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Revelações
       Eu ainda as tenho...Sempre as tive...Sempre, desde que dei conta de mim, como ser humano, na face da Terra, e, até o dia em que conto-lhes esta minha história...As visões...
       Não “vejo gente morta” a todo momento, mas, na aurora da minha existência, cheguei, sim, a ver alguns poucos “mortos”...Como o tio Ronaldo, com quem tive o prazer de conversar um pouco e cujas conversas, quando relatadas para parentes, tiveram como conseqüência, as reações mais inesperadas, ao ponto de fazer com que eu parasse de comentar, com gente despreparada para encarar “certos assuntos”, o que apenas eu, via e ouvia...No início, eles, os “mortos”, apareceram para mim, sim, mas, com o passar do tempo, cessaram suas visitas e então, começaram as “visões” que eram acompanhadas de sensações, boas ou más e, os portadores de tais sensações, com o passar do tempo, passaram a ficar bem delineados para mim, em sua essência, na forma de duas entidades, uma boa e uma ruim...ou até muito mais do que “ruim” ou “boa”...
       Como que em um processo evolutivo, as visões, no início, não faziam sentido, e, apenas, atormentavam-me, quando eram malignas...ou enchiam-me de um estranho prazer, quando eram benéficas...Quatro visões, já em um estágio bem avançado, entretanto, de tão nítidas e esclarecedoras, marcaram minha vida, de modo definitivo, em quatro ocasiões e, em todas elas, eu fui infinitamente feliz ou terrivelmente magoada...E, não apenas eu, mas, pessoas que estiveram envolvidas em duas das visões, também sofreram infinitamente...mais do que isso, muitas morreram, algumas de modo catastrófico, o que me marcou de forma definitiva, no modo como eu encararia a vida, dali para a frente...

       Mas, perdoem a minha indelicadeza, eu não me apresentei...Meu nome é Sandra...Sandra Vargas...Uma pessoa comum, tentando viver uma vida comum mas, não conseguindo, envolvida que fui, em uma realidade estranha e surpreendente...Aquinhoada com um “dom” que não me trouxe uma vida de prazeres e com a qual, eu tive de aprender a conviver ou afogar-me em loucura...Tentarei aqui, fazer para vocês que me lêem, um relato aproximado do que representaram para mim, as quatro visões já citadas, de modo a dividir com alguém, um pesadelo que tem-me afligido de modo especial, na forma de lembranças, desde que, ao ser-me designada uma importantíssima missão, eu acredito que deixei um pouco a desejar...não...deixei muito a desejar...não me julgando a responsável pela morte de pessoas mas...tendo a amarga impressão de que poderia ter feito bem mais do que eu fiz...
       Ora impressionada, muitas vezes, angustiada com o que via e sentia, em minha casa, na rua, nas casas de parentes, quando menina, eu fui uma pessoa algo reclusa e amedrontada, não sabendo lidar com coisas além da minha compreensão e temendo acabar meus dias em um hospício ( claro, isso eu achei assim que soube o que era um hospício. )...Enquanto, quando menina, eu avistava e comunicava-me com os que já se foram desta vida, a coisa não era angustiante e opressiva...Eu não sabia quem eram aquelas pessoas, vestidas por vezes, de modo estranho, que nos visitavam sem falar com ninguém mas que reparavam em mim, sorriam para mim e, em algumas pouquíssimas vezes, dirigiam-me a palavra...Apenas uma dessas visitas falou, de verdade, comigo, contando coisas de sua vida e perguntando sobre a minha...Em uma noite, ao entrar em meu quarto, eu o vi...Era um rapaz, muito parecido com meu pai e estava sentado à beira da minha cama. Não tive medo nem achei estranho encontrar alguém nessas condições, eu já estava acostumando-me com encontros estranhos.
       Ele disse, então, que era meu tio Ronaldo e que estava “apenas de passagem” mas que desejava me conhecer um pouquinho...Conversamos muito naquela noite e em outras em que ele me apareceu...Eu falava de minha vida e de minha família, contei meus encontros com parentes que eu nunca tinha visto antes, como ele, e meu tio interessava-se, por  demais, em tais relatos...Ele me falava então, um pouco mais de sua vida e das extraordinárias aventuras em que estivera metido em tempos antigos. Falava como alguém muito idoso e vivido mas...era pouco mais do que um menino!...Após nossas conversas, ele saía pela porta do quarto e eu ia dormir, feliz por ter alguém da família tão interessado em saber como eu me sentia no mundo....Um dia em uma das raras conversas minhas com minha mãe, comentei meus encontros com o tio Ronaldo dizendo como gostava dele mas, a reação de minha mãe foi uma completa surpresa para mim...Ela encarou-me de modo estranho e desconfiado e, com uma voz que denotava certo nervosismo, perguntou-me quem havia falado sobre o tio, comigo.
       _ Ninguém me falou dele –eu respondi-...Eu falei com ele algumas vezes. Ele está morando conosco?..Nunca o vejo de dia, apenas à noite...
       Ela não me revelou mais nada sobre o tio, desconversou, inventou uma desculpa qualquer e foi cuidar de outros assuntos, mas, eu notei que estava nervosíssima, por algum motivo...Achei aquilo estranho aquilo, mas, afinal, não pensei mais no assunto e passei aquele dia normalmente...A surpresa maior veio naquela noite...
       Fui despertada de meu sono com um violento sacolejo...Naquela noite, tio Ronaldo não aparecera e eu acabei dormindo mais cedo...Ao abrir os olhos, assustada, vi, apenas, o vulto que, debruçado por cima de mim, impedia-me os movimentos. Mas não cheguei a apavorar-me porque, logo, ouvi a voz conhecida que me interpelava...Quem havia-me acordado daquele jeito, intempestivo, fora, apenas, meu pai...Pouco afeito a sutilezas, como sempre foi, ele indagou, com rispidez, sobre meus encontros com o tio, chamando-me de mentirosa e dizendo que eu inventava encontros com pessoas que não existiam...Perguntou-me, como minha mãe o fizera, sobre quem havia falado comigo sobre o tio Ronaldo...Gaguejando, totalmente atordoada com aquilo, eu procurei me defender e me explicar, dizendo que, sim, eu me encontrara com meu tio, naquele mesmo quarto e que nós conversamos muito, até consegui contar por alto, sobre o que conversávamos. Enquanto eu falava, pela respiração acelerada de meu pai, acompanhada por um cheiro enjoativo que dele emanava, percebi que bebera e que estava furioso comigo. Achei até que fosse bater em meu rosto, algo que, para mim, teria sido um choque terrível e difícil de superar afinal, até onde me lembrava, jamais havia apanhado de alguém da família e de fora dela...
       Mas ele não me bateu. Após um momento de velada fúria, pareceu controlar-se um pouco, passando a me escutar com atenção, fazendo, mesmo, algumas perguntas sobre seu irmão mais velho, perguntas que pareciam não ter muita relação com o que eu contava...Eu respondi àquilo como pude e, pouco tempo depois, ele saiu de meu quarto sem nada dizer, deixando-me ali, na cama, ainda magoada com a quase violência a que fora submetida, sem nem saber o motivo. Eu teria na época meus oito ou nove anos...Foi quando percebi que não devia falar sobre tudo o que me acontecia com qualquer um, especialmente meus pais e, ao menos até entender, um pouco mais, o que acontecia comigo, decidi não comentar mais, com ninguém, sobre encontros com parentes misteriosos...Mas, a partir da conversa com meu pai, mais um interrogatório, não vi mais gente desconhecida andando pela casa. Nunca mais vi o tio Ronaldo nem ninguém. Subitamente, nossa casa ficou deserta à exceção de meus pais, de mim e dos empregados, a circular pelos corredores longos e pelos cômodos amplos e sombrios daquela casa antiga e imensa...Algo que meu pai dissera sobre o tio, no entanto, não me saía da cabeça...Ele dissera que seu irmão “não existia” e eu não entendi isso, afinal, tanto ele quanto minha mãe demonstraram conhecer aquele parente, como uma pessoa de verdade e não um “ser imaginário”...A verdade, eu só fui conhecer alguns meses depois, em uma visita à casa da tia Ignez, tida como “a maluquinha” da família mas, uma das poucas pessoas que, realmente, importavam-se comigo...Ela era muito jovem e bonita mas, mantinha-se solteira e vivia reclusa, parecia não dar-se muito bem com gente, eu seria uma exceção...Foi da boca da tia que eu soube, um dia, que o tio Ronaldo morrera, ainda rapaz, em um episódio triste em nossa família...Um incêndio que destruíra a casa onde a família de meu pai morava, quando ele era ainda solteiro e namorava minha mãe...Tia Ig contou que o tio Ronaldo morreu no incêndio, após salvar a vida do pai e da mãe, que estavam na casa, naquele momento...Foi um tempo de muita tristeza o que se seguiu, para todos, isso porque o tio era, por demais, querido...Essas revelações, a tia me fez sem saber que eu havia encontrado com seu irmão e de meu pai e, tal conhecimento deixou-me, eu, uma menina ainda pequena, em estado de choque por saber que conversara com gente...morta...
       Foi a partir daí que as visões começaram...Não saberia dizer qual foi a primeira, elas aconteciam sem qualquer lógica, a qualquer momento e em qualquer local, às vezes, ficavam durante muito tempo sem manifestarem-se mas, causavam-me um mal enorme, devido a meu desconhecimento do que seria aquilo...Às vezes, eram objetos flutuando no ar, às vezes eram figuras grotescas na forma de sombras na parede e eu jamais comentava aquilo com alguém, com medo de meu pai e suas reações explosivas e não querendo mais dividir nada com minha mãe, indiferente que ela era ao que eu pensava e sentia, isso, na minha opinião...Uma daquelas coisas marcou-me, de modo especial, como as visitas do tio Ronaldo o faziam e eu jamais esqueci o incidente podendo, portanto, narrá-lo agora, em detalhes.
       Naquele tempo eu teria doze, treze anos e, praticamente vivia na casa de uns tios maternos, brincando com minha prima Ângela, irmã de mais quatro rapazes, com a qual, na época, eu me dava muito bem...Vez por outra, além de ficar no apartamento, enorme, da família, durante todo o dia, depois das aulas, brincando, estudando ou fazendo as tarefas escolares, eu dormia por lá mesmo, no quarto dela, isso geralmente nas noites de sexta feira e essas santas noites eram dedicadas a conversas sem fim, confidências, jogos e brincadeiras...Como a gente falava! Não sei de onde aparecia tanto assunto; falávamos de nossas famílias, de amigos comuns, de colegas de escola e muitas coisas mais, tudo de maneira inocente e descontraída, como sóe acontecer a duas pré adolescentes, livres e despreocupadas...Pois em uma dessas noites de sexta feira, a coisa aconteceu, com um grau de nitidez que ficou gravado em minha memória, para sempre, felizmente, sem piores conseqüências.
       Era alta madrugada e eu despertara em minha cama de armar de uso exclusivo, montada ao lado da cama de Ângela, naquele quarto pequeno, o menor dos quatro do apartamento  mas, sem precisar ser dividido com irmãos...Naquela madrugada, eu estava com sede mas, meio que com preguiça de ir até a cozinha para beber um gole d´água...Olhava para a pequena estante que havia no quarto, do outro lado de onde estavam as camas. Nela, havia um relógio e eu tentei ver que horas eram...Dei com os olhos, então, na estatuazinha, o pequeno busto branco, de gesso, mármore ou porcelana de seus vinte centímetros de altura, retratando o que parecia ser o compositor Beethoven, de quem eu ouvia, sempre, alguma coisa, no apartamento da prima...Eu nunca havia reparado naquele objeto, antes, e, poderia, mesmo, jurar que jamais o vira...Mas, ali estava ele, iluminado pela luz do luar que entrava pela janela do quarto do apartamento de cobertura dos tios. Fiquei prestando atenção no busto, ainda pensando se iria até a cozinha, ou não, quando veio o susto!... luz azulada do luar, tendo aquela pequena peça de escultura, ou modelagem, sua brancura bem acentuada, o pequeno Beethoven começou a mover o rosto...Carrancuda, como sempre foi representada, a imagem do compositor alemão repuxava a boca em um esgar de  desaprovação mantendo os pequenos olhos sem vida, fixos em mim, isso, eu mais sentindo do que vendo...A estatuazinha fazia caretas para mim e eu observava aquilo, já começando a me apavorar...Nunca vira antes, algo semelhante e eu era versada em ver coisas...Não sabia o que fazer, apenas olhava e olhava para aquilo sem entender o motivo da aparição, se é que havia um motivo...Quando dei por mim, já era dia e Ângela ainda ressonava na cama ao lado...Concluí então que, o que eu vira ou achara que vira, na madrugada anterior, não passara de um sonho estranho...Olhando novamente para a estante, não havia nem sombra do pequeno busto que me amedrontara tanto e, tal constatação me forneceu a certeza de que, eu realmente sonhara tudo aquilo.
       Durante o dia, comentei com minha prima meu pretenso sonho e ela não deu maior importância ao que eu falava...Mas, o mesmo não aconteceu com minha tia Déa, irmã mais nova de minha mãe que, quando eu contava para Ângela meu sonho, passava por perto, ouvindo o que eu dizia...Logo interrompeu o que estava fazendo e veio me perguntar sobre o que eu falava com a prima, sobre estátuas e estantes...Mostrava um interesse incomum em meus assuntos frívolos de garota e eu até gostei de sua atenção para comigo, a tia Déa vivia sempre tão atarefada...Caprichei então em um relato bem detalhado e não me deixei levar pela fantasia, atendo-me apenas ao que vira ou acreditara ver. A tia me ouviu, muito séria, e, em concentrado silêncio...Quando terminei, ela perguntou onde eu havia visto antes, um objeto como aquele e eu disse que jamais vira algo igual, anteriormente, acrescentando com ar zombeteiro que, se visse aquilo ao vivo, fugiria correndo porque, não me agradavam “estátuas vivas”...Mas, ao ouvir o que a tia Déa me disse em seguida, perdi a vontade de zombar e brincar pois, ela me disse que aquele busto realmente existira e ocupara o lugar exato, descrito por mim, no quarto de Ângela...Fora uma espécie de antiga relíquia da família e, certo dia minha prima, ainda um bebê, quebrara a peça de porcelana, ao derrubá-la no chão durante uma desastrada exploração à estante do quarto...Ao ouvir tal relato, Ângela afirmou não lembrar de tal episódio e muito menos, da tal estatuazinha...
       Ainda visivelmente impressionada com o que ouvira, a tia nos deixou e foi continuar com suas lides diuturnas, deixando-me, porém, ainda mais impressionada do que ela e assim eu fiquei por algum tempo, achando que não havia sonhado, afinal...aquela não fora, apenas, mais uma visão...Era uma lembrança do passado daquela família, que viera a mim mas, com que propósito?...Isso eu jamais descobri...Continuei “vendo coisas” e nunca comentei nada com ninguém, afinal, já concluíra que ninguém poderia me ajudar, ou mesmo entender, o que se passava comigo...E fiz bem em me preservar pois, no devido tempo, eu entendi o que tudo aquilo representava e quem abriu-me os olhos foi uma aparição...A mais querida de todas...

