já conformava-se com isso quando, certa tarde ensolarada de sábado, ao olhar a praça, sentada em sua cadeira predileta viu, em plena praça, a figurinha de Vilma, andando por ali, no meio da multidão que ocupava aquela área de lazer. A pequenina acenava-lhe, parecendo estar tranqüila e feliz e Márcia acenou de volta, desejosa de ir até a praça, encontrar sua amiguinha...Mas nada fez a respeito, inspirada por uma intuição nascida naquele momento exato...Limitou-se a olhar a pequenina cruzar a praça apinhada de gente e seguir seu caminho, indo sabe-se lá para onde...

      Como fazia de vez em quando, a mãe de Márcia, vendo a menina largada pelo apartamento, sem ter o que fazer e sem mostrar maior interesse pela televisão, quando via uma brecha em seus afazeres domésticos, convidava a garota para um passeio na praça em frente mas os convites eram sempre recusados, o que preocupava um pouco a boa e jovem senhora, que achava que a filha sofria de algum tipo de melancolia ou uma leve depressão, advinda do isolamento que impunha-se, por algum motivo...E não foi sem uma agradável surpresa que, naquele outro sábado de sol, ao fazer o velho convite, já esperando uma recusa, viu-o aceito, até com um certo entusiasmo por parte da pequena...Foram...

    Ao pisar no trecho arenoso da praça, Márcia sentiu um certo desconforto, como se não quisesse estar ali no meio de tanta gente, crianças, velocípedes, bicicletas, carrinhos de bebê e até cães de pequeno porte...A mãe sentou-se em um dos bancos de concreto, feliz por ter alguns momentos de repouso e a filha ficou por perto, andando meio a esmo mas, na verdade, procurando por alguém...por Vilminha...

     Logo a avistou, um pouco distante e viu, nitidamente, quando ela subiu, ligeira, por uma das árvores maiores da praça: uma velha e simpática castanheira, não muito alta mas, bastante copada...Ela entendera, afinal, a mensagem que a amiga passara-lhe da outra vez...Percebera que Vilminha desejava encontrar-se com ela na praça e, não mais na escola, certamente desejosa de não interferir com as amizades escolares dela ( que menina gentil e compreensiva...) Foi correndo então, pedir à mãe, licença para subir também na castanheira e recebeu a permissão, afinal...não iria muito alto em sua excursão arborícola...Como trajava um short e uma camiseta, Márcia não receou olhares indiscretos dos garotos para suas calcinhas, caso estivesse de vestido e galgou o tronco largo, rugoso e cheio de nós, chegando, afinal, aos galhos retorcidos e volumosos onde, oculta pela volumosa copa, Vilminha estava, junto com outros garotos que por ali também brincavam. A pequenina recebeu-a então, com um carinho inesperado, abraçando e beijando Márcia nas duas faces, demonstrando estar muito feliz ao vê-la. Começaram, então, a palrar com mais liberdade e privacidade do que nos encontros anteriores, separadas pelo muro da escola. Falaram de suas vidas, continuando assuntos abordados anteriormente, enquanto uma molecada muito esperta ocupava as imediações, igual a bandos de macacos. A conversa ia bem animada mas, lá pelas tantas, Vilminha disse que precisava ir mas que, sempre que possível, encontrar-se-ia com Márcia naquela praça, o novo local dos encontros entre elas. Dizendo isso, rapidamente deslizou tronco abaixo, não sem antes dar um último beijo em sua amiga, prometendo voltar vem breve. Tão logo a pequenina sumiu da vista, Márcia ouviu o chamado, lá em baixo.
      _ Márcia, você tá aí?...Criou raízes aí em cima?
      Era sua mãe que, estranhando a demora da filha em cima da árvore, fora ver o que ela fazia por ali. Decidida a não revelar, ainda, a existência de sua nova amiga sem nem mesmo saber o porque, Márcia desceu de onde estava, com desenvoltura, apesar de, jamais ter subido em uma árvore antes, em sua vida. Declarou então, já haver brincado o suficiente por ali e ficou o resto do tempo que a mãe desejou permanecer na praça, junto dela, comentando uma coisa ou outra. Afinal, voltaram as duas para casa e nada de mais aconteceu naquele dia.

      A vida seguiu, despreocupada e lenta naquele bairro sossegado da zona sul, em um tempo em que ainda havia alguma paz nas cidades. Márcia e Vilma continuaram a encontrar-se na praça, durante os passeios das as tardes de sábado, um costume que surgira de repente na vida de mãe e filha...Viam-se as duas amigas às escondidas, nos galhos das árvores ou em algum local fora das vistas da mamãe. Aquela história de amizade secreta divertia Márcia Cecília, devido a seu inusitado; ela e Vilma entendiam-se cada vez mais e falavam sobre tudo, em suas vidas...Não eram muito demorados aqueles encontros porque, de repente, Vilminha sempre cismava de ir embora e ia mesmo; ocasião em que Márcia voltava para junto da mãe, passando a seu lado, o resto do tempo na grande e movimentada praça...

