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Angelus


       Seu nome era Alexandra...Alexandra Márcia Magno, herdeira única de todo um braço da clã dos Magno, liderado pela todo-poderosa Maria Helena...Alexandra ou melhor, Ale, Alex, Xandra ou Xan, - os apelidos eram variados - nunca deixou-se contaminar pela influência, misturada com prepotência, da mãe...Procurou ela, desde cedo, viver a sua vida e não, a vida que sua mãe decidira para ela...Tinha um grande respeito por sua progenitora e dela, de fato, muito gostava e não, pelo simples fato daquela tê-la colocado no mundo...De fato, Maria Helena era uma boa mãe...boa até demais...
       Xan, agora era uma mulher de vinte e poucos anos, casada e já esperando seu primeiro filho...Vivia uma vida feliz, ao lado de quem acreditava ser, seu “Príncipe Encantado”, escolhido por ela...Um namoro, um noivado e um casamento levados a termo, sem a interferência da mãe que, bem que tentou intrometer-se nos destinos de sua filha querida...Criada desde pequena, sob uma “redoma de cristal”, Xan acreditava que a vida era o que sua mãe dizia que era; habituara-se desde cedo a ouvir apenas o que a mãe dizia e ler o que a mãe permitia e escrevia, no jornal da base militar, em que reinava absoluta afinal, era a esposa da maior lenda viva da aeronáutica, o Major Brigadeiro Magno, engenheiro e inventor, com uma sólida reputação a acompanhá-lo e, ainda na ativa, para alegria de seus subordinados, que viam nele, não um líder mas, um pai...já a “dona Maria Helena”...
       Ao completar, com sucesso, mais uma etapa de sua vida –o casamento e, acreditava, a maternidade -, Xan, em certa noite de pouco sono, fazia, mais uma vez, um balanço de sua vida que, procurava manter, sempre, atualizada, nos muitos diários que escrevia, desde que tinha aprendido a escrever; no início, bastante pressionada por sua querida mamãe mas, depois, tomando gosto pela coisa e achando que tinha jeito para ela, passando a encarar tal tarefa com prazer...Xan gostava de escrever e escrevia bem, ela achava...e apenas, ela...Nunca mostrava seus escritos para ninguém, nem os diários e nem os diversos cadernos cheios de contos, crônicas e, até, dois romances iniciados...Quando ganhou um computador, de presente da mãe, passou a escrever, tanto o diário quanto os contos e romances, na bendita máquina, facilitando em muito, o fluir de suas idéias...Com o tempo, passou a comunicar-se, via Internet, com escritores amadores, em “chats” específicos e, procurava ler de um tudo, encontrando muita coisa que agradava-lhe...Mas não atrevia-se a divulgar seus escritos, sentindo-se intimidada pelos temas escolhidos por seus colegas de pena e teclado...Falava-se muito de violência, horror, mistério, assuntos por demais bizarros que ela gostava, até, de ler mas, que não era, em absoluto, sua temática, voltada esta, totalmente para o romance e para um modo positivo de se encarar a vida...Sua prosa era “água com açúcar” demais e ela temia ser ridicularizada pelos membros das comunidades literárias de que participava, alguns muito incisivos em suas críticas, outro implacáveis...e uns poucos, declaradamente grossos e mal educados...Xan até gostaria de responder a esse tipo de “críticos”, tomando as dores de quem fora atacado mas, continha-se, achando que, afinal, não tinha nada a ver com aquilo e guardando para si, suas pequenas revoltas.
       Mas, conforme foi dito anteriormente, em uma noite de pouco sono e muita lua, Xan havia-se levantado da cama, procurando não acordar seu bem-amado e, sentada na varandinha de seu apartamento no décimo sétimo andar daquele arranha céu novinho em folha, seu “ninho de amor”, comprado por seu príncipe, dispensada que fora, a enorme casa, dentro da base aérea, próxima à casa dos pais, que a mãe tentara obrigá-la aceitar, olhava a futura mamãe, a enorme lua cheia no céu e, uma vez mais, achava que algo em sua vida estava faltando...Inúmeras vezes, em sua história recente, ela pensara assim mas, não sabia bem o que era que faltava-lhe e, nem quando começaram tais pressentimentos...Havia algo em sua vida que precisava ser resolvido e, tal certeza, definitivamente, tirara seu sono, naquela noite...Sentada em sua cadeirinha de vime predileta, sentindo o ventinho frio e noturno que circulava por ali, acariciando sua barriga que começava a dar mostras de querer aparecer, Xan divagava e tentava solucionar aquele enigma em sua vida...Durante o dia ela, a sua vida, era tomada por estudos e a preparação de sua tese na faculdade...então não havia espaço no micro e nem na cabeça, para divagações acerca de dúvidas e ansiedades...Quando seu príncipe chegava à noite, do trabalho, ela seria apenas atenções para ele...amava demais aquele homem e fazia questão de deixar isso bem claro, inclusive para sua diligente mamãe, que ainda não “engolira” o surto de independência da filha...logo sua filha agiria assim, com ela, que estava acostumada a ter o mundo a seus pés.
       _ Coitada da mãe –Xan pensava ao lembrar dela- ...ela deve ter alguma carência muito maior do que a minha...se é que o que eu tenho é alguma carência...
       Quando os estudos o permitiam, estando ela, apenas, com seu neném, dentro de si, em casa, ela revirava seus guardados, arrumando e classificando tudo aquilo, cada vez de uma forma diferente e, em uma dessas arrumações, acreditou que havia encontrado algo muito importante, algo que poderia responder muitas perguntas e tirar muitas dúvidas...Como não reparara naquilo antes? parecia que perdera aquilo há muito tempo e que agora, encontrava, para sua total surpresa...Era um convite, o convite de sua festa de quinze anos...Não fazia muito tempo que ela completara quinze anos de idade mas, como que esquecera de quase tudo o que acontecera naquela época...Agora, olhando para aquele papel dobrado ao meio, escrito com a caligrafia mais linda que já vira, adornado com desenhos delicados, de lindas cores, tudo feito à mão por um verdadeiro mestre das letras e dos desenhos, procurava lembrar coisas de um passado recente mas, que pareciam ter acontecido há muito, muito tempo atrás...Intrigada com sua falta de memória, Xan olhava aquele convite manuscrito com insistência, como se perguntasse para ele o que havia acontecido, qual o sentido de tudo aquilo que ela sentia mas que, não conseguia descrever o que era...Após algum tempo de concentração, ela lembrou afinal que, sua festa de quinze anos fora a linha divisória de sua submissão à mãe e sua conquista do próprio livre-arbítrio...De fato, ela recusara o convite pomposo impresso e impessoal que a mãe propusera ( impusera? ) e optara por aquela pequena jóia de papel...A mãe criara um caso danado a respeito disso mas, a vontade da filha prevalecera por algum motivo...Seu pai...seu pai ficara do lado dela, contra a mãe...Ele nunca metera-se em qualquer assunto entre as duas mas o fizera, naquela ocasião, desarmando Maria Helena, para completa surpresa desta que ficou durante muito tempo de “cara amarrada”, amargando a primeira derrota em sua vida de vitórias...Mas, ela não escolhera aquele convite sozinha, alguém a ajudara, apresentara-lhe a pessoa que o confeccionara mas, ela não visualizava essa pessoa...e nem a amiga ( achava que fora uma amiga ) que falara-lhe sobre o convite...Mas que memória a sua, esquecera de algo que parecia ser importantíssimo em sua vida, porque? Talvez a faculdade tivesse parte da culpa, talvez as mudanças que sua vida tivera, o encontro com seu príncipe, o casamento, sua nova vida...Mas aquilo não podia continuar do jeito em que estava, ela começara a sentir-se incomodada afinal, conseguira recordar de algo importante, acreditava que tinha um caminho a percorrer e dele, não desviar-se-ia, de jeito nenhum, sabia disso...Bem, o jeito era dar tempo ao tempo e deixar que as lembranças voltassem quando melhor lhes aprouvesse, ela teria paciência... E apenas quase uma semana depois daquela noite de lembranças esquecidas, elas, as lembranças, voltaram, muito tímidas...Vieram de noite, na casa de praia de amigos, após uma noite de amor de enlouquecer, como tantas outras que, volta e meia, usufruía com seu amado...E foi apenas um nome...Rebeca...uma das amigas de sua mãe e a pessoa responsável por sua mudança de atitude, em relação ao tal convite de sua festa de quinze anos...Rebeca agira em segredo e fizera com que ela prometesse jamais dizer a sua mãe que ela “fizera-lhe a cabeça”...Ela prometeu guardar sigilo e manteve a promessa...e o resultado de tamanha trama contra Maria Helena fora o convite, feito totalmente à mão, em um papel artesanal, lindo, cheio de texturas delicadas, desenhado e pintado com tintas que não perderam o brilho com o passar dos tempos...Mas, quem mesmo fizera aquilo? Às vezes parecia prestes a lembrar mas, a lembrança fugia, como um animal arisco e avesso ao toque humano...E onde andava a Rebeca?...Se ela tinha vinte e poucos anos, a amiga de sua mãe deveria estar entrando nos trinta, ela era pouca coisa mais velha do que ela, Xan...Iria, certamente, pesquisar o paradeiro de sua amiga mais velha, perguntaria à mãe, ela deveria saber onde Rebeca estava...Sem sono mas, também, sem vontade de desvencilhar-se do abraço protetor de seu pequeno deus, que a agarrava sem, no entanto, incomodá-la, mesmo dormindo, Xan lembrou de detalhes de sua festa mágica de quinze anos...os convidados, os enfeites, as danças...Seu pai, enfardado até as orelhas, parecia feliz e...comovido, ela notara-lhe os olhos úmidos, durante a valsa e sua reação instantânea foi ter, também, vontade de chorar, o que tentou ocultar, apertando-se contra o peito aconchegante e protetor de seu amado papai, tão emotivo, coitado...que nem ela...Parecia que sua vida, que jamais fora ruim, sofrera uma mudança a partir daquela festa...Tudo dera certo para ela, os desafios de uma nova vida a dois, o entendimento com seu consorte, surgido quase de repente em sua vida...a felicidade de dividir seu tempo, vida e intimidade, com ele...a gravidez tão desejada, tão tranqüila e sem sobressaltos...E, por algum estranho motivo, ela desconfiava que o convite de sua festa tinha algo a ver com aquilo, assim como a participação da amiga Rebeca na trama...Uma trama armada para fazê-la sempre feliz...porque?
       _Xan, sua doida, você por acaso é o centro do mundo? –ralhou em pensamento consigo própria e tentou encontrar em sua vida já vivida, algum momento de dissabor, de tristeza ou infortúnio...não encontrou...Parecia que sua vida fora fadada a ser “cor de rosa” para sempre e algo dentro dela dizia que aquilo não podia ser assim, algum motivo deveria haver e ela o descobriria...E começaria por Rebeca e pelo convite...descobriria quem o fizera e iria atrás das respostas às perguntas que não foram, no entanto, feitas...Quando voltasse para casa, procuraria a mãe e iniciaria sua busca...E, de fato, quando voltou para seu lar e seus estudos, procurou Maria Helena para perguntar sobre Rebeca.