       Quatro revelações eu tive, acompanhadas por duas entidades...Apenas uma das revelações foi boa e plena de prazer e alegria...as demais fizeram-me sofrer mas, permitiram-me ajudar pessoas a meu lado...Todas as revelações, a boa e as más, marcaram minha vida profundamente, ensinaram-me, em segundos, o que não se aprende em uma vida inteira, deixaram-me melhor como pessoa e mostraram-me o quão pequena e insignificante eu sou, dentro do universo, mas, acima de tudo, mostraram-me que essa insignificância jamais deveria ser uma limitação...E, em pelo menos, uma vez, as revelações trouxeram-me a verdadeira e completa felicidade e a certeza de que, se aqui estou, um motivo há para isso.
       Quatro revelações, duas entidades...Eu tive de aceitar imposições, quis morrer, quis me matar e, logo depois, desejei, ardentemente, viver...Viver o máximo que me fosse permitido e assim eu penso até hoje...Mas não estou aqui para devaneios ou enfadonhas digressões pessoais, não desejo entediar ninguém, preciso contar uma parte da história de minha vida  e vou fazê-lo da melhor maneira possível...Bem, o tempo passou e eu cresci um pouco e, pela casa dos dezesseis, eu já não era tão ligada a minha prima e interessava-me mais nas amizades feitas na escol,a onde eu fazia parte de uma turminha muito amiga, coesa e aprontadora...Uma “curriola” que alegrava os locais por onde passava, com seu frescor juvenil e sua doce irresponsabilidade, quantas saudades...Em nossa cidade existiam ( aliás, ainda existem ) três Shopping Centers, que faziam nossas delícias, quando jovens...Nós freqüentávamos todos eles em nossas andanças de depois das aulas e durante os fins de semana, sempre às voltas com namoros e “paqueras”...Mas, preferíamos um deles, o que ficava mais perto de onde morávamos. Além de ser o mais próximo era também o maior, mais luxuoso e com maior variedade de lojas e áreas de lazer. Íamos sempre lá e gastávamos nosso tempo, dinheiro e alegria, coisas que tínhamos mais ou menos em quantidades razoáveis...Pois bem, em um dia qualquer, veio a idéia, surgida durante uma pausa para o lanche, regada a muito “milk shake” e “fast food”...Não lembro quem teve a idéia mas sim que, foi aprovada com entusiasmo por todos, eu inclusive:
       _ “Vamo” passar a noite no shopping?
       Essa foi a idéia e, quem a teve, detalhou-a de pronto .
       _ A gente se esconde na loja e faz uma festinha particular mas, sem “zonear” muito com as coisas. De manhã, quando abrirem e a loja encher, a gente sai do esconderijo como se não tivesse acontecido nada e ainda aproveita o dia, que tal?
       Aprovada a sugestão, partiu a turma toda para a tal “loja-âncora” do shopping, uma filial de uma grande rede multinacional de lojas de departamentos, daquelas que vendem de tudo, desde uma agulha até um tanque de guerra...Passamos, então, a escolher qual seria o melhor local para um esconderijo coletivo e, nisso, gastamos bastante tempo de pesquisa “in loco” e com elocubrações das mais disparatadas. Acabamos optando pelo setor de roupas, perto das vitrines e de frente para uma das saídas do shopping, onde fora montado um ponto de encontro na forma de uma pracinha muito simpática...No tal setor havia vários cabideiros enormes, quadrados e abarrotados de roupas, penduradas nos cabides em toda a volta, sendo o interior do quadrado, vazio, oculto e capaz de abrigar até três pessoas, sem apertos...Não sabíamos se os seguranças revistavam cada peça daquelas, todas as noites, antes da loja fechar e nem se haveria rondas noturnas mas, o divertido seria exatamente isso, pagar para ver, afinal, não tínhamos nada a perder, era apenas uma “travessura de crianças”...Decidido o esconderijo, fomos passar o tempo passeando a esmo, após vermos que não daria tempo para uma sessão de cinema. Quem ia participar da aventura, ligou para casa e deu sua desculpa para passar a noite fora...Eram aqueles, tempos em que a violência nas ruas não era tão intensa e podia-se ficar à noite, fora de casa sem maiores perigos...Todos iriam dormir em casas de amigos e aquele seria o menor de nossos problemas.
       Conforme ia chegando a hora do shopping fechar, a tensão e o excitamento eram visíveis em nossos rostos, gestos e risos nervosos, aquela seria uma aventura a ser lembrada para o resto de nossas vidas...faltando quinze para a meia noite, hora do fechamento geral, entramos na tal loja ao mesmo tempo em que os últimos clientes já estavam saindo...Para “incentivar” a debandada geral, o ambiente já estava parcialmente às escuras pois, grande parte da iluminação já estava desligada...Melhor assim, aproveitaríamos a movimentação dos retardatários e a semi obscuridade para nos escondermos nos tais cabideiros. Éramos cerca de quinze pessoas e já começávamos a nos espalhar  pela loja, o pessoal já dividindo-se em grupos e escolhendo seus esconderijos, quando, olhando de relance um dos vestiários, eu vi... Ninguém entendeu, certamente, quando eu me virei para meu grupo e disse, a voz já alterada pelo medo:
       _ Gente, eu não vou ficar...Eu vou embora e queria que todos vocês viessem comigo...Me ajudem a reunir o pessoal pra gente sair daqui.
       _ O Quêêêêê? –o pessoal espantou-se- ...Porquê?...O que houve?
       _ “Vamo” embora, pessoal –eu começava a perder meu controle-...Todo mundo...Reúne o pessoal...”Vamo” sair daqui e ir pra casa...
       Eu já iniciava um princípio de tumulto, arrebanhando meus colegas e, naturalmente, atraí a atenção de alguns vigilantes, que já aproximavam-se.
       _ Que é que houve? –perguntavam alguns colegas.
       _ Foi a Sandra que estragou a brincadeira...
       _ “Qualé, Sandrete”...Logo você??
       A essa altura, já estávamos cercados de vigilantes e, para alívio meu, todos nós fomos conduzidos para a saída do shopping, os garotos e garotas todos furiosos comigo, já me xingando de coisas como “desmancha prazeres” e algo pior...Mas a aventura “gorara” mesmo e tivemos que sair dali...E eu fora a causa de tal fracasso...Acabamos indo, cada um para sua casa e ninguém quis mais falar comigo, naquela noite...A turma estava brava demais, por causa do meu “piti” dentro da loja...Mas eu estava aliviada com aquele desfecho de nossa malograda aventura e, uma vez em casa e após dizer que, por “motivos aleatórios”, desistira eu, de dormir na casa de fulaninha, fui, afinal, me deitar e, uma vez na cama, revivi o indizível horror que sentira, durante minha estada na loja de departamentos...Eu não queria lembrar mas não conseguia...Agira por instinto, tivera medo por mim e pelos outros, por causa de algo que vira, semi escondido em um dos trocadores femininos da loja...E eu sentia medo, agora, na escuridão de meu quarto tão grande e tão pouco acolhedor...Tive vontade de ligar para alguém, para espantar o medo...mas achei que, naquela altura dos acontecimentos, ninguém iria querer falar comigo e o jeito Fo,i mesmo, curtir meus temores sozinha, fazendo “das tripas coração” enquanto tentava dormir, sem o conseguir, a horrível aparição ainda a danar em meus pensamentos...A Primeira Revelação...

       Enquanto, lá na loja, eu procurava por um esconderijo para aguardar seu fechamento, fui com mais três colegas para uma das laterais, próxima da vitrine que dava para a saída com a pracinha e ainda havia gente por ali mas, poucas luzes estavam acesas e reinava uma sinistra semi obscuridade...Perto de onde estávamos, ficava o provador feminino, uma porta com um pequeno balcão que dava para um corredor com cabines guarnecidas de cortinas azuis, dos dois lados. Havia cabideiros por todos os lados e já havia gente acercando-se deles, apenas aguardando o momento de esconder-se mas eu, ao ver a entrada dos provadores, para lá me dirigi, tendo decidido em um último instante, esconder-me atrás de uma daquelas cortinas e não, no meio de roupas, agachada e roçando em um monte de gente. Eu estava apenas a alguns passos da entrada com o balcão de madeira e fórmica mas conseguia ver as cabines e suas cortinas e, de repente, tive de virar o rosto para o lado, após ter tomado o maior susto de minha vida, ficando parada durante alguns momentos, paralisada de terror!
       Na última cabine de minha esquerda eu vi, de relance, aliás, mais senti do que vi...de forma fisicamente dolorosa...eu percebi a coisa que aguardava por mim, atrás da pesada cortina azul...Uma visão que poderia me matar, foi isso que senti naquele momento; era certamente algo vivo mas, não era nada que pudesse ser reconhecido...Não tinha corpo, não tinha matéria, era como um ser feito de cor, cinza chumbo muito escura, quase preta...Algo que ondulava e deslizava pelo chão, indo para trás da cortina mas, deixando-se entrever, em uma mancha escura, pulsante, a encarar-me com olhos que eu não via, aguardando-me para, certamente, me destruir de modo horripilante...Eu vira aquilo por uma fração de segundo mas, logo virara o rosto, impossibilitada de encarar aquela coisa, novamente...Como se houvesse tomado um choque elétrico, de surpresa, e meu corpo recusasse-se a tomar outro...Dir-se-ia que eu estava próxima da própria Medusa e que, por um milagre, escapara de seu olhar da morte mas, se olhasse para aquilo, novamente, com toda a certeza, transformar-me-ia em pedra...Um terror absurdo apoderou-se de meu corpo e minha mente e foi quando eu vi meus amigos, aproximando-se daquilo...Eu temi pela vida deles e, em quase pânico, fui evitar que fossem ao encontro daquela entidade das trevas, que seria a própria essência do mal, comprimida como um gás, até que assumisse uma forma palpável, em um corpo que não era um corpo...Uma criatura vinda de além do inferno, nascida do ódio e da necessidade de se causar mal a outrem...Uma coisa perversa, alimentada pela maldade humana e necessitada de almas para manter-se viva...E eu fui atrás das pessoas de quem gostava, não podia permitir que fossem atingidos por aquilo...Eu os reuni, fiz barulho, atraí a atenção dos guardas, fiz de tudo para impedir uma desgraça que, naquele momento, só acontecia em minha mente...E só fiquei satisfeita quando vi que todos eram removidos do local e postos a salvo, do lado de fora do shopping amaldiçoado...Não me importava que estivessem raivosos, que me xingassem; tudo o que importava é que estávamos todos bem e a salvo de algo inominável...Era isso, apenas, que me importava...

       Sozinha, agora, em meu quarto, a lembrança do pequeníssimo instante em que pus os olhos naquele monstro ainda me doía, muito, mas, eu sabia que aquilo não viria atrás de mim...Eu sabia que estava segura em minha casa, o pior já passara...mas deixara seqüelas...Desistindo de dormir, consolando-me com as rezas, que repeti à exaustão, até sentir-me um pouco que fosse, melhor e, não querendo incomodar minha família com meus pavores, levantei-me da cama e acendi o abajur que havia ao lado de minha poltrona, em frente à cama e procurei algo para ler, achei um livro recém iniciado e, com ele, procurei distrair-me, sem muito sucesso...Mas, a luz acesa me deu um pequeno alento e, dando com meu crucifixo que pendia da cabeceira de minha cama, eu percebi o porque de sentir-me segura em minha casa...Fui buscá-lo e retomei, então, minhas rezas, pois, apenas elas me auxiliavam naquele momento de penosa solidão em minha vida...Acabei dormindo de luz acesa, sentada na poltroninha forrada de tecido florido, tendo em uma das mãos, o inútil livro de romances adolescentes e, na outra, a imagem de meu Redentor crucificado, feita em madeira e presa a uma corrente no mesmo material...Não sei se já dormia, quando ouvi, ao longe, o estrondo, como o de um trovão mas, um pouco diferente, acompanhado de um ruído que sugeria um desmoronamento ou algo parecido...Seria aquilo, um sonho?
       Acho que não dormi muito, logo o telefone me despertou com sua campainha escandalosa que eu detestava. Fui atender...Era Patrícia, uma das amigas da noite anterior, que gritava do outro lado, algo que eu não entendi muito bem, tonta de sono que estava...Percebi então que Pati chorava, enquanto falava ou gritava e passei a prestar atenção no que aquela garota me dizia, em altos brados.
       _ Me desculpe, Sandra –ela gritou-...Eu te tratei mal, ontem à noite...Me perdoa!...Você salvou a vida da gente!!!
       Como? Eu salvei a vida de quem?...Não entendi o que ela dizia; tentei perguntar por detalhes mas a menina agora berrava como um bebê e acabou batendo o telefone no meu ouvido...O que teria acontecido com aquela garota, a mais nova do grupo e a mais histérica?...Definitivamente acordada, após poucas horas de sono, fui encarar mais um dia, um sábado de sol, entrevisto pela janela fechada...Desci, então, para a copa e já encontrei a mesa do café posta, com o capricho de sempre, pela eficiente Flávia, para mim e para o resto da família, que ainda parecia dormir...Comecei a tomar meu café e troquei algumas palavras com aquela mulher de trinta e poucos anos, bem gordinha e muito baixota, parecendo um pilãozinho, uma grande amiga minha, talvez a maior de todas...Comentamos um assunto e outro e, lá pelas tantas ela me disse.
       _ E o shopping, hein?...Que desastre, meu Santo Deus! Mas, ainda bem que foi de madrugada, se fosse durante o dia, que carnificina que seria!
       ¬_ Do que você tá falando, Flá? –eu quis saber, já com o coração aos pulos, só de ouvir a palavra “shopping”.
       _ Ué, da explosão no shopping daqui de perto...O rádio tá noticiando desde cedinho, vai ver até que deu tempo de sair a notícia no jornal, esse pessoal é muito rápido pra farejar notícias...
       Eu não quis saber de mais nada, de camisola mesmo, disparei pela porta da frente afora, rumo à caixa do correio e, de lá, tirei o jornal que o garoto havia acabado de por e ainda tendo tempo de me ver em trajes menores...De volta à copa, abri aquilo e vi, na página da frente, o cabeçalho em letras grandes.


EXPLOSÃO NESTA MADRUGADA
DESTRÓI ALA INTEIRA
DE SHOPPINTG CENTER

Nesta madrugada, uma misteriosa explosão pôs abaixo toda a ala C
Do Shopping Center Tal, arrasando com lojas pequenas e médias ali e-
xistentes e igualmente destruindo parte da loja  deTal, uma  das  princi-
pais do complexo comercial de nossa cidade, Felizmente, para todos, o
incidente aconteceu em plena madrugada, quando todas as  lojas  esta-
vam fechadas  e não circulavam vigilantes pelas imediações, o que  evi-
tou um colossal banho de sangue, que teria acontecido  se  a  explosão
desse-se durante o horário comercial, (...) Mais notícias e possíveis cau
sas da quase tragédia parará parará bla bla bla


