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O povo do espelho
       Ele dirigia o automóvel há horas; tinha pressa de chegar em casa, para abraçar a esposa e a filha e contar-lhes a boa nova. Era um automóvel da empresa, para a qual, trabalhava, emprestado de boa vontade, ao ser constatada, pela direção, a impaciência que o instava a voltar, logo, para casa. O veículo seria devolvido quando chegasse à cidade, onde residia com a família...Não quisera esperar o vôo que partiria, apenas, no dia seguinte; concluiu que, se dirigisse sem parar, a não ser, para reabastecer, chegaria em casa antes do avião, ainda que fosse apenas por algumas horas de vantagem; na sua opinião, essas horas importavam muito e ele não desejou perdê-las, apenas, esperando em um hotel.
       Mas, agora, dava-se conta do absurdo de sua sofreguidão e insensatez e chegara à conclusão de que não iria  agüentar amanhecer o dia ao volante...Santa ingenuidade sua, achar que ainda tinha preparo físico para levar a cabo uma empreitada como aquela!
       Não sabia onde estava; sabia que aquela estrada levá-lo-ia para sua cidade e, mais nada; passara por vários municípios, durante seu trajeto e nem preocupara-se em guardar-lhes os nomes; concluiu que, se fosse sempre em frente, chegaria; Isso bastava-lhe.
       Mas, agora, precisava parar...morria de sono e de cansaço e não podia arriscar-se a colidir com outro veículo, por dormir ao volante...só que, não cruzara com nenhum outro motorista  nas últimas horas, em uma estrada deserta e monotonamente reta...Iria parar sim, na primeira cidade que encontrasse e lá, passaria a noite, nem que fosse no banco de trás do automóvel da empresa; um veículo bem pequeno e, por conseguinte, uma cama bem desconfortável mas, se não houvesse outro jeito...
       Já estava quase ficando pelo acostamento, mesmo; correndo grande perigo, derrotado que estava, pelo sono, quando viu a placa anunciando que, na próxima saída, haveria  uma cidade. Espertou-se ao máximo para não perder o desvio e reduziu um pouco a velocidade; tais cuidados foram essenciais, já que a tal placa, avistada de relance, estava meio oculta pelo mato...como não estaria a próxima placa, à entrada da tal cidade ? Logo, ele soube que esta encontrava-se no mesmo estado da anterior, semi-escondida pelo mato alto mas, felizmente, foi avistada e ele virou, enfim, à direita, rumo a um pouco de descanso, em nome de sua segurança.
       A estrada vicinal era asfaltada mas, com muita precariedade; o pobre automóvel penou diante de tantos buracos e falhas no asfalto de baixa qualidade; ao menos, o exercício de desviar-se dos buracos maiores, mantê-lo-ia  bem desperto até que chegasse a seu destino... Mas, o tempo ia se passando e a estradinha ruim não terminava; durante o percurso, nenhuma outra placa foi vista; o jeito era seguir em frente e assim foi feito até que, finalmente, ao longe, surgiram as primeiras luzes da tal cidade ou povoado, cujo nome nem sequer guardara, perdida naquele fim de mundo.
       A madrugada ia alta quando ele, afinal, arribou no que devia ser o centro da tal cidadezinha. Procurou então, um hotel, hospedaria, albergue, qualquer lugar onde pudesse depositar seu corpo cansado, em algo que se parecesse com uma cama mas, nada encontrou; a cidade parecia não possuir  hotel...Também, perdida nos confins de não-sei-onde, quem iria até lá, fazer turismo?...Mas havia um posto de gasolina, levemente moderno e, felizmente, aberto, o que não deixava de ser uma surpresa. Para lá ele dirigiu-se, em busca de informações ou, pelo menos, gasolina.

        _Não, meu senhor, esta cidade não tem hotel...- disse o homem que o atendeu: Um sujeito alto, um pouco gordo, ralos cabelos grisalhos no alto da cabeça e bastante cordial, na aparência-...Já teve mas, não foi em frente, por falta de hóspedes; ninguém vem a este “fim de mundo”, ao menos, não com freqüência, o seu caso é algo especial.  Mas, o senhor está, afinal, com sorte, este posto não fica aberto a noite inteira, não; é que, esta noite, eu não estava conseguindo dormir e, como gosto, muito, de ler e a luz lá de casa estava muito fraca, cansando a vista, vim para cá, onde a iluminação é bem  melhor...para terminar este livro ( muito bom, aliás ) como, de fato, terminei. Já ia voltar para casa, quando o senhor apareceu...e foi, mesmo, bom, isso, porque, eu posso ajudá-lo em seu problema de arranjar um local onde dormir.
        _Vai me propor dormir aqui no posto -pensou o forasteiro - Tudo bem, o cheiro de gasolina não vai me incomodar mesmo.
       Viu então, o frentista ou o dono do posto ( o que era mais provável ) ir até o pequeno escritório e demorar um pouco por lá, voltando a seguir, parecendo estar animado.
       _Ela estava acordada - disse - acho que não dorme...que nem eu...Acho que ela vai gostar de sua companhia.
       _ Quem?
       _ A senhora que vai hospedá-lo esta noite, por um preço bem em conta...Faz tempo que ela deixou um recado comigo, no sentido de que, se aparecesse algum forasteiro à procura de acomodações, eu o mandasse para ela. Já telefonei-lhe e está tudo acertado; é pertinho daqui, o senhor segue por esta rua até o final dela, daí, vira à direita e então...

       O recém chegado anotou em um papel, o trajeto que o falante homem do posto descrevia e não quis saber de maiores detalhes: se a tal senhora tinha, mesmo, um lugar para ele passar a noite, era o que bastava...Completou o tanque de gasolina e depois verificou os pneus, água e óleo. Pagou pelo combustível e deu uma gorjeta ao homem que salvara sua noite, partindo,  afinal...Depois de muito rodar, pelo que parecia ser um labirinto de ruelas mal iluminadas e desertas, viu-se, novamente, fora da cidade...A tal senhora morava em um local bem afastado dali...Deixou as ruas calçadas com pedras e seguiu por uma estradinha estreita, de terra batida, ladeada de mato alto...Iluminação, não havia, só os faróis do carro mostravam para onde ir, nem, mesmo, um respingo de luar, teve...Enquanto andava por locais tão isolados, ele pensava no que encontraria pela frente...Imaginou, então, um casarão, enorme e decrépito, semi abandonado, sombrio e, possivelmente, assombrado...habitado por uma velha, magra, recurvada, misteriosa, vestida, sempre, de preto... uma conhecedora de magias e encantos além da compreensão humana... uma bruxa!
       _ Em que fui me meter – pensou, meio desanimado, mas, decidido a pagar para ver...E não encontrou nada do que fantasiara: O tal casarão era uma casa bem comum, bastante espaçosa e com aparência de nova e bem cuidada...Localizava-se no que parecia ser um sítio ou algo assim; era um terreno bem grande, envolvido por uma cerca de madeira, pintada de branco, com árvores e outras edificações a acompanhar a casa, isso tudo ele viu, rapidamente, iluminado pela luz elétrica do local, associada à luz dos faróis do carro...Sua anfitriã era uma senhora baixinha, não muito idosa e um pouco robusta, que o aguardava diante do portão largo, de madeira, já aberto para sua  passagem. Enquanto estacionava sua condução no local indicado pela senhora, pensou que era um perigo, uma mulher que parecia viver só, ali, receber estranhos em sua casa, em um local tão isolado como aquele; isso era um convite ao crime, fosse roubo ou horrores ainda piores, mas, isso não parecia preocupar aquela senhora, pois, mostrava-se ela, aparentemente, desprevenida contra qualquer violência...De qualquer modo, com ele, ela não precisaria ter qualquer cuidado ou prevenção; ele queria apenas dormir e, no dia seguinte, bem cedo, retomaria seu caminho para casa.