   Certa noite, na hora do jantar, o pai da menina anunciou que a tia Elvira, irmã de sua mãe, de nome Maria Alice convidara sua sobrinha para um fim de semana em sua casa, lá no alto da serra e que a garota poderia levar os amigos de escola que desejasse. Perguntada se aceitava o convite, Márcia disse que sim, sem lá muito entusiasmo, indagando-se quem seria a tal tia Elvira de quem não lembrava de já haver visto. O dia seria combinado mais tarde mas, era para breve e Márcia já poderia convidar quem ela quisesse, desde já...Naturalmente, a primeira pessoa em que ela pensou foi na Vilminha, de longe sua melhor amiga e pensou também em chamar o Paulinho, sua irmãzinha Rita e o Orlando, só os três...Simpatizava mais com eles por saber-los muito pobres e sofridos e desejava proporcionar-lhe momentos de diversão em um local mais “sofisticado”, como disseram-lhe os pais que era a casa da tal tia Elvira. Ao transmitir os convites, os três convidados mostraram-se bastante animados e, até, honrados com os convites e a coisa ficou nesse pé...Vilminha também aceitou seu convite mas disse que não poderia viajar junto com ela e seus amigos; iria no dia seguinte à sua chegada na casa da tia, Márcia deveria, apenas, fornecer-lhe o endereço e o dia de sua partida e no dia seguinte, ela estaria por lá, levada pelo pai. Márcia achou um pouquinho estranho, mais aquele “misterinho”, parecia que Vilminha não desejava que sua amizade com ela fosse revelada...Bem, ela devia ter seus motivos, desde que fosse ela, encontrá-la na casa da tia, estava tudo bem...

       Os sonhos com o pântano aconteciam-lhe com cada vez menos freqüência e nem chegavam mais à parte em que a grande revelação seria feita, Márcia despertava antes e, já nem incomodava-se mais com aquilo...”Era só um sonho bobo” concluíra...Em conversas com sua amiguinha pequenina e independente, soubera, certa tarde que ela estudava na escola que ela, Márcia, freqüentara anteriormente à escola atual e, sabendo disso, pôs-se a garota a falar mal da tal escola; do seu ambiente sombrio de escola velha, da severidade de certos professores que chegavam ao cúmulo de infringir castigos físicos aos alunos mais agitados e humilhações aos mais ineptos, algo que mexia com ela por dentro...Disse do inferno que era o refeitório, enorme do prédio, na hora do lanche, do cheiro desagradável da “comida mal feita”, da gula de certos alunos e outras lembranças desagradáveis...Lembrou, sobretudo, da horrível briga que presenciara entre dois colegas seus, motivada por causa dela...

    Foram dois garotos, um era Sérgio, um menino magrelo, muito feio e de hábitos execráveis, maior do que ela e o outro que ela não fazia a menor ideia quem era, esquecendo totalmente seu nome e seu rosto...mesmo depois do que ela fizera para defendê-la...Fora durante um recreio, estando ela a correr por uma varanda comprida que havia no segundo pavimento de um dos prédios antigos, esbarrara no tal Sérgio e ele, sem nem considerar que ela era uma menina e menor do que ele, após o susto decorrente do encontrão, agarrou-a e fechou uma das mãos com a visível intenção de esmurrá-la na frente de todo mundo que passava por ali à ocasião...Não conseguiu realizar seu intento, porém; a mão fechada foi colhida no ar e desviada pela mão do tal garoto de quem ela não lembrava mais e a briga começou naquele momento mesmo, em um festival de bofetões e socos que quase fizeram Márcia desmaiar, tamanho foi o choque de ver tal espetáculo de violência sem sentido...Logo, os dois combatentes foram separados e levados dali, ficando a pobre Márcia com o coração aos pulos e a horrível lembrança gravada em sua alma, para sempre...

Tempos depois, em plena sala de aula, ouvindo um tumulto que vinha do fim da sala, ao virar-se para ver o que era, Márcia tomou outro choque, ao ver o mesmo Sérgio, evacuando por debaixo do uniforme, sem qualquer freio, sentado mesmo, em sua carteira...Os colegas vizinhos, horrorizados, saiam-lhe de perto mas, finalmente, um bedel foi convocado para retirar o disentérico garoto dali, enquanto um outro apressava-se em limpar a grande sujeira esverdeada que ele fizera em classe...Por essas e por outras, Márcia Cecília tomara imensa aversão àquela escola dos infernos mas, felizmente, seu martírio por ali não chegou nem ao final do mês em que tivera os dois choques seguidos, já quase no final daquele ano...A nova escola já estava quase pronta e ela ficou em casa até poder ser transferida para o feio prédio de “papelão”, quase em frente ao edifício onde morava...Vilminha disse então que, também não gostava daquela escola velha e horrorosa mas que, no ano seguinte, sairia dali, indo para outra muito melhor...No devido tempo, Márcia passou para Vilma o endereço da casa da tia Elvira, passado por sua mãe e a pequena ruiva prometeu encontrar-se com a amiga por lá...
    

        Em certa manhã de sábado, bem cedinho, com o sol ainda nascendo, Frederico e Maria Alice levaram de carro, a filha Márcia Cecília e os amiguinhos Paulo, Rita e Orlando estes, trajados da melhor maneira que permitiam as curtas posses de suas famílias, rumo à serra e à casa da tia Elvira...Foi uma viagem longa, na visão de Márcia mas, não durou nem hora e meia. Foi um trajeto animado, contudo, as crianças bastante animadas iam falando, cantando e fazendo brincadeiras sem resvalarem no tumulto e nesse clima descontraído, chegaram todos à residência serrana da tia Elvira, na verdade, um formidável palacete em meio a um quase parque arborizado, com piscinas, quadras de esportes, cachoeiras e um mundo de coisas que impressionou Márcia que não sabia ter uma parente tão rica...Quando foi ele apresentada à tia Elvira, um mistério terminou: A tia era aquela moça bonita e mais jovem do que a mãe, aquela que estava presente no acontecido durante um passeio na praça perto da lagoa, tempos atrás, um triste incidente que ela, Márcia, provocara. Ela apresentou seus amigos e a tia pareceu feliz ao vê-los...ela não se importara com a evidente penúria de seus convidados, o que mostrava ser a tia, uma moça de bom coração; isso agradou a jovem Márcia Cecília...Acomodados todos, puseram-se a passear pela propriedade, Márcia surpreendendo-se a cada novidade vista em meio a tanta ostentação de riqueza...Mais tarde, aproveitando o dia quente, foram todos para a cachoeira brincar por lá, todos em trajes de banho em meio a muita alegria e descontração. O dia inteiro foi um brincar sem freios, todos divertindo-se a valer, com ou sem a companhia da tia...Muita comida e muita diversão, era a regra a ser seguida naqueles dois dias e, o primeiro, foi cumprido à risca. À noite, Márcia estava tão cansada que, literalmente “desabou” em sua cama, acreditando, mesmo, que, a meio caminho do colchão macio e dos lençóis limpinhos, já estava dormindo...Após um período de sono pesado, sonhou...