       Nesse ponto da notícia eu tive um “treco”, uma queda de pressão, não sei...E caí desmaiada por sobre o chão de lajotas brancas, sendo prontamente socorrida pela Flá, que, sabendo o que fazer, reanimou-me com presteza e, olhando para o jornal no chão, entendeu tudo, dizendo.
       _ Você esteve lá, não é, menina?
       _ P-pior q-que isso, Flá...-eu mal conseguia falar-...A...a gente...a gente ia passar a noite lá...Na loja que explodiu!
       Vendo o estado em que eu ficara, Flávia tratou de acalmar-me e, fazendo-me sentar, deu-me um pouco de suco de laranja e esperou, acariciando meus cabelos, até que um pouco de cor voltasse a meu rosto...Quando eu consegui falar, contei para ela sobre a aventura que ia fazer com a turma, exatamente no local que explodira. Ao ouvir o que eu dizia, ela pôs as mãos no rosto, alarmada e exclamou.
       _ Creendeuspadre, minha Virgem Maria Santíssima! Menina, o que você tá me dizendo? Você e sua turma podiam estar mortos, meu Deus do céu! Que loucura!...O que fez você desistir da aventura, Sandrinha do céu?
       Sabendo que aquela doce criatura me ouviria e, em mim, acreditaria, falei da visão que tive na noite anterior e, ao relatar-lhe isso, senti um forte calafrio pois, aquilo ainda me atingia com força..contei tudo e a reação dela foi abraçar-me com força dizendo.
       _ Você teve uma visão do demônio, menina...Mas Deus enviou uma mensagem pra você, de modo a que pudesse ver o “coisa ruim” e salvar sua gente...Eu sempre achei que você era uma menina iluminada por Deus e, aí está a prova...Ai, Sandrinha, como eu te adoro...
       Após tantos momentos de tensão e medo, o carinho daquela mulher era por demais bem-vindo, ela não duvidara do que eu dissera e dava-me agora, um apoio inestimável...Acabei chorando, a cabeça afundada naquele peito farto e protetor e a dona daquele regaço não poupou palavras doces e de conforto para mim, enquanto me acariciava...Palavras que me consolaram e me deram toda a força de que eu precisava naquele momento...Uma “Mensagem de Deus” eu tivera, ela disse...Uma Revelação...A primeira delas...Isso eu iria descobrir em breve...
       Bem mais tarde, minha mãe desceu para o café e eu já estava melhor e, passei por ela depressa, murmurando um “bom dia” e indo para meu quarto...Não queria que visse como eu estava, mesmo porque, não ajudaria em nada. Momentos antes, eu pedira à Flávia que nada comentasse com ninguém sobre o que eu havia dito para ela e nem sobre a notícia do jornal, no que ela concordou imediatamente. Uma vez em meu banheiro, lavei o rosto e aguardei um pouco para ver se ele descongestionava um pouco, de modo a que pudesse sair à rua sem uma cara de “chorona”...Fui a pé até ao shopping sinistrado e já lá estavam os bombeiros e a polícia, isolando a área ao redor do monte de gente que começava a chegar, curiosos com o inesperado espetáculo de destruição em um sábado tão bonito....O comentário geral era a falta de vítimas e o estado em que ficou aquela ala do prédio, onde a destruição foi total.. Eu olhava para aquilo, atônita e sentia o forte cheiro de gás que espalhava-se, com rapidez, pelo local, o que fazia com que a polícia mantivesse os curiosos cada vez mais longe, afinal, havia um flagrante risco de novas explosões.
       Parte da loja onde iríamos ficar na noite anterior, exatamente o local escolhido por nós para esconderijo, não existia mais, o que havia era um monte de pedaços de concreto e aço amontoados junto com uma infinidade de objetos, inteiros ou em frangalhos, provenientes das lojas destruídas e, tal entulho espalhava-se pelas ruas e muita gente aproveitava-se do ocorrido para ver se encontrava algum objeto que ainda pudesse ser usado, fosse ainda inteiro ou pouco danificado...De repente, me vi colhida pelos lados, por um abraço duplo, apertado a não mais poder!...Consegui ver então, a Carmencita e a Pati, além do Ramón, que não envolvera-se no abraço....Como eu, aqueles três foram ao local do incidente e, ao ver-me, lançaram-se sobre mim, a Pati já chorando de novo. Agradeciam-me por haver-lhes salvo as vidas, falavam todos juntos um monte de coisas e eu tentava acalmá-los, precisando eu própria, ser acalmada...Acabamos na lanchonete de sempre, pertinho do shopping e, pouco a pouco, todos os meus colegas da noite anterior foram chegando e me fazendo mil festas...Todos falavam, muitos choravam e eu, que já tivera meu momento de comoção em casa mesmo, me fazia de forte e tentava confortar aqueles infelizes, traumatizados com o que acontecera e o que quase acontecera a todos...Quiseram saber que “luz divina” ( como eles estavam certos...) atingira-me na noite anterior, fazendo-me evitar uma tragédia horrível e eu não soube o que dizer, a não ser que, realmente, Deus, nosso Pai Eterno colocou Sua mão em minha cabeça naquela noite, apenas isso...Nada falei de assombrações em vestiários, disse apenas que uma sensação ruim me dominou e me fez afastar a todos do local...Eu poderia ter dito qualquer coisa porque duvido que eles prestaram atenção no que eu disse, estavam todos agora, felizes demais por poderem olhar-se nos rostos e nos olhos, muitos ainda congestionados pelo choro de puro alívio e catarse...Tudo deveria terminar por ali, eu achava...fora uma experiência muito forte e traumática mas, eu acreditei que não fosse haver maiores conseqüências, ao menos para mim...Como eu me enganara...