       _ Ela tá no exterior –disse-lhe a mãe-...Aquela doida largou tudo o que tinha por aqui e foi ser correspondente internacional...Tá lá no Oriente Médio, lutando pelos direitos das mulheres de um país por lá, junto com outras malucas de uma ONG ou coisa parecida...você tá me perguntando isso porque viu ela na tevê, no jornal de sábado?...Lá estava ela, metendo-se em assuntos dos outros; e ela parecia tão equilibrada, nossa...
       _ Eu não vi não, mãe, nem vi tevê nesse fim de semana...Só lembrei dela, faz tanto tempo que não a vejo...Cê tem o um número de telefone ou algum endereço pra eu me comunicar com ela?
       _ Ora, tem o celular dela, tá sempre ocupado mas, com alguma insistência, você pode conseguir falar com ela...E em casa, como vão as coisas...e o bebê.?
       Xan ainda conversou algum tempo com a mãe, na varanda de sua casa, lá na base aérea, o pai estava trabalhando. Mais tarde, estando a sós com livros e teses, ela decidiu tentar entrar em contato com a amiga Rebeca, ou a Reb, como a chamava...Ligou para o número de telefone que a mãe dera-lhe e, após apenas um toque, ouviu do outro lado da linha, a inconfundível voz de Reb...
       _ Oi, Xan...
       _ Como você sabia que era eu? –perguntou uma aturdida Alexandra.
       _ Digamos que foi “intuição feminina”...O que você me conta, sua futura mamãe?
       _ Você tá com tempo pra falar?
       _ Com você...todo o que for necessário...
       Conversaram então sobre suas vidas; Rebeca contou de seu trabalho no velho mundo, sua luta contra a opressão, sobre como conseguira seu grupo, evitar um massacre terrível, a execução de muitas mulheres, por motivos quaisquer, todos irrelevantes; falou da insegurança de viver aquela nova realidade, as ameaças, os confrontos...e as vitórias.
       _ Mas, porque isso, mulher do céu? –perguntou Xan-...Porque sair de sua casa e comprar a briga alheia?
       _ Alguém tem de fazer isso, minha querida...Como eu não sei quem é esse alguém, vou eu mesma, com minhas companheiras.
       A conversa prosseguiu, tarde adentro e Xan tocou no assunto sobre o qual desejava falar: Sua festa de quinze anos e o famoso convite. Rebeca parecia feliz ao comentar aquilo.
       _ Eu tenho o meu até hoje, o que você me mandou...levo sempre comigo...junto do outro, o dos “meus” quinze anos.
       _ Foi a mesma pessoa quem fez os dois?
       _ Não, não foi...O meu foi outro artista quem desenhou e escreveu, tudo a mão, uma montanha de convites, nem sei como foi possível...Mas, o seu, eu lembro, foi o velhinho chinês, daquela gráfica lá no cetro da cidade...Você foi lá, comigo, lembra?...Era uma lojinha subterrânea, tinha um elevador velho como o tempo, ainda içado por correntes...A gente teve medo de usá-lo e foi pela escada mesmo...A escada rodeava o elevador, o local ficava uns dois andares abaixo do nível da rua...Tinha uns três desenhistas trabalhando em suas pranchetas, parecia um daqueles mosteiros onde os monges ficavam copiando livros, quando ainda não havia imprensa...Era tudo tão antigo...tão mágico...Os objetos que tinha por lá, a iluminação...os artistas...O velhinho chinês estava lá, foi ele quem fez seus convites, todos a mão, mais de quinhentos...Que exagerada que a sua mãe é, hein?
       _ Você tem o endereço dessa gráfica?
       _ O endereço não mas, eu sei como chegar lá, fui tantas vezes ver o andamento dos trabalhos...Olha, eu vou desenhar um mapa e te mando via e-mail, tá bom?
       _ Ta bom, `brigada...
       Conversaram um pouquinho mais e despediram-se, cheias de recomendações uma para a outra, desligando os telefones após. Xan ainda estava intrigada com o fato de Rebeca estar esperando por ela, do outro lado do mundo mas, acabou achando que sabia o motivo:
       _ Foi a mãe...a mãe ligou pra Reb pra dizer que eu ia ligar depois...Mas, como ela sabia da hora exata?
       Algumas horas mais tarde, ao abrir sua caixa de correspondência, Xan viu com alegria que a amiga Reb havia-lhe enviado o tal mapa que desenhara, indicando a localização da gráfica onde o velhinho chinês trabalhava.
       _ Essa Reb é “dez” mesmo – murmurou ela, animada.
       No dia seguinte, depois das aulas na faculdade, passou em casa para almoçar, leu as mensagens no micro ( seu príncipe encantado deixara-lhe mais um versinho...ele era péssimo poeta mas era um amor...) e, logo depois, tomou um banho, trocou de roupa, almoçou e saiu rumo ao centro da cidade e à tal gráfica, onde trabalhava um ancião oriental que manejava pincéis, tintas e penas com as mãos de um anjo...Demorou a encontrar o tal endereço, tudo parecia mudado, as lojas e estabelecimentos comerciais que Rebeca assinalara como referência não estavam todas lá, muitas mudaram de ramo, outras simplesmente desapareceram em pouco menos de dez anos...Mas, finalmente, encontrou o que precisava: O prediozinho estreito, decrépito com a pintura da fachada, em estilo “art nouveau”, toda descascada...lembrava-se vagamente daquilo, como pudera quase esquecer algo que fora tão importante para ela? A porta da frente estava aberta, ali ainda funcionariam alguns estabelecimentos, talvez a própria gráfica, ainda estivesse lá, bem, bem no subsolo.
       Entrou no edifício escuro e aparentemente deserto...havia portas dos dois lados de um corredor  mas, estavam todas fechadas, ao fundo estava o tal elevador movido a corrente...Lá estava, ela lembrou daquilo também, viera ter ali com Reb para encomendar os quinhentos e tantos convites, que seriam todos feitos à mão pelo artista chinês, do qual ela não lembrava de modo algum, apesar de ter a certeza de tê-lo visto...Desceu as escadas sólidas, de ferro forjado a cercarem a grade que envolvia o elevador decadente, parado no fundo do poço...Lá embaixo havia um saguão sextavado com um piso de pastilhas muito bonito, com desenhos delicados mas sujo e mal conservado...Em cada uma das seis paredes havia uma porta de madeira decorada mas, todas as portas estavam fechadas, ali não comercializava-se mais nada, há quanto tempo?...Uma daquelas portas era a da gráfica mágica, com um velhinho mágico que fizera muito por ela, possivelmente mudara sua vida com um lindo e delicado trabalho de pintura em papel...Sinceramente triste, Xan viu que algo importante para ela, estava perdido, possivelmente, para sempre...E por ali ela ficou, olhando aquele ambiente sujo, velho, sem manutenção, deserto...mas, tão acolhedor e belo, em sua penúria e abandono...Ia, afinal, sair quando o viu...Não sabia se já estava ali quando chegou, afoita que estava por descobrir algo de seu passado mais ou menos recente...Mas, agora o via...Um homem, um homem negro, muito velho, o cabelo branco e encarapinhado, coroando a face escura, serena e enrugada...Vestia um macacão surrado e, com uma vassoura, varria inutilmente aquele chão imundo demais...Parecia não ter dado-se conta de sua presença e cantarolava algo enquanto trabalhava...Xan, sem saber porque, sentiu um imenso carinho por aquele outro velhinho que, não era o que procurava, mas, que dava-lhe uma forte impressão de paz, serenidade e grandeza, em sua óbvia humildade. Normalmente amável com estranhos mas, desta vez, especialmente tocada pela figura do varredor, Xan foi falar-lhe.


       _ Não, minha senhorita, aqui não funciona mais a gráfica, fechou há uns cinco anos, quase não tinha serviço por aqui, eu lamento informar.
       _ Está tudo bem, obrigada –ela disse com carinho-...Bem, eu já vou então, tenha um bom dia, até mais ver.
   _ Um bom dia pra senhorita também – ele disse, voltando a varrer seu chão, despreocupadamente.
       Mas, nem bem tinha dado dois passos em direção à escada de ferro e um clarão de lembranças atravessou o pensamento de Xan, que voltou para perto do velho e perguntou.
       _ Mas, o senhor também não trabalhava nessa gráfica? E não com varredor mas, como desenhista?...Eu acabei de me lembrar, eu estive aqui, no passado, com  uma amiga e acredito que vi o senhor, atrás de uma prancheta, trabalhando...junto com um velhinho chinês ou japonês, não era assim?
       O velho olhava para ela como se não entendesse nada.
       _ Não, minha senhorita ( ele naturalmente, desconhecia que Xan era uma senhora casada e sua gravidez recente não a entregava )...a senhorita se enganou, eu não trabalhei aqui, como desenhista, de vez em quando eu fazia faxina por aqui, como ainda faço, e é só isso...Mas, quanto ao tal velhinho chinês, eu lembro dele sim, foi bom a senhorita falar...Mas, a última notícia que tive dele foi que morreu...pouco tempo depois da gráfica fechar, eu ouvi alguém comentar...e é só o que sei.
       _ Ah...ele morreu?...Bem, então está bem, eu já vou, eu...eu posso fazer algo pelo senhor?
       _ Porque?
       _ Não sei, eu...talvez o senhor precise de algo...que eu possa ajudar...
       O velhinho abriu um largo sorriso de poucos dentes ao dizer.
       _ Não, minha menina iluminada, eu não estou precisando de nada, mesmo vindo de um anjo...Obrigado, eu estou bem...
       _ Tá, então eu já vou...
       _ Seja feliz, a senhorita merece.