       O velho e conhecido sonho que incluía pântanos nojentos, nudez e ameaças saltadoras...Mas...daquela vez, a coisa foi diferente...O local era o mesmo, o ambiente lúgubre, também, assim como a ameaça não vista...mas, desta vez, Márcia não usava uma só peça de roupa sobre seu corpo e, tal novidade, ao invés de vexá-la, deu-lhe esperanças de que, daquela vez, seu sonho ia ser diferente.

     E, de fato, foi...

      Tão logo a coisa pesadona que a seguia através daquele cenário infecto, pousou na sua frente, respingando seu corpo nu com água e lodo, ela sentiu a presença que, dela, aproximava-se enquanto ouvia o estrondo de árvores sendo arrancadas do chão ou partidas, de modo a dar passagem à aparição que, de repente, surgiu diante dela, imensa e ameaçadora....Sem despertar de seu sonho, daquela vez, Márcia ergueu os olhos e viu...algo que, talvez preferisse não ver, apesar de já saber o que era...O susto tomado foi tão grande que ela preparou-se para virar-se e sair dali em louca disparada mas, antes que pudesse mover-se, foi abraçada por alguém...um corpo despido como o seu, de menor estatura e, não obstante, muito forte...Essa criatura, que era um ser humano...uma menina...forçou-a a tornar a virar-se para a aparição e, segurando sua cabeça, fê-la encarar a coisa, enquanto dizia, próximo a seu ouvido.
      _ Não tenha medo, Pyrenna...Não tenha medo de nossa mãe...


      Aí ela despertou, sobressaltada e, na penumbra reinante no quarto que ocupava, viu o vulto escuro, debruçado sobre si...Apavorada, tentou gritar mas, foi impedida por uma mão pequena e quentinha que, colocada sobre sua boca, impediu o grito, enquanto a dona da mão dizia:
      _ Shhh....Calma, eu não vou te morder.
     Quase que imediatamente, Márcia soube quem estava diante de si...Era Vilminha que, tão logo impediu que gritasse, livrou-lhe a boca e passou a acariciar-lhe os cabelos, enquanto falava-lhe com sua voz fininha.
       _ Desculpe, Márcia, eu não queria te assustar...Era para eu vir só no domingo de dia mas, apareceu uma oportunidade e o pai me trouxe e já foi embora...Me disseram que você ´tava aqui e eu vim te ver...não ia te acordar mas, você parecia estar tendo um pesadelo.
      _ Não foi bem um pesadelo...foi um sonho estranho...e uma revelação...
      _ Tá, depois você me conta, agora eu também vou dormir em um cantinho que me arrumaram...Quando acordar, não diz pros meninos que eu tô aqui, “vamo” manter o nosso “misterinho”...Sua tia sabe que eu vim mas, ela também entrou na brincadeira e, oficialmente, eu não ´tou aqui pra outra pessoa que não seja você.
      _ Tá bem...é meio estranho o que você ta me dizendo mas...eu gostei...
      _ Então dorme, Marcinha, quando amanhecer a gente se vê de novo.
      _ Tá...
      Quando Vilminha saiu do quarto, Márcia ainda lançou um olhar para o canto do quarto onde estava a Rita, irmã do Paulinho que dividia o quarto com ela, que jamais gostou de dormir sozinha, apesar de tê-lo feito durante toda sua vida...O Paulinho e o Orlando dividiam o quarto em frente....Lá estava a Ritinha, ressonando e sonhando lá os sonhos dela...logo, Márcia tornou a dormir e sonhou outras coisas.