       Não sei como a coisa toda começou, acho que alguém de nosso grupo falou demais, em casa ou na escola, o fato é que a notícia espalhou-se aos quatro ventos, a história de minha interferência no que seria uma tragédia sem precedentes em nossa cidade...Tudo foi parar nos jornais, em notas discretas na maioria dos diários mais “sérios” mas, em textos escancaradamente sensacionalistas nos tablóides idem...Um jornaleco semanal de quinta categoria que circulava a duras penas em nossa cidade, chamado grosseiramente de “O Paquete”, que seguia os ditames da famigerada “Imprensa Marrom” e da paranóica “Teoria da Conspiração” viu em minha história a “mina de ouro” que procurava, para vender exemplares “como água”, o que aconteceu de fato...De repente, vi o nome de minha família ser enxovalhado em praça pública e, parecia que a coisa era pessoal, pois, vi-me envolvida em uma tentativa de escândalo e uma rede de intrigas, das quais demorei a dar-me conta e não soube como agir...O tal pasquim teria algo contra a empresa em que meu pai trabalhava e, da qual era sócio proprietário e aproveitava-se do estranho caso do shopping para atacar minha família, de forma desonesta e criminosa...Nem bem a perícia havia começado e o tal jornaleco já escancarava em primeira página que havia uma pendenga na justiça, envolvendo o terreno onde o shopping fora construído e a empresa de meu pai. Afirmava o  tablóide que, o tal terreno era de propriedade da empresa e que, através de meios escusos, fora passado para a construtora do shopping, advindo daí um longo e custoso processo.
       Com o tempo, vim a saber que isso, ao menos, era verdade, mas, também, apenas isso e não o que vinha a seguir...Sem acusações frontais, passíveis de processo por calúnia e difamação mas, com indiretas e piadinhas que até um débil mental entenderia, o tal “ O Paquete” insinuava que meu pai havia sabotado o shopping, como retaliação pelo prejuízo que estava sofrendo e que eu, sua filha, sabendo das ações criminosas dele e com dor na consciência, frustrara a aventura noturna de meus amigos pois, teria visto o sabotador –meu pai- na noite em questão e até tentara demovê-lo de sua intenção, um amontoado infame de mentiras que usava, para corroborar tamanho absurdo, os depoimentos de alguns de meus amigos, devidamente editados e deturpados...Calúnia maior não podia haver, eu nada sabia dos assuntos de minha família e nem vira meu pai no shopping, antes do desastre; eu salvara a vida de meus amigos porque vira o perigo, com meus olhos ou os de minha alma...E agora, era acusada, no mínimo, de cúmplice de um atentado...
       Meu pai, é óbvio, ficou uma fera com o jornaleco e só falava em processos na justiça, passando horas ao telefone, com advogados...Já éramos alvo de hostilidades por parte da vizinhança, gente desavisada que acreditava em qualquer coisa e nos telefonava com insultos e ameaças e pichava os muros de nossa casa...Na escola eu também fui alvo da desinformação de alguns e ouvi e sofri poucas e boas, tendo havido, pelo menos uma vez, uma enorme briga entre meus amigos, atingidos pelo incidente e meus detratores...O pai ficou muito bravo comigo, também, por eu ter mentido sobre passar a noite em casa de amigos e por ter começado semelhante qüiproquó, atingindo a ele e a toda família bem de frente...Um dia, ele trancou-se comigo no escritório e quis saber em detalhes como fora aquela noite maldita e o porque de eu ter evitado uma tragédia maior...
       Meu pai, por vezes, assustava-me muito, com seus modos bruscos e sua falta de proximidade comigo e, naquela tarde, tive a certeza de que levaria a maior surra de cinto de minha vida, a maior e a primeira...E, sem ter culpa de nada...Mas, novamente, ele não me bateu e nem sequer, ameaçou-me com o cinto, que não saiu de seu lugar...Mas foi bruto, chamou-me de mentirosa e encrenqueira...mas também demonstrou preocupação comigo ao dizer que eu podia ter morrido de modo totalmente absurdo...Com um fio de voz e os olhos cheios de lágrimas, eu argumentei, quando ele me passou a palavra que, não tinha culpa de nada daquilo, mentira sim, inventara uma aventura doida mas, tivera um pressentimento ruim, algo me disse que tudo aquilo não ia dar certo e que, por isso, desistira do programa, convencendo meu bando a desistir também...Logo, passada a fúria inicial e lembrando, finalmente, que eu salvara vidas, meu pai acalmou-se um pouco e abrandou seus modos, perguntando se tudo aquilo tinha algo a ver com o tio Ronaldo e eu disse que não, nunca mais vira o tio desde que era uma menininha...Nada falei sobre visões, insisti apenas no pressentimento...Mais calmo, ele me liberou, afinal, e eu fui correndo para o quarto para acabar de chorar o que segurara a não mais poder tendo, logo, a doce companhia e a presença confortadora da Flá, a me consolar como ela sabia fazer, tão bem...
       Tempos depois, a perícia foi completada e a luz foi lançada ao caso. Tudo não passara mesmo de um triste acidente...O subsolo que havia debaixo do corredor que explodira e que pegava parte da loja onde estivemos, era um depósito de mercadorias que, geralmente estava vazio ou com pouco material. Era um local fechado onde alguns funcionários davam festas em horários propícios e, por esse motivo, ali havia um grande e velho freezer horizontal, constantemente ligado na temperatura mínima e com bebidas e petiscos em seu interior, já esperando o próximo congraçamento, havendo motivos ou não...No teto de tal depósito passavam tubulações de água, eletricidade e gás, que atendiam às lojas e praças de alimentação, logo acima...Uma das tubulações de gás, por motivo de má instalação ou manutenção ruim, certo dia começou a vazar dentro do grande espaço subterrâneo e pouco visitado.
       Durante dias, o gás foi espalhando-se  por ali e ninguém percebeu até que, na noite fatídica, estando o amplo e selado ambiente mais do que saturado, uma faísca, proveniente do motor do velho freezer, incendiou todo aquele material volátil e o resultado foi o espetáculo de destruição, acontecido na madrugada e, por isso mesmo, sem vítimas, felizmente...Os jornais publicaram tudo e inocentaram meu pai e sua empresa mas, do famigerado “O Paquete”...nem uma linha desculpando-se pelas insinuações, quase afirmações, anteriores...Na escola, gente que me hostilizou, durante o tempo das mentiras, quis voltar às boas comigo, mas eu, cega de rancor, não quis tais amizades, de volta, passando a me afastar, cada vez mais, das pessoas, magoada que estava com elas...Meu pai ainda pensou em processar o tablóide mentiroso mas, seus advogados fizeram-lhe ver que seria melhor deixar-se tudo como estava, mantendo-se a empresa em um “silêncio digno e superior”.
       A coisa morreu ali, para todos os efeitos mas, para mim, estava apenas começando...Eu não saíra ilesa de minha primeira Revelação e meu primeiro encontro com o mal sublimado...Andava eu sem muita vontade para nada, meu rendimento escolar, que nunca fora excelente, caíra muito, eu já não desejava a companhia das pessoas, mesmo meus colegas de tragédia, que ainda tentavam me animar, acreditando que meu amuo era decorrente apenas, do episódio dos jornais, e não era...Apenas em casa, eu tinha o conforto da Flá e estava tornando-me uma “chorona”, quando ficava a sós com ela...Eu era um nervo exposto, uma estátua de cristal fino, prestes a espatifar-se, um poço de sensibilidades e suscetibilidades...A maioria de meus colegas, os que me hostilizaram, agora, mantinham distância de mim, à exceção de uns poucos, que fingiam simpatia... Mas, em especial, uma figura permaneceu hostil e só fez piorar sua relação comigo...Essa criatura chamava-se Edna, uma grandalhona com fumaças de lideranças e sem espelho em casa porque, não enxergava-se, mesmo...Edna, a megera que infernizava com a vida de garotas mais frágeis e até, de garotos...Não dava-se bem com ninguém, não tinha amigos só desafetos, cujo número aumentava a cada dia...Edna que, incrivelmente forte como era e, extremamente grosseira e mal educada, como que instalara um “Regime do Terror” em diversas classes da escola e, não havia quem a desafiasse...Sua principal vítima era a Terezinha, uma garota muito pobre e humilde que só freqüentava nossa escola porque tinha uma bolsa de estudos, proporcionada pelo fato de sua mãe trabalhar na escola, como servente...Ela não tinha pai, eu fui saber mais tarde, e morava com a mãe e um monte de irmãos em uma casinha em um subúrbio, muito afastado.
       Tamanha penúria, ela procurava compensar com um bom rendimento escolar e, era estudiosa e muito esforçada, lutando para manter a matéria em dia com muito sacrifício, mesmo porque, não era, particularmente, inteligente...Em seu aspecto, era apagada e sem graça, o que era reforçado por seu jeito tímido e submisso...Terezinha guardava um pavor cego da Edna, de quem apanhava, com freqüência, por qualquer que fosse o motivo e, na maioria das vezes, sem nenhum...Era comum ver-se a pobre garota, após os recreios, com marcas nos braços e no rosto, “lembranças” da “monstra” para que sempre “reconhecesse o seu lugar” e, em uma tarde maldita, para mim, eu vi aquela peste, em um terreno baldio, no caminho de volta da escola, imprensando a Terezinha contra um muro e enchendo-lhe a cara com tapas e socos...Naquela tarde eu senti que seria capaz de matar a Edna mas, com medo, o que fiz foi esconder-me, aguardando o final do massacre sem outras testemunhas...Mas ela não parava de bater e dizia que, se Terezinha gritasse, matava–a ali mesmo...Afinal a surra terminou e a maldita foi embora, deixando sua vítima chorando em total desespero sobre um monte de entulhos...o meu coração estava apertado, meus olhos lacrimejavam, eu desejei ir socorrer a Terezinha em um momento de tanta dor mas, apenas virei-me e saí correndo para casa, a lembrança da brutalidade da outra latejando em minha cabeça e minha covardia, mais ainda...Essa foi uma lembrança que jamais me abandonou e tirou-me noites de sono, passadas remoendo minha revolta e minha omissão...
       Agora, a monstra vinha para cima de mim...Nunca me notara antes mas, devido aos últimos acontecimentos, dera-se conta de que eu existia e que precisava fazer algo a respeito...No início, eram só piadinhas que eu, sabiamente, ignorava...Não usou, logo, de violência, talvez por não me conhecer bem...Éramos quase da mesma altura e eu não aparentava ser tão frágil quanto a Terezinha...então, preferiu, ela, estudar-me, antes...Eu mantinha distância da Edna, o mais possível, evitava-a ao máximo, mas, ela sempre estava em cima de minha pele, provocando, ofendendo, falando mal de mim e de minha família...Eu sentia como que uma panela de pressão com a válvula quebrada fervia dentro de mim, aquilo não ia acabar bem, eu tinha certeza disso...Com o passar do tempo, as piadinhas deram lugar a encontrões dissimulados, pisadas nos pés e nos calcanhares...E ela tinha um jeito de xingar entredentes, de modo sibilado, que me tirava de meu juízo normal...Deixou então a pobre da Terezinha em paz e elegeu-me sua nova vítima, muito mais vistosa do que a outra e um prato cheio para sua sede de selvageria...Cedo ou tarde iria agredir-me, como costumava fazer e isso me aterrorizava demais. Eu sempre tive ojeriza de violência e estava sendo vítima dela, a cada dia...Medo e revolta eram minhas palavras de ordem...Medo, revolta, covardia...Por todos esses motivos, eu andava com minha auto estima no chão, me achava um lixo, uma ninguém...Uma louca que via coisas, coisas que feriam, que magoavam...Foi quando afloraram meus impulsos suicidas...
       Eu pensava, com freqüência, em minha própria morte, causada por mim própria...Não desejava mais viver, me sentia um monstro que via monstros e, para piorar, minhas visões foram ficando mais terríveis e ameaçadoras, como a empurrar-me mais e mais ao suicídio, único modo de dar fim a uma vida tão desgraçada e sem valia...Passava os dias arrastando-me pelos cantos, chorava como nunca o tinha feito antes, por qualquer motivo, causando preocupação à minha querida Flá...Não saía mais, escondia-me dos amigos, fugia dos convites...até que eles cessaram...Mesmo Ângela, a quem eu fora tão ligada, tempos atrás, não me queria mais, arranjara um namorado que era uma verdadeira peste, controlando toda a sua vida e ela achando aquilo normal...Achava, naquele tempo que, mesmo sendo tão nova, havia chegado ao fim, o meu fim e que tudo aquilo permanecia apontando para apenas um caminho: o suicídio...Vendo-me definhar daquele jeito, Flávia, angustiada, tentava me levantar, lembrava das vidas que eu salvara, da vida inteira que eu tinha ainda pela frente mas, eu já não queria ouvir nada, queria apenas chorar, morrer...Foi em um domingo, então, que ela me obrigou a ir à igreja para falar com o padre e buscar ajuda em um processo de auto destruição muito perigoso. Eu fui de má vontade, após ela insistir muito e muito, a ponto de chegar a me comover com tanta atenção...Procuramos ajuda na Igreja e eu falei com o padre, ajoelhada no confessionário...Abri minha alma, disse tudo o que havia contado apenas à Flá, falei de demônios e visões, pedi ajuda pois, achava que, se aquilo continuasse assim , eu fatalmente morreria...
       Mas o velhinho, com seu sotaque espanhol, era seguidor de uma igreja tradicional e burocrática, apenas tocava seu rebanho sem maiores cuidados e olhe lá. Nem prestou muita atenção ao que eu dizia, julgando-me certamente “mais uma mocinha histérica a precisar de corretivo”...Falou sobre “tentações do demônio”, disse que eu andava era afastada da Igreja, que eu precisava ser mais participante em minha religião, falou de “falta de fé” e “afastamento de Deus”, terminando sua preleção com uma penitência enorme a ser cumprida imediatamente, junto com uma porção de advertências...Liberou-me, afinal, eu, pior do que quando começara a confissão...Arrasada e amparada pela querida Flávia que, ao saber de minha penitência, propôs-se a cumpri-la comigo, esperei a missa terminar para ter um momento de paz para tentar conversar com Nosso Senhor. Quando o templo já estava quase vazio, nós nos ajoelhamos em um dos bancos e começamos a rezar, eu, parecendo despertar de um sonho ruim, por alguns momentos, e, vendo uma esperança para o fim dos meus tormentos..Esperei ter um contato, ainda que indireto, com meu Pai do Céu e pedi para que ele, apontasse-me um caminho em minha vida, da qual eu estava rapidamente, me desprendendo...Junto com a Flá, eu rezei, rezei com toda a fé que achava que possuía, pedi perdão a meu Pai por alguma falta que eu cometera e que tivera por castigo, a vida que estava levando...Pedi ajuda a Papai do Céu, voltei a ser criança, esqueci a penitência imposta e lembrei das orações que minha avó materna me ensinou quando era viva...Por muito tempo ali eu fiquei, ao lado de minha melhor amiga até que, mentalmente exausta, eu deixei cair minha cabeça sobre minhas mãos postas, conseguindo apenas sussurrar cinco palavras:
       _ Por Seu amor...me perdoe...
       Senti então o calor em minha nuca, como se o Sol houvesse adentrado pela igreja sombria e antiga, lançando um raiozinho sobre mim...levantei a cabeça lentamente, sem pressa, aproveitando uma carícia inesperada que penetrava por minhas roupas e meu corpo, indo alojar-se bem dentro de minha matéria....Ao procurar então, a fonte daquele calor súbito e benfazejo, ele cessou de repente mas eu já localizara-lhe a fonte...estava lá, pousado em uma das imensas janelas que ostentava um belo e colorido vitral...Estava de costas para mim mas, o que eu via-lhe não eram as costas...Eram duas asas, não brancas mas, rajadas, como as de uma coruja ou outra ave de rapina e, da distância em que eu me encontrava, não conseguia avaliar-lhes o tamanho mas, pareciam ser enormes, grandes o suficiente para elevar do chão, um corpo humano.
       As grandes asas estavam imóveis, em repouso mas eu sabia que o dono delas fora quem chamara minha atenção com um raio de luz...Lembranças antigas, imagens antigas assim como orações infantis, como as que eu rezara até ainda há pouco, povoaram minha mente naquele momento de indescritível emoção...Um anjo...Eu estava vendo, mesmo que, de costas para mim...um anjo...O “meu” anjo...Não sei durante quanto tempo fiquei, de cabeça erguida e virada de lado, a admirar tamanho espetáculo que, aparentemente, apenas eu, via, posto que a Flá, a meu lado, ainda rezava, contrita...Naquele momento, eu senti que o que eu via, não era simplesmente, mais uma visão...Era algo concreto, uma resposta de Deus às minhas preces e súplicas...Ele não me castigava...Ele amava-me como a filha que eu era, Sua e, demonstrava isso, mandando em meu auxílio, um de Seus mensageiros...As nuvens escuras que envolviam minha vida dissiparam-se e, um sol particular, brilhante como o verdadeiro Sol, brilhou em mim. Eu senti a paz que procurava, completa, acompanhada de uma sensação de conforto sem precedentes...Sabia agora que, meu Pai do Céu me acalentava e afastava os maus pensamentos de mim...Eu entendi, também, que não estava, de modo nenhum, só, na face da Terra e que iria, em breve, conscientizar-me, de vez, disso...Acreditei que, naquele momento mágico, tinha eu, minha Segunda Revelação...Era o encontro com uma segunda entidade, diametralmente oposta àquela outra, que eu entrevira no shopping...Ao contrário daquele ser de maldade e destruição do corpo e da alma, este agora era, apenas, amor, paz e proteção...Ele zelaria por mim e, junto a ele, sem mais medo, eu aguardaria o que me estivesse reservado...Era meu Pai Celestial que avalizava tal certeza e, dela, eu não me afastaria jamais...Ao encarar novamente a doce Flávia ela surpreendeu-se ao ver a nova expressão que se desenhava em meu rosto. Em meus olhos marejados ela não viu mais a angústia e o desespero anteriores e, certamente, creditou tal mudança ao meu encontro com o Pai, Celestial, em Sua casa...E ela estava certa.
       E a partir desse encontro, minha vida mudou, mais uma vez,  só que, desta vez, para muito melhor.Eu passei a encarar tudo sob uma nova ótica, entendia o que não havia conseguido antes, me sentia melhor comigo mesma e com os outros...As visões passaram a ser mais positivas e alegres além de, cada vez mais raras...Passei a procurar mais coisas boas nas pessoas que me cercavam, fui atrás de gente conhecida mas que andava ausente em minha vida...E procurei relacionar-me com outras pessoas, das quais não me dava conta ou de alguém, de quem desejava uma aproximação maior, mas que, por algum motivo, não buscava essa proximidade...Uma dessa pessoas era a Terezinha...Eu sentia que deveria aproximar-me dela, queria ser sua amiga, mais do que outra coisa..desejava protegê-la, aconselhá-la, ajudá-la no que me fosse possível...A visão do anjo fora a responsável por tal desejo e, logo, eu iria saber o porque dele, em meio a uma dor terrível e inevitável...
       No início de meu “assédio”, Terezinha ficou muito intimidada comigo, fugia, mesmo, de mim, quando a procurava para conversar; não estava acostumada, a coitada, a ser procurada por alguém com o intuito de fazer uma amizade. Achou, talvez, absurdo, uma de suas colegas “riquinhas” importar-se com ela e vir falar-lhe...Certamente desejando “tirar uma com sua cara”. Com o tempo, todavia, após muita insistência de minha parte, a Terezinha acedeu em aceitar minha companhia e, pouco tempo depois, minha amizade, passando, mesmo a, após algum tempo de convívio, demonstrar algo que nunca vira nela: alegria e descontração...Eu a convidava para os programas que, agora, fazia com minha nova turma de amigos, alguns deles ainda do tempo do shopping explodido e esse pessoal, no início, estranhou minha predileção por aquela menina tão “insípida e pobre” mas, acabaram por acostumar-se com sua presença, não permitindo no entanto, muita aproximação, como se a condição social da garota fosse contagiosa....A Edna, vendo seus dois desafetos tão próximos, meio que parou um pouco, ou reduziu suas impertinências conosco, passando a observar-nos de perto, já tirando conclusões precipitadas, como vim logo a saber, através das intrigas que passou a espalhar e que esforcei-me em superar...Em apenas um ponto, a Terezinha foi por demais resistente comigo: não queria que eu fosse à sua casa; tinha vergonha do local onde morava e de sua condição de necessitada; achava certamente que, aquilo não era um lugar para ser compartilhado com a “amiga rica”...Foi preciso muita insistência e persuasão de minha parte para conseguir derrubar aquela ultima barreira. Fi-la ver que a importância de cada pessoa não estava ligada diretamente às suas posses, falei muito sobre diferenças e, tanto fiz que, acabei dobrando aquela menina...Em uma tarde muito especial para minha nova amiga, o motorista de meu pai, naturalmente, sem este saber, levou nós duas à casa da Terezinha, Eu procurei agir sem formalidades mas, também, sem uma familiaridade exagerada e, no final, tudo deu certo. Não vi motivo algum para minha amiga envergonhar-se do pouco que possuía. Sua família era extremamente alegre e simpática e passamos uma tarde muito positiva, apesar do visível constrangimento que a Terezinha ainda demonstrava com tudo aquilo, apesar de tudo...Passei a ir com certa freqüência à sua casa e ela foi descontraindo-se mais e mais em relação àquilo, eu ia de ônibus e andava muito, ela morava longe de verdade...Era um bairro de periferia meio abandonado e talvez até, perigoso para uma garota como eu, andar desacompanhada, mas, durante o tempo que visitei aqueles locais ermos, nada de ruim aconteceu-me...Eu via, mesmo, uma melancólica beleza naquela atmosfera de cidade do interior com suas casinhas modestas e suas ruas calçadas ainda, com pedras...Nós andávamos abraçadas pelas ruas daquele bairro humilde e a Terezinha me “exibia” para todos, agora, orgulhosa de minha amizade e eu levava muitos presentes para ela e sua família...Coisas simples, nada de muita ostentação; eu pensava muito antes de comprar alguma coisa para aquela gente, receando ser mal compreendida...E, apesar de tantos cuidados, eu fui, mesmo, mal compreendida pela Terezinha, devido a meu comportamento em relação a ela, a partir da “Festa de Pijamas”...
       Um dia, eu decidi dar a tal festa, apenas para as garotas mais chegadas...Vira como era na televisão e decidi imitar. Escolhi uma data que coincidisse com uma das viagens a negócios de meu pai...Teríamos a casa toda à nossa disposição, ainda mais que minha mãe “não estava nem aí” na maior parte do tempo e não nos incomodaria, se não fizéssemos bagunça demais...A festa começou ainda de tarde com todas nós, umas dez ou doze molecas na cozinha, fazendo o que cada uma de nós sabia em relação a comes e bebes e, dessa aventura, resultaram coisas esquisitíssimas, que foram devidamente levadas para meu quarto pelo bando de “gralhas”, devidamente “enfarpelado” com seu pijama ou camisola predileta...Uma vez no quarto, começariam os jogos e a fofoca, junto com a comilança, exatamente como eu e outras vimos na tevê mas, com nosso “toque pessoal”...Eu convidei a Flávia para participar mas, ela ficou inibida e não quis ir com a gente...Para a Terezinha, eu comprei um pijama que achei ser “a cara dela” e ela pareceu achar isso, também, tão animada estava em sua primeira noite fora de casa...Eu tinha planos de levar minha amiga para morar comigo, em caráter definitivo, só não sabia como abordar a questão, com o pai mas, tal idéia era, ainda um embrião, um embrião que não evoluiu por causa do que aconteceu depois...
   Durante nossa festa, brincamos de uma porção de coisas, brincadeiras de meninas a que os garotos não tinham acesso, sentadas pelo chão e na cama, tudo era animação...Lá pelo meio da noite estávamos sentadas todas em roda, sobre o tapete, fazendo um jogo de adivinhações quando aconteceu...Olhávamos para as caras umas das outras, tentando adivinhar algo de que não lembro...Riamos como umas patetas das caretas que cada uma fazia para quem a olhava e, a Terezinha já estava, por demais, enturmada e todas a tratavam sem restrições...Eu olhava, naquela ocasião, para alguém que estava sentada mais longe mas, meu olhar foi atraído de súbito, para onde a Terezinha estava pois, algo de extraordinário acontecia por detrás dela...E eu o vi em todo seu esplendor e ele olhava para mim com um olhar doce, no meio do rosto que tanto podia ser de um homem muito bonito quanto de uma mulher idem...Mostrava-se, inteiro para mim e, apenas para mim, isso porque, imediatamente eu percebi, pela falta de reação de minhas amigas que, não podiam vê-lo e, nem sequer, senti-lo...Era grande, muito grande, bem maior do que uma pessoa comum, estava sentado atrás da Terezinha, suas pernas descobertas e musculosas a envolverem o corpo de minha amiga e sua cabeça estava a centímetros do teto...Suas asas de gavião estavam abertas e ocupavam uma área enorme do quarto, parecendo não caber direito lá dentro...Teria mais de quatro metros de altura, de pé, um verdadeiro gigante...Trajava uma armadura de metal dourado, muito brilhante e decorada com um intrincado de relevos a representarem cenas diversas que não conseguia decifrar direito. Tinha, também, uma túnica branca, por debaixo da veste de metal, que cobria-lhe o tronco e que terminava em um saiote, recoberto por uma outra saia, toda segmentada, feita de couro com apliques de metal dourado, algo lindo de se ver...Seus pés, poderosos, calçavam sandálias de couro escuro e, em seus pulsos, alguns braceletes podiam ser vistos...Tinha olhos de um dourado estranho, que transbordavam ternura e longos cabelos encaracolados, de cor castanha escura, a emoldurarem seu belo rosto...Um halo de luz branca, muito suave, rodeava-lhe a cabeça e não estava armado...Petrificada, eu olhava para tamanha aparição mas, sem medo algum, apenas fascinada com tanta beleza, vinda de um ser virtualmente perfeito...O anjo, após encarar-me por um momento, sorriu-me de modo cativante e, abaixando o olhar, pôs-se a acariciar os cabelos da Terezinha e eu, naquele momento mesmo, entendi que aquilo era um tipo de mensagem para mim...Sem duvida, uma Revelação,,,A terceira delas...Eu já nada ouvia a meu redor, parecia que o tempo parara de passar para mim enquanto eu via meu anjo acariciar minha amiga...Segundos, minutos, não sei quanto tempo se passou ate que ele começou a desfazer-se no ar, ate desaparecer e eu voltar a sentir o burburinho reinante em meu quarto...A festa continuou noite adentro mas, eu não me liguei em mais nada, pensava apenas no anjo, em Terezinha e, no que significava tudo aquilo, sem duvidas, algo relacionado a minha amiga mas...o que?...Eu logo iria descobrir, em um momento de imensa dor, eu iria saber o que me reservava a Terceira Revelação...