       Subindo a longa escadaria, Xan já não segurava o choro, deixando que algumas lágrimas extravasassem o que sentia. Estava emocionada com o encontro lá de baixo, sentira dor ao saber que seu artista oriental falecera e ficara tocada pela pureza e simplicidade do velho varredor negro...Ele mentira para ela, trabalhara na gráfica, sim, mas, ao perder o emprego, não tivera opção a tornar-se um varredor, possivelmente ganhando muito menos que antes, talvez passasse, até, necessidades...mas mantinha-se digno, sempre trabalhando e sendo gentil com as pessoas...Seu desejo imediato foi voltar, pegar o velhinho e levá-lo para sua casa, onde dar-lhe-ia uma ocupação mais digna e melhor remunerada...Seu príncipe iria gostar dele...É, não havia tempo a perder, Xan desceu novamente as escadas mas, quando chegou ao saguão sujo, o velhinho não estava mais lá...Desaparecera, possivelmente, por uma daquelas portas, talvez morasse ali mesmo, por não ter para onde ir...Triste e frustrada, achando que não sabia nada sobre a vida, Alexandra Magno saiu à rua, para voltar para sua casa, enfrentando, novamente, o burburinho do centro da cidade...Estava aguardando que um sinal abrisse para ir à estação de metrô quando viu, com uma assustadora nitidez, do outro lado da rua, a figura do velhinho chinês ou japonês, exatamente como ela imaginara ou guardara na memória, sem o perceber...Ela agora lembrava dele, era ele mesmo, vestia-se com muita humildade, parecia muito pobre, era baixinho, muito magro, quase careca e ostentava um fino bigode branco que caia-lhe dos lados da boca; sobre o queixo, um cavanhaque comprido, ralo, também branco, como os cabelos da cabeça...Segurava em uma das mãos um pincel comprido e na outra, uma folha de papel...Olhava para ela com um ar feliz, a extravasar ternura...mas estava inacessível, Xan não podia atravessar a rua para alcançá-lo, os automóveis pareciam monstros ensandecidos de metal, a impedi-la de alcançar alguém por demais querido e o sinal de transito não fechava nunca...mas fechou e Xan, quase fora de si, atravessou a rua às carreiras, sendo englobada no meio do caminha pela multidão, que também cruzava a via e, ao chegar do outro lado, não viu nem sequer um vestígio da presença de seu velhinho, que fora dado como morto mas, que estava vivo e muito vivo, ela o vira, diante de si...
       Uma vez de novo em casa, Xan ligou mais uma vez o micro para ver se novas mensagens surgiram e viu que Rebeca mandara-lhe uma. Dizia assim...“ Pode até parecer que você não conseguiu o que buscava mas, acredite, está no caminho certo...Mais convites virão e você decidirá se deve aceitá-los ou não”...O que significaria aquilo?...À noite, no escuro do quarto, aninhada nos braços de seu deus terreno, Xan falou de sua pequena aventura do dia, a visita à gráfica inexistente, o encontro com o velho faxineiro e a visão que tivera do artista oriental...Disse da ternura que o velho varredor negro causara-lhe e do ímpeto que tivera de levá-lo para casa, sem o conseguir.
       _ Você ia gostar dele, eu sei que ia...Ele era tão doce, tão...puro...
       _ Certamente que eu iria gostar – seu marido falou, apertando-lhe o corpo em um abraço e pondo a mão em sua barriga que começava a dar mostras de si-...Claro que eu ia gostar dele...Esta é a minha Xanxan, sempre mais preocupada com quem está ao lado do que com ela própria ( Ela adorava quando ele falava seu apelido dobrado ).
       Ele começou então, a contar o que fizera naquele dia, na redação...Era repórter e, com alguma freqüência, era mandado ao exterior para cobrir alguma notícia...E Xan lembrou então que, fora Rebeca quem o apresentara a ela...Lembrou da paixão fulminante que sentira por um desconhecido, uma pessoa de fora do universo de sua mãe...depois veio o namoro, o noivado, rapidíssimos e, depois...Reb fora seu cupido, afastara-a um pouco da influência forte de Maria Helena, fora responsável por sua felicidade recente...e parecia saber, mesmo à distância, tudo o que acontecia com ela...como um anjo da guarda...Xan acreditava em anjos e, para ela, Rebeca era um deles...Precisava falar com a amiga da mãe e dela, precisava perguntar o quanto ela sabia de sua vida, faria isso no dia seguinte...
       Mas, ao tentar um contato com Rebeca, via celular, soube, frustrada, que o aparelho dela estava fora de área...Deixou então um recado em sua caixa postal e foi cuidar da própria vida...Estava angustiada com alguma coisa que não sabia o que era; naquela tarde fez uma faxina completa no apartamento, apenas para ocupar as mãos e a cabeça, quando seu marido chegasse, ela estaria exausta...Arrumando suas gavetas, deu de novo com o convite de sua festa de quinze anos...Misterioso convite, havia algo a respeito dele que precisava saber, algo que Rebeca conhecia...E, mais uma vez, ficou longo tempo admirando aquele trabalho delicado, tão bonito a evocar tantas lembranças boas...Naquela noite, no noticiário, soube do ataque frustrado a uma aldeia longínqua, lá nos confins onde Reb estava...Ia ser um massacre horroroso de civis, ordenado por um ditador motivado pelo ódio e pelo preconceito, uma vingança sem sentido, motivada por algo irrelevante...Uma equipe de reportagem estrangeira levara tropas da ONU para a tal aldeia, antes que o tal ataque fosse desencadeado...Milhares de inocentes escaparam da morte e da mutilação, quando o acontecimento tomou vulto e provocou o repúdio internacional...E Xan viu, emocionada, em uma entrevista, a amiga Reb, que estava entre os repórteres que denunciaram a quase atrocidade...E ela sentiu que gostaria de estar lá, ao lado da amiga, lutando por justiça e liberdade, ao invés de ser a “bonequinha debaixo da redoma” que começou a achar que era.
       Nos dias seguintes, Xan ainda foi mais uma vez ao prédio decadente, no centro da cidade, onde a tal gráfica funcionou...Mas encontrou, apenas, portas trancadas, elevadores quebrados e, nada de gente...Rebeca ainda estava inacessível e ela começou a torcer para que algo acontecesse-lhe, algo que desse um outro sentido à sua vida...Desejava algo que ainda não sabia o que era mas que, desconfiava que logo saberia, estava recebendo sinais mas, ainda não sabia como interpretá-los...E assim, alguns meses passaram, a barriga de Xan já dizia a que vinha e isso dava-lhe imensa felicidade...Cada dia ela fazia um desenho diferente no próprio ventre, para mostrar apenas ao marido ou para pessoas muito especiais...E seu querido ria-se muito, às vezes, das piadas que ela pintava em seu corpo, com tinta plástica não tóxica...E ria-se ela também e riam-se os dois...Certa tarde ao voltar para casa, após as aulas da faculdade, viu em seu escaninho, na portaria, o envelope lilás, sua cor predileta e soube naquele momento que, algumas das respostas que procurava começariam a ser respondidas...Ao abrir o envelope, no qual estava escrito apenas “ Para Xan”, encontrou um convite...de Rebeca!...Ela a convidava para um chá em sua casa, estava de volta à pátria por algum tempo, em breves férias e queria reunir um “pessoalzinho do coração”, entre eles...ela...Alexandra vibrou com o convite –desta vez, impresso- e passou a contar os dias que a separavam do encontro com a amiga que estava-se tornando cada vez mais especial para ela, a acontecer dali a uma semana.
       Ainda lembrava da mensagem que Rebeca havia-lhe mandado, meses atrás, durante o episódio da gráfica, ele dizia “ Mais convites virão e você decidirá se deve aceitá-los ou não”...Haveria alguma relação com o convite que tinha nas mãos?...Possivelmente sim mas, aquele convite em especial, fora aceito com grande alegria, nem se o mundo acabasse, ela deixaria de comparecer àquele chá... E, no dia combinado, à tarde, ela foi de carro para a casa de Rebeca, uma verdadeira mansão em estilo futurista, debruçada sobre o mar em cima de um precipício e da estrada interestadual que beirava a costa em parte, da qual saía o acesso para a casa. Rebeca morava só naquele mundo, acompanhada apenas de empregados da família, de anos e anos e dos muitos bichos que ela criava e via apenas quando não estava em andanças pelo mundo...Em vão Xan tentara saber o dia em que a amiga voltaria, para ir recebê-la no aeroporto, Reb nada disse...Então, o jeito era mesmo, ir ao tal chá.
       Havia muita gente na casa, quase todas, mulheres, amigas de Reb e amigas comuns, delas duas...Na verdade, do sexo masculino, havia apenas um representante: Era Fábio, amigo de longa data de Xan e Reb, uma pessoa por demais querida das duas. Advogado de profissão, Fábio tinha o hábito de engajar-se em projetos humanitários, locais e internacionais; estava sempre defendendo ardorosamente alguma causa, de forma não profissional mas, apenas por paixão. Era gay assumido e freqüentemente advogava em causa própria e em nome dos homossexuais...Ao chegar, Xan avistou-o e, logo, o abraçava com ternura afinal, gostava demais daquele cara...Dali a pouco, ao redor da enorme mesa de centro da sala principal, com vista total para o mar, alegrava-se com a companhia de Rebeca, de Andréa, de Margarida e muitas outras mais, além de Fábio...A conversa e as brincadeiras rolaram descontraídas por algumas horas, acompanhadas pelo monumental chá que a velha criada, Rosa, preparara com todo o carinho...Mas, em certo momento, a conversa esfriou um pouco e ao presentes dispersaram-se um pouco, pelos ambientes da casa de Reb, em pequenos grupos ou gente que quis ficar só. Durante tal interlúdio, Rebeca abordou algumas amigas e Fábio e, tais abordagens atraíram a atenção de Xan que, fingindo distrair-se com um pedaço de bolo, observava a amiga e o que ela fazia...E ela viu quando Reb falava com Andréa, em um sofá um tanto afastado...A conversa foi longa, Andréa pouco falava e mais ouvia o muito que a outra falava-lhe...Até que, em determinado momento, Andréa baixou a cabeça e a maneou para os lados, em uma evidente negativa a algo sugerido por Reb...Momentos depois, levantou-se e caminhou para outro canto da sala, passando por Xan sem prestar atenção nela...E Xan viu que Andréa tinha lágrimas nos olhos e que murmurou algo para si mesma, que ela conseguiu “pescar” em parte, algo como “ me desculpe, Rebeca...isso é pedir demais”...
       Depois a conversa foi com Fábio, que teve uma reação diferente da de Andréa ao que ouviu...De fato, ele parecia eufórico ao escutar a amiga e falava muito...perguntava, queria detalhes sobre algo que interessava-lhe deveras, era o que parecia...A conversa afinal, terminou, diante da parede de vidro na frente da sala e o jovem advogado afastou-se parecendo estar radiante...Dando com Xan, no meio do caminho, abraçou-a, deu-lhe um beijo no rosto e seguiu seu caminho...Rebeca ainda falou com Ana Maria e Flávia mas Xan já não preocupou-se mais em observar, achando que, em breve, iria saber que tipo de conversa era aquela que a amiga estava tendo com pessoas, obviamente, escolhidas...e Xan estava certa...fora deixada para o final, quando boa parte dos convidados já tinha ido embora e o resto ameaçava sair também, Rebeca disse para Xan com naturalidade:
       _ Você vai ficar aqui quando todo mundo sair, a conversa principal é com você...
       Xan acatou o que a amiga disse-lhe, curiosa com o que estava acontecendo e, quando afinal, a última convidada saiu, já era noite...Rebeca então disse:
       _ Eu já telefonei para o seu marido e avisei que você vai demorar um pouco a chegar hoje...Mas, não tenha medo, quando você for, eu vou segui-la com o motorista da casa, só pra garantir que não vão tirar nenhum pedaço seu, no meio do caminho...Mas agora, vamos conversar...