       No dia seguinte, bem cedo, saíram os quatro pela propriedade da tia Elvira afora em busca de aventuras...A tia não estava e os empregados disseram que ela havia ido à cidade mas que, logo retornaria...E o dia começou na cachoeira, passou pela piscina e seguiu adiante no imenso bosque que cercava aquela casa enorme da tia...Em determinado momento, Márcia decidiu esconder-se dos amigos, só pra “zoar” com eles e, embrenhou-se por um trecho mais fechado de mata, sem medo algum, como se aqueles fossem locais de seu pleno conhecimento...Gostou da paz que sentiu ao adentrar uma pequena clareira meio batida pelo sol, a luz do dia a fazer desenhos no chão, quando passava pela copa das árvores...Sentiu-se Márcia, muito bem ali e sentou-se no chão, forrado de folhas secas, de modo a aproveitar tamanho relaxamento o máximo possível...Ouvia o chilrear dos pássaros o murmúrio das folhas batidas pelo vento e ali ficou...até ouvir, bem a seu lado.
      _ Hu!
      Assustou-se bem menos o que poderia se esperar, como se já contasse com a chegada de uma outra pessoa...Vilma...Ela abraçou a amiga por trás e, pela primeira vez, desde que a conhecera, Márcia sentiu a força que emanava daqueles bracinhos finos. Vilma a beijou, então, no rosto e logo a seguir sentou-se a seu lado, fazendo o seu papel de “amiga secreta não imaginária”...seria, mesmo, a pequenina “não imaginária”?...Conversaram as duas durante bons momentos, em completa solidão e Márcia contou seu sonho que, após repetir-se e repetir-se, sem nunca chegar a seu final, finalmente revelara seu estranho desfecho e, assaltada por uma súbita recordação, Márcia disse, algo intrigada:
     _ Sabe do que mais?...Eu acho que você também estava no meu sonho, olha só...
     Contou então a cena em que fora abraçada por trás, como acontecera a pouco e disse que, tanto ela quanto a suposta Vilma, estavam nuazinhas. Vilminha riu-se ao ouvir tal desfecho do sonho da amiga.
     _ Só você mesma, pra imaginar uma coisa dessas...nós duas, nuas, diante de um monstro.
     _ Não era um monstro...era outra coisa que eu não me lembro...Algo que você teria dito...E você me chamou por outro nome...”ó só” que doideira...
     _ Doideira mesmo mas...foi só um sonho, não foi real...Bom, eu passei aqui pra te ver mas acho que já vou embora, vai depender do pai...Ele ficou de me ligar...A minha bagagem já ta até, arrumada, lá na casa...Ah, enquanto ele não me chama, “vamo” dar uma voltinha, longe dos teus dois amiguinhos que não gostam de mim.
     _ Como você sabe?
     _ Ah, eu sei...Eles tem ciúme de você, é normal...vamos?
     _ Vamos.
     Passearam por aquele trecho mais remoto da propriedade da tia, falando e falando, os assuntos brotavam como flores na primavera e Márcia sentia que gostava daquela menininha ruiva, miúda mas, tão “fortinha”, cada vez mais e mais...Quando afinal, perto da hora do almoço, tomavam o rumo da casa, subitamente, Vilma desapareceu de seu lado, sem que ela percebesse....Quase no mesmo instante, viu Paulinho, Rita e Orlando que aproximavam-se dela e, ao chegarem mais perto, perguntaram eles onde ela estivera durante horas, enquanto  a procuravam.
      _ Ah, eu quis ficar uns momentos sozinha, me desculpem se eu preocupei vocês...Eu tô bem...
      O assunto morreu ali mesmo e os quatro foram almoçar e aproveitar o resto do dia afinal, partiriam à tardinha...

      Mas, a tal partida jamais chegaria a acontecer...