       Depois do que vira em meu quarto, eu tivera a certeza de que devia dedicar-me a minha nova amizade e passei a demonstrar minha afeição pela Terezinha, de modo mais intenso...e foi aí que errei na dose e fi-la entender mal o que eu sentia, além de incentivar os instintos mais primais dela...O fato é que minha amiga era homossexual e achou, devido a meu comportamento, para com ela, que, eu estava, por ela, apaixonada...Percebi isso quando Terezinha  começou a me acariciar de modo mais íntimo, a princípio, às escondidas, mas, depois, de modo mais explícito, provocando algum constrangimento em mim, principalmente nas aulas de educação física, quando eu penava para disfarçar quando ela vinha para cima de mim...Caímos então “na boca do povo” e logo, toda a escola comentava nosso “caso”, alguns com espanto e outros, nem tanto assim...E eu, que começara com tudo aquilo, agora, não sabia como contornar a situação...Eu amava a Terezinha, sim, mas, não do modo como ela me amava, com uma conotação sexual tão forte...Logo, ela tentava a todo momento beijar-me na boca e, muitas vezes, conseguiu, com a boca fechada, ainda, os lábios apenas tocando-se...Isso não durou muito tempo, logo ela tentava introduzir a língua em minha boca e eu passei a recusar seus beijos mas, sem “engrossar” com ela...A menina estava confusa e entendera tudo errado e eu não sabia, agora, o que fazer. Até aquele momento, eu não namorara com ninguém mas, achava que, quando o fizesse, seria com um garoto e não, uma garota...Eu agora tinha uma bela “sarna para me coçar”...Nosso pretenso “caso” serviu como uma luva para incitar a agressividade da Edna contra nós duas...Insensível e preconceituosa, ela passou a nos atacar, verbalmente, a todo momento, em qualquer lugar, não chegando no entanto a partir para a violência, talvez porque, agora, fossemos duas contra ela e isso a  intimidasse um pouco, aquela covarde...Mas ela era extremamente grosseira e incômoda e a Terezinha tremia de medo ante seus ataques. Eu, no entanto, não temia aquela estúpida mas, ia acumulando insultos até o ponto do suportável, achando que um dia, “o caldo iria entornar”...Eu protegia minha amiga e tentava confortá-la, quando ela chorava, magoada com as coisas que a Edna nos dizia, melhor dizendo, gritava, nos corredores ou no recreio...Eu pedia para a Terezinha maneirar em suas carícias, porque não pegava bem agirmos assim, se parte do pessoal não aprovava aquilo...Não tinha, eu, a coragem para “escancarar o jogo” e dizer o que eu sentia, em relação a ela...Tinha medo de magoá-la, afinal, sem o perceber, dera todas as “pistas” e, agora, sentia-me, extremamente, desconfortável, para com ela...E foi melhor ter “cozinhado” nossa relação em “banho Maria”, isso eu descobri já no final daquele ano.
       Comecei a notar que minha amiga estava cada vez mais abatida, parecia doente, não tinha ânimo, já não estudava, seu rendimento escolar caiu, assustadoramente...Eu tentava ajudá-la no que podia mas, nem o “fogo” inicial que ela demonstrava por mim estava tão intenso...Terezinha já não tinha cor no rosto e emagrecia a cada dia, mesmo jamais tendo sido uma garota gorda...Após quase um mês de abatimento, ela parou de ir à escola e eu é que ia visitá-la em casa, encontrando-a, sempre, acamada e com a saúde cada vez mais deteriorada...Não precisei somar dois com dois para entender o que acontecia, afinal, eu já vira algo parecido, no âmbito familiar, tempos atrás...Eu seria muito pequenininha mas, lembrava de tudo, com nitidez e era isso o que eu via na minha frente, compreendendo, afinal, o que a visita do anjo em meu quarto significara...
     A Terceira Revelação...E eu já sabia de tudo, quando, finalmente, vieram anunciar, em nossa sala de aula, que a Terezinha ficaria, muito tempo, sem aparecer na escola e que, talvez mesmo, não voltasse a fazê-lo...Terezinha estava com uma forma de câncer, por demais agressiva e a doença a destruiria, em muito pouco tempo...O céu caiu em cima de mim e o chão me faltou aos pés, creio que jamais senti uma dor tão forte quanto a que senti, ao me confrontar com a dura verdade...não foram poucas as noites que eu passei, chorando como um bebê, agarrada a minha querida Flá, enquanto ela me falava dos desígnios de Deus, dos quais eu tinha pleno conhecimento pois, fora avisada, com antecedência...Passei a me dedicar, de corpo e alma, a minha amiga, passando longos tempos, em sua casa, fazendo-lhe companhia e ajudando no que fosse possível, afinal, sabia que ela, além da mãe e dos irmãos, não tinha mais ninguém, além de mim, desprezada, por todos, que, sempre fora, por ser pobre, por ser feia e, agora eu sabia, por ser homossexual...Eu fazia comidinhas de que ela gostava mas, ela mal provava dos quitutes. Ela gostava, muito, de mingau e eu fazia mingau para ela, enquanto sua mãe, a um canto da cozinha, apenas chorava e chorava, cortando-me o coração...Terezinha não iria morrer no abandono, eu não permitiria, cumpriria minha missão até o fim, daria conforto e apoio àquela querida criaturinha, enquanto eu tivesse forças para fazê-lo...Na escola, minha situação beirava o insustentável...Mesmo acreditando que eu era, mesmo, lésbica, minha turma guardou respeito com relação à doença de Terezinha e, mesmo, vinha confortar-me quando eu estava muito mal, a ponto de demonstrá-lo em público...Todos fizeram isso, menos a monstra da Edna que, sem qualquer vestígio de humanidade, divertia-se ficando por trás de mim, pespegando-me beliscões violentos, nas costas e nos braços além de chutar meus calcanhares, coisa que adorava fazer, enquanto destilava entredentes sua peçonha maldita, sussurrando coisas como “Você vai perder sua namoradinha, sua...” e coisas do gênero...Era possível alguém ser tão cruel, tão desalmado a tal ponto?: -eu me perguntava e a Edna me mostrava com seus atos que, infelizmente, sim...
       Em casa, na mesa de refeições, certa noite eu comentei sobre o estado de saúde de Terezinha, falei da falta de recursos da família, do tratamento caro que não podiam pagar e acabei fazendo uma coisa que detestava fazer: chorei diante de meus pais, que pareceram não importar-se, lá muito, com o que eu dizia. Minha mãe então, fez algo inominável, para mim, àquela hora...Quis saber tudo sobre meu “relacionamento lésbico” com a Terezinha, assunto que já era “moeda corrente” em todo o bairro e, naquele momento, eu quis, apenas, morrer mas, o que fiz, foi, levantar-me da mesa, em um repelão, indo buscar refúgio em meu quarto e meu travesseiro, indo a querida Flávia ir reunir-se a mim, mais tarde...No dia seguinte, ao despertar vi, sobre a mesinha de cabeceira, o cheque nominal, para mim, com uma quantia bastante alta, assinada por meu pai...Em meio ao mar de dor em que eu estava mergulhada, aquele pedaço de papel me fez um bem imenso, mesmo porque, eu nada pedira, fora pura iniciativa de meu pai...Passei aquele dia, depois das aulas, fazendo compras para a família de minha amiga, comprei remédios e levei sua mãe a uma clínica para a marcação de sessões de quimioterapia, apesar de eu sabê-las, totalmente, inúteis. Eu havia descontado o cheque ainda de manhã e me sobrou ainda, bastante dinheiro, que entreguei para aquela pobre mulher...
       Cerca de três meses durou o martírio de Terezinha e eu vi, diante dos meus olhos, aquela garota definhar, dia após dia, até perder parcialmente a consciência e não mais me reconhecer... E, certa tarde, quando, após as aulas, eu chegava perto de sua casa vi, de longe, a movimentação de pessoas em frente e meu coração deu um terrível baque, quando eu vi o caixão sendo levado para a casa, de modo a que fosse usado...Eu não quis ver mais nada, afastei-me a passos lentos dali, após virar as costas para uma cena que eu sabia que veria, mais cedo ou mais tarde mas, que não queria ver...Não olhava eu para onde ia, apenas andava para longe dali, a vista turvada pela quantidade de lágrimas que, dos olhos, era vertida...Os embrulhos que eu trazia, foram largados no chão e eu apenas segui e segui, sem saber para onde ia, desde que fosse para longe daquela casa, visitada pela morte.
       _ Ei garota, você não está bem?...O que te aconteceu?
       Ouvi a voz de homem a meu lado mas não virei-me para ver quem falava comigo...Era uma voz jovem e bem modulada...alguém abordava-me em meu caminho de dores e me oferecia algum apoio...Sem me deter eu falei, sem nem sequer me dar conta, tudo que sentia naquele instante.
       _ Perdi minha amiga – eu falei entre soluços-...Minha amiga adorada morreu hoje...Eu não vou no enterro dela, ela acabou...O que vão enterrar é, apenas, uma casca, não tem mais valor nenhum para mim...O que a Terezinha era, agora, não existe mais, neste mundo...Eu não vou ver ela ser enterrada, não vou...
       _ Ah, você tá falando do caixão, na casa no outro quarteirão?...Puxa, que triste...Vem comigo, garota, você não tá nada bem e tem todos os motivos...
       Como uma sonâmbula, deixei-me levar pelo rapaz que não via, algo nele, despertou, em mim, um bom sentimento, a expressão de sua voz parecia ser sincera, ele estava, mesmo, triste, com o que me acontecera...Estava preocupado comigo...Acabamos em um barzinho onde ele me pôs, sentada em uma das cadeiras, diante de uma mesinha ao ar , enquanto foi buscar alguma coisa. De dentro do bar vinha uma música triste, sobre alguém que, longe de seu lar, dizia o que faria se, algum dia, retornasse à sua terra e ao convívio dos seus e eu pensei que aquela música tinha algo a ver com o que acontecia naquele dia...A Terezinha, após uma vida de privações, tristeza e abandono, voltava para seu lar, o lar celeste, ela iria ver seu Pai que livrara-a de uma vida má e dava-lhe toda a felicidade que sempre merecera...Um copo cheio pela metade foi posto diante de mim, contendo um líquido amarelo e borbulhante, que revelou-se gelado ao toque, através da parede de vidro...Eu sorvi um gole daquilo, era guaraná...Estranhamente, o contato com aquela bebida doce trouxe-me um pequeno alívio em meio à dor que eu sentia...Encarei afinal, já com menos lágrimas nos olhos, para o rapaz que me abordara e este, com um guardanapo, procurava enxugar meu rosto, sem que eu o impedisse...Era um rapaz bem negro, mais ou menos da minha idade, que eu achei incrivelmente bonito...Ele falou comigo, contou um pouco de sua história, talvez para me distrair...Disse que a morte também o havia ferido há pouco tempo...Perdera um irmão, morto por engano...ou, talvez, por ser negro, pela polícia e sabia exatamente como eu me sentia...Eu conversei com ele, um pouco, mais ouvi do que falei...E me senti quase melhor, com aquele encontro inesperado com uma pessoa tão sensível...Mas, logo percebi que ele estava era interessado em mim e isso chegou a me divertir, ao lembrar de como são os homens...Mas não me contrariei com aquilo, apenas palestrei com meu súbito amigo, que me disse o nome mas que eu acabei esquecendo, coisa que não deve ter acontecido para ele, quando eu disse-lhe como me chamava...Foram momentos de conversa amiga e confortadora em uma mesa de bar, com a companhia de duas garrafas de guaraná de sabor até então, desconhecido para mim...Afinal eu agradeci-lhe o apoio e me despedi. Ele então pediu meu telefone e eu rabisquei um número qualquer em um guardanapo de papel e o entreguei, levantando-me...Ele então também levantou-se e, aproximando o rosto do meu, me beijou, no rosto mas, pegando uma parte da boca...Até hoje não sei se foi intencional ou se ele visava apenas minha face e acabou “errando o alvo” por alguns milímetros...Mas, não me ofendi com a carícia, apenas aceitei-a e fui-me embora, para sempre, da vida daquele rapaz...Para sempre?...Tivera, com ele, um momento mágico e, muito bom, apenas isso, não desejava prolongá-lo, em um possível relacionamento que, talvez, até, quebrasse a magia daquele encontro fortuito...Bem, ele iria lembrar-se de mim e eu dele, apesar de haver-lhe esquecido o nome...Ficou a boa lembrança e era isso que importava, para mim...ao menos, naquele momento.
       No dia seguinte ao enterro da Terezinha, eu cheguei arrasada na escola e alguns colegas vieram me confortar, o que me causou um grande bem...Do jeito que eu estava, qualquer demonstração de carinho e apoio era, por demais, bem vinda...E tudo continuaria bem se não fosse o que, hoje, eu chamo de “Acerto de Contas”, acontecido durante o recreio...Estava eu, melancólica, andando no pátio, quando, tive meu trajeto interrompido pelo corpanzil da Edna que, “sem mais aquela”, começou sua ladainha de insultos, não respeitando a mim e minha dor e, nem sequer, alguém que não estava, mais, neste mundo...Disse a criatura, coisas horríveis sobre nós, da falta que eu iria sentir das partes íntimas da Terezinha em contato comigo, que eu perdera minha “namoradinha” e que ficaria” na saudade” e muito mais ela disse, até ser interrompida...
       Quando me pergunto, hoje, sobre o que aconteceu e, como aconteceu, durante a sessão de insultos da Edna, não consigo fazer uma imagem exata, o que me vem à mente são apenas, fragmentos de cenas...Cenas de extrema violência...O fato é que, durante a preleção daquela insensível eu, de repente, vi um clarão vermelho diante dos olhos e, o que me lembraria a seguir, seria de mim, sentada sobre algo muito volumoso, movendo meus braços para os lados, para cima e para baixo, repetidamente, minhas mãos chocando-se contra algo ao mesmo tempo duro e macio...Logo depois, senti que fui arrancada de minha posição, com violência, enquanto ouvia vozes, muitas vozes a meu redor, enquanto eu ainda pisava, com força, duas ou três vezes, no que estivera socando...e foi só aí que minha vista desanuviou-se e eu vi o corpo da Edna, “esparramado” pelo chão e seu rosto não era mais um rosto e sim, um amontoado de, inchaços, dos quais vertia muito sangue...Sangue que eu vi em minhas mãos, ao olhar para elas, horrorizada, enquanto era levada, à força, através dos corredores da escola. No gabinete da diretora, ouvi uma severa reprimenda desta, além de depoimentos de serventes e professores, que viram o que acontecera no pátio...Havia, na sala, gente indignada, que ma chamava de “selvagem” e outros adjetivos, mas eu, naquele momento, era a tranqüilidade em pessoa, começando a entender o que fizera lá fora, diante de toda a escola...Após muito tempo, o qual, passei, isolada, em uma saleta vi, diante de mim, meu próprio pai, que levou-me embora, sem proferir uma palavra sequer mas, também, sem me tratar com rispidez...Ao sairmos para o corredor, havia uma multidão de alunos que me aplaudia e nesse clima de total baderna, eu acabei saindo da escola no carro do pai, indo para o escritório dele, em sua empresa, onde fiquei por quase uma hora em uma outra saleta com ar condicionado e musiquinha no ar, observando o vai-e-vem de funcionários...Vez por outra, uma moça vinha me oferecer cafezinho e água ou perguntar se eu precisava de algo, mas, eu não queria nada daquilo...Minhas mãos, eu havia lavado ainda na escola, tirando o sangue da Edna de meu corpo e sabendo que fizera algo muito, muito feio...e, completamente, inesperado para mim e para todos, em se tratando de Sandra Vargas...mas, algo que, afinal, estava feito...Finalmente, fui chamada para a sala de meu pai e ele me aguardava, atrás de sua enorme mesa, com tampo de mármore...Ele não parecia enraivecido comigo, como eu já estava acostumada a ver mas, também, não irradiava simpatia...Indicou uma cadeira para que eu sentasse, diante dele e falou com a voz em tom normal.
       _ Mocinha, você foi suspensa por quatro semanas, ou seja, um mês, por agredir uma colega no âmbito da escola...Aliás, foi mais do que uma agressão, você desfigurou a garota com as mãos e os pés, mais um pouco e a matava...É essa a Sandra que eu achei que conhecia, até hoje, tão calma e dócil?..Aquela menina, sua amiga, que morreu, mudou você, tanto assim?...O que você tem a dizer?
       Eu estava, absolutamente, tranqüila, não estava com medo de meu pai, como sempre...Senti que algo mudara em mim e, quando respondi-lhe, foi olhando em seus olhos, não deixando de reparar o quanto o achava bonito...E com a voz que foi alterando-se, conforme eu falava, até chegar a um tom bem duro, eu falei-lhe, sem ser interrompida.
       _ Quer que eu me explique?...Vou fazer isso...A Terezinha mudou minha cabeça?...Talvez mas, se mudou, foi para melhor, o senhor sabe do que estou falando, afinal, teve alguma participação em tudo...Nós namorávamos?...Não...Ela era lésbica?...Era...Eu sou lésbica?...Definitivamente, não...Eu amava aquela menina, mas, como gente, que ela era mas, que quase ninguém fez questão de perceber que era...como o senhor percebeu...Ela me amava de outro jeito, do jeito dela, entendeu errado o que eu sentia por ela...Eu não sou lésbica mas, se fosse, não teria vergonha disso, teria orgulho...Orgulho de ser o que eu sou, sem que isso traga qualquer coisa de mal, para quem quer que seja...Eu estou arrependida por ter surrado a Edna?...Talvez, não lembro, direito, o que fiz, posso ter exagerado, mas, era uma coisa que, um dia, teria de acontecer, todo mundo que conhece a história, sabia disso...Aquela menina desrespeitou a Terezinha, durante muito tempo e, nem a morte dela a fez parar...Ela zombou do amor da gente, sem saber nada de nada sobre o que “rolava” entre nós...Eu calei aquela bocarra e, durante algum tempo, pelo menos, ela vai parar de atormentar os colegas...Eu já não agüentava mais aquela “peste”...Eu acho agora, até, que exagerei sim, mas...ao menos uma parte do que ela levou hoje...mereceu.
       Ao terminar, eu já estava vermelha e com vontade de chorar...Mas não fraquejei, desta vez, diante de meu pai e sustentei seu olhar que me fitava, aparentemente calmo...E foi com a voz calma que disse-me.
      _ Você está alterada e eu diria, até que, com razão...Já que não há mais escola hoje e nem pelas próximas quatro semanas, vou pedir pra que te levem em casa e lá, você se acalma e, à noite, conversamos mais um pouco, se você quiser, porque, ao menos, para mim, já está tudo mais do que esclarecido...Vai pra casa, Sandra que, de noite a gente se vê.
      Foi só quando cheguei em casa que “abri o bocão” nos braços carinhosos da Flá e contei para ela tudo o que acontecera...Ela me confortou, como só ela sabia fazer e disse.
      _ É assim mesmo...Com violência não se resolve nada, mas...às vezes, parece que não tem mesmo outro jeito...Vamos é rezar pela tua Terezinha, porque ela precisa e, ainda bem que ela teve você ao lado, nos últimos momentos dela...Coitada da garota, sofreu tanto...
      Passei o período de suspensão em casa mesmo, sem por o nariz para fora...E recebi visitas quase diárias de colegas e amigos que, a pretexto de trazer as matérias do dia para mim, vinha era me ver e falar com a “celebridade do momento”, na escola...Eu contei minha versão do acontecido, por várias vezes e, aparentemente, ninguém teve dificuldade para convencer-se de que eu não era a ”Maria Sapatão” que, alguns, achavam que eu era...Muita gente interessou-se, tardiamente, pela Terezinha e uns e outros, mesmo, disseram que iam ajudar a mãe dela, materialmente...O pior é que, tempos depois eu soube que quase todos os que prometeram, realmente cumpriram o prometido. As notícias que me trouxeram de Edna eram, que ela tivera de ser internada em um hospital, após a “esfrega” a que eu a submetera...Ela ficaria um bom tempo afastada pois, fora muito ferida; seus olhos estavam tão inchados que ela não podia abri-los mas, não ficara cega e nem tivera um comprometimento maior da vista, devido ao trauma sofrido...Perdera também, três dentes da frente e tivera a mandíbula fraturada em dois pontos...Puxa...Eu não sabia que era forte a esse ponto...Ou será que fora o ódio que me dera forças para acabar com a Edna daquele jeito?...Eu não fazia questão de saber...
      Certo dia eu estava em meu quarto quando escutei o bate-boca no andar de baixo. Desci para ver o que era e vi, na sala, meu pai, desafiando o pai da Edna para uma briga, ali mesmo ou fora de casa. O pai parecia fora de si, insistindo na briga...Mas ela não aconteceu, o brutamontes do pai da Edna era tão covarde quanto ela e valia-se mais da intimidação do que, da força propriamente dita...Ao ser desafiado, “de homem pra homem”, por alguém, disposto a tudo, meteu “o rabo entre as pernas” e tratou de sair de casa, fazendo mil ameaças e chegando a quebrar, só de pirraça, um dos vasos chineses que a mãe tinha em casa...Mais tarde a Flá, que assistira o entrevero desde o início, disse que o homem viera até em casa e dissera coisas horríveis a meu respeito, terminando por insultar toda a família. Foi quando o pai se irritou de verdade e chamou o poltrão pra briga, fazendo-o recuar. Flá me disse que ele me defendeu, desde o início  e não deixou o tal falar muito...Nessa noite eu senti um orgulho, enorme, de meu pai, afinal, ele pareceu entender-me, totalmente, não ficando em nenhum momento, contra mim.
       Terminada minha suspensão, eu voltei para a escola e fui recepcionada como um ídolo, todos queriam falar comigo e saber o que eu sentira, dando na Edna, a lição que ela merecia, fazia tempo...Eu não tinha muito o que dizer, a não ser que ficara cega de ódio por ela ter desrespeitado a memória da Terezinha e, nem soubera direito o que fizera...Perguntavam-me se eu era mesmo, “sapatão” e eu disse que não, tentando explicar meu súbito amor pela pobre garota sem entrar em detalhes de minhas visões...Mas, eu fiquei comovida, mesmo, quando a mãe de minha amiga falecida veio falar comigo, no recreio...Com os olhos cheios de lágrimas ela agradeceu, humildemente, o que eu havia feito por sua filha e o fato de eu tê-la defendido das injúrias da “peste”...Eu abracei aquela mulher, tão simples e tão sofrida, quando ela me disse que havia perdido uma filha mas, ganho uma amiga para toda a vida, isso, já debulhando-se em choro...De fato, o que ela passou foi demais para qualquer ser humano com um mínimo de sentimento...Nunca mais vimos a Edna, estávamos no fim do ano e ela não recuperou-se a tempo de voltar às aulas, perdendo aquele ano por minha causa...Isso me causou remorsos, poucos, mas, parecia que ninguém sentia sua falta...E, no ano seguinte ela não voltou à escola; sua família mudou-se e não deixou saudades...Mas, garantiram-me que ela recuperou-se, totalmente, dos ferimentos que eu causei-lhe e foi “cantar de galo” em outra freguesia...Não soube de nenhum tipo de retaliação de sua família contra a minha ou contra mim, o assunto “Edna” estava definitivamente encerrado.
       Eu terminei o curso básico, prestei vestibular e passei sem qualquer problema, passando a cursar uma faculdade em minha cidade mesmo, localizada no zona norte...Eu namorei alguns garotos mas, não chegou a ser nada sério...Fiz novos amigos e mantive alguns antigos, estudava, saía com o pessoal e levava uma vida, aparentemente, normal...As visões ainda vinham, mas, com uma intensidade cada vez menor, como se eu estivesse terminando uma fase em minha vida...O tempo passou e as Revelações que eu tivera, assim como as duas entidades que eu conhecera, passaram a ser quase que apenas, lembranças...Eu lembrava sempre da Terezinha e do garoto negro que me confortara no dia da morte de minha amiga... E eu quase me arrependia de não ter iniciado algo com ele, nosso contato resumiu-se a alguns poucos minutos de conversa mas ele deixou uma impressão muito forte em mim, a ponto de eu desejar saber mais sobre ele mas, nada fiz a respeito, por pura inibição...
       Eu ia de ônibus para a faculdade, ainda não tinha dezoito anos e não podia dirigir e meu pai não podia me dar carona, devido à distancia da Universidade e os horários estranhos...Comigo não houve problemas, o transporte coletivo me servia bem...Eu andava um pouco, de casa até o ponto e após uma longa jornada, saltava perto de um cruzamento em frente a uma grande obra, atravessava a rua à minha esquerda e aí vinha a parte mais dura do trajeto: Uma rua em ladeira compridíssima e inclinadíssima, que contornava um morro e, lá em cima, ficava a universidade. Vez por outra alguém me dava carona até lá mas, eu não me importava em subir tal “pirambeira”, pois, estava de chegada, ainda lépida e fagueira...Na volta, era uma descida só, fácil de andar...Tudo era para mim, afinal, uma aventura...
       Vieram os dezoito anos e meu pai comprou para mim um carrinho muito simpático, que eu amei mas, por algum motivo, eu ainda preferia andar no velho ônibus, ao menos, durante mais algum tempo...Já estava eu em meu segundo ano de faculdade quando, finalmente, eu soube o porque de meus novos hábitos e do motivo por eu precisar estar em um local e em um momento, pré determinados no além e impostos a mim...Foi a experiência mais aterradora por que passei, em toda a minha vida e isso porque, literalmente, eu tive a vida de muitas pessoas em minhas mãos e, com algumas delas...muitas delas...eu falhei...A morte me acompanhou mais uma vez mas, dessa vez não foi nada parecido com a aventura do shopping ou o drama de Terezinha...Dessa vez a coisa foi muito mais séria e uma missão pesada demais para mim, foi posta em meus ombros, como se as experiências anteriores, houvessem sido apenas uma espécie de “treino” para dar lugar, afinal, ao pior...A Quarta Revelação...