       Desceu do automóvel emprestado e dirigiu-se para senhora, que o saudou com um sorriso muito bonito, que pareceu-lhe ter um quê de tristeza...Disseram-se os nomes, apertaram-se as mãos e ele contou à ela, rapidamente, sua história e a bobagem que fizera, pelo desejo de rever, logo, sua família, metendo-se a dirigir, noite adentro, sem descansar.
        _ Fez bem em parar - ela disse com sua voz muito suave e calma - Não deve correr riscos desnecessários... Feliz é o senhor que tem  a sua família.
       O que significariam aquelas palavras? Será que ela perdera sua família? Ou nunca tivera uma? Achou deselegante perguntar algo, naquele momento e, apenas assentiu. Se ela desejasse falar mais, que o fizesse mas, não o fez...Ela ajudou-o com sua bagagem, que não era muita e levou-o ao quarto que ocuparia, naquela noite, após o que , discorreu, brevemente sobre os hábitos de sua moradia e as regras que deviam ser respeitadas. Ele a ouvia sem prestar atenção ao que dizia; a aparente tristeza daquela mulher de meia idade, com o rosto tão bonito, o cabelo claro, mesclado de branco, incomodava-o, de alguma forma...Tinha na mente, o rápido comentário que ela fizera sobre sua família e concluiu, então, que aquela senhora estava, mesmo, só, naquela casa tão grande, correndo os riscos advindos do isolamento...ou talvez, até não, considerando a paz daquela região, remota e pouco visitada.
       Estava, surpreendentemente, curioso, acerca de sua anfitriã, mas, não deu mostras disso, temendo ser inconveniente. Recusou, então, a oferta de uma ceia que ela, solícita, ofereceu-lhe; agradeceu e disse que, desejava, apenas, dormir e nada mais.
       _ Boa noite, então - ela disse - Quer que o acorde em algum horário em especial?
       _ Não, obrigado, não é necessário.
       _ Então, vou deixá-lo, se precisar de mim, estarei na sala, por mais por mais algumas horas. Eu quase não durmo... coisas de velha, sabe?
       _ A senhora não é tão velha assim... boa noite.
       Entrou, trancou a porta do quarto e  examinou-o por instantes: Era amplo e decorado com simplicidade e bom- gosto, tudo parecia imaculadamente limpo e havia um banheiro apegado ao quarto, pequeno e simpático.
       _ Ótimo, vou tomar um banho quente, de chuveiro, e depois, dormir como um santo – pensou, satisfeito.
       Tomou o tal banho (ótimo) no chuveiro elétrico e depois, ao procurar dar uma “conferida no visual”, notou que o banheiro não tinha espelho...Isso, longe de ser um incômodo, era, no entanto, uma curiosidade: Um banheiro tão bem equipado e sem um espelho...Talvez alguém o tivesse quebrado e, por algum motivo, não fora reposto...azar de quem o quebrou...Bem, o enorme armário que havia no quarto, seguramente, teria seu próprio espelho, preso pelo lado de dentro de uma das portas, como costuma acontecer com esse tipo de móvel antigo...Saiu, então, do banheiro, já de pijama, foi até o armário, abriu-lhe as portas e...nada de espelho, apenas gavetas, prateleiras vazias e cabides em igual estado, tudo recendendo a um aroma muito gostoso de benjoim ou algo parecido...Naquele quarto, definitivamente, não havia um espelho.
       _ Que estranho –pensou-  mas, que não seja por isso.
       Abriu a mala maior, das duas que trouxera, apoiada em cima de uma grande cômoda e, dela, retirou um espelho pequeno, de rosto, com moldura em jacarandá; uma peça de toucador muito elegante, na sua opinião...Olhou-se, finalmente,  e, vendo que estava tudo, mais ou menos, no lugar, deixou o espelho em cima do criado mudo, ao lado da cama, com o vidro voltado para cima. Deitou-se, então, e foi saudado pela maciez e limpeza do colchão de molas e das cobertas. Quase que, imediatamente, adormeceu, não sem antes, apagar a luz do quarto, através do interruptor que havia ao lado da cama, na parede.
       Dormiu e sonhou...e, no meio do sonho, ouviu ruídos estranhos, como algo batendo contra outra coisa, chocando-se e estilhaçando-se até tudo ficar reduzido a uma nuvem de algum material duro e cristalino...Acordou tarde, o sol tentando entrar no quarto, através da persiana da janela, numa iluminação suave e bem-vinda...Olhou para o quarto amplo e sentiu uma sensação de bem estar, como se recebesse um abraço quente e afetuoso do aposento que ocupava. Pensou, então, na família, tão querida: Sua esposa e sua filha de doze anos...Sorriu, feliz, lembrando da boa notícia que levava para as duas e, decidindo-se, afinal, levantou-se da cama...Resolveu então, dar uma nova “checada no visual” e, apanhando seu espelho sobre o criado mudo, levantou-se para olhá-lo...Só então reparou na farinha de vidro que deslizou, do suporte de papelão e madeira, para o chão, numa nuvem faiscante atingida em cheio por um feixe de raios solares...Não percebeu, de imediato, que aquele pó de vidro era - ou fora - seu espelho!  Naturalmente irritou-se ao constatar, afinal, tal realidade: Alguém entrara em seu quarto, enquanto ele dormia e, triturara seu espelho, até reduzi-lo, literalmente, a pó, em um grande desaforo!...Lembrou-se, então, dos ruídos escutados durante seu sonho : Era o vândalo a destruir suas coisas, na maior desfaçatez e covardia.
       Mas, quem fizera aquilo? e porque? Fora sua anfitriã? ou havia mais alguém naquela casa, com outra cópia da chave do quarto que ocupava? Iria saber de tudo e, logo...Trocou de roupa e foi procurar a dona da casa. Foi encontrá-la do lado de fora, na parte dos fundos, onde havia um galinheiro e ela estava cuidando, justamente, das galinhas e de patos, gansos e até de pavões. Ela  viu-o  e, amistosa, foi em sua direção.
        _O senhor estava, mesmo, cansado, hein? já passa das dez. Quer tomar seu café da manhã?
        Tanta amabilidade desarmou-o; será que ela não sabia de nada?
        _Sim, por favor -respondeu-, depois, vamos acertar o pagamento, pretendo partir daqui a pouco, já me demorei demais por estas bandas  
       _Ah, que pena...é tão cedo para ir...enfim, se precisa, mesmo...vamos, então?
       _Vamos.
        A melancolia estampada no rosto daquela mulher mexeu com ele, novamente: ela parecia lamentar, mesmo, a sua partida, talvez sentisse-se muito só. Decidiu não tocar no assunto do espelho, por enquanto...falaria mais tarde.  
        A boa senhora preparara um café da manhã e tanto, parecia querer agradar seu hóspede, talvez, para retê-lo, um pouco mais, em sua casa; era toda atenção para com ele.