      Após o almoço Márcia, algo sonolenta, decidiu tirar uma sesta de uma horinha ou pouco mais e, para isso, escolheu uma rede na varanda da casa, enquanto seus três amigos faziam algo pelas imediações...Suas pálpebras ficaram pesadas e logo ela cochilava, entrando em um leve transe, meio adormecida, meio acordada...e nesse estado sonhou, de leve, com imagens reais e fora de qualquer contexto...Viu sombras grandes a dançarem na sua frente, sugestões de corpos que pouco assemelhavam-se com seres humanos, em um balé estranho mas, apesar de tudo...belo...Sons ressoaram por sua cabeça, sons reconhecíveis ou não e, entre os reconhecíveis ouviu, sem ouvir, pela segunda vez, desde que ali chegara, aquele que a chamava:
      _ Pyrenna...Pyrenna....
      Ela era Pyrenna...Não era Márcia Cecília, como sempre acreditou ser...Porque acreditara ser outra pessoa?...À sua volta, o ar pareceu ser tomado por tons de azul e cinza, como se noite fosse, em pleno dia...E as imensas sombras, com leves contornos humanos continuavam a dançar diante dela no gramado em frente e no céu, a descrever vôos dançados, estranhos e belos...E, de repente, tudo começou a desfazer-se, lentamente e ela foi trazida de volta à realidade...em sua rede, durante uma bela tarde de sol, na casa da tia Elvira...E era, justamente, a tia Elvira quem estava a seu lado, abaixada diante dela, olhando-a com uma expressão no rosto que denotava...preocupação...
      _ Vamos entrar em casa, meu bem? –ela perguntou e foi logo tomando a sobrinha nos braços, tirando-a da rede e conduzindo-a para dentro da casa...Márcia deixou-se levar, não estranhou muito a atitude da tia...e, enquanto era, praticamente, arrastada para dentro da casa, notou que o ambiente em torno de si, estava algo estranho...Quando deitara após o almoço, não lembrava de ter visto tantas árvores em volta da casa...Como se a cercassem...Havia ali, muitas árvores adultas e diversos arbustos que pareciam crescer com espantosa velocidade, tomando conta do, outrora, amplo gramado que existia na frente da casa...Só não viu mais coisas estranhas porque a tia colocou-a dentro da casa, passando a trancar a pesada porta da frente, demonstrando uma crescente preocupação...E foi nesse clima que ela encarou a sobrinha para dizer.
     _ Márcia, você...e seus amigos...não poderão voltar para casa hoje, como estava planejado...Houve um desabamento na estrada, não dá para passar, estamos isolados aqui...Já avisei seu pai e a minha irmã...Mas, não fique preocupada, nós estamos seguras, aqui dentro...
     Buscando tranqüilizar a tia, ainda que fosse a respeito de como sentia-se, Márcia disse que não ficaria preocupada, se sabia que a tia tomava conta dela e que, de fato, não sentia um forte desassossego, mesmo com o inesperado da situação...Quando, ao lembrar-se de algo, ia pergunta à tia sobre Paulinho, Rita e Orlando, já ela afastava-se, apressada e Márcia decidiu não estorvar-lhe o caminho, passando a aguardar, quieta, o desenrolar dos acontecimentos...Lá fora, a tarde devia estar belíssima mas, a tia fechara todas as cortinas da casa, dando ao local, uma impressão sóbria e uma atmosfera pesada parecia cair sobre tudo por ali...A ausência dos amigos incomodava-a, lembrou de Vilminha e o que ela estaria fazendo naquele momento...talvez estivesse a caminho de casa...talvez tivesse o carro de seu pai, sido colhido no tal desabamento...Vilminha poderia estar morta...Pensamentos mil, passaram pela mente de Márcia Cecília mas nenhum deles fixou-se por muito tempo, como se ela estivesse com dificuldades para pensar...Sentindo-se muito só, largada naquela sala enorme com as janelas fechadas e as cortinas, descidas, mergulhada na penumbra, decidiu ir olhar, mais uma vez, como estava lá fora...e, tão logo afastou um pouco, a cortina de uma das janelas da sala, reprimiu a custo, um grito de horror que morreu-lhe na garganta, ante o que avistou lá fora...Tudo estava tomado pelas árvores, elas chegavam próximas à frente da casa e apertavam galhos repletos de folhas e pequenos frutos, contra as vidraças, tapando a luz do sol, escurecendo tudo em derredor...Como podia ser aquilo? Não fazia sentido...De repente, imagens de sonhos antigos tornaram à lembrança da menina e ela recordou de passagens em sua vida, coisas que vira e que a impressionaram...Tudo parecia, por mais absurdo que fosse, fazer algum sentido, para ela...Não sentia propriamente medo, achava que não era desejado qualquer malefício para si mas, não sentia-se, absolutamente, à vontade em um cenário como aquele...Quando, afinal, ouviu o espatifar da primeira janela, sentiu a mão que, nervosa,agarrava a sua e ouviu a voz que tria um imenso pânico ao, praticamente, gritar.
      _ Vamos sair daqui, Márcia, se não eles vão te matar!
      Quem iria matá-la?...Não era isso o que eles queriam...a sua morte...Mas, deixou-se levar pelas mãos da tia que, em completo pânico, abriu a porta dos fundos e, através de uma mata cerrada e ameaçadora, brandindo um enorme cutelo que pegara na cozinha, tentou abrir uma passagem naquele delírio vegetal arrastando consigo, sua sobrinha...Tentou ela, romper o mato à sua frente, o que conseguiu com os muitos arbustos que grassavam pelo local mas, nada conseguiu com os troncos grossos e cobertos de galhos que obliteravam qualquer tentativa de passagem...E, de repente, um cenário que deveria manter-se imóvel, começou a mover-se loucamente, criando um delirante jogo de sombras e movimentos diante do estupefato olhar de Márcia Cecília que, em determinado momento, ao ser envolvida por uma trama louca de cipós, folhas e galhos, desprendeu-se da mão da tia, que já enxergava com dificuldade e, horrorizada, viu o corpo da irmã de sua mãe desaparecer em um verdadeiro redemoinho verde e cor de madeira...O mesmo redemoinho que a subjugava e começava a maltratá-la, arranhando-a, rasgando suas roupas, sufocando-a...Eles queriam, mesmo, matá-la, afinal?...Porque mentiram-lhe, então?...Porque todos eles, mentiram-lhe e, durante toda a sua vida? Praticamente despida, arranhada em muitos pontos de sua pele frágil, sentindo-se sufocar, ela chegou a despedir-se da própria vida quando, braços aparentemente frágeis mas, de fato, bastante fortes, cingiram-lhe a cintura enquanto o mundo de ramagens, galhos e folhas que ameaçavam tirar-lhe a vida iam sendo empurrados em diversas direções enquanto ela era conduzida em uma espécie de túnel, muito apertado, rumo a algum lugar...No meio daquele delírio esverdeado sentiu outro tipo de dureza que não a dos galhos serpenteantes e ameaçadores...Paredes, tijolos, madeira...Estava sendo levada de volta para a casa da tia...pelas mãos fortes de alguém...que conhecera há pouco tempo mas que, tornara-se a pessoa mais importante em sua vida, depois da mãe...Não enxergando quase nada diante de seus olhos que não fossem varas, folhas, lianas, cipós e galhos, foi lançada em um cubículo vazio e pequeno, totalmente escuro, batendo com força na parede e no chão, sentindo fortes dores...Encolhida em um canto escuro, cercada de objetos que não conseguiu identificar, escutou, do lado de fora de sua prisão, a cacofonia de sons que não lograva decifrar mas que, por vezes, soavam como vozes que repetiam, a espaços, um nome...
      _ Faginnea...Faginnea...
      E ouvia, também, do mesmo modo, um outro nome, este conhecido, isso porque...seria o seu nome...
      _ Pyrenna...Pyrenna...
      Esgotada, ferida, sangrando em várias partes do corpo, exausta do esforço de ter-se procurado manter viva, sentindo a falta dos amigos, temendo pela vida da tia, desejando o alento da presença de Vilminha, a quem acreditava dever a vida...Márcia Cecília ou Pyrenna entrou em colapso, tombando sobre o chão de tacos de madeira, cercada por frascos diversos, panos, vassouras, escovas e caixas, por ali, ficando....