       Poucos metros à frente do ponto onde eu saltava para ir para a faculdade, em uma avenida não muito larga e com um rio canalizado no meio, estavam construindo há já bastante tempo, um obra faraônica e polêmica em nossa cidade...Era um elevado, uma rua suspensa que ligaria a principal avenida do centro, em seu final, ao túnel gigantesco que já existia há muitos anos e que ligava de forma rápida e eficiente, a zona norte com a zona sul...Mas, os engenheiros acharam que os acessos para o túnel, do lado norte eram insuficiente nos horários de pico...Eram ruas estreitas como a tal avenida do canal, no centro, que passavam por bairros antigos, com belas e espaçosas casas, redutos de famílias antigas e tradicionais...De fato, as ruas ficavam intransitáveis em certos momentos do dia e da noite e o túnel vivia congestionado por falta de fluidez do tráfego, por causa das ruas estreitas dos bairros da zona norte...A solução, muito discutível, adotada por nossos governantes, foi construir uma rua inteira por sobre a avenida do canal, sem cruzamentos, com mão dupla e larga o suficiente para os carros circularem com mais facilidade...Tal obra, com o tempo revelou-se cara demais, complicada e de difícil execução, as ruas dos bairros atingidos pela serpente gigante de concreto e aço viraram verdadeiros infernos, principalmente na hora do “rush” quando simplesmente paravam, em congestionamentos que duravam horas...Os moradores das casas por onde passaria o “monstro” seriam duramente atingidos por ele...Perderiam boa parte da luz solar, sofreriam muito com o ruído dos motores dos veículos e veriam seus imóveis sofrerem uma desvalorização galopante, devido ao novo ambiente insalubre, reinante...Mas, “tudo em nome do progresso”, como eles diziam, o jeito era agüentar e, apenas, reclamar quando era possível...A obra já arrastava-se por anos e o trecho que compreenda o trecho de rua que eu utilizava todos os dias, era particularmente problemático porque um tabuleiro de concreto particularmente grande deveria ser construído sobre um cruzamento muito movimentado, não havendo ali, espaço para colunas extras de sustentação. . Apesar de toda a polêmica a envolver aquela obra, o tal tabuleiro já estava assentado, aguardando apenas o acabamento e a instalação das redes de serviço. A rua que passava por baixo daquilo era bastante larga, a principal rua do bairro, com apenas um sentido mas com quatro pistas de rolamento...Por tal via passava um volume imenso de veículos que a larga via mal desafogava, em horários de pico...Eu olhava para aquilo todos os dias, antes de subir para a faculdade, avaliando o porque daquilo tudo e já via tais inspeções minhas, como uma rotina diária e nada mais.
       Certa manhã eu já havia descido do coletivo lotado e andado até a esquina, de modo a aguardar a abertura do sinal e olhava para o elevado em construção quando a coisa aconteceu...De repente, o tempo pareceu ir mais devagar, os sons do transito e das pessoas ao meu redor ficaram distorcidos e o que eu via em torno de mim era um cenário algo desfocado e com a velocidade alterada, como se eu estivesse presenciando tudo aquilo sob o efeito de drogas alucinógenas...Olhei para minha direita e a imagem do elevado parecia ser a única que mantinha-se normal...E eu não vi de imediato, a coisa mas, quando o fiz, a visão apresentou-se diante de meus olhos como uma parede que, adquirindo vida, tivesse-se lançado contra mim, sem aviso, tamanho foi o choque recebido...Desta vez eu vi a coisa inteira, sem conseguir desviar a vista. Estava distante de mim, em cima do tabuleiro de concreto e aço mas, parecia estar próxima pois eu via aquilo em horripilantes detalhes...Era escura, quase preta mas, não era uma névoa viva, como eu imaginara, parecia mais um amontoado de limalha de ferro, submetida a um campo magnético...Eu tivera um brinquedo de desenhar com limalha de ferro e ímã e o aspecto daquele material era idêntico ao que eu achava que via, agora...Era uma forma vagamente humana, com vestígios de braços e pernas; muito alta e com o que seria sua cabeça, muito grande em relação ao corpo...Na área central da tal cabeça, dois olhos medonhos fitavam-me...Mas não pareciam-se com olhos, eram duas cápsulas, como as de remédio, muito grandes, deitadas e com a textura de piche derretido, de uma cor preta, muito lustrosa... E aquilo parecia escorrer enquanto todo aquele corpo movia-se e pulsava , como se estivesse perto de explodir...Com esforço, eu consegui virar a cabeça de lado e meus olhos bateram em um relógio, daqueles digitais que ficam no alto de mastros e proliferam por toda a cidade, relógio esse que eu sempre consultava ao descer do ônibus e que, sempre marcava a hora certa...O tal relógio, também preto, com dígitos brancos, estava agora em foco, diante de meus olhos e marcava uma hora que não era a que deveria ser, por volta das sete da manhã...o aparelho acusava meio dia e trinta e seis, nem mais nem menos...E eu, mesmo sem perceber, decorei a tal hora, imediatamente...Minha cabeça foi então, como que desviada à força para um outro lado e eu vi-me ao lado de um homem que lia um jornal e, o canto da página que o homem lia naquele momento cresceu diante de meus olhos, como em um inesperado “zoom” e eu vi...uma data...Uma data que correspondia a um dia a acontecer em exatos seis dias, a partir do dia presente em que eu achava-me, diante de tudo aquilo... Eu olhei para o sinal de trânsito mais próximo a mim e vi que ele ficara verde...Passei a aguardar, como se soubesse que algo iria acontecer...Foi então que, o súbito tremor no solo e o estrondo de um descomunal estalo a assinalar que algo rompia-se, fez-se sentir e eu desviei mais uma vez, minha vista para a obra sobre as ruas, com ou sem aparição mas, tão logo julguei avistar aquilo, tudo escureceu a meu redor e eu fiquei por uma fração de segundo envolta em trevas até que, tudo clareou-se diante de meus olhos atônitos e a paisagem e os sons ao redor de mim voltaram à antiga normalidade....
      Eu estava avisada, não contei até um, para entender que aquela havia sido a Quarta Revelação, patrocinada pela entidade do mal, o que significava que, eu deveria interferir em algo que eu sabia o que seria, para o bem de muitas vidas...Não fora, como das outras vezes, algo lançado no ar, para ser compreendido, tudo fora, daquela vez, claríssimo para mim...Eu, agora, tinha uma hora, uma data e um local, sabia então quando, onde e como iria acontecer...e eu sabia o que iria acontecer...Tinha um prazo para planejar e preparar minha defesa, precisava pensar...Acabei indo para a faculdade e lá, em meio a estudos outros, comecei a pensar no que faria para desincumbir-me de minha missão e, já perto da hora de voltar para casa, eu já sabia como agir e que preparativos fazer...No âmbito da universidade havia uma bem montada oficina, do curso de metalurgia e eu, logo, soube que os funcionários dali costumavam fazer “gatos”, trabalhos avulsos, fora do curso, para si próprios e para os alunos que pagassem e eu, encomendei, então, em caráter de urgência, um certo tipo de material de que iria precisar em meu “embate contra as forças do mal”, a ocorrer dali a cinco dias O material ficou pronto no prazo estipulado e eu até que não paguei muito por ele, pagaria muito mais, o que me fosse pedido afinal, era necessário...Quando fui buscar aquilo tudo, eu fui, pela primeira vez, para as aulas, em meu carrinho novo, aproveitando para “ensaiar“ para o dia fatídico...Tudo precisava ser cronometrado à exatidão, eu não podia falhar em nada...Não podia então, fazer mais nada, que não, esperar...Estava ansiosa, nervosa, não parava quieta...Flá percebeu que eu não estava bem e me perguntou o que era mas eu preferi, dessa vez, não contar-lhe tudo, inventei algo bobo para justificar meu estado de espírito e acho que não a convenci muito...
       O tempo passou devagar, eu mergulhada em uma ansiedade crescente mas, afinal, o tal dia chegou...Naquela manhã eu saí com o carro mas, não fui pra faculdade. Estacionei o carro nas imediações do cruzamento, perto de meu ponto de ônibus e aguardei, andando por ali, nervosíssima, revendo na memória, passo a passo, todo o meu planejamento, de modo a detectar falhas e buscar corrigi-las a tempo...Eu não era infalível, obviamente não sabia se teria sucesso em minha empreitada e isso deixava-me muito mal mas, eu precisava de toda a minha lucidez para fazer algo que tinha de fazer...Naquele dia eu matei as aulas pela primeira vez, desde que iniciara o curso. Às onze e meia eu peguei o carro e segui o trajeto pré determinado, de modo a estar no cruzamento na hora certa...O trânsito estava terrivelmente moroso, os motoristas, nervosos com tamanha indolência aliada ao calor reinante, este, insuportável...buzinavam com freqüência de modo a desafogar um pouco o “stress”...Quase na hora que calculara, eu cheguei ao meu destino, chegara mesmo, adiantada...Com o coração aos pulos eu iniciei então, o meu teatro....Pouco antes do final da rua e um pouco à frente do ponto de ônibus eu encostei o carro, já começando a atrapalhar o trânsito caótico e desliguei o motor. Saí então do veículo e levantei-lhe o capô, passando a fingir que mexia no motor...Eu simulava uma pane para poder agir na hora certa. Já era então, meio dia em ponto...Os automóveis e ônibus passavam por mim e alguns motoristas me xingavam por eu ter enguiçado logo ali...para alguns, mais grosseiros, eu respondi, mesmo, às ofensas, com gestos feios e imprecações, eu estava mesmo, muito, muito, nervosa...Olhava de soslaio para o sinal de trânsito e deste, para o relógio digital, tudo precisava acontecer no tempo certo ou iria por água abaixo e muita gente perderia a vida, de forma horrível e dolorosa...Veio um policial perguntando se eu precisava de ajuda. Eu disse que não, que não estava tendo sucesso com meu motor mas que, já avisara meu pai do acontecido e ele logo chegaria. Pedi desculpas pela atrapalhação e puxei os documentos, meus e do carro mas o policial acreditou em mim e apenas passou os olhos pelos papéis, passando a desviar o tráfego de onde eu estava, dando-me cobertura.
       Exatamente meio dia e meia, eu fechei o capô do carro e nele entrei, acionando o motor, para surpresa do policial. Aguardei o sinal fechar e quando isso aconteceu, eu entrei em ação...Arranquei com velocidade, virei à minha esquerda e atravessei o carro no meio da rua, bloqueando duas das quatro faixas de transito, as centrais...Saí do carro com as chaves deste, na mão e varei-as o mais longe possível, após abrir o porta malas...De lá, retirei o material que encomendara nas oficinas da faculdade...Eram obstáculos de ferro, do tipo que furava pneus e que, não importava como estivesse jogado no chão pois, sempre teria uma ponta virada para cima, a aguardar o primeiro pneumático invasor...Apanhei aqueles objetos aos punhados e os arremessei à frente e atrás de meu carro, ocupando toda a rua...Trabalhava como louca desvairada, já começando a tumultuar o que ainda não estava tumultuado...Foi quando o sinal abriu e alguns carros avançaram alguns centímetros à frente mas parando logo pois, eu agora, arremessava alguns daqueles espetos em sua direção, a mostrar o que aquilo era capaz de fazer...A rua já estava atulhada de ferro  e eu corria de um lado para o outro, fugindo do guarda, que já me dava voz de prisão e de mais alguns cidadãos mais afoitos que estavam, naturalmente, com raiva de semelhante “louca varrida”...O caos instalou-se de vez naquele cruzamento e eu já jogava meus espetos nas ruas transversais, de modo a parar totalmente o trânsito de veículos no local...Corria desesperada, fugindo das pessoas que já queriam me linchar enquanto o sinal fechou de novo, tudo permanecendo parado...Buzinas soavam por todos os lados, pessoas fora de si, xingavam-me de tudo o que era ruim...Eu, já com dificuldade, escapulia por entre os dedos daquela turba feroz, aguardando apenas, que o sinal abrisse novamente...Eu, naturalmente, não sabia quem era aquela gente toda que estava contra mim mas, tempos depois, através de reportagens que acompanhei sobre o caso, vim a saber quem eram , uns poucos deles...