.      _Café? Chá? Suco?  
       _Café, por favor, com  pouco açúcar, ainda não acordei direito...Tem mais alguém, aqui, morando com a senhora?  
       _Não...depois que minha família...se foi, eu tenho vivido só, nesta casa...busco alguma companhia, alugando o quarto que foi de minha filha; o mesmo que o senhor ocupou. Desde que eles se foram, no entanto, nesses anos que vivo aqui, sozinha, só o senhor apareceu por aqui...  
       Ela desejava falar de suas mazelas e ele seria um bom ouvinte -estava curioso.
       _ Quantos filhos a senhora tem?  
       _ Apenas uma menina... Ela e meu marido eram toda a minha família.
       _ Eram?...Os dois...morreram?  
       _ Não  mas, foi como se tivessem morrido...Eles foram embora, primeiro o meu marido e depois, nossa filha...Bem, eles voltaram depois, quando eu já não tinha mais a menor esperança de revê-los; mas, apenas; para saírem de minha vida, desta vez; definitivamente, isso; ha cerca de uns três anos atrás. Desde então, eu tenho vivido só.
       _ Não há, mesmo, ninguém, nesta casa, além da senhora?  
       Ela parecia não reparar na insistência dele.
       _ Ninguém... se não contarmos os bichos, lá fora...as galinhas, os patos, os pavões...mas, porque pergunta isso?- afinal, dava-se conta de sua insiatência.  
       _ Por causa disto -e mostrou-lhe a moldura vazia de seu espelho, presa ao fundo de papelão.  
       _ O que é isso?
       _ É mais fácil perguntar o que “era” isto...Era o meu espelho, que sempre me acompanhou, em todas as minhas viagens, até agora. Nesta madrugada, enquanto eu dormia, alguém invadiu meu quarto, mesmo estando a porta trancada, por dentro...e triturou o vidro do meu espelho. até reduzi-lo a pó. Não acredito que a senhora tenha feito uma coisa dessas mas, talvez saiba quem fez, sabe?
       O semblante da bela senhora, até então. sereno, fechou-se, subitamente, em uma expressão difícil de ser definida; mescla de susto, revolta, tristeza....emoções ruins que não combinavam com um rosto tão bonito.
       _ Eu sei quem faz isso, sim –ela falava com um fio de voz e ele teve de inclinar-se um pouco, em sua direção, para poder ouvi-la melhor- Não sabia que o senhor portava um espelho...devia tê-lo alertado.
       _ Alertado? Contra quem?
       _ O Povo do Espelho.
       _ O Povo do Espelho?
       _ Sim, eu o chamo desse jeito...Vou contar, tudo, para o senhor, mesmo que, depois de me ouvir, ache que sou uma louca ou mentirosa...mas, não vamos falar aqui na...na casa; talvez possam me ouvir e não gostar do que vou dizer.
       _ Vamos lá para fora, então.
       _ Prefiro um local mais isolado...fechado...eu...eu tenho medo...
       _ Isolado? De som?...Podemos, então, falar no meu carro; acho que, lá dentro, com as janelas fechadas, o som não escapará, se não gritarmos um com o outro.
       _ Sim, vamos para o seu carro.
       _ Então, deixe primeiro eu pegar minha bagagem e colocá-la no porta-malas; depois de me terminar o que tem para me dizer, acertaremos as contas e eu irei embora.
       _ Como o senhor quiser, eu o aguardarei lá fora, junto do carro.
       Ele pegou suas duas malas e foi ao encontro da senhora, curioso acerca do que ela iria contar-lhe mas, ainda aborrecido com o incidente do espelho. Trancou a bagagem no pequeno porta-malas e entrou, acompanhado de sua hospedeira, no veículo. Fazia um pouco de calor ali dentro mas, mesmo assim, os vidros foram mantidos fechados e eles puderam, finalmente, falar-se.
       _ Quando eu era moça – sua anfitriã começou sua narrativa, com dificuldade, escolhendo as palavras-  sempre fui protegida em excesso, por meus pais e parentes: não podia sair à rua sem a companhia de alguém da família, não podia ir sozinha a lugar algum. Era filha única de um casal já muito idoso e morava com eles e mais alguns tios e primos, todos, muito mais velhos do que eu, com exceção de alguns dos primos...Cresci sem ter o contato com gente da minha idade e isso sempre me fez falta; buscava alguma companhia nos livros e estudava e lia sem parar; a leitura e outras atividades solitárias, atenuavam, um pouco, minha solidão e a mágoa de viver prisioneira, como vivia. Apesar da oposição de alguns tios, eu entrei para a universidade, após o período básico da escola. Escolhi seguir Engenharia, não sei bem porque, não sabia ao certo qual era minha vocação; os únicos contatos que tive, até então, aconteceram nas escolas que freqüentei e todos eles, foram muito superficiais, afinal, não me era permitido ter amigos...E esses contatos prosseguiram na faculdade e permaneceram restritos, eu era vigiada em tudo o que fazia.
       Durante as aulas de física, conheci aquele que viria a ser meu marido; era um professor e dava aulas de ótica, sua especialidade...Acho que foi amor à primeira vista, pelo menos, de minha parte...Tudo foi muito repentino e, logo, eu estava, perdidamente, apaixonada por um homem bem mais velho do que eu, como minha família também o era. Logo, encontramos maneiras de nos vermos às escondidas, tempo empregado em conversas que não acabavam mais e, mesmo, algumas carícias...nada de muito íntimo...Sempre que aparecia uma brecha no “muro de vigilância” de minha família, nós nos encontrávamos, para conversar, trocar beijos e fazer planos para nosso futuro...Nunca fomos alem dos beijos e breves contatos físicos, porque falávamos demais, os assuntos brotavam como água em uma nascente e, como eu aprendi sobre a vida com aquele homem!...Dávamo-nos muito bem, eu me sentia completa, protegida, ao lado dele; desejava, em meu íntimo, dividir minha vida com aquele homem, pelo resto de meus dias...Desculpe-me falar assim mas, eu era –ou ainda sou- muito romântica e meus parentes jamais me deixaram demonstrar isso para ninguém. Não encarava meu namorado como um possível libertador; alguém que iria resgatar-me de minha prisão familiar mas, sim, como o meu primeiro, único e verdadeiro amor, aquele com quem eu sonhara, sem perceber, durante grande parte de minha vida.
       Jamais falei de meu professor com quem quer que fosse, nem no âmbito da faculdade e, muito menos, em minha casa; se meus parentes, apenas, desconfiassem de algo, era certo que me tirariam da universidade, impedindo-me de estudar e me formar...aí, eu seria, de fato, uma prisioneira...Nossos encontros secretos continuaram a acontecer: ele sempre muito atencioso, respeitador e carinhoso comigo; eu, cada vez mais louca por ele...Certo dia, ele me fez a proposta: tão logo eu me formasse, fugiria com ele para a casa que estava construindo em um local bastante afastado e seguro e, nesse local, nos casaríamos à revelia de meus pais e tios; ele contou que já vinha economizando dinheiro. há algum tempo e que já possuía o suficiente para nos sustentar; disse, também, que estava montando um laboratório próprio, de modo a que continuasse a trabalhar e fazer suas pesquisas...A casa é esta mesma, aí ao lado e o laboratório, imenso, está no subsolo, logo abaixo da casa. Aceitei a proposta imediatamente, morrendo de felicidade. Podia fugir com ele: era maior de idade e podia sair de casa, sem que pudessem acionar a justiça, contra nós. Iria, afinal, iniciar minha vida nova, junto com meu professor e meu amor; eu fugiria com ele naquele mesmo instante, se ele quisesse mas, prudentemente, ele recomendou-me calma e paciência, o que acatei, por saber que ele estava com a razão. Difícil foi esconder minha felicidade de todos, mas, eu consegui...e esperei.