       Alexandra, até então, havia mantido-se em uma expectativa de divertida curiosidade mas, ouvindo Rebeca agora, sentia-se um pouco nervosa com a tal conversa que, acreditava, iria explicar as coisas estranhas pelas quais havia passado nos últimos tempos, era um receio bobo, decerto mas, que trazia-lhe um pequeno desconforto e uma vontade de terminar logo com aquilo...A amiga a conduziu para a saleta íntima, onde havia uma pequena lareira ( apagada ) e, fazendo Xan sentar-se em um sofá muito macio e aconchegante, Reb sentou a seu lado e iniciou o que tinha para dizer.
       _ Xan – ela disse- Há menos de dez anos atrás, aconteceu a sua festa de quinze anos...Houve a história do convite, que eu sugeri que fosse outro que não o que sua mão tinha decidido fazer, não foi assim?
      _ Sim – disse Xan, apenas, desejando que Reb não parasse de falar.
      _ Pois bem –disse ela-...Nós sabemos que a história dos convites deu “panos para mangas”, bateu de frente com a supremacia de Maria Helena, até seu pai teve de meter-se para desatar esse nó...Mas, afinal, o tal convite saiu...Nós fomos lá, ver como ia sendo feito, havia um desenhista oriental, muito bom, trabalhando lá...Foi ele quem fez todos os convites à mão, lembra?
       _ Lembro sim –Xan falou um pouco impaciente, desejando que Reb não fizesse-lhe perguntas a todo momento.
       _ Bem, naquele dia –noite, pra mim- em que você me ligou e comentou sobre o convite, não imagina como me deixou feliz...Eu tive a confirmação do que já sabia.
       _ E o que você sabia? –perguntou Xan quase sem perceber.
       _ Ora, eu sabia que você era uma das “escolhidas”...Se não fosse, não iria nem encontrar  seu convite da festa de quinze anos...Ele já teria se desmaterializado há tempos...E você me procurou antes do que eu esperava...Como eu já sabia...Você é uma das “especiais”
       _ Do que você ta falando, Reb do céu?...Que negócio é esse de “escolhida” e “especial”?
       _ Calma, eu já explico...Xandinha, do que você lembra que te aconteceu desde a sua festa de quinze anos, mesmo que pareça irrelevante?
       _ Bom, nada de especial...Minha vida continuou como era antes...Só se for...
       _ Sim?
       _ Bem, desde que eu completei quinze anos, venho tendo a impressão de que, tudo para mim, tem dado certo, que a felicidade vem a meu encontro, sem que eu a procure...e sem que eu saiba nem sequer, se a mereça.
       _ Não diga isso...Que mais?
       _ Acho que é só...tudo deu certo para mim, desde então...Não que antes tenha dado errado mas, os aborrecimentos que tive quando era menina, as dúvidas, indecisões...nunca mais eu senti coisas desse tipo, parecia que uma força externa, muito boa...me protegia...
       _ “Força externa”, hem?...Você não imagina o quanto está certa...
       _ Como?
       _ Xandica...Tal força existe mesmo e te protegeu durante todo esse tempo...Não foi sem um propósito que você sentiu-se protegida e feliz, durante esse período “xis” de tempo...Tudo estava planejado...O que está acontecendo com você, aconteceu comigo, quando eu completei quinze anos...Aconteceu com muito mais gente mas, bem menos do que deveria e precisaria ser...Todos nós recebemos o convite...E aceitamos ou não, atendê-lo...Fomos protegidos e vigiados durante esse tempo...Nossos atos foram estudados, nossos sentimentos foram julgados e registrados...Cada boa ação, fazia o “registro de convocação”, estou falando do convite da festa de quinze anos adquirir mais brilho e consistência com o passar do tempo...cada má ação, cada sentimento ou pensamento egoísta e mesquinho, roubava o brilho do registro até que ele desfizesse–se no ar, a indicar que aquela escolha, não havia sido acertada...
       _ Reb, do que você tá falando, mulher de Deus?
       _ De você, de mim...de todos os outros e outras...Xandica...me diz com toda a sinceridade, com toda a pureza desse teu coraçãozinho...Você foi feliz durante sua vida, até agora?
       _ Fui... –Xan respondeu imediatamente, sem nem ponderar a pergunta.
       _ E você gostaria que mais pessoas fossem felizes como você foi e é?
       _ Claro...Quem não gostaria?...
     _ Muita gente...Muito mais gente do que você imagina...Bom, meu amor...o que você acharia de ajudar as pessoas a serem felizes ou, pelo menos, tentar isso mas, com toda a sua força?
       _ Isso ia me fazer muito mais feliz do que eu jamais fui –disse Xan com os olhos já úmidos.
       _ Certamente que ia, eu nunca duvidei disso –a voz de Reb traía seu entusiasmo.-...Amor da minha vida...Você seria até capaz de...sacrifícios...para ajudar muitas criaturas na face da Terra, a terem um pouco de sua felicidade?
       _ Sacrifícios?...De que tipo?...Eu, eu acho que...que sim, o mundo tá tão doente, tão precisado de amor e união que, até um grande sacrifício vai parecer pequeno, se for pra ajudar.
       _ E aí, chegamos no ponto que eu queria...Você já está falando como uma das nossas...ou dos nossos...Veja bem, meu amor, se você decidir mesmo, ajudar-nos, terá de saber lidar com perdas.
       _ Que tipo de perdas?
       _ Você terá de abrir mão de alguém muito querido, terá de aceitar isso e prosseguir em seu trabalho, tal condição é imprescindível.
       _ Alguém muito querido meu...Como...meu bebê?...meu marido, meu pai...você?
       _ É mais ou menos por aí, eu não posso entrar em detalhes, faz parte das regras...Você  perderá um ente querido e ele não terá necessariamente de morrer mas, apenas, você nunca mais em sua vida, verá essa criatura.
       _ Mas, a morte não está descartada...
       _ Não, não está, isso eu posso dizer e não muito mais.
       _ Eu posso saber quem será essa pessoa?
       _ Não, não pode...Hoje eu fiz esse mesmo convite para a Andréa e ela não aceitou, você viu...Brevemente, ela esquecerá toda a nossa conversa e levará uma vida normal, sem novos convites...
       _ O Fábio...ele aceitou, não foi?
       _ O Fábio já é um dos nossos há bastante tempo...Ele demorou a decidir-se mas, acabou ficando de nosso lado, passou pelo teste da perda com compreensão e paz e tem-se revelado um fortíssimo aliado...Esta tarde eu o designei para sua mais nova missão e ele ficou eufórico ao saber que, novamente, entraria em ação.
       _ É, eu vi...Quando eu posso te dar minha resposta?..Ou eu tenho que decidir agora, se aceito ou não, o convite?
       _  Você é quem vai decidir, leve o tempo que levar...Mas precisará estar absolutamente certa do que deseja ou a coisa não funcionará...Uma vez aceito o convite, não haverá volta.
       _ Que tipo de critério vocês usam para escolher quem irá ajuda-los?...Digo, o tal convite de quinze anos, as pessoas que eu vi e que você sabe quem são...tudo isso...
       _ È algo meio complicado pra se entender falando assim, superficialmente...Com o tempo, você vai saber de tudo mesmo porque, irá recrutar novos colaboradores em seu devido tempo, caso torne-se uma de nós.
       _ Tá bom, então eu vou precisar pensar nisso...preciso pensar muito.
       _ Claro que precisa, meu bem, todos nós precisamos pensar muito antes de aceitar os convites que nos são feitos...
       Conversaram ainda mais um pouco, tomaram mais um pouquinho de chá e Rebeca contou de suas aventuras através do mundo, revelando que retornara por pouco tempo, apenas para uma nova fase de recrutamento e designação de tarefas a novatos, caso do Fábio...E afinal, Xan voltou para casa, com Reb a seu lado, ambas seguidas pelo motorista desta, conforme o combinado...Chegando em casa, Xan ainda convidou a amiga para subir um pouco mas ela recusou o convite alegando trabalho a fazer...Despediram-se e Rebeca voltou para casa deixando Alexandra com a cabeça cheia de pensamentos, dúvidas e indecisões...O marido a recebeu com o calor de sempre e eles trocaram as novidades do dia mas, Xan não contou sobre a conversa que tivera com Rebeca, apesar desta não haver pedido sigilo quanto ao assunto...Os dois jantaram e, como era um sábado, ficaram até de madrugada jogando vídeo game, como sempre faziam, rindo muito e distraindo-se com as figurinhas ligeiras, barulhentas e coloridas...Quando foram deitar-se, Xan não conseguiu dormir, pensando no tal convite que recebera para fazer, o que, não sabia e a dolorosa condição para ser aceita em um tipo de comunidade ou clube fechado que, pelo que entendera, dedicava-se a fazer o bem e ajudar as pessoas...Xan lembrou das aventuras da amiga através do mundo, metendo-se em confusões mas, salvando a vida de multidões de pessoas...Seria isso que a esperaria, caso aceitasse o convite?...Se fosse, Xan acreditava que aquilo tinha tudo a ver consigo, ela seria alguém útil, ajudaria...algo que ela faria com prazer e satisfação, nunca com orgulho pois orgulho e solidariedade são palavras que não dão-se muito bem entre si...orgulho, vaidade, presunção...Mas havia a tal condição...Perder um ente querido para sempre, não necessariamente através da ação da morte...Se fosse assim , ela estaria matando alguém, ao afiliar-se a uma comunidade e isso era absolutamente impensável...Mas, se assim fosse, se ela aceitasse o convite, quem iria perder?...A quem ela amava irrestritamente?...Seu príncipe?...seu bebê?...seu pai?...De qual deles ela seria capaz de abrir mão?...De nenhum, naturalmente mas...poderia jurar que estava cem por cento decidida a aceitar o convite misterioso, com ou sem condições...Mas, daqueles quatro mais amados, de qual seria capaz de abrir mão?..alta madrugada, após passear pelo apartamento às escuras e fazer uma visitinha à cozinha, ela acabou conseguindo dormir.
       Foi preciso uma semana e meia para pensar no convite que recebera para Xan decidir se o aceitava ou não...Durante esse tempo em que pesava e media seus valores, sentiu-se mal consigo mesma, por não incluir sua mãe na lista dos mais amados...É claro que ela gostava da autoritária Maria Helena mas, as diferenças entre as duas eram muitas e isso influía no grau de confiança e amor que sentia pela mãe, o que não acontecia com seu relacionamento com o velho brigadeiro, a quem Xan amava com quase idolatria, o mesmo acontecendo em relação a seu marido...” Puxa” –terminava ela por concluir, à guisa de justificativa- “ Quem, neste mundo, não tem problemas de relacionamento com a própria família? ”...Passada a tal semana e meia, Xan finalmente teve a certeza do que desejava para si e, certa tarde de domingo, sabendo que Rebeca já havia ido embora para seu trabalho em terras longínquas, ligou para o celular da amiga, que tocou apenas uma vez antes que Rebeca atendesse, o que não espantou Xan em absoluto...Foi direta e não perdeu tempo com explicações, disse que aceitava o convite e sentia-se honrada por ele e, apenas isso. Rebeca, traindo um pouco a euforia que sentia, através da voz, disse que não esperava outra decisão de seu amor, que não fosse aquela. As duas despediram-se então, após recomendações e palavras amigas e desligaram seus aparelhos.