      Não soube durante quanto tempo ficou no armário apertado, achou que foi muito, muito tempo...Quando despertou de seu desmaio ficou encolhida, abraçando o próprio corpo, muito dolorido, sem qualquer vontade que não a de ficar ali, para sempre, para nunca mais sair...para morrer ali, sem que ninguém soubesse...Um turbilhão de pensamentos ameaçava tirá-la de sua sanidade isso, a partir do momento em que sua vida como que fora virada pelo avesso, de modo explosivo...Aquela seria sua tumba, ela estava morta e fora sepultada em um armário de vassouras, o que havia a fazer era, conformar-se com o que estava consumado...Sentiu pena de si, morrera tão nova, mal conhecera a vida, pouco sabia a respeito de tudo...Mas...estaria, mesmo...morta?...Talvez não, não sentia-se assim, reparando melhor em seu estado...Sentia dores pelo corpo, sentia que sagrava...não muito...Sentia a pele quente, a própria respiração...Não, não estava morta, apenas mergulhada em um mundo de pernas para o ar, que desabara sobre ela sem qualquer aviso...Precisava, então, sair dali, para ver em que tornara-se o mundo que ela conhecera de um jeito e que transformara-se no mundo, com o qual sonhara, à sua revelia, durante toda sua vida...A custo, ergueu-se do chão e, tateando a sua frente, encontrou a porta do armário...empurrou-a e ela afastou-se com dificuldade, como se estivesse emperrada...Insistiu em seu intento e, afinal, conseguiu uma brecha, larga o suficiente para poder passar seu corpo pequeno e machucado...Do lado de fora viu no que tornara-se o mundo...Uma sucessão de túneis formados por troncos, raízes, galhos e folhas, em um emaranhado louco que emitia uma luz baça e esverdeada...Tudo era silencio e o ar pareceu queimar-lhe, um pouco, as mucosas, fazendo com que respirasse com certa dificuldade...Vagueou por aquele mundo novo e estranho, buscando algo...ou alguém...Sentiu-se em um labirinto, como aquele de Dédalo, sobre o qual a mãe contara-lhe a história...Só que, no meio daquele entremeado louco, não um Minotauro lançar-se-ia sobre ela, para dilacerá-la e sim...uma coisa grande, sem rosto...uma coisa muito má que...dizia-se sua mãe...Márcia ficava a cada momento, mais nervosa, desejando sair daquele delírio para encontrar, em algum ponto do mundo, algum pequeno traço de sanidade...Mas, o que encontrou, ao dobrar uma curva daquela loucura foi, apenas, o completo e desmesurado horror!
    Diante de si, a uns três metros de distância, o corpo de Orlando encontrava-se, suspenso do chão, trespassado por mil estacas folhosas, morto, morto, mortíssimo, sem revelar, no entanto, o menor traço de sangue, parecendo estar mumificado, misturado à textura do material que o cercava...Ao ver aquilo, Márcia Cecília, finalmente, capitulou e, deixando-se cair ao solo, formado por uma mixórdia louca de raízes entrelaçadas...desfez-se em um desconsolado pranto que lutava por sair há tempos...Chorou a morte de um amigo querido, destruído de forma tão selvagem...talvez, lutando para defende-la...Lembrou da tia...do Paulinho, da Rita...e seu choro recrudesceu sem dar mostras de findar-se...Desejava morrer, ter o mesmo fim de todos eles...sair daquela loucura, ter paz...Não soube por quanto tempo ficou ali, chorando o pranto mais amargo que já experimentara, passando a entender o que acontecia...as preocupações da mãe...a morte do irmãozinho ou da irmãzinha...os sonhos...as lembranças...e no meio de tudo aquilo, apenas uma pergunta, não conseguia responder, em seu íntimo:

     _ Porque?...