       No dia de minha formatura, no meio da confusão normal de festejos e confraternizações, durante a cerimônia de entrega dos diplomas, nós driblamos a vigilância de minha família, que estava, toda, presente e fugimos, no automóvel dele; eu, nada levei de meu; deixei tudo em casa, larguei tudo por aquele homem, minha outra metade, finalmente encontrada. Ele dirigiu um dia e uma noite, inteiros, direto e sem dormir, parando, apenas, para reabastecer o carro e para comermos e usarmos o banheiro. Durante a viagem, quando o cansaço me vencia, eu dormia no amplo banco de trás e nós comíamos em restaurantes à beira da estrada ou em cidades, pelas quais passamos. Não tomamos banho durante nossa jornada e ele não dormiu um minuto sequer, deixando-me preocupada; quando pedia-lhe que descansasse um pouco, dizia-me que estava bem e que a pressa de ficar comigo, de vez, dava-lhe forças e tirava-lhe o cansaço...e eu corava ao ouvir isso...Finalmente, chegamos aqui, um local realmente isolado e muito longe de minha cidade natal  aliás, longe de tudo, tendo apenas a cidadezinha aqui perto, como referência de civilização. Chegamos e eu me vi, frente a frente, com a casa de meus sonhos; sonhos que eu tinha a certeza de estar vivendo e que, de fato, vivi, durante algum tempo. Tinha, afinal, uma vida e um futuro, tudo o que sempre quis ter e me foi recusado.
       Como ele prometeu, nós nos casamos na cidadezinha, sem cerimônia religiosa e com poucas testemunhas; tornamo-nos, finalmente, marido e mulher. Aqui eu passei os anos mais felizes de minha vida, os quais, jamais esquecerei. Nós saímos em lua-de-mel e viajamos muito, passamos meses viajando, metade desse tempo, no exterior; meu marido falava muitos idiomas e tinha amigos em várias partes do mundo. Esses amigos nos acolheram com alegria em suas casas e minha vida passou a ser uma festa sem fim. No decorrer de uma de nossas estadias em casa de amigos, eu engravidei e o senhor não faz idéia da alegria com que meu marido recebeu a notícia, dada por mim: ficou fora de si, de felicidade, como eu nunca havia visto antes. E eu também, era a personificação da felicidade...e tudo se acabou do jeito que acabou....
       Meu período de gestação, o parto e o período de resguardo foram cercados de muita paz e carinho. Eu ficava em casa e meu marido trabalhava, às vezes fora e às vezes, em seu laboratório. Ele desligara-se da Universidade em que trabalhara, durante décadas e, sua vida era dedicada agora, a mim e ao laboratório...E passou a dividir sua atenção com nossa filha, quando ela chegou...ela era linda, a menina mais encantadora que eu já havia visto e como o pai a adorava! Enquanto ela crescia, ele ocupava-se em fazer-lhe todas as vontades mas, durante esse tempo, jamais descuidou-se também de mim...me custa aceitar ele ter feito o que fez...De minha parte, eu também amava com loucura a santa criaturinha que havia saído de mim e que via crescer e desenvolver-se com saúde e cercada de todo o amor possível.
      
       Nesse ponto da narrativa, o hóspede da bela senhora percebeu que sua voz tremia um pouco e seus olhos começavam a marejar, lembrando os tempos de felicidade que se foram. Mas ela prosseguiu, após juntar forças dentro de si.

       _ Quando a menina completou quatro anos de idade, o pai dela desapareceu. Foi de repente, do dia para a noite, não o vi sair e ele não me avisou que sairia ou que iria a algum lugar...De uma hora para outra, eu me vi só, com a menina para cuidar, em uma casa enorme, repleta de espelhos, a grande obsessão de meu marido. Da preocupação inicial, cheguei ao pânico em pouco tempo: eu não sabia onde procurá-lo, não sabia nada de sua vida, seus parentes, família...nunca perguntei nada afinal, estava muito preocupada comigo mesma, aproveitando minha súbita felicidade...Tentei a Universidade, por telefone...Informaram-me que desde que ele entregara seu cargo, nunca mais dera notícias nem aparecera por lá. Tentei a cidade, procurei-o no hospital, na delegacia de polícia, fui aos jornais e mandei publicar um aviso de “procura-se”...sem resultado algum. Com uma sensação muito ruim, fui ao banco checar nossa conta conjunta; temia que ele houvesse nos abandonado, a mim e a nossa filha, em total desamparo...Mas, não...o dinheiro estava todo lá, intacto...nem uma retirada recente...Ficamos, eu e minha filha, um dia inteiro, vagando pelas ruas, eu já não sabia mais o que procurava...achava que meu marido fora raptado, seqüestrado...talvez assassinado...ao cair da tarde, algumas pessoas atenciosas deram comigo, encostada a uma parede, com a menina nos braços...as duas chorando muito, em total desconsolo...e essas pessoas levaram-nos para casa em nosso carro que eu dirigira até a cidadezinha, após o que, tentaram nos consolar com palavras de ânimo e depois foram embora.
       Caí em um estado de depressão aguda, sem vontade para nada, sem saber o que fora feito do homem que era tudo para mim; só não sucumbi à tristeza porque, certo dia, vi meu anjinho sentado no tapete da sala, brincando com suas bonequinhas...Minha filhinha...nossa filhinha, a cada dia mais linda...e que dependia, agora, exclusivamente de mim...Foi ela que, com sua presença e doçura, me tirou, por fim, da prostração à qual eu me entregava, perigosamente...O tempo passou e eu acabei quase conformando-me com o desaparecimento de meu marido o qual, procurei, incessantemente, durante meses e meses...Então, procurei acostumar-me à nova vida que se impunha a mim e à menina, sem o pai que a amava tanto...Com ela  a meu lado eu, felizmente, não me sentia tão só, como fora por tanto tempo...Tinha de criar e educar a única razão para eu continuar viva...Chegou, então o tempo dela iniciar seus estudos e procurei-lhe uma escola, na cidade vizinha mesmo. Ela é pequena mas não é atrasada, tem de tudo e precisa que seja assim, afinal é muito isolada...Eu queria minha filha sempre perto de mim mas, jamais a privaria do convívio social que me negaram. Jamais cometeria os mesmos erros de meus pais...Quanto a eles, por vergonha ou até mesmo, medo, eu nunca mais os procurei, desde que fugi de casa, eles nem tiveram conhecimento do nascimento de minha filha...Podiam, mesmo, até, já ter falecido, sem que eu soubesse  ...coitados...erraram demais mas...foi por amor...