       Nos dias que seguiram-se, Xan não notou em nenhuma mudança em seu modo de vida, receosa que estava de pagar de imediato o pesado tributo assumido, ao aceitar o convite de Rebeca...Quase um mês passou-se e a vida continuou igual, a única novidade foi um outro convite que recebeu pelo correio, de uma clínica de estética, recém inaugurada no bairro em que morava. Essa clínica convidava-a para um tratamento de beleza completo, a título de cortesia, de modo a atrair clientela, algo mais ou menos comum...Esse convite, Xan aceitou de imediato, sem precisar de tempo para pensar e, marcou logo um horário para ser tratada como uma princesa, sem pagar nada...No dia marcado ela foi lá fazer seu tratamento e os funcionários cuidaram dela como se fosse uma peça rara de ourivesaria...Fez cabelo, unhas, limpeza de pele, massagens e muito mais. Havia ali uma máquina enorme que seria um bronzeador artificial de última geração e seu pacote incluía aquilo também...Xan não gostava muito de bronzeamento artificial, diziam que era perigoso, que podia causar doenças de pele mas, a moça que explicou o funcionamento do aparelho, o fez de forma tão clara e cativante que ela decidiu experimentar aquilo também mas, só um pouquinho...Logo, estava deitada confortavelmente, dentro de um cilindro de metal, revestido de lâmpadas que emitiam uma suave luz azul e um gostoso calorzinho...Tão relaxada ela sentiu-se naquele momento que acabou dormindo, despertando mais tarde, ainda no mesmo lugar e sentindo um bem estar como nunca sentira antes...À tarde, ela saiu da clínica, sentindo-se esplendida e acreditando que a tal clínica conseguira uma freguesa fiel...
       O tempo passou mais um pouco e Xan ainda não sentira que o convite aceito modificara sua vida, como acreditou que seria...Decidiu deixar as coisas acontecerem e tocou a vida adiante...Um dia, foi fazer o exame pré natal de praxe, com o médico que tratava das mulheres de sua família há anos e o bom doutor constatou que tudo andava bem com mãe e filho ( ou filha, ainda era cedo para saber ). Ele examinou a futura mamãe, sugeriu alguns cuidados, deu-lhe muitos conselhos e a liberou, satisfeita com o que acontecia em seu interior mas, subitamente, lembrando que um dia, algo poderia mudar, quando acontecesse a condição imposta na aceitação de um convite do qual ela pouco sabia, ainda...Seria ela, separada de seu bebê?...Seria aquela criaturinha, quem iria ela perder um dia? Isso a afligiu um pouco, assim como o fato de nada de diferente haver acontecido há mais de um mês, o que a deixava um pouco ansiosa...Em conversas com o marido, ficava sabendo de como era a vida de um repórter, o tumulto da redação, as missões, um tipo de vida que ela achava estimulante, E como aquele homem sabia contar suas aventuras! Ela adorava aquilo nele, junto com mais um monte de coisas...Como seria sua vida se o perdesse?...Ela não sabia mas, sabia que, seria a coisa mais terrível que poderia acontecer-lhe, melhor nem pensar nisso afinal, não podia voltar atrás em sua decisão, isso ficara bem claro entre ela e Reb...
       Certa noite, durante um inesperado jantar romântico, em um ambiente aconchegante e à luz de velas, seu príncipe fez a revelação: Se sua esposinha aceitasse, havia uma vaga de estagiária esperando por ela, no setor de notícias da emissora de tevê, onde trabalhava...Diante de mais esse convite, Alexandra Magno apenas fitou seu homem com os olhos arregalados, achando que aquilo era uma brincadeira dele...Não era e, quando deu-se conta disso, agarrou a oportunidade com avidez mesmo porque, iria trabalhar ao lado do motivo de querer permanecer viva na face da Terra...Logo, todos os preparativos foram realizados e ela passou a ocupar uma mesa apenas dela, no meio do caos ordenado que era a redação do telejornal...Seus olhos brilhavam ao ver toda aquela gente bonita circulando por ali, atarefadíssima, as notícias pipocando no ar, além do ambiente estimulante, a lembrar um pequeno formigueiro tecnológico...Deu tudo de si no trabalho por ela executado, saindo-se muito bem, mostrando ordem, capricho e disciplina além de muito carinho para com colegas e superiores...Foi adulada, elogiada e “paquerada”, encarando isso, no entanto, com diplomacia e “jogo de cintura”...Em muito pouco tempo, já era a “mascote” da redação e todos seriam capazes de trazer-lhe “água na peneira”, se ela desejasse. E assim foi pelo resto daquele ano...Após sair da faculdade e passar em casa, ela ia para a emissora e, por lá ficava, às vezes, até alta madrugada e, durante esse tempo, bem pouco via seu querido, perdida em um mundo de computadores, telões, câmeras e spots de luz, uma pena...Durante as férias, ela passou a dar expediente integral, tanto que estava empolgada com aquele seu primeiro trabalho e assim foi levando uma nova fase em sua vida que tornava-se cada vez mais vibrante... Já no início do ano, ela quase não pensava no convite da amiga Rebeca, tão atarefada estava e, nem dar-se-ia mais conta dele, até que uma colega da redação, Laila, uma moça baixinha, de rosto redondo e orelhas algo grandes, que lembrava um boneco de uma revista em quadrinhos, chegou perto dela, durante um serviço, sentou-se a seu lado e disse-lhe em tom de voz baixo mas bastante audível:
       _ Alexandra, o momento que nós esperávamos, chegou...Você foi designada para sua primeira missão como membro de nosso grupo, apenas ouça...Dentro em breve, você e seu marido vão viajar a trabalho, os dois juntos...Vocês irão até a África, mais precisamente, irão até um campo de refugiados de uma guerra civil estúpida e inútil...Oficialmente, vocês irão cobrir uma matéria mas, extra oficialmente, você irá executar seu primeiro trabalho, ouça bem...Escondida entre os milhares de refugiados, vivendo em pleno inferno na Terra, cercada de miséria, guerra, doenças, fome e morte...uma princesa de um reino africano local está...Ela conseguiu fugir quando as tropas de ocupação de um ditador sanguinário e genocida invadiram seu palácio...Seu pai, o rei, também foi removido de seu posto, por tropas fiéis a ele, antes da destruição da residência real e foi exilado em outro país, desconhecendo que sua filha está viva, algo que muito pouca gente sabe...O velho rei está muito doente e desgostoso, por acreditar que a filha morreu durante o assalto ao palácio...Ele não tem muito tempo de vida e nem tem forças para liderar o movimento de libertação que está sendo organizado por vários grupos armados de vários países, de modo a destituir o ditador do poder e terminar com o regime de terror, por ele implantado...Alexandra, você poderá ser uma peça importantíssima no sentido de terminar uma guerra sem sentido, devolvendo a dignidade a um povo que não suporta mais sofrer do modo como está sofrendo...Sua missão é ir atrás dessa princesa e, junto com outros companheiros, retirá-la do campo de horrores, devolvendo-a à companhia de seu velho e doente pai...Não me pergunte como, está escrito que, essa princesa, baseada nos mais sólidos princípios de justiça e humanidade, conseguirá organizar o exército de retomada ao poder e dele, retirar o intruso assassino que está matando, lenta e metodicamente, todo um povo...Tudo o que você tiver de saber acerca de sua primeira missão, ser-lhe-á informado conforme a mesma for acontecendo, eu não posso dizer mais do que já disse mas, uma última pergunta, eu  tenho de fazer...Alexandra, você aceita este trabalho que irá resultar na cessação   de milhares de mortes, no término de uma guerra sem sentido e na liberdade de toda uma etnia?
       _ Totalmente...-Xan respondeu como se estivesse em transe, um brilho estranho e poderoso nos olhos-...Totalmente...
       _ Muito bem, era o que esperávamos...Agora, volte a trabalhar, breve faremos novo contato.
       E a pequena Laila sumiu-se no turbilhão de gente que circulava pela redação...Daí a pouco, chegava o marido de Xan com uma expressão aturdida no rosto. Ele disse então.
       _ Menina, você não vai acreditar...O “chefão” leu uns artigos seus e, simplesmente, adorou!...Ele quer que você faça parte da equipe que vai cobrir uma reportagem que vamos fazer lá na África...Está havendo uma guerra civil por lá –mais uma- e, como conseqüência disso, civis estão condenados a morrer de fome, em mais um daqueles monstruosos campos de refugiados...Vamos fazer uma matéria e tentar chamar a atenção do público para esse tipo de coisa...O que existe por lá não é uma coisa bonita de se ver, é uma visão terrível mas, o chefe quer que você vá e, comigo, junto com o resto da equipe...Eu soube agora da história e vim te contar...O que você acha?...Quer ir?...Vai perder muitas aulas na faculdade...
       _ Eu quero ir sim –Xan falou com decisão- Não perderia isso por nada...Eu posso trancar umas matérias na faculdade mas, eu vou...
       _ Tá bem, pra mim, isso é ótimo...Vou já, já dizer que você vai conosco...
       Naquela noite, Xan  e seu príncipe dormiram tardíssimo, fazendo os planos para a viagem a serviço...Os dois estavam muito empolgados, mesmo sabendo o que veriam em semelhante “depósito de gente”, perdido em meio a algum deserto africano...E o tempo passou e, de repente, lá estavam os dois, junto com o resto da equipe, embarcando no aeroporto, em um jato que os levaria a seu destino...A viagem foi longa e cansativa mas, após muitas escalas, a brava equipe de tv rumava, à noite, em vários jipes, em direção a seu destino, correndo riscos, atravessando uma área dominada pelos exércitos de ocupação, que viam em cada estrangeiro, um inimigo em potencial...Mas, durante todo o trajeto, não houve maiores percalços e todos conseguiram chegar ilesos, após uma viagem de muitas horas, nos limites do campo de concentração africano, onde gente valia menos do que a terra pisada do chão...
       Após uma curta noite de sono, pontuada de sobressaltos, Xan lançou-se em sua missão sem esperar ao menos, que seus colegas despertassem...Procurava ela, a princesa Nakiba, filha do velho e estimado rei Monshaba, esperando leva-la ao encontro de seu pai, antes que este morresse de tristeza por ver seu reino ocupado por um ditador assassino e, acreditando que sua amada filha fora morta pelos invasores...