     Sentiu então a mãozinha que tocava-lhe o ombro, sentiu o calor amigo que emanava daquele corpo minguado e bem-vindo...Vilminha a encontrara, ela já não estava só...Sentindo a presença e o toque de sua amiguinha mais nova, soluçou mais forte, experimentando desta vez como que um alívio por sentir algo de real em um mundo de loucuras e maldades...A recém chegada então a abraçou forte, por trás, deixando que chorasse tudo o que precisava extravasar e, só então, tomando –a pelas mãos, conduziu-a através daquele intrincado de túneis e labirintos formados por matéria viva, até a saída...Quando saíram dali, Márcia viu que era noite e que ela ainda estava na propriedade da tia mas, da casa pouco restava...Tudo era, agora, um emaranhado de raízes, troncos, galhos e folhas a deixar entrever um pedaço de telhado aqui, uma ponta de chaminé ali, um “galo do tempo” acolá...Márcia ainda chorava ao sair daquele pesadelo vivo e, buscando por sua amiga, a ela abraçou-se, dizendo, chorosa:
      _ Eles mataram todos, Vilminha...mataram todos...Rita, Paulinho...minha tia Elvira...todos mortos...Eu vi o Orlando...todos mortos...
      _ Acalme-se, meu amor, eu entendo o que você tá sentindo, eu disse pra agirem de outro jeito mas fizeram tudo errado, estavam desesperados...exageraram...eu disse que poderia resolver tudo sem tantos traumas...não me ouviram...
      Só então, Márcia reparou que Vilminha não trajava roupas e, ao passar as mãos por suas costas nuas, sentiu as pontas e os retorcidos e, horrorizada, empurrou a menina para longe de si, notando o brilho esverdeado que recobria inteiramente...disse em um quase rosnado de fúria.
      _ Você é uma deles...Você me enganou, me usou, me traiu...Me fez contar que eu viria para cá para nos cercar e nos matar...assassina...assassina, maldita...Eu acreditei na sua amizade...eu acreditei...
      Márcia baixou o rosto e foi, novamente sacudida por soluços de mágoa e decepção mas, ao levar as mãos ao rosto, notou as pontas que brotavam-lhe, também, dos braços e dedos...acompanhados pelo mesmo brilho esverdeado que a amiga exibia...Esquecendo, subitamente, a própria mágoa, encarou Vilma e perguntou, estupefata:
      _ O que é tudo isso?
      _ O que você tá vendo, meu amor...Eu não te traí, eu tentei te poupar de quase todo o que você passou, entre ontem e hoje mas, fui atropelada por um bando de imediatistas que te causaram todo esse sofrimento, sem necessidade...Verdade que, para uma mãe, não se pode ficar “cheia de dedos” para devolver-lhe uma filha...Seus amigos e sua tia não morreram, nós não os matamos, nós não matamos ninguém, não diretamente...É claro, temos mecanismos de defesa que podem, eventualmente, matar mas, não atacamos ninguém para tirar sua vida, mesmo para defendermos a nossa, não temos essa lamentável capacidade...
       _ O Orlando...eu vi.
       _ Ele não estava morto...Estava aprisionado no meio dos nossos e, assim ficará, até acostumar-se e continuar a viver, tranquilamente...Seus outros dois amigos, os dois irmãos, estão do mesmo jeito que o Orlando: vivos mas, aprisionados...em prisões que não causam sofrimentos...Seus amigos, assim como sua tia, lutaram como loucos para mantê-la do jeito como estava...lutaram como loucos...mas, perderam a batalha.
       _ A tia Elvira...
       _ Nós deixamos que escapasse, não a aprisionamos...Ela precisa contar o que aconteceu aqui para sua família, já deve tê-lo feito e o clima em sua casa não deve estar nada alegre.
       _ Mamãe...
       _ É normal que lamente por ela mas, saiba que, ao contrário de mim, ela sim, traiu quem confiou nela, agiu mal, por ciúme, desespero...talvez até, por amor...
       _ Vilma...O que você é?...O que eu sou?
      _ Você é o que está vendo, minha querida...E você é, também, a minha irmãzinha mais velha...Seu verdadeiro nome não é Márcia Cecília e sim, Pyrenna, como já deve ter desconfiado...E meu nome não é Vilma e sim, Faginnea...Somos filhas de Robur, um das líderes de nossos clãs, o clã local...Você a viu em um sonho...e eu ajudei...Ela vem, desde seu nascimento, tentando comunicar-se com você mas, devido a uma influência contrária, colocada em sua mente por Maria Alice, jamais conseguiu...Essa mesma influência...esse bloqueio...a manteve escondida de sua verdadeira família, isso desde que você nasceu...Pode você calcular o desespero de uma mãe ao ser traída por uma amiga, ter sua filha roubada ficando, durante tanto tempo, sem uma notícia sequer de uma parte de si? Pode você, condenar sua mãe, por ela ter causado o pandemônio que causou, para recuperá-la?...Quando, após uma desesperada e contínua busca por seu paradeiro, foi aventada a possibilidade de você ser Pyrenna eu, sua irmã mais nova me propus a servir de “espiã” e conseguir as provas de que você era, mesmo, você...Assim que te vi, soube que isso era verdade...Eu te amei como te amo, desde então, meu amor nada tem de falso e sim...de fraterno...Recolhidas todas as provas eu iria te fazer a revelação que faço agora mas...Maria Alice e Frederico desconfiaram de algo e, soubemos que iriam eles, escondê-la de nós...até que fosse tarde demais...Você então me revelou seu futuro esconderijo e eu decidi que aqui seria, devido à distância de seus falsos pais e um relativo isolamento, o local onde eu diria o que estou, de fato, dizendo...Só que em outro contexto, sem violências desnecessárias, sem medos, sem tristezas e desesperos...Mas, nossa mãe não quis esperar e...bem, tudo aconteceu como aconteceu...
      _ Por isso...todo o segredo entre nós e os outros...todo o mistério...
      _ Se eu fosse descoberta, poderia ser, até, destruída, por mãos que, de maneira bem humana, poderiam fazer isso...Imagine então, o sofrimento de Robur...perder duas filhas, uma delas, através de assassinato...
      _ Eles não seriam capazes...
      _ Eu não apostaria nisso.
      _ Como...como é possível...essa transformação em seres humanos?
      _ É bem sabido que, através dos milênios, esse tipo de transformação é possível, em determinados indivíduos e em determinados momentos e condições...Em alguns casos, chega a ser uma opção, acima de uma possibilidade...Aconteceu isso com seus “pais humanos”, eles desejaram sair de uma vida presa à imobilidade e, após muitos procedimentos, conseguiram o direito à “humanização” por assim dizer. O processo foi levado adiante, sem quaisquer contratempos mas, na mente daquela que decidiu chamar-se “Maria Alice”, um plano conspiratório estava em andamento: ela desejava, após “humanizar-se” fazer o mesmo com a filha de sua líder, Robur que, seria, no devido tempo, raptada peremptoriamente...E foi o que ela fez; junto com seu parceiro, que agora chamava-se Frederico e mais alguns familiares...Ela escapou com você, obtendo abrigo e proteção com parentes já “humanizados” anteriormente, há bastante tempo, sendo já, indivíduos idosos e não mais passíveis de uma nova transmutação.
      _ Minhas avós...
      _ Sim, elas...Maria Alice e Frederico ocultaram-se de nós completamente, levando ao desespero nossa mãe e líder, como você pode calcular...Tempos depois, infringindo uma regra, Maria Alice tentou ter sua própria criança, após tratar você como filha e humana...Ela não podia, ainda, reproduzir-se mas, o fez, dando à luz um menino doente e fraco, não totalmente humano...Teve uma vida curta, o pobre garoto, apesar dos esforços de todos, por mantê-lo vivo.
      _ É, eu vi...
      _ Durante a tentativa de salvar a vida do pequeno ser, seu paradeiro foi localizado e, uma força tarefa enviada ao local, de modo a resgatá-la...de modo abrupto, sem qualquer sutileza.
     _ Igual a ontem...
     _ Sim, igual a ontem...
     Tamanho foi o espalhafato usado em sua tentativa de resgate que os dois raptores conseguiram fugir, uma vez mais, levando você com eles...Uma comunhão ancestral, sua com nossa mãe, poderia permitir que ela a encontrasse, através de seu pensamento mas, infelizmente, a esperta Maria Alice conseguira truncar essa comunhão, transformando o que seria uma comunicação entre mãe e filha, através de sonhos, em horrorosos pesadelos, interrompendo o contato...
     _ Contato que você refez.
     _ Em parte...Você e a mãe ainda não podem “falar-se” mas, isso será corrigido...Recentemente, Maria Alice engravidou de novo e, parece que, desta vez, tudo correrá bem, os prazos foram respeitados...Durante sua passagem por uma escola, um dos nossos conseguiu localizá-la mas, era esse agente, um total despreparado que entendeu que, ao invés de capturá-la, ele deveria destruí-la, algo que tentou mas, foi detido a tempo por um dos agentes que Maria Alice sempre manteve perto de você, felizmente...Mais tarde, esse nosso agente revelaria uma séria malformação, o motivo de sua agressividade e incapacidade de entender ordens e, devido a isso, ele teve de ser retirado de serviço para tratamento.
     _ E eu, descoberta, tive de sair da escola...
     _ Sim...Para nossa sorte, uma outra escola foi construída perto de sua casa e, para lá você foi...Até ser localizada, novamente...Mas, desta vez, nossa mãe ouviu o que eu tinha planejado e permitiu que eu localizasse você, tivesse a certeza de quem você era e passasse adiante minha descoberta...Mas, sua falsa mãe estava preparada para isso e planejou um lance definitivo naquele “jogo de gato-e-rato”: Decidiram seus falsos pais, esconde-la em um local desconhecido e, a partir dali, iriam eles, retirá-la do país, eliminando qualquer possibilidade de localização sua...Mas eu consegui descobrir que local era esse –você me disse- e eu relatei tudo a nossa mãe...O resto...bem, você viu, desta vez, a truculência de Robur teve êxito e, em breve, você encontrar-se-á com ela...Os agentes e a irmã de Maria Alice foram neutralizados ou afastados e agora, você retornará à sua família de direito.
     _ Porque mam...porque Maria Alice me raptou?
     _ Não sabemos ao certo, a suspeita maior é a que ela a amava e ama, de verdade, a ponto de provocar uma triste cisão em nossa família...Por mais que isso nos revolte, acreditamos que ela fez o que fez...por amor...
     _ Eu vou retornar à minha forma original?
     _ Durante um tempo, terá de ser assim, quando obtiver o direito de escolha, poderá ser, novamente humana, você decidirá...Sua falsa mãe infringiu mil regras ao “humanizá-la” mas, isso já não tem mais importância.
     _ Onde está...a mamãe?
     _ Perto daqui, muito ansiosa...ela me pediu para prepará-la para o reencontro, você está preparada?
     _ Sempre estive, desde os tempos de “pântano”...eu, apenas, não o sabia.