       Conforme a menina começava a estudar, notei mudanças em seu comportamento. Precisando ir à cidade, vez por outra para fazer compras, ir ao banco e por outros motivos, costumava deixá-la com uma garota que apresentou-se aqui em casa, certo dia e, com quem eu simpatizei de imediato...Com o tempo, essa menina mostrou ser de absoluta confiança e era extremamente carinhosa com minha filha...mas sua vinda não foi obra do acaso, como eu iria descobrir mais tarde. Quando eu voltava da cidade, geralmente eu perguntava da menina e a babá respondia sempre de modo parecido: a menina fizera suas lições de casa, lanchara e ficara brincando ou na sala ou em seu quarto, era quase um relatório padrão e eu não pedia maiores detalhes. Quando eu estava com ela em casa, no entanto, notava que o comportamento da menina não era tão simples como sua babá relatava. Igual ao pai dela, minha filha era fascinada por espelhos e essa casa era, praticamente revestida deles, a ponto de, em algumas ocasiões, até incomodar-me um pouco. Meu marido fabricava espelhos em seu laboratório, para seus estudos e pesquisas; lá embaixo existe uma máquina enorme que fabrica espelhos de todos os tamanhos, formas e espessuras. Nesses anos todos, eu fui poucas vezes lá embaixo mas costumava ouvir o som da máquina funcionando, quando meu marido trabalhava no laboratório.
       Por conta de seu amor pelos espelhos, vezes sem conta eu encontrava a menina sentada no chão, diante de um deles, parecendo conversar com sua própria imagem refletida; achei que inventara um amigo invisível, talvez para atenuar a falta que o pai fazia-lhe...ela convivera tão pouco com ele...não interferi no que achei que fossem suas fantasias e nem saberia como faze-lo. Anos passaram-se e minha filha já era quase uma mocinha; era boa aluna e uma garota muito calma porém, não relacionava-se muito bem com seus colegas, fossem meninas ou meninos e o mesmo acontecia com os adultos; ela parecia viver em um mundo à parte, isolada...A liberdade que eu não tivera e que oferecia-lhe sem restrições era, todavia desperdiçada...porque?...Quando ela não falava com os espelhos, comportava-se normalmente, como uma menina comum: falava muito, sobre sua  escola, colegas, professores, o que fazia...sua vidinha fora de casa. Quando eu perguntava-lhe com quem ela conversava nos espelhos, ela já estava com a resposta na ponta da língua e não dava muitos detalhes, nem se eu pedisse. Conforme foi crescendo, porem, passou a fugir desse tipo de pergunta; desconversava, mudava de assunto; decidi não mais amolá-la com minhas perguntas, nem tentar invadir seu mundo particular – talvez devesse fazê-lo, hoje eu penso assim...Mas, afora sua fixação com os espelhos e a falta de comunicação com as pessoas, ela era a menina mais encantadora que poderia existir...Éramos felizes, ela e eu, a dor provocada pela ausência do pai dela, se não desaparecera, ao menos diminuíra um pouco, com o passar dos anos. E assim foi até o dia seguinte ao dia do aniversário de doze anos de minha menina.
       Era uma tarde de domingo e eu notei que ela estava demorando demais no banho; esperei o quanto pude mas, quando julguei que a demora já estava excessiva, resolvi ir chamá-la. Abri a porta  de seu banheiro, a qual ela jamais trancava e, lá dentro vi que estava tudo inundado de vapor d’água, do chuveiro, ligado na temperatura mais alta. No início eu não enxerguei nada, fui ao box e vi que ela não estava lá; fechei o chuveiro e me dei conta de que algo ali não ia bem...Tudo o que eu temi durante anos, que acontecesse, eu agora presenciava: como o pai dela, minha filha desaparecera! Não saíra pela porta, eu teria visto ou ouvido algo...nem pela janela ela poderia ter saído: esta era estreita demais para permitir sua passagem. Fiquei arrasada em questão de segundos mas, de algum modo, eu já esperava por algo assim e, agora, me via confrontada com a dura realidade. Antes de sair do banheiro, já com lágrimas nos olhos, vi o enorme espelho que havia por cima da pia, todo embaçado de vapor e, com um arrepio de horror em minha espinha, percebi como tudo acontecera, tudo ficara claro para mim....Passei a temer espelhos; de repente, eles assumiram, diante de mim, um aspecto por demais ameaçador; evitava olhar para eles e acabei cobrindo todos os que havia espalhados pela casa, usando para isso, cortinas, lençóis e cobertores. Não ousava tocá-los e, muito menos, quebrá-los e não era por superstição...no meu desvario, eu acreditava que, feridos, eles seriam uma ameaça ainda maior, para mim, do que inteiros...Aqueles monstros de vidro e prata haviam me roubado o marido e a filha!
       Não podia deixar a casa, para onde eu iria? Aquele era meu único mundo e agora, eu era, novamente, prisioneira dele...e de meus medos...e dos espelhos...Quando tomava banho, meu desconforto era ainda maior: Sem roupas, eu sentia-me ainda mais vulnerável a um ataque, mesmo porque, em frente ao box havia um enorme espelho, que ia do chão até quase o teto, chumbado na parede, impossível de ser removido; eu cobrira aquilo com uma cortina de plástico, para box mas isso não adiantava; eu sentia um ambiente ruim quando ia ao banheiro, como se fosse constantemente vigiada, observada em todos os meus passos.
       Quando minha filha começou a conversar com os espelhos e eu perguntava-lhe com quem ela falava, no início ela ainda me respondia, dizendo conversar com o “Povo do Espelho” e eu achava que era apenas fantasia dela, não dando maior importância àquilo....O “Povo do Espelho”...eu agora tinha medo até de pensar nesse nome...eles haviam tirado de mim o que eu tinha de mais precioso e eu desconhecia-lhes os motivos; era tudo tão absurdo que eu não encontrava respostas para as perguntas que amontoavam-se em meu pensamento. Pedi ajuda aos céus, rezando muito e, afinal, o que recebi em resposta às minhas preces, quase me levou à insanidade total e, certamente, acabou com qualquer esperança, se é que eu ainda tinha alguma, de ver um desenlace feliz para meu drama pessoal.
       Algumas semanas depois do desaparecimento de minha filha, em uma tarde, eu havia terminado o meu banho e enxugava-me no espaço entre o box e o espelho gigante quando, em determinado momento, eu ocultei meu rosto com a toalha, durante segundos, para secá-lo... Senti então que, repentinamente, a cortina de plástico que cobria o espelho era arrancada e arremessada para o lado e um momento depois, eu senti um aperto em meu braço, por algo duro, forte e frio...Imediatamente livrei meu rosto e olhei para aquilo e o que vi quase parou meu coração: Uma projeção saía do centro do espelho e me agarrava o pulso; um tentáculo de vidro espelhado, terminado em mão apertava-me com muita força e me puxava em direção à superfície do espelho. Eu olhei para ele e me vi, nua, minha imagem  distorcida pela aparição do tentáculo e eu vi meu espanto e meu horror, refletidos em cada curva, em cada dedo daquela coisa...Aquilo tinha uma força enorme e me puxava cada vez mais para o centro do espelho e eu já não achava mais forças para lutar...já não tinha forças nem para gritar. E fui sendo arrastada, sentindo toda a dureza e o frio do vidro, de que aquele horror era feito... Tentando me libertar, procurei, com o braço livre, algo onde me agarrar para resistir àquele ataque e encontrei a barra de metal do toalheiro, presa à parede ao meu lado; agarrei-me com tudo o que me restava de forças à barra pesada e roliça e ela foi arrancada da parede devido, talvez, ao fato de não estar bem presa ou talvez, um último esforço desesperado meu, criou forças para tal façanha. Já me via coberta pela face do espelho, para sempre, tendo então, o mesmo fim de meu marido e minha filha quando, em um rompante, usei a barra do toalheiro como arma e bati com toda a força no braço de vidro, que me agarrava. O que aconteceu então, nem que eu viva mil anos, jamais esquecerei.