       Á luz baça do amanhecer, Xan viu , diante de seus olhos, horrores que jamais supôs que um dia veria...Era um desfilar de crianças subnutridas ao extremo, doentes, sujas, acompanhadas de suas mães, magérrimas, apáticas ou desesperadas, vendo em seus braços, o fruto de seus ventres, definhar a cada dia, a cada hora e minuto...O campo de refugiados era imenso e imundo, as pessoas que distribuíam-se pelos seus vários quilômetros quadrados, não eram, agora, mais do que fantasmas humanos, simulacros de pessoas, desprovidas de qualquer auto estima ou dignidade, vivendo por viver, enganando a morte o máximo que fosse possível...E Xan procurava e procurava, através de semelhante horror, a única pessoa que poderia por um fim a tal estado de coisas...Durante a fase do planejamento daquela viagem, Xan recebera em sua casa, a colega Láila que ensinara-lhe de boa vontade, o dialeto daquela gente, de modo a que pudesse ela, comunicar-se com os nativos, de modo a localizar o quanto antes, a princesa que iria redimir todo aquele povo, conforme estaria escrito... E Xan aprendera, com rapidez, o mínimo necessário de tão estranho idioma, de modo a fazer-se entender por aquela gente que encarava a própria morte em vida em sua própria terra...Perguntando aqui e ali, sendo mesmo, ignorada por diversas vezes, Alexandra Magno, correspondente internacional, percorreu amplas áreas daquela terra semeada de dor e desespero, à procura de uma pessoa...uma pessoa muito, muito preciosa...A salvadora de todo um povo, conforme disseram-lhe, e ela aceitou o que fora dito como se  verdade fosse...e era...E procurou e procurou, sem nada encontrar, nem ao menos um vestígio da passagem da nobre personagem...As horas voavam, já era dia alto, seus olhos estavam embotados por enxergarem tanto sofrimento e miséria..e ela não conseguia localizar a princesa Nakiba...
  

       Por volta do meio dia, os colegas de Xan, junto com seu marido, vieram a encontrá-la, decepcionada consigo mesma e muito triste. Ela havia escrito um bilhete para eles, ao sair em sua procura através do campo mas não entrou em detalhes, apenas disse que, como acordara cedo demais, saíra em campo para trabalhar. Seus colegas pareciam agitados e tinham novidades para contar.
       _ Está chegando um comboio aéreo, patrocinado por uma multinacional européia, trazendo comida para essa gente toda...ou parte dela, -disse Dirceu, o cinegrafista- Acabamos de saber pela Internet...
       _ É isso mesmo –confirmou-lhe o marido- Daqui a pouco os aviões deverão estar à vista, vamos lá, fazer a reportagem.
       Xan acedeu ao que ouviu dos colegas e foi preparar-se para a chegada dos suprimentos, enviados por um conglomerado de empresas europeu, à revelia do governo usurpador daquele país africano...Ela estava preocupada, entretanto, com sua procura pela princesa mas, decidiu não falar disso com seus amigos e foi cuidar da reportagem....Cerca de meia hora mais tarde, o ruído dos potentes motores a hélice fizeram-se ouvir em um local do campo e logo, três enormes aviões cargueiros despontavam no céu, passando a descer, até ficarem a poucos metros do chão plano e arenoso...Uma multidão de seres mais mortos do que vivos juntou as forças que tinha e correu em direção ao local onde as imensas aeronaves verde oliva desenvolviam seu vôo rasante. Em determinado momento, as grandes portas traseiras dos três aviões abriram-se e, delas, surgiram enormes pára-quedas que arrastaram para fora do bojo dos aviões, espécies de imensos trenós de metal, carregados de embrulhos, firmemente atados através de redes: Era o alimento, mandado por países, solidários com a dor daquelas pobres almas...uma ajuda que não resolveria seu problema  mas, mitigaria a fome e a sede de algumas delas enquanto seu martírio não terminava...Os trenós bateram com estrondo no chão mas não soltaram sua carga, os para-quedas fizeram seu trabalho, frenando aqueles conjuntos até que parassem. A esse tempo, os aviões ganharam altura e afastaram-se dali, de volta a seu país, talvez para voltar uma vez mais ou duas, ou mais...A multidão de famintos acercou-se dos trenós sem saber direito o que fazer mas, sabendo que ali havia comida, a exemplo de outras visitas como aquela....De súbito, irromperam contra os volumes e tentaram abrir aquilo tudo, em completa desordem, embolando-se no chão, machucando-se e engalfinhando-se, desesperadas que estavam, privadas de alimento. Aquilo parecia que ia acabar mal, como talvez, já tivesse acontecido e os repórteres não atreviam-se a chegar muito perto, temerosos de alguma violência motivada pelo desespero de gente que desejava apenas, manter-se viva...
Foi quando alguns estampidos soaram alto, vindo das armas de um grupo de homens vestidos à maneira militar que rumaram em direção à multidão esfaimada, gritando palavras de ordem.
       _ É o exercito invasor que estava escondido no campo, aguardando a chegada dos suprimentos –disse um repórter de outra emissora de tevê, a voz traindo sua revolta-...Eles vão ficar com tudo e são capazes até de matar a tiros quem não ficar quieto...Que mundo é esse, meu Deus?
       Mas o tal repórter não poderia estar mais enganado...Os homens uniformizados e armados, ao chegarem perto da multidão, trataram de organizá-la em filas, para que a distribuição da comida e bebida fosse feita...Eles mantiveram aquele povo a uma certa distância dos trenós e a multidão obedecia a eles, principiando a acalmar-se enquanto aguardava...Do meio do povo faminto surgiu então, escoltada por um pequeno destacamento, uma moça trajando uma túnica limpa, arrumada e muito colorida, em contraste com aquele povo maltrapilho e com roupas e peles mais ou menos da mesma cor. A moça também era negra, como a quase totalidade das pessoas por ali e dava para ver que era muito bonita, apesar da agressiva magreza em que estava imersa...Deveria ter menos de dezoito anos e caminhava resoluta, através daquela multidão de desesperados que a saudava conforme ia caminhando.
       _ A princesa...-disse Xan, comovida-...Aquela é a princesa Nakiba...Como é linda...
       A herdeira da casa real aproximou-se de um dos carregamentos trazidos pelos aviões e, após confabular com seus soldados, distribuiu ordens e, logo após, subiu no monte de caixas de madeira e fez um rápido discurso a seus súditos, pedindo a colaboração deles na distribuição da comida, pedindo que a preferência fosse dada às crianças e às mulheres e exortando a todos a que agradecessem ao país que mandara aqueles suprimentos, assim como a seus governantes, diante de tamanho gesto de solidariedade...Apesar do desespero reinante, aquela população ainda teve forças para gritar vivas para sua soberana e reafirmar sua fé e confiança no futuro, apesar de tudo...Mesmo não entendendo o que a princesa dizia, as equipes de reportagem, já próximas da multidão, entenderam do que se tratava e comentaram que, em um mundo louco e desumano como o atual, ainda havia quem tentasse cuidar de seu vizinho menos afortunado...Xan, no entanto, entendera o que a princesa Nakiba dissera e sentiu um orgulho enorme, sem nem saber direito porque, daquela criatura tão magra e fraca mas tão bonita e determinada, uma líder na acepção total da palavra...com olhos úmidos de ternura, viu quando ela e seus soldados iniciaram a distribuição dos alimentos, de modo organizado, na medida do possível e obedecendo a certas prioridades...Naturalmente aquilo durou horas mas, com o tempo, diversos membros daquela comunidade uniram-se aos soldados e à princesa, agilizando um pouco a partilha, enquanto as equipes de reportagem faziam seus trabalhos, impressionadas com uma cena que tinha tudo para transformar-se em um caos mas que, sob a luz inspiradora de uma valente monarca, portava-se como um grupo de homens, mulheres e crianças, digno, apesar de todo o sofrimento imposto a ele...
       Durante toda a operação, Xan não desgrudou os olhos da nobre menina...Iria falar com ela , tão logo pudesse e dar-lhe-ia, com certeza, notícias que a fariam feliz...Seu pai estava vivo, havia um movimento de retomada ao poder...Xan sentiu orgulho de si, naquele momento, apenas para, logo depois, sentir vergonha de ser orgulhosa por fazer algo que era, apenas, a sua obrigação, assumida quando aceitou a um convite muito especial...Já era noite e os suprimentos afinal, terminaram, sendo a divisão feita do modo mais justo possível...À luz das várias fogueiras que foram acesas, Xan viu, consternada, pessoas alimentando-se após um período longuíssimo de inanição, viu pais de família agradecendo em voz alta, a bondade dos governos que tentavam ajudá-los em sua desgraça...Viu pessoas insatisfeitas com o que conseguiram, viu pessoas conformadas, pessoas que choravam...E ela própria, Xan, fazia força para não chorar também, achando que aquele era um mudo injusto, que dera a ela, tudo e, àquela pobre gente...nada...Isso era mentira...eles tinham, ainda, sua princesa e essa princesa iria tirá-los daquela vida forçada, iria redimir toda a sua gente e se ela, Xan, ajudasse nisso, seria apenas um mero detalhe...


       _ O que a senhora deseja falar com Sua Alteza , madame?
       Os soldados que guardavam a tenda onde a princesa Nakiba estava escondida foram muito corteses com Xan ao abordá-la, de modo a conhecer-lhe as intenções. Brancos eram muito bem-vindos no campo de concentração pois, eram repórteres que denunciavam o estado de barbárie presente ali, ou eram médicos que tratavam dos doentes, sobretudo crianças, ou então, eram voluntários que estavam ali para ajudar no que fosse possível...Não achando motivos para esconder-lhes o que sabia, Xan disse, no dialeto daquele povo, que vinha buscar a princesa para levá-la, secretamente, até onde o rei Monshaba encontrava-se, muito doente...Então seriam feitos os planos para a retomada do governo, por tropas de voluntários e mercenários de diversos países, sob o comando do velho rei e de sua filha...Ao saber que seu monarca ainda estava vivo, exilado em terras estrangeiras, à luz do fogo, os olhos daqueles homens fiéis a seu soberano, brilharam e, em pelo menos dois pares de olhos, lágrimas de pura alegria e júbilo, vieram...Pedindo desculpas por havê-la detido, aqueles homens, emocionadíssimos, levaram Xan À presença da princesa, em um cômodo improvisado em uma grande barraca militar, de lona, igual a muitas, espalhadas pelo campo dos horrores...A jovem princesa recebeu, algo desconfiada, aquela moça branca, muito bonita, que seus homens tratavam como alguém muito especial. Ficou surpresa quando a estrangeira começou a falar no idioma dela mas, tudo: surpresa, desconfiança, desapareceu quando ela ouviu o que a moça, chamada Alexandra, que sabia quem ela era, tinha a dizer e então, apenas uma emoção tomou-a por completo, como se fosse atingida por uma onda de choque...Saber que o pai ainda estava vivo e acreditando que ela estava morta, saber que havia planos para a retomada do poder por parte do rei, saber que seu povo que morria diante de seus olhos, teria a chance de recomeçar a viver, tudo isso foi demais para a princesa Nakiba, sempre tão forte e segura de si...Mas ela controlou-se com extrema dificuldade, reprimiu o choro a custo, não evitando porém que seus olhos traíssem o que sentia, mesmo porque, apesar de tudo, não ficava bem uma princesa desmanchar-se diante de uma plebéia que acabava de conhecer...Ela ouviu, de cabeça baixa e olhos marejados, tudo o que a recém chegada, vinda do próprio céu, tinha a dizer-lhe...Reservou então para si, um tempo longo para readquirir o pleno auto controle e, só então, fez perguntas a Xan: Quem ela era, se havia visto-lhe o pai, quando fugiria, quem iria junto e muitas mais perguntas ela fez e a tudo, a igualmente emocionada Alexandra respondeu, esmerando-se nas explicações.