     Momentos depois, encarando sua verdadeira mãe, Pyrenna sentiu em seu corpo em mutação, todo o amor que emanava daquela gigante que, durante toda a sua vida, jamais desistiu dela, sua filha...Com um visível e descomunal esforço, Robur conseguiu tocar de leve o rosto da menina, que a olhava cheia de amor, com a estranha impressão de que tinha, não uma mas, duas mães...Após o emocionado reencontro, Faginnea, que fora Vilminha, por um tempo disse.
     _ Vem, minha maninha querida...Vamos para o nosso local de direito.
     As duas deram-se as mãos e foram envolvidas por névoas azuladas e cinzentas, enquanto o estranho bailado de sombras realizava-se em torno delas e, assim foi até que tudo cessou e as duas irmãs viram-se em um local onde poderiam viver suas longas vidas, sem qualquer desconforto, cercadas por parentes e ancestrais...Um local de paz e segurança onde Pyrenna decidiria seu futuro e, no devido tempo, faria sua opção. Faginnea disse-lhe, então.
     _ Dispa-se desses andrajos que você veste...Não precisará mais, disso...Vamos depois, até o alto daquela colina pequena...Ali é o nosso lugar.
     Pyrenna despiu-se e foram as duas ao local indicado. Antes de prosseguir com o processo de transformação, a pequenina realizou o último ato humano para com sua irmã: beijou-a no rosto e foi, por ela, beijada...Colocaram-se depois, nos locais a elas reservados e Faginnea disse:
      _ Tudo está consumado, nossa mãe está feliz...Somos, novamente, uma família completa...


     Não muito tempo depois, ela viu quando o automóvel parou a uma certa distância de onde  estava e quando, do veículo desceram as três pessoas que, para ela encaminharam-se...A mulher tinha os olhos cheios de lágrimas e a olhava como sempre o fizera, quando ela morava consigo e o marido...O menino, de seus seis anos presumíveis, atestava o sucesso de sua segunda gravidez...Seu irmão, por afinidade...Aquela mulher fizera de tudo para encontrá-la e o conseguira, também não desistira dela, jamais...Imitando o gesto de sua mãe, com muito esforço, conseguiu tocar a acariciar aquele rosto triste e banhado de lágrimas e, mais não fez porque não foi-lhe possível...Seria aquilo, um adeus?...As duas tinham a certeza de que não era...Próxima a elas, a poderosa Robur não impedia o reencontro, compreendendo os motivos da mulher e perdoando-lhe as faltas cometidas...Em silêncio, por mais algum tempo, estiveram as duas a mirar-se e então, a mulher retornou ao automóvel, junto com sua família e o veículo afastou-se dali, com lentidão...a lentidão de quem não deseja ir embora...


celso dyer
Enviado por celso dyer em 18/12/2017
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