       Quando a barra de metal atingiu o braço e a mão de espelho, estes partiram-se em dezenas de fragmentos que espalharam-se pelo chão e grudaram em meu braço, ainda úmido, acompanhados de um jato de um líquido que parecia ser...sangue! Ao mesmo tempo, ouvi um grito de dor muito agudo, como se uma criança gritasse...uma criança que sofria uma dor muito intensa. Livre da mão de vidro que me agarrara, salpicada de sangue alheio e com cacos de vidro ainda presos ao corpo, corri para dentro do box e procurei proteção atrás da cortina colorida; olhei para o espelho vivo, então e vi um grande buraco no vidro, revelando a armação de madeira que havia por trás dele mas, além do buraco, como se o espelho não fosse mais um espelho e sim, uma vidraça, em uma espécie de ambiente por detrás do espelho, numa imagem toda fragmentada, devido às múltiplas rachaduras no vidro, o que eu vi, certamente roubou-me anos de vida em segundos, acredite o senhor ou não...
       De pé, em corpo inteiro, atrás do espelho semi destruído, minha filha me encarava...Usava roupas estranhas, feitas de uma espécie de tecido vitrificado e seu pai também estava presente, parecendo haver chegado naquele instante...procurava ajudar a filha em algo que logo vi o que era, com um horror que crescia mais e mais: O braço da menina terminava subitamente, logo abaixo do cotovelo; não tinha mais a mão, apenas carne exposta, ossos estilhaçados e uma horrível abundância de sangue que espirrava em sua roupa , no chão e na outra mão que agarrava o braço estraçalhado, com desespero; enquanto isso, o pai, visivelmente nervoso tentava conter-lhe a hemorragia com um pedaço de pano, também vitrificado. Horrorizada, vi então que isso não era tudo...havia também o olhar que minha filha me dirigia, um olhar que quase doeu em mim, fisicamente...um olhar de espanto...e ódio...Eu havia aleijado minha filha, de forma horripilante, em um momento de desespero e ela condenava-me por isso. Logo seus olhos encheram-se de lágrimas que começaram a rolar por seu rosto tão lindo...ela completara apenas doze anos!...Seu pai, às voltas com os resultados de tão bárbara mutilação sofrida pela filha, também me encarava mas, seu olhar era diferente...ele parecia pedir-me ajuda...me chamava para ajudá-lo com nossa filha...Foi então que a menina gritou novamente, um grito diferente do anterior...agora manifestava raiva, ódio, desespero...E o enorme espelho dissolveu-se em uma explosão fosforescente de vidro triturado que avançou em minha direção com grande velocidade, atingindo-me em cheio e à cortina do box, atrás da qual, eu me protegi, por puro reflexo...A cortina era feita de um plástico bastante espesso mas, foi totalmente estraçalhada pela chuva de vidro moído e foi o que me salvou: recebendo o maior impacto, absorveu-o quase todo, deixando para mim, um ataque bem mais ameno; mesmo assim fui riscada, arranhada e tive a pele perfurada em muitos pontos de meu corpo despido..não senti exatamente dor, naquele momento mas, um forte empurrão que me jogou na parede do box e, depois, ao chão...Desvairada, coberta de vidro moído, só lembrei do chuveiro, acima de mim e abri a torneira no máximo, deixando que a água lavasse aquela cobertura mortal...eu tinha vidro nos cabelos, na boca e até nos olhos, acho que foi por puro milagre eu não ter ficado cega...Consegui com muito custo, livrar-me da farinha de vidro mas, ferira-me muito, cuspia sangue, da língua e das mucosas da boca, atingidas; a pele estava toda cortada e arranhada e eu já sentia o sangue minando dos ferimentos e ainda havia muito vidro na cabeça e nos cabelos molhados, de onde o sangue escorria, também.
       Eu sentia-me mal, estava exausta, destruída...não sabia o que pensar; olhei para o que restara do banheiro e o que vi foi apenas destruição: o chão alagado, o monte de vidro moído, espalhado por ele e, no meio daquilo todo, ah, o horror !...fragmentos de carne, pele, ossos e muito, muito sangue...sangue que escorrera do espelho e que misturava-se à água, no chão...os restos do que foram a mão e o braço de minha filha que eu, sua própria mãe...estraçalhara...

       A voz faltou à pobre mulher e ela, escondendo o rosto entre as mãos, entregou-se ao pranto durante alguns momentos. Conseguiu a custo controlar-se, no entanto, e prosseguiu sua narrativa, a voz entrecortada por soluços que ela tentava conter.

       _ Ferida, sangrando, despida de roupas e de forças, com os pensamentos em desordem e sentindo que nenhuma dor externa seria maior do que a que eu tinha dentro de mim, deixei-me cair, de quatro, a cabeça entre as mãos, encostada no chão repleto de destroços...Não sentia vontade de levantar dali, não sentia vontade de viver...Ouvi o primeiro estouro...logo depois, o segundo...o terceiro...sabia exatamente o que estava acontecendo: um a um, todos os espelhos da casa explodiram, como o do banheiro, rasgando suas coberturas, atingindo móveis, tapetes, riscando, lascando, danificando o houvesse pela frente...As duas criaturas que eu mais amava no mundo, agora odiavam-me por causa  de uma loucura minha, motivada pelo pânico. Naquele exato momento eu perdia tudo o que possuía de bom em minha vida...nada pude fazer, apenas fiquei ali, prostrada no banheiro destruído...menos destruído do que eu....E ali mesmo, eu chorei tudo o que jamais havia chorado em toda a minha vida; eu desejei jamais haver nascido, a dor era grande demais, o remorso me esmagava o peito...mas eu sentia que não merecia aquilo, estava sendo castigada por algo do qual não tivera culpa...Sentia que minha vida terminava naquele dia maldito em que reencontrei minha família, apenas para perdê-la de vez, logo depois...Desfaleci em meio ao vidro e sangue, no chão frio e molhado, afogada em dor, varada pela tristeza...fiquei ali durante muito tempo...
       Quando recuperei, afinal, parte de minha sanidade, levantei-me e tentei lavar o resto de vidro e sangue que ainda me cobriam, no chuveiro ainda aberto. Cuidei depois dos ferimentos que eram inúmeros mas, felizmente, de pouca gravidade...Vesti-me e fui procurar a babá de minha filha, para ajudar-me em alguma coisa, o que quer que fosse; fui a seu quarto então e ela não estava lá: apenas junto à parede, no chão, um monte de vidro moído embaixo da armação de madeira, ainda presa à parede. Compreendi tudo: ela também era uma deles, sua missão talvez fosse a de espionar-me ou assegurar seus líderes de que a menina estava sendo bem cuidada...pelo jeito, fora chamada de volta às pressas, antes que os espelhos fossem destruídos; não levara nada, todas as suas coisas pareciam ter ficado no quarto...sem ter mais o que fazer ali, retirei-me...Agora eu estava definitivamente só, essa era a verdade; metera-me, sem saber, com o Povo do Espelho e agora pagava o alto preço de minha involuntária ousadia.