       Partiram naquela madrugada mesmo, a princesa Nakiba estava ansiosa demais e não podia mais esperar nem um segundo...Levaram as duas, pouquíssima coisa, Xan voltou ao acampamento dos repórteres, apenas para deixar um recado, explicando mais ou menos sua partida e também, para pegar um pouco de comida e água para levarem. A princesa precisou ser um pouco dura com seus soldados, ao explicar que precisava ir só, com a moça chamada Xan, através do deserto, mesmo arriscando as duas, serem vistas pelas patrulhas do exército invasor que andavam por ali...E elas partiram...Quando saíram do campo, uma silhueta esgueirou-se para fora, também, passando a seguir as duas fugitivas...
       Durante horas, elas andaram através de campos devastados pela guerra, por debaixo de um céu sem lua, guiadas pelo facho de uma lanterna potente. As patrulhas inimigas rondavam por ali mas, elas seguiam paralelas à estrada que ali havia, de modo a não serem localizadas pelos veículos de combate...Xan sabia para onde ir, ninguém havia-lhe dito nada, ela apenas sabia...Iam no sentido nordeste e, quando a princesa soube do rumo a ser seguido, aprovou-o...Havia no caminho, muitas aldeias, algumas talvez até, ainda habitadas...Em alguma delas, poderiam descansar durante o dia, para retomar a marcha na noite seguinte...certamente chegariam a algum local antes do amanhecer, assim a princesa disse...As duas não se falaram durante a dolorosa marcha, guardavam suas forças para a excursão de esperança que empreendiam e nesse passo, perto da aurora, chegaram a um vilarejo devastado e, aparentemente deserto, após a evacuação dos moradores para o campo de concentração, a quilômetros dali...As duas moças, exaustas escolheram um local mais ou menos seguro e ali, acomodaram-se para descansar, dormir um pouco, se conseguissem e, alimentarem-se...Xan estava impressionada com o estado de subnutrição da princesa e, já bastante afeiçoada àquela menina tão corajosa e sofrida, mesmo que cuidou dela, alimentando-a de maneira moderada, evitando que passasse mal e falando com ela, um pouco em seu próprio dialeto, que aprendera com Láila e em parte, através do inglês, que ambas falavam relativamente bem...Contaram algo de suas vidas, Xan disse-lhe um pouco a respeito do grupo ao qual pertencia, grupo este cuja finalidade era lutar pelas causas nobres através do planeta. A princesa Nakiba falou então da triste guerra que teve de presenciar, toda a destruição de seu país, as mortes, as prisões, o modo como fora oculta pela guarda real e levada em segredo ao campo de refugiados...E falou da gratidão que teria para com Xan, para o resto de sua vida, caso aquela arriscada aventura terminasse bem...Xan dissera, entre animada e pesarosa...
       _ Vai terminar bem, sim, Alteza...Eu prometo isso à senhora...-ao que a princesa retrucou.
       _ Não me chame assim, somos iguais, agora...Não sou mais uma princesa, fui deposta, não sou nada, no momento...além do fato de eu ser evidentemente mais nova do que você...
       _ Me permita discordar, a senhora está errada...É uma princesa ainda e sempre será...Seu povo a ama e não a abandonou, como a senhora não abandonou também, sua gente...Eu vi como se comportou durante a partilha da comida...A senhora pode parecer não ter ou ser nada, no momento mas, não vai deixar nunca, de ser o que é...Me permita, portanto, tratá-la com o respeito que lhe é devido pela sua posição pois, isso, não lhe tiraram e nunca vão tirar.
       A princesa ouviu tal desabafo e decidiu acatá-lo, dizendo apenas...
       _ Bem, faça como quiser, então...Agora eu preciso dormir e você também...Não me agüento mais...
       Em breve, as duas dormiam na cama improvisada, que fizeram no chão de um casebre semi destruído, abrigadas do sol inclemente...Mas seu sono durou pouco porque, foram despertadas em um sobressalto, pelo estrondo de um tiro, detonado muito perto delas...Ao abrirem os olhos, viram as três silhuetas recortadas contra a luz, que cercavam-nas  e as identificaram  como sendo de soldados do exército invasor...Eram três homens fardados, muito sujos e malcheirosos. Pareciam bêbados e comentavam entre si o que encontraram naquela casa, onde vieram parar por acaso...Reconheceram a princesa e pilheriavam sobre ela e sua acompanhante branca...Faziam piadas sobre as duas, acusando-as de terem um caso amoroso e muitas outras indignidades disseram...Xan, apavorada de verdade, percebeu que aquilo só teria um desfecho: o estupro das duas e seu posterior assassinato. Aqueles homens não eram soldados, eram bandidos travestidos de guerreiros, que perambulavam por ali, saqueando e cometendo violências, sempre que tivessem a oportunidade...Tudo terminaria ali. daquele jeito?...Xan recusava-se a acreditar mas...como escapariam elas, de semelhante armadilha?
       Tudo aconteceu muito rápido, então. De repente, a princesa levantou-se de um repelão e jogou em cima dos três malfeitores um monte de entulhos que pegou do chão, levantando muita poeira. Correu depois, para o inferior da casa, gritando para que Xan fugisse também. Um dos homens então, avançou alguns passos, ainda com a vista turva em decorrência do ataque da princesa, ergueu a arma que portava e fez fogo sobre ela, pelas costas...deveria sair uma rajada de tiros daqueles canos, pois era uma metralhadora a tal arma...porém estava tão gasta e mal conservada que, apenas uns cinco ou seis projéteis foram deflagrados antes da velha arma engasgar e parar...Mas, as balas saíram e foram em direção às costas da princesa sendo porém recebidas por um vulto que jogou-se por trás dela, caindo depois, ao chão. Ouviu-se depois, uma rajada de uma outra arma de grosso calibre e os três homens, antes de poderem disparar novos tiros, caíram ao chão, os crânios dilacerados pelos projéteis disparados...A esse tempo, a princesa Nakiba interrompia sua fuga e voltava-se para ver o que acontecera e o que ela viu, junto com Xan, foi um homem deitado no chão, perto de si, ainda apontando a submetralhadora, pequena mas letal, com que estava armado. Xan, com o coração ameaçando parar, observou os rombos sangrentos nas costas do recém chegado e gritou, fora de controle.
       _ GABRIEL!!!!
       Era esse, o nome de seu príncipe, seu marido, seu amor...Ele seguira as duas, através do deserto e agora, salvava-lhes a vida, matando os homens que as ameaçavam...Xan arremessou-se sobre seu amado, desesperada e constatou que ele ainda vivia, apesar da gravidade de seus ferimentos. Já em lágrimas, ela pediu para que ele falasse com ela, que não morresse ou ela morreria junto...E logo ouviu.
       _ Controle-se um pouco, meu amor, estamos diante de uma princesa, um pouco de dignidade vai bem.
       _ Você ainda brinca? –conseguiu dizer Xan, em meio às lágrimas-...Eu não vou te perder, meu amor, eu não vou deixar você morrer, não vou...
       _ Tá bem, tá bem, não vai...Mas, me põe sentado, apoiado em alguma coisa...Eu não sinto minhas pernas.
       A esse tempo, a princesa Nakiba aproximava-se e ajudava Xan a posicionar Gabriel como ele pedira...Disse-lhe então, em inglês, que devia sua vida a ele e que seria sua devedora para o resto da vida. Xan, ao lado dos dois, apenas chorava e chorava.
       _ A senhora não me deve nada, Alteza...- ele respondeu com alguma dificuldade-...Fiz apenas o que devia fazer, sua missão é maior do que a minha, a senhora tem um povo todo para salvar, eu apenas a ajudei um pouco.
       A princesa então afastou-se dali com os olhos cheios de lágrimas enquanto o repórter guerreiro voltava-se para a esposa, tocando-lhe o rosto molhado.
       _ Então você pensou que ia sair de lá sem mim, sua fujona?...Esta missão era minha também, eu não lhe disse mas, era...é a sua primeira missão, nada de mal pode acontecer-lhe, para isso eu estou aqui, cheguei bem na hora, não foi?
       O tom de voz dele, calmo e até bem humorado surtiu algum efeito sobre Xan e ela, afinal, acalmou-se um pouco, querendo saber mais sobre como ele estava...Ele disse que estava relativamente bem, estava vivo ainda, apenas não sentia dores e nem seu corpo da cintura para baixo...” Acho que você vai ter de empurrar uma cadeira de rodas até o fim da vida de um de nós” ele disse, como se isso fosse algo comum....Totalmente arrasada com a revelação mas agradecendo aos céus por seu amado ainda estar vivo, Xan prometeu-lhe que reviraria o mundo para fazê-lo andar de novo e ele disse para ela não se preocupar com aquilo. Gabriel então, falou sobre outros assuntos, de modo a acalmar Xan e acabou tendo sucesso na difícil missão...Daí a pouco, a princesa retornava e perguntava como poderia ser útil...O dia estava quente mas, na sombra a temperatura era bem mais amena...eles decidiram dormir, em turnos de sete horas para as duas moças de modo a prevenir novos ataques e até que todos os três estivessem um pouco descansados...Quando anoitecesse, retomariam sua marcha, rumo a um local que a princesa ignorava mas que, seus dois salvadores pareciam conhecer bem...Durante o resto do dia, nenhum incidente mais ocorreu e o trio logrou descansar um pouco...Ao cair da noite, saíram os três através daquelas vastidões africanas, Xan e a princesa Nakiba andando e puxando atrás de si, uma carretinha com rodas, feita com material encontrado na aldeia deserta, na qual, ia deitado, Gabriel, o marido de Alexandra. Ela e a princesa fizeram a peça durante o período de vigília de cada uma e o resultado fora primoroso e eficaz, proporcionando até um certo conforto para o ferido...Andaram muito, novamente; encontraram animais selvagens pelo caminho mas, não foram por eles molestadas e não toparam com patrulhas, também...Após uma marcha dolorosa, horas antes do amanhecer, eles chegaram a uma outra aldeia, ainda menor do que a anterior e, ali, pararam.
       _ É aqui que ficamos –disse Gabriel- ...Em poucas horas virão nos recolher, esta aldeota é segura, ninguém virá nos importunar...nós conseguimos, meu bem, nós conseguimos...avise a princesa, por favor...
       Logo, a princesa sabia o que aconteceria e ficou muito nervosa e ansiosa, aguardando o desenrolar dos acontecimentos...após saber que seria em breve, resgatada, desdobrou-se em agradecimentos para com seus salvadores e chegou mesmo, momentos depois, a dançar pelas ruas da aldeia, cantando canções de seu povo, de pura felicidade...ainda estava escuro quando Gabriel sussurrou no ouvido da esposa, que não arredara o pé de junto dele...