       Gente como Inodoro Palhares, que não tinha, apenas, o nome, feio...Motorista de ônibus há vinte e tantos anos, no trabalho era um mau profissional e em casa, um péssimo pai e marido...Alcoólatra não assumido, tinha o hábito de maltratar sua família, composta de esposa e três filhos e, exatamente naquele dia, acordara mal humorado e, antes de ir trabalhar, enchera o rosto da esposa de socos e tapas, por um motivo bobo qualquer e, fora também, particularmente brutal com o filho mais velho que, cansado de tanta violência, tentou defender a mãe...Acabou o menino com um braço quebrado e o mau pai nem deu-se conta disso, terminando por ir trabalhar...Ele dirigia um ônibus atrás do que estava retido por minha causa e, após gastar a mão na buzina e gritar muitos palavrões, desceu do ônibus de modo a ver quem estava causando toda aquela confusão e, se possível, arrebentar com tal “estrupício”, agindo do modo como mais gostava...Mas voltou logo, ao ver que o ônibus que estava à sua frente, movia-se...Logo, arrancou também mas não foi longe...

       Do outro lado da rua, dirigindo seu automóvel importado, que finalmente, conseguira comprar, após um caso bem sucedido que rendera-lhe uma alta soma, o advogado Daniel Massa estava também, irritadíssimo com o que acontecia a seu redor mas, hesitava em sair de seu veículo, ficando privado do agradável ar condicionado deste...Já recebera dois daqueles objetos de ferro que alguém estava jogando lá na frente na lataria de seu carrão e uma daquelas coisas arranhara de leve, a pintura...Daniel era um bom profissional mas, em casa, deixava um pouco a desejar...A mulher, dada a “fricotes”, vivia às turras com o filho, único, do casal, de nove anos de idade e espezinhava o marido, cobrando deste um “pulso mais firme “ para com o menino desobediente que não a respeitava...Daniel surrava o menino ante a menor queixa da esposa, achando que assim, ensinaria algo a ele mas, apenas nutria um forte sentimento de revolta, que já resultara em um quase suicídio, em uma tarde violenta quando, para escapar da fúria do pai, o garoto ficara com meio corpo para fora da janela do oitavo andar, não despencando por um milagre mas conseguindo deter, ao menos naquele dia, o pai estúpido, ao gritar, entre lágrimas que, se o pai o tocasse, ele se jogaria...Surpreso e atemorizado, então, Daniel recuou e, ao menos aquela surra...não aconteceu...Agora, Daniel estava atrasado para uma audiência e, finalmente, decidindo-se, abriu a porta do carro e começou a sair dele, para dar caça ao que parecia ser uma mulher insana, lá na frente da camionete que estava à sua frente, cheia de crianças e que buzinava como louca enquanto, não menos loucas, aquelas crianças, todas, esgoelavam-se, revoltadas, como revoltado, ele estava.

       Eu já estava cercada e encurralada...Aquela gente acabaria pondo a mão em mim e, fatalmente, eu apanharia, como nunca apanhara em toda a minha vida...Mas não desistia, precisava apenas de alguns segundos, até que tudo aquilo terminasse...terminasse bem...Mas, desesperada, vi que, quando o sinal abriu de novo, algumas pessoas já haviam removido parte dos ferros que eu jogara na rua, dos dois lados de meu carro e, um ônibus já passava, lentamente, desviando-se dos obstáculos, motorista e passageiros em uníssono a gritar-me nomes feios...Eu consegui driblar meus perseguidores mais uma vez e peguei do chão, mais um punhado de ferros, que joguei na direção do ônibus que passava mas, ele já cruzava minha frente com os pneus intactos...O outro ônibus veio logo atrás mas não teve a mesma sorte...Seus pneus dianteiros encontraram os ferros que eu havia acabado de jogar e eu ouvi o barulho alto deles, estourando...Fui para o outro lado da rua continuar meu bloqueio e vi, desesperada, que a camioneta entupida de crianças escandalosas também conseguia passar, a toda velocidade, após a remoção de alguns dos obstáculos por parte de populares...Eu ainda ergui a mão, cheia de ferros pontudos, disposta a atingir aqueles pneus quando vi, de relance, atrás de mim, o homem que brandia um enorme pedaço de ferro, cujo destino, naturalmente, era eu...Concentrei-me em meu arremesso mas, antes de consegui-lo, fui eu, atingida por uma lata de refrigerante, ainda cheia, jogada por uma das crianças da camioneta...Era uma daquelas latas antigas, duras e pesadas e atingiu-me em cheio na testa, deixando-me totalmente cambaleante e já cega de dor e devido ao sangue, que começou quase que imediatamente, a descer-me pelos olhos. Eu não vi o carro preto que veio atrás da camioneta, também a toda a velocidade mas, senti quando ele me atingiu pelo lado, lançando-me no asfalto fervente...Creio que estava perdendo os sentidos quando ouvi o estalo monstruoso e o barulho ensurdecedor, acompanhado de gritos, freadas e muita confusão...Eu sentia dores, muitas dores...Na testa, no lado esquerdo inteiro do corpo...Sentia o chão a me queimar a pele e a dor das perfurações em meus braços e costas...Comecei a ter dificuldades para respirar e foi nesse momento que desfaleci, enquanto o mundo desabava a meu redor...



QUE TRAGÉDIA, MEU DEUS!

       No início da tarde de ontem, no cruzamento das ruas Fulano  de Tal com Beltrano das Couves, uma horripilante tragédia, sem precedentes nos anais da história de nossa cidade, aconteceu, deixando a  população   chocada   com semelhante barbárie, que terminou com a vida de  dezenas  de  pessoas  que encontravam-se no local, na hora fatídica.  Exatamente ao meio dia e meia do dia supracitado, toda uma seção das  obras do Elevado Não Sei Do Que,  sem qualquer aviso, capaz de alertar a população do perigo, desabou inteiro e de uma só vez, indo de encontro aos veículos que, por baixo da obra trafegavam naquele  momento,  colhendo-os  inapelavelmente,  provocando  uma  imensa carnificina e uma comoção nunca antes, vista. Milhares de toneladas de concreto e ferro abateram-se contra cidadãos inocentes sendo muitos deles, segundo o testemunho de quem ali estava presente, crianças.
    Não são conhecidas as causas de tamanho desastre, que deixou as ruas do bairro de Qualquer Coisa transformado em uma descomunal praça de guerra com escombros por todos os lados a emoldurar a estúpida e estarrecedora mortandade. É praticamente certo que, não houve sobreviventes nos veículos que foram colhidos pela massa pétrea, inerme e assassina mas, o número certo de veículos atingidos pelo desabamento ainda é incerto e opiniões várias entrechocam-se, avolumando-se porém, uma corrente, defendida por quem viu o que aconteceu e garante que, devido a um acontecimento anterior à catástrofe e, logo a seguir comentado, poucos foram os veículos atingidos.


ANJO PROTETOR, MAIS UMA VEZ, SALVA VIDAS

       Devido à pronta e rápida ação daquela a quem muitos já chamam de “Santa Protetora” e outros adjetivos dignificantes, centenas de pessoas inocentes escaparam da morte, durante a terrível catástrofe acontecida no canteiro de obras do Elevado Não Sei Do Que quando uma enorme seção de rua, pesando centenas de toneladas no dia tal de tal do corrente ano, desabou sobre a rua que passava-lhe por baixo, fazendo muitas vítimas porém, em número muito inferior ao que esperar-se ia, caso o trânsito de veículos estivesse a plena carga na tal rua, no momento em que deu-se o desabamento.
    Falamos, naturalmente da cidadã Sandra Vargas, de dezoito anos, que, com uma coragem digna de uma lutadora, além de um inabalável desejo de proteger seus semelhantes, evitou uma tragédia muito maior, ao interromper, impávida, o trânsito de veículos em baixo das obras do elevado, arriscando a própria vida e correndo o risco de ser, mesmo, morta no local, vítima da turba ensandecida que formou-se contra ela, incapaz que era de enxergar a largueza e o altruísmo de seu aparentemente tresloucado gesto.  
    Essa não foi a primeira intervenção desta moça, da qual todos nós devemos orgulhar-nos por tê-la como concidadã, no tocante ao cuidado e ao amor para com seus semelhantes. Ainda está gravada na lembrança de todos nós a intervenção desta “Garota de Ouro”, no incidente que envolveu um shopping center de nossa cidade, anos atrás. Devido a um pressentimento, certamente igual ao que teve a brava Sandra, por ocasião dessa terrível catástrofe que, certamente causado por uma intervenção direta de Deus, evitou que mais de uma dezena de crianças, em uma tola aventura, perdesse a vida na explosão que destruiu toda uma ala do centro de compras atingido. Como sóe acontecer a todos os incompreendidos defensores da vida, nessa horrenda catástrofe do elevado, nossa pequena santa foi duramente maltratada pela população local, na hora do desastre e, apenas a tragédia maior evitou que ela fosse trucidada por pessoas insensíveis e embotadas pelo individualismo e desprezo para com seu próximo. No momento, a corajosa Sandra, nossa mais querida amiga, encontra-se hospitalizada mas, felizmente, sem risco de vida. Vamos rezar por ela e por seu pronto restabelecimento porque sua vida nos é, agora, preciosa demais para correr qualquer outro tipo de risco.


“EU NASCI DE NOVO”

       Assim expressou-se o motorista de ônibus Inodoro José Palhares, ao recuperar-se da crise de choro em que mergulhou após ver que, devido à intervenção da jovem Sandra Vargas, o coletivo que conduzia, lotado de passageiros, escapou de ser esmagado pala queda do tabuleiro de concreto do Elevado Não Sei Do Que, acontecido no início da tarde de ontem.
       Conta o felizardo profissional do volante que, quando viu que a corajosa Sandra furava os pneus de seu veículo, impedindo-o de andar, cego de um ódio irracional e sem justificativa, arrancou a alavanca de mudança das marchas do ônibus e partiu para cima da garota, disposto a, conforme suas palavras “ Arrebentar-lhe a cabeça”, cometendo enfim, um crime contra alguém que estava apenas e, simplesmente, salvando sua vida. Quando estava prestes a cometer o ato insano, o motorista Inodoro viu, na sua frente, o tabuleiro descomunal arremeter-se ao chão com fragor indescritível e, naquele momento, o que fez foi largar a barra de ferro que segurava e cair de joelhos, passando a entregar-se a um pranto descontrolado, entrecortado por palavras desconexas, balbuciadas sem aparente lógica. Amparado por populares, o motorista foi levado para uma central de triagem, onde eram recolhidos os feridos, atingidos pelo desabamento mas, após dar o depoimento que dá nome a esta matéria, evadiu-se, afirmando estar fisicamente bem.


SOBREVIVENTE DA CATÁSTROFE DO ELEVADO ENTRE A VIDA E A MORTE

  Ainda encontra-se sob sério risco de vida, internado na UTI do Hospital Central
o advogado Daniel Massa, uma outra vítima a escapar com vida do desabamento
do Elevado Não Sei do Que, acontecido há dois dias atrás, chocando de modo hor-
ripilante os moradores de nossa cidade. À ocasião da inominável catástrofe, o su-
pracitado profissional dirigia-se em alta velocidade, de modo a não perder um si-
nal aberto em um cruzamento e, em meio a sua corrida, atingiu a cidadã Sandra
Vargas, que havia interrompido o tráfego de veículos por motivos que tornaram-se
claros a todos, pouco depois de sua intervenção, aparentemente, desvairada...O
Dr, Massa, irritado, devido à interrupção de seu trajeto ao trabalho, acelerou seu
Automóvel, ao conseguir uma “brecha” no congestionamento provocado pela Srta.
Vargas e, em meio a seu ímpeto momentâneo, atropelou a moça que salvaria sua vida
e, por uma questão de frações de segundos, não foi seu veículo colhido pelo
tabuleiro cadente do elevado, tendo o auto, porém, colidido violentamente com
o colosso de concreto e aço que lograva atingir o solo, naquele exato momento.
Bastante ferido, o Dr. Massa foi retirado, por populares, das ferragens de seu veículo destruído, passando a aguardar socorro, perdendo muito sangue e, totalmente desacordado. Socorrido com prontidão pelo grupo de resgate e salvamento do Corpo de Bombeiros, o advogado deu entrada no Hospital Central onde, após uma cirurgia de emergência, foi transferido para a UTI dos acidentados, lá permanecendo em estado, ainda, muito grave e com sério risco de vida.