       Eis aqui a minha história, acredite o senhor ou não. As conclusões a que cheguei, a partir daquela tarde maldita só fizeram piorar o meu estado de espírito: minha filha quis-me junto dela e eu aleijei-a...Ela estivera observando-me desde que fora viver com seu pai e sua gente, no mundo além do vidro de um espelho...Ela não quis me deixar, como o pai o fez e, naquela tarde, tentou levar-me, à força para junto dela, do outro lado do espelho, certamente escondida do pai e sem sua permissão...Queria-me ao seu lado, amava-me como o pai talvez nunca chegou a me amar...sentiu minha falta...e eu fiz aquilo com ela...
      
       Nova pausa, dolorida como a primeira. De cabeça baixa, a pobre criatura deixou que as lágrimas corressem livres por seu rosto, enquanto soluçava e reunia forças para continuar sua história até o fim. Seu interlocutor, a seu lado, nada dizia mas, começava a sentir um pouco da dor que afligia tanto sua desafortunada anfitriã. Ela, afinal, prosseguiu.
       _ Eu tentei colocar outros espelhos na casa, talvez, na esperança de comunicar-me novamente com minha filha, para pedir perdão pelo mal que causara-lhe mas, tão logo os espelhos eram pendurados ou apoiados às paredes, explodiam como os outros...Minha filha nunca mais quis falar comigo e acabei desistindo de fazer um contato com ela. Ela me odiava, eu sabia e não podia tirar-lhe a razão, o que eu fiz com ela foi demais...Mas eu não tinha tanta culpa,  pensei estar sendo agredida, tive medo e agi sem pensar...
       Eu...eu faria qualquer coisa para falar de novo com ela para...ao menos tentar me explicar e pedir perdão pelo que eu fiz...Eu daria meu braço e minha mão para refazer o que eu destruí...Eu faria qualquer coisa...qualquer coisa...para minha filha me perdoar...

       Era tudo, sem ter mais o que dizer, a triste senhora entregou-se de vez à dor que sentia e chorou muito e alto, sem, contudo, desanuviar seu peito de tamanho peso. O homem a seu lado ainda tentou, mesmo, animá-la, com palavras de consolo; falou em Deus, em esperanças que não devem ser perdidas...estava com muita pena daquela pobre alma e queria que ela não sofresse tanto assim. Afinal, saiu do automóvel e dando a volta, abriu a porta para sua anfitriã sair também. Conduziu-a depois de volta à casa ela, totalmente arrasada. Na cozinha, esquentou um pouco de chá e ofereceu-lhe, ela tomou alguns goles pequenos e ele tentou, novamente, encorajá-la, invocando a religião e a fé que devemos ter em nosso criador, que não nos deixará sem alento; recomendou-lhe que não perdesse a esperança pois, quando menos esperasse, ela seria recompensada. Quando, afinal, ela acalmou-se um pouco, chegando mesmo a desculpar-se por seu desabafo, ele falou sobre o acerto de contas entre os dois pois, precisava partir; ela concordou e apresentou-lhe as contas que fizera, em um caderno e com uma caligrafia muito bonita. Ele espantou-se pelo fato de ela cobrar tão pouco por tudo de tão bom que oferecera-lhe, em sua curta estadia; pagou afinal, o estipulado mas, não sem antes, comentar-lhe os valores.
       _ Não preciso de dinheiro, meu senhor –ela disse tristemente – De dinheiro o banco está cheio, tenho muito mais do que preciso para viver e dinheiro é só o que eu tenho nessa vida sem sentido...nem devia cobrar-lhe nada...Mas eu não pretendo mais prendê-lo aqui, o senhor precisa partir.
       Quando afastou-se alguns passos da casa, indo para seu automóvel,  ele ainda ouviu-a chorando, na cozinha mas, não se virou e seguiu em frente.  Entrando no veículo, perguntava-se que tipo de trauma aquela mulher sofrera para inventar uma história daquelas...Inventar sim pois, não acreditara em uma só palavra do que ela contara-lhe sobre povos do espelho, seqüestros fantásticos e mutilações com barras de metal. Queria sair dali, rapidamente; tinha mais o que fazer e não podia mais cuidar daquela senhora louca, de cujo nome, ele até já esquecera...Com tais pensamentos em mente, era natural que não estivesse preparado para o que viu, ao ajeitar o espelho retrovisor, lembrando que ainda não vira seu rosto naquele dia e, procurando fazê-lo agora. O susto que levou foi tão grande que ele ficou sem fôlego, paralisado no banco do motorista e levou bastante tempo para recompor-se do choque.
       Isso porque, o que ele viu no espelho retrovisor, ao mirar-se nele, não foi o seu próprio rosto e sim o de uma moça, que deveria ter uns quinze ou dezesseis anos, muito bonita e com feições conhecidas. Seu semblante estava sério e seus olhos vermelhos indicavam que havia chorado recentemente. Encarava-o sem nada dizer enquanto ele, sentia o coração a querer-lhe saltar do peito. Após algum tempo, a mocinha afastou-se um pouco do espelho e levantou a mão direita à altura do próprio rosto, fazendo o clássico aceno de adeus, movendo os dedos em sua direção. Fascinado, ele viu que os dedos, a mão e parte de seu braço eram feitos de vidro espelhado e moviam-se normalmente como se, de carne e osso, fossem feitos. Então, com um estalido, o espelho retrovisor trincou-se no meio enquanto o belo rosto de menina desaparecia e, em seu lugar, seu próprio rosto, apalermado, surgiu...Tão logo refez-se do susto, deu a partida no motor e saiu dali o mais rápido que pode. Atravessou a estrada de terra, voltou à cidadezinha perdida no fim do mundo e, em pouco tempo achou sua saída, voltando à rodovia, a qual seguiu até seu final, chegando em sua cidade e sua casa, no início da tarde, muito depois  da chegada do avião que dispensara, no dia anterior.
       Foi festejado em sua chegada, pela esposa e pela filha que souberam, afinal, da boa novidade que ele trazia: o fechamento de um bom negócio em uma cidade vizinha, negócio esse que renderia um bom dinheiro para todos. No dia seguinte ao de sua chegada, ele foi à sede de empresa para onde trabalhava e lá, devolveu o automóvel que usara, para vir da cidade onde fechara o negócio, isso, após passar no vidraceiro para trocar o espelho retrovisor quebrado, cujos dois pedaços guardou como lembrança. Enquanto a troca era feita ele caiu, finalmente, em si, a respeito dos acontecimentos da manhã do dia anterior...Sentiu-se então, mal por não transmitir à doce senhora que o acolhera com tanta simpatia, a mensagem que recebera da filha dela, uma mocinha linda e extremamente parecida com a mãe, através do espelho retrovisor do automóvel.
       Compreendera tudo o que se passara: a garota, ao aparecer para ele, como que dizia em seu silêncio e seus olhos vermelhos que perdoava a mãe, sim, da mutilação sofrida. Compreendera, afinal, os motivos dela  pelo brutal ataque: seu medo e a ignorância sobre seu novo mundo e, mostrava que, agora, tudo estava bem afinal, sua mão fora reconstruída com material  vivo, espelhado, por seu pessoal além do espelho. Ela e, possivelmente, seu pai, ouviram as palavras da mãe, através do espelho retrovisor do carro o qual, de alguma forma fora poupado da destruição, talvez por ser pequeno e demorar a ser detectado ( seu espelho de rosto só o fora durante a madrugada ). Quando foi descoberto, já transmitia e, ao ouvir a voz da mãe, a menina decidira ouvi-la e ao faze-lo, caíra em si da grande injustiça que cometera durante cerca de três anos. Buscando privacidade, sua triste mãe fora colocada justamente diante de um transmissor e, ali, fez aquele desabafo tão sentido, antes de poder ser silenciada; desabafo este que, foi entendido pela filha, que perdoou qualquer mal feito, imediatamente, com o aval de seu pai, certamente.