       _ Xan...Xandinha...minha valente mulherzinha...Chegou a hora de dizer adeus...
       Se aquilo fosse uma total novidade para Alexandra, ela poderia gritar, desesperar-se e pedir para morrer também, mas, desde o momento em que deu-se conta da gravidade dos ferimentos de seu marido, ela soube que a dolorosa cláusula de seu contrato seria, afinal, cobrada...Era seu marido quem ela iria perder e, sabendo disso, nada falou quando ele anunciou a própria morte como coisa comum...Limitou-se a fechar os olhos e deixar ele falar enquanto deixava que todas as lágrimas que pudesse produzir, naquele momento, escapassem dela...Sem aparentar qualquer dificuldade, ele prosseguiu.
       _ Você sabia, meu amor, da condição para aceitar o convite e, como prevíamos, você aceitou...Eles confiaram em mim, eu confiei em você, na sua grandeza...e nenhum de nós, desapontou...Acredite, minha vida, os momentos que passei com você, a seu lado, vivendo sua vida, plantando em você, uma nova vida...foram os momentos mais felizes, mais intensos que já vivi, em uma vida longa de muito trabalho, tentando ajudar quem quer que estivesse vivo e precisasse de ajuda...Foi um momento único pra mim e eu cheguei a transgredir leis para ficar com você...Entenda como a coisa funciona...Todo novato ou novata que integra nossas hostes, recebe a ajuda de um acompanhante, uma espécie de guia que irá conviver com a pessoa escolhida e verificar se ela tem as qualidades necessárias para ser um ou uma de nós...Quando a pessoa escolhida passa em todos os testes e é aceita, recebe um convite formal e a ressalva de que irá perder alguém de muita estima...É o guia, essa pessoa...Alguém que conviveu durante muito tempo, com o escolhido ou escolhida, alguém que foi um amigo, um tio, um primo, alguém com um parentesco bem afastado ou, como é na maioria das vezes, sem parentesco nenhum...essa é a pessoa que o novato irá perder, de livre e espontânea vontade...Quando você foi selecionada, minha querida, ao completar quinze anos de idade, eu participei da escolha, como um dos juízes, ou talvez como o principal juiz e então, tudo aconteceu, sem que eu pudesse evitar...Eu cometi uma transgressão, eu fiz algo que não poderia nunca fazer...por amor a você...Eu pedi para ser eu mesmo, o acompanhante...Briguei com os maiorais, reivindiquei alguns direitos que tinha, fui até as esferas mais superiores e apenas sosseguei quando consegui a permissão, especialíssima...Garanti que o convite seria aceito sem restrições....muitas vezes ele não o é...E tive a permissão para casar com você e cuidar de você...até que minha hora chegasse...Sempre disseram que não temos sexo mas, isso não é verdade...temos sexos sim e podemos reproduzir-nos como se seres humanos fossemos, se adquirimos a forma humana...Valendo-me dessa possibilidade, eu fiz uma criança em você e ela, automaticamente, já é uma de nós, mesmo antes de nascer...Você não imagina a alegria, meu amor, que tive, ao saber que era pai, o primeiro de todos em nossa espécie...Quando você aceitou o convite e a condição, acredito que achou que nada mudou em sua vida mas, ela mudou e muito...Lembra quando foi fazer um tratamento de beleza em uma promoção, sem pagar nada?...Lembra quando foi posta em uma máquina de bronzeamento artificial?...Pois, durante aquela operação, seu corpo físico foi totalmente desintegrado e substituído pelo corpo que usa agora, feito da matéria da qual somos constituídos...Você acredita ainda sentir fome, cansaço, chamados da natureza mas, na verdade, isso passou apenas a ser uma simulação...na verdade, você, como eu e os outros de nós, é agora, imortal e impossível de ser machucada por qualquer meio humano...Mas acalme-se...Seu bebê é real e existe de verdade, não é uma simulação...Você apenas, não sentirá as dores do parto quando chegar a hora...Pare de chorar portanto, meu anjinho de verdade, eu não estou morrendo, meu corpo foi duramente atingido mas, em pouco tempo, recuperar-se-ia...Aqueles tiros não estavam previstos, não somos perfeitos como pode ver...Tive de matar três homens e sei que vou ter de responder por isso mas, essa já é uma outra questão...Eu aproveitei o incidente para anunciar nossa separação e o faço com dor no coração...Eu a amo e amarei para sempre, você deu um colorido inédito à minha vida...Não chore então, boba, não vai ser a morte que vai nos separar e sim, a força de um contrato...É possível que jamais nos vejamos novamente mas, tudo pode acontecer...Você passou em todos os testes, cumpriu sua missão, é merecedora de toda nossa admiração...e leva em seu interior, um ser único, resultante de uma transgressão, uma doce transgressão...Agora me deixe ir, meu amor, meu primeiro e único amor, meu tempo acabou, preciso ir...
       Xan já não chorava, ao reunir forças para murmurar uma última pergunta, mas, sua voz tremia quando ela indagou.
     _ Se eu...por um acaso...não aceitasse ...o convite...o que aconteceria?
     _ Você, no devido tempo, meu amor...sofreria uma perda, em sua vida...Eu não poderia viver com você por toda uma existência a dois, eu teria de partir, de qualquer maneira...Um acidente, um atentado contra minha vida...algo “arrumado” pelos “nossos”, algo assim, acabaria por separar-nos, eu...desculpe dizer isso...um pouco decepcionado com você e sua suposta decisão...Mas eu sabia que isso não ia acontecer, você não me decepcionou em momento algum e, se vai ficar “viúva...tão jovem e, grávida...ao menos, minha “semente” está plantada e germinará...te dando forças e consolo, diminuindo seu sofrimento, te dando energia para continuar com nossa luta sem fim...Eu parto feliz e orgulhoso de você, mesmo não tendo o direito de sentir orgulho...Orgulho de minha mulherzinha, tão valente e generosa, que sabe que a perda é...necessária...
     Ao saber de tudo o que acontecera-lhe e acontecer-lhe-ia, pela voz de seu amor, Xan entendeu tudo e tudo aceitou, serena, sentindo uma imensa paz cair sobre si, suplantando, mesmo, a dor absurda que a assomava...Sabia que a saudade não deixaria jamais seu coração, mas, teria de conviver com isso...Tudo pareceu-lhe desconcertantemente lógico, tudo estava explicado, agora ela sabia...Foi quando sentiu que o corpo de seu amado, que mantinha abraçado com força, desfazia-se, lentamente, levando, inclusive, as roupas que vestia...Deixou-o ir, sua presença era exigida, ela sabia onde, não poderia mais prende-lo...Murmurou apenas, enquanto deixava rolar uma última lágrima...de saudade...
       _ Adeus...meu príncipe de verdade...
       Só então deu-se conta de que a princesa, que estivera dançando e festejando lá fora, retornara subitamente e ouvira toda a longa despedida de Gabriel e, agachada diante de Xan, com um ar de espanto, conseguiu murmurar quando o corpo dele desapareceu.
       _ Vocês existem...Sempre me disseram que não existiam, que eram invenções de brancos mas...eu sempre acreditei em vocês...Puxa, receber uma ajuda assim, eu...eu não sei o que dizer...Vocês são todos brancos?...ou existem de outras raças?
       _ Somos de todas as raças, Alteza...Eu encontrei-me com um negro e um oriental, quando ainda não sabia de nada...
       _ Porque então, não foi um de minha raça, designado para ajudar-me?
       _ Não existem essas diferenças entre nós...A vida é uma só, a verdade é uma só, os rótulos são impostos pelas pessoas...apenas aconteceu ser eu, quem a ajudaria e protegeria...
       _ Eu é que devia chamá-la “senhora” e dever-lhe respeito e reverência...
       ¬_ Alteza, vamos deixar as coisas como estão, vamos guardar segredo disso...Meu marido se foi mas a senhora está aqui, nada impede que nos vejamos sempre e que sejamos amigas...Eu me apaixonei por você quando a vi durante a partilha da comida e a quero para sempre, como minha grande amiga.
       _ Para mim, isso seria uma honra com a qual eu não poderia nem sequer sonhar...está combinado...minha senhora, minha salvadora, minha protetora...minha amiga...


       Cerca de vinte minutos mais tarde, o ar encheu-se de barulho e poeira quando dois helicópteros da ONU pousaram na praça central da aldeia, de modo a resgatar a princesa, Diplomatas, médicos e repórteres ocupavam um dos aparelhos, o menor; o maior fora adaptado para conduzir uma espécie de aposento real, com um mínimo de conforto para a nobre passageira em uma viagem muito longa, rumo a uma outra nação, A princesa dispensou a companhia dos diplomatas e o cuidado dos médicos mas exigiu que Xan a acompanhasse, o que foi atendido. Uma vez no céu, os dois helicópteros passaram a ser escoltados por dois caças a jato e assim seria durante toda a viagem...Momentos após a decolagem, Xan olhava pela janela de plástico, acomodada em uma espécie de poltrona muito larga e confortável e tendo a cabeça da princesa, que adormecera, aninhada em seu colo e acariciando seus cabelos crespos, sentindo um enorme carinho por ela...Estava intrigada com o fato de sua amiga ter entendido tudo o que seu amado e perdido Gabriel dissera, antes de partir...Após muito pensar, concluiu que ele expressara-se em um idioma que não era da Terra mas sim, de sua nova espécie, um idioma capaz de ser compreendido por qualquer ser humano fosse qual fosse sua nacionalidade; só podia ser isso, ele desejara que a princesa o ouvisse também, devia ter seus motivos...Quando chegasse em casa, ela falaria com Láila, na redação, para confirmar ou não, sua teoria.
       A viagem foi muito longa e a princesa Nakiba, exausta, dormiu durante quase todo o tempo mas Xan já não sentia o menor cansaço...Estava evoluindo cada vez mais em sua nova vida e adaptava-se bem àquilo. Quando, afinal, pousaram na pista de uma base militar, assim que pôs os pés em terra firme, aquelas duas moças foram cercadas pelos repórteres que integravam a equipe de resgate e, uma improvisada coletiva foi armada ainda na base, tendo a princesa mantido a calma a muito custo, mostrando-se amável e simpática, apesar de todo o nervosismo que a tomava por completo, Xan também foi entrevistada e comportou-se como a princesa, sem precisar conter-se, no entanto, agiu naturalmente com cortesia e simpatia, Do lado de fora, uma multidão de pessoas aguardava pela passagem da princesa Nakiba e sua acompanhante, A história dela figurava em destaque em todos os jornais e todos queriam vê-la e saudá-la como a líder que era...Ela acenou ao público e viu as faixas que surgiam ao longo da avenida por onde passava, das quais, entendeu apenas as que estavam escritas em inglês. A comitiva foi direto para o hospital onde o velho rei Monshaba, já ciente do fato que sua filha estava viva e prestes a encontrá-lo, pedira para recebê-la com a dignidade que a situação exigia...