      Eu despertei em uma cama de hospital, engessada até a cintura, paralisada mas, já não sentia mais dores...Disseram-me que sofri fraturas múltiplas na bacia e no braço esquerdo mas que, não haveria seqüelas, após a consolidação dos ossos...Daniel Massa, o advogado que me atropelara estava entre a vida e a morte e, após eu perguntar com muita insistência sobre outras vítimas, informaram-me que o ônibus lotado e a camionete cheia de crianças foram atingidos em cheio, pela seção do elevado...Houve muitas mortes no ônibus e todas as crianças da camionete morreram...Soube depois, que o trocador do ônibus, colhido pela metade, pelo tabuleiro do elevado, estava sentado em uma posição em que, se estivesse poucos centímetros mais para trás, teria escapado com vida, como os passageiros que encontravam-se na parte traseira do veículo coletivo. Ele, o ônibus, foi, literalmente, partido ao meio e, junto com a parte dianteira, seguiu a cabeça do pobre trocador...Eu vi a foto horrível de seu corpo, inclinado para sua direita e o monte de metal misturado com concreto, no lugar onde sua cabeça estaria. Isso, mais a informação de que muitas pessoas do ônibus e todas as crianças da camionete morreram, tudo isso, lançou-me em um estado de depressão arrasador que me acompanhou por dias a fio...
      Eu falhara...A missão que me fora confiada fora um total fracasso, eu não soubera defender as vidas que me foram confiadas e, agora, presa a uma cama de hospital, sentindo o cheiro de remédios e vendo o vai-e-vem de enfermeiras e médicos, estava tão arrasada que não encontrava forças, nem mesmo para chorar...Meu pai esteve comigo durante muito tempo; sempre que podia, ele ficava comigo, em silêncio, entendendo que eu não queria falar, que não queria nada...minha mãe foi ao hospital, umas poucas vezes, permanecendo por um tempo ínfimo e a minha doce Flá teve a permissão de ficar comigo o tempo que me fosse permitido ficar com ela...Eu não chorava mas ela, sim; muitas vezes, me falando sobre o que eu fizera, “inspirada por Deus, Nosso Senhor”, conforme suas palavras...Mas, eu traíra Deus, traíra meu anjo mensageiro, falhara na missão que me fora delegada, ao menos, era assim que eu pensava, no momento.
      Muita gente veio me ver, ainda no hospital mas eu não quis receber ninguém, nem populares nem as equipes de tevê e os repórteres, ninguém...Bem...não totalmente...Eu recebi no meu terceiro dia acamada, os filhos do motorista Inodoro, assim como sua esposa...Eles vieram agradecer-me o “novo pai” que eu dera-lhes...Após o desastre, o homem havia mudado de vida, parara de beber e deixara de ser violento com a sua família...Entrara para uma igreja evangélica, buscando ajuda e, tornando-se, aos poucos, uma pessoa diferente do que fora, antes de quase haver morrido...Ele também viera me ver mas, eu não quis recebê-lo, irritada que, ainda estava com o jeito como ele tratava sua mulher e filhos. O menino mais velho, de treze anos, o braço engessado até o ombro quis me beijar no rosto e eu deixei...Afinal, toda a família me beijou e a esposa daquele homem chorou, durante quase toda a visita, me agradecendo a todo momento...Eu, completamente confusa, não sabia o que fazer. Aceitara a visita daquela gente a pedido da Flá, que servira como intermediária no encontro, comovida que ficara, com aquele povo, simples, sincero e agradecido...Mas, eu me sentia mal, ainda...Me doía pelo tanto de gente que morreu, vitimado por minha inépcia e fraqueza...Eu li os jornais, no hospital, enquanto convalescia de meu tratamento e foi então que eu soube da vida do motorista Inodoro e do advogado Daniel. Alguns jornais “escarafuncharam” a vida dos dois, os sobreviventes de mais destaque, da horrível catástrofe e, o advogado ainda entre a vida e a morte...Eu soube o tipo de maus pais que eles eram e tomei, por eles, a mais forte antipatia, por isso, recusei-me a receber o motorista que maltratava esposa e filhos e, a Flá me disse que o homem chorou, na sala que dava para os corredores que levariam a meu quarto, quando eu aceitei receber sua família, mas, não, ele...O que acontecera naquele cruzamento amaldiçoado fora, simplesmente fora de qualquer descrição, em matéria de horror...O ônibus que conseguira furar o meu cerco, fora partido no meio, degolando o pobre trocador e matando, além do motorista, dezenas de pessoas que apertavam-se na parte da frente do veículo superlotado...A camionete tivera destino pior: além de ser esmagada, ainda explodira com o choque do bloco de concreto, levantando uma porção daquilo, o que permitiria aos bombeiros chegar, primeiro, a aquele veículo cheio de crianças...todas mortas...todas destruídas...
      Disseram que eu era uma santa, escreveram laudas e laudas a meu respeito, nos jornais e revistas. Fizeram de tudo para me assediar, ainda no hospital e, em casa, quando fui liberada...Eu continuava, amargamente, deprimida, por causa do desfecho de minha, na minha opinião, malograda missão e, não aceitei ser a “heroína do mês”, a “santa redentora de toda uma cidade”...Não queria ver ninguém, não queria falar com ninguém...mas, também não queria passar uma idéia de distanciamento de todos, a colaborar com uma possível “canonização” minha...Desejava falar do que me acontecera, durante o caso do shopping e do elevado; queria relatar minhas visões, explicar como aconteceram e mostrar que eu não era uma “santa” coisíssima nenhuma...Mas, naqueles primeiros instantes, eu estava impossibilitada de tomar qualquer decisão, estava me sentindo muito, muito mal...como se, eu própria, houvesse matado as pessoas que não consegui salvar.

     Um dia, meses depois de minha alta no hospital, meses de recolhimento em casa pois que, até o curso na faculdade eu trancara, vieram me avisar que a família do advogado Daniel Massa estava à minha porta, junto com alguns repórteres recalcitrantes e, queria me ver....Daniel, afinal, havia escapado da morte e isso era bom...Decidi falar com a aquela gente e, o próprio Daniel eu recebi, pois, já não estava tão ressentida contra ele...Vi então, diante de mim, o garoto de nove anos, muito esperto e bonito, muito educado também...Sua mãe, era uma moça de aspecto fútil e vazio, de uma beleza insossa, o ar distante de quem não se envolve com nada, por puro medo...em muitos aspectos, muito parecida com minha própria mãe...E o pai, uma sombra do homem que fora e que eu vi através de fotos em jornais...Mais engessado do que eu, estava, andando com dificuldade, falando com dificuldade maior, o rosto, livre de bandagens a exibir feios vestígios de suturas, várias, a face bonita e de ar confiante deformada e retorcida...Nunca mais, aquele homem seria belo, como fora, até seu acidente...Enquanto a mãe manteve-se, durante todo o tempo da visita, afastada e distante, observando os móveis e adornos de minha casa, o menino e o pai ficaram perto de mim, falando muito, do que sentiam e eu, largada em uma poltrona, deprimida ao extremo, ouvia o que eles me diziam...O advogado Daniel então, me pediu, humilde e, sinceramente arrependido, perdão, por haver-me atropelado na rua, por ter tratado de modo tão cruel, alguém que, apenas, salvara sua vida...Surpreendi-me então, falando com aquele homem, dizendo-lhe que, se isso importava, tanto, para ele, eu o perdoava, sim, mas, ele valorizaria o fato de haver sobrevivido à catástrofe, que o quase mutilara, tratando melhor do filho e, contei-lhe então, o que havia lido nos jornais, com relação ao modo como ele tratava o pequeno Luís Guilherme. Para meu espanto, o garoto desabou sobre mim em um abraço inesperado mas, carinhoso e disse, emocionado.
     _ Não precisa ralhar com o papai...Ele já mudou comigo...pra melhor...
     Acontecera com a família de Daniel, o mesmo que acontecera com a família do motorista Inodoro e eu entendi que, aquilo não era incidental, antes, fazia parte do plano que fora a mim designado e que, talvez, eu não tivesse fracassado tanto quanto achara...Mesmo com as mortes das crianças, a decapitação do trocador, as outras mortes...Talvez, tudo estivesse planejado para acontecer do jeito que aconteceu, talvez eu não tivesse, mesmo, falhado tanto...Tal pensamento, porém não logrou tirar-me de minha depressão mas, ajudou um pouco...Daniel Massa nunca mais seria o mesmo homem que antes: piorara muito, fisicamente mas, por dentro, ocorrera uma grande melhora, segundo o pequeno e doce Luis Guilherme...
     Alguns dias depois da visita de Daniel, meu pai veio falar comigo, certa noite e contou algo que eu não sabia e que acontecera durante o tempo em que me isolara, sem querer contato com ninguém. Dissera o pai que, pouco após a catástrofe do elevado, antes que as primeiras perícias tivessem início, o famigerado e velho conhecido nosso, “O Paquete” havia, mais uma vez, tentado emporcalhar o nome de nossa família, insinuando uma relação entre a empresa do pai e a construtora do elevado, algo que nunca aconteceu. Diziam os articulistas da “imprensa marrom”, não de modo direto, mas, como sempre, com insinuações e piadas de mau gosto que, uma vez mais eu havia interferido em um desastre já previsto e que pretendia, com minha suposta “santidade”, salvar as aparências em um crime anunciado, não uma sabotagem, desta vez mas...um crime devido à incompetência  de engenheiros e construtores e à má fé de empresários sem escrúpulos, meu pai, um deles...Como da outra vez, a do shopping, meu pai ficou furioso, inclusive, por minha causa pois, ele não mais permitia que ninguém levantasse qualquer dúvida acerca de meus atos..Mas, como da outra vez, foi aconselhado a deixar a coisa correr, afinal, após as perícias, a verdade viria à tona...Incentivados pelo silêncio de nossa família, vendendo jornais como nunca e, já formando novas opiniões a meu respeito, modificando idéias e me denegrindo diante da opinião pública, transformando-me em uma “farsa”, o jornaleco foi em frente, até o momento em que Daniel Massa saiu do hospital.
      Disse-me o pai, que o advogado o procurou e que prometeu-lhe que, daquela vez, “as coisas não ficariam por isso mesmo” e, com facilidade e rapidez, reduziu o jornaleco marrom a “vilão da história”, denunciando seu jornalismo espúrio, sua falsidade de propósitos e sua canalhice jornalística, em um processo ruidoso e relativamente curto, durante o qual, não deixou “pedra sobre pedra”  até conseguir provar a má fé daquela gente...”O Paquete” fechou suas portas com suas vendas reduzidas a zero, os imóveis confiscados, para pagar as multas e custas do processo e a credibilidade de seus repórteres e redatores valendo menos do que o pó pisado no chão...Eu soube que os donos do jornal tentaram, por todos os meios, retratar-se quando viram-se em maus lençóis, publicando seguidos pedidos de desculpas, que não encontraram qualquer eco, e que, tentaram, mesmo, chegar até a mim, para desculparem-se e pedir para interceder a seu favor, coisa que, talvez, eu até fizesse...se fosse informada...Mas não fui, tudo correu à minha revelia e, após um tempo, “O Paquete” nunca mais iria caluniar ninguém...
     Houve também, uma outra visita em casa, esta, anterior à visita da família de Daniel Massa. Chamava-se a visita, Rodrigo e era ele, o garoto negro que eu encontrara –ou que, me encontrara- na rua, no dia do enterro da Terezinha e que fora tão bom para mim, em um momento de imensa dor...Soube, ele, de meu paradeiro, através das notícias de jornais e veio me procurar, dizendo à Flá que me conhecia e que, se fosse anunciado, eu o receberia, o que, de fato, aconteceu....Conversamos muito, naquela tarde, ele mostrou-se “magoado” por eu não ter-lhe dado o numero certo de meu telefone mas, acho que não falou a sério...Mas eu me desculpei, assim mesmo...Falei que, naquele dia estava muito mal e que, apesar de tudo, sua intervenção fora muito importante, para mim...Ele, então, após uma evidente superação de suas inibições, disse, finalmente, a que vinha: pediu-me em namoro, dizendo que, desde nosso ultimo encontro, não parara um só instante de pensar em mim e que, quando vira minha figura nos jornais, não pensara duas vezes, antes de me procurar e dizer o que sentia...Em meio ao mar de depressão em que eu me debatia, uma vez mais, aquele menino doce e meigo me oferecia uma “ilhota de consolo”, ao me dizer as coisas que disse, tocando-me o coração, como já o fizera antes...Mas, tive de recusar seu pedido, ao menos, naquele momento. Eu não me encontrava em condições de relacionar-me, com ninguém, por enquanto...Disse a ele, então, tudo o que sentia, tudo o que me afligia e entristecia, minha história com meus “fantasmas”, as visões, os incidentes e catástrofes, tudo eu disse a ele que me ouviu com inteira atenção, segurando minha mão durante quase todo o tempo, entrelaçando nossos dedos e sentindo minhas emoções, através da pele e eu, sentindo sua vibração positiva, o que me fez um grande bem...Disse-lhe, afinal que, quando eu saísse daquele estado de prostração, quando me conformasse com meus “fracassos”...ele seria o “candidato numero um” a namorado, pois que eu sentia, em profundidade –e eu falava com conhecimento de causa- que ele tinha, tudo, para me fazer feliz...Disse que pretendia sair de casa, mais para a frente e que dar-lhe-ia meu novo endereço e que, dessa vez, seria o correto porque, eu iria esperar a visita dele, por quantas vezes ele quisesse me visitar....Afinal, fui levá-lo à frente de casa e, meio que por impulso, meio que de caso pensado, ao ver as objetivas dos fotógrafos e a aglomeração de repórteres, diante do portão de minha casa, dei-lhe o beijo que ele queria me dar, há tempos, tendo, mesmo, quase tentado: beijei Rodrigo, de boca aberta e com língua...Não foi meu primeiro “beijo íntimo”, claro, mas, foi o mais intenso e doce de todos, eu a comandá-lo e, tendo-o iniciado...Durou tal mostra pública de carinho, um bom tempo, enquanto as máquinas disparavam, registrando o ocorrido...Despedimo-nos, então, eu, deliciada com o gosto dele em minha boca e já sabendo que, sim, eu iria namorar aquele garoto... não agora...mais tarde...se ele ainda me quisesse...e ele, “pisando em nuvens”, das quais foi arrancado, à força, pela turba, sequiosa, de repórteres que, tinham nas mãos, um “prato cheio”;...simplesmente, o “namorado da santinha”!
      Nos dias seguintes, antes e após a visita de Daniel e sua família, eu manifestei meu desejo de me ausentar de casa, por uns tempos...Queria eu, ficar com a tia Ignez em sua casa isolada na encosta do morro do jardim botânico, para descansar, colocar a cabeça no lugar e fugir, um pouco que fosse, do assédio da imprensa que, após flagrar-me com meu “namorado” em “atitude íntima”, não dava mostras de arrefecimento. Os jornais publicaram à exaustão, as fotos do beijo e isso, me divertiu, muito...Eu pensava, com freqüência, em Rodrigo e, até já dava como certo, algo entre nos, mas, não queria tomar nenhuma decisão de “cabeça quente” algo que, talvez, fosse atingir, de modo ruim, aquele “menino caído do céu”, algo que eu não queria, de jeito nenhum. Meu pai não fez qualquer comentário sobre meu beijo e eu notei que seu modo de ser, para comigo, estava-se modificando e, para melhor...Minha mãe, no entanto, não gostou, nem um pouco, do que viu nos jornais mas, também nada disse, preferindo demonstrar, através da ironia e do sarcasmo que, não gostara, nem um pouquinho, da intromissão daquele “negrinho suburbano” em minha vida....ah, mamãe...
      Afinal, eu fui à casa da tia Ignez e, por lá fiquei, durante um tempo, afastada da imprensa e recebendo a visita de meus pais e do Rodrigo...A Flá foi comigo e não me largou um só momento, eu era a “santinha” dela mas, já o era, antes das Revelações e, entre nós, nada mudou...A tia ficou muito feliz em me hospedar e, durante muitos dias e noites, nós conversamos, sobre todos os assuntos possíveis, tentando esclarecer o máximo de dúvidas possível, eu, a cada momento, sentindo-me, mais e mais, segura de mim mesma, superando a dor que me afligia e convivendo com meus “dons”...As visões, embora, escasseando, de modo significativo, ainda ocorriam...
     Um dia, meu pai veio me visitar, sozinho e, nesse dia, nós conversamos, mais do que nunca fizemos antes...Era visível o esforço que ele fazia por tentar comunicar-se, rompendo barreiras pessoais, que levantara, defensivamente, em torno de si, durante toda sua vida, porque, eu não sei...Ao despedirmo-nos, na frente de casa, ele caminhou alguns passos em direção a seu automóvel mas, parou, como se lembrasse de algo e então voltou para perto de mim e disse.
     _ Sandra...Alguma vez eu já te disse...que eu sinto um orgulho...imenso...mas, imenso mesmo, maior do que tudo o que você possa pensar...de você?
     _ Não...eu acho que nunca disse...-eu respondi, confusa, sabendo que ele nunca dissera nada parecido.
     _ Pois então, eu estou dizendo agora...- ele tornou, com um sorriso tímido nos lábios.
     Disse isso e depois, chegou perto de mim, beijou-me, de leve, no rosto –o primeiro beijo que eu me lembro de meu pai- e afastou-se em direção ao automóvel quando então, antes de entrar, virou-se e acenou para mim, com o olhar tansbordante de carinho e felicidade, como eu nunca vira meu pai, antes, enquanto que, próxima à escadinha de acesso à varanda de sua casa, vendo o automóvel partir, tia Ignez sorria, de modo discreto e a Flá, a meu lado, -eu
celso dyer
Enviado por celso dyer em 21/12/2017
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