       Ela dera um claro sinal de querer estar com sua mãezinha, novamente e ele, o covarde e poltrão que demonstrou ser, fugira de lá, deixando a desesperançosa mãe sem o alento do perdão, sem qualquer ilusão, sem nada, em um triste desamparo, chorando a dor da perda jamais superada, diante da mesa da cozinha. Sua falta de humanidade começou a incomodá-lo; ele precisava fazer algo, qualquer coisa para remediar o erro que cometera mas...o que poderia ser?
       O que ele não sabia era que  o bem já estava feito...
       Cerca de um mês depois de sua aventura, ele foi convocado a ir, novamente, para a tal cidade, onde seria formalizado o negócio da China que sua empresa fizera. Vendo aí, caída dos céus, a oportunidade de redimir-se com a doce senhora, ao contar do “encontro” que tivera, disse que iria sim mas, de automóvel e não de avião, como na vez anterior e, para isso, usaria seu próprio automóvel partindo, naturalmente, com a devida antecedência.
       E assim foi feito, ele vasculhou a região onde estivera anteriormente até encontrar a tal cidadezinha perdida e, por conseguinte, a casa que era o portal para o mundo além dos espelhos. Foi difícil mas, ele encontrou o que procurava e tudo pareceu-lhe bem diferente à luz do dia mas, afinal ele parou, novamente diante do portão do sítio da boa senhora e saltou do carro, ansioso em explicar-se para ela e contar-lhe o que descobrira. Com surpresa, porem, notou que a casa, o terreno, tudo estava deserto, vazio...O portão branco, de madeira estava  trancado com corrente e cadeado; a casa estava fechada e ele não viu, nem sequer um animal, fosse galinha, ganso ou pavão, nada...apenas o mato que, sem controle, começava a querer invadir tudo. Não deu-se por vencido, todavia; precisava de uma explicação para aquilo tudo. Pulando a cerca de madeira, acercou-se da casa, tentando olhar através das janelas, procurando por algo que nem sabia o que era mas, que saberia, assim que encontrasse...E encontrou: com alguma dificuldade, olhando pela janela da sala, avistou, encostado a uma parede, um enorme, imponente e intacto espelho, certamente igual aos que espalhavam-se pela casa, antes da tragédia.
       E, como estava ficando um craque em tirar conclusões, entendeu de imediato o que havia acontecido ali, talvez pouco tempo após sua partida: Pois em um dia, depois de tantos anos de solidão e desespero, a doce senhora ouviu o ruído das máquinas, vindo do porão –ela dissera que dava para ouvi-las funcionando, de dentro de casa-  e, ao descer até o laboratório para saber o que era aquilo, encontrou o magnífico espelho que a máquina tinha acabado de fazer. Com dificuldade, levou o espelho para sua sala e lá encostou-o a uma parede, com o coração aos pulos, passando a esperar, diante dele, emocionadíssima.
       Não assustou-se, desta vez, quando viu a superfície de vidro deformar-se, avolumando-se em sua direção e logo assumindo o volume, contornos humanos e, logo, todo um corpo humano tocava o chão de sua casa enquanto o revestimento espelhado que o cobria, ia-se destacando do corpo e voltando para a superfície do espelho imenso. Logo, sua filha querida estava diante dela, inteira, crescida e mais linda do que nuca. Sem qualquer vergonha, a menina a abraçou e pediu muitas vezes perdão a ela pelo modo como a tratara durante tanto tempo e a mãe nada diria pois já o fizera. As duas abraçadas, então choraram muito, juntas, de alegria e arrependimento; perdoaram-se mutuamente e, então a filha fez o convite definitivo: convidava a mãe a ir morar com ela e o pai em um outro mundo, repleto de maravilhas, onde a tristeza não entrava e o infortúnio tinha seu acesso barrado. O convite foi aceito e mãe e filha, definitivamente juntas, atravessaram a parede de vidro e prata, sem qualquer dificuldade e saíram do outro lado onde, taciturno e cabisbaixo, o pai da garota as aguardava. Ele, então, por sua vez, pediu desculpas à esposa, por tê-la feito sofrer, abandonada; que motivos houve e que ele lhos diria, se ela, ao menos, tentasse perdoá-lo, Ela falou pouco e de modo reservado: a mágoa que guardava do marido ainda era imensa e demoraria um pouco a dissipar-se; a grande vantagem que ele tinha, no entanto, era a de que ela ainda o amava imensamente e isso ajudaria na eliminação de qualquer ressentimento. E havia também a garota, aliada inconteste dos dois e que tudo faria para que os três voltassem a ser a família feliz e unida que já haviam sido, um dia.  A doce senhora, a outrora triste e desesperançosa mãe conseguira, finalmente, comunicar-se com sua querida família e, após desfazer-se de tudo o que ainda a prendia ao mundo deste lado dos espelhos, fora conduzida à terra além deles onde, naturalmente, reconstruiria sua vida ao lado das duas criaturas a quem mais amava em todos os mundos em que vivesse.
       E ele, seu ex hóspede, por uma noite apenas, sentindo um aperto no coração e a umidade chegar-lhe aos olhos, sabia que fora a peça principal para a feliz reconciliação. Por causa dele, mesmo sem o saber, aquela mulher de meia-idade, tão linda e doce, nunca mais seria uma pessoa triste e solitária, e ele tinha certeza de que ela lembraria dele com gratidão e carinho por sabe-lo o principal responsável por sua plena felicidade. Feliz consigo mesmo e com o Povo do Espelho que, afinal, devia ser uma gente muito boa, ele afinal saiu dali e foi cuidar de seus negócios.
       Negócios que, afinal, foram extremamente bem sucedidos, conforme o esperado, que levaram fartura a uma família que, se não era pobre, também não era abastada. Nunca mais, porém, ele foi o mesmo; o carinho dedicado à família, que nunca foi pouco, aumentou a tal ponto que chamou a atenção da esposa e da filha, tamanho era o cuidado com que as tratava, todo atenções para com elas. Naturalmente, elas creditaram tal comportamento à súbita melhora de sua qualidade de vida e, nem de longe suspeitaram o quanto estavam distantes da verdade.
       E nunca mais ele encarou um espelho do mesmo jeito de antes de sua aventura, em que flertou com o fantástico. Agora, raramente olhava-se em algum e só o fazia se isso fosse rigorosamente necessário. Sua família estranhou um pouco tal mudança de comportamento, ainda mais vinda de um homem outrora tão vaidoso. Nunca ele contou-lhes a extraordinária aventura que vivera...elas não iriam acreditar mesmo...
       Nem o tal espelho de rosto, que o acompanhava em todas as suas viagens, foi recuperado...continuava a acompanhá-lo na mala porém, sem o vidro espelhado, apenas com o suporte de papelão, emoldurado de jacarandá, uma peça de toucador muito elegante, em sua opinião.
celso dyer
Enviado por celso dyer em 18/12/2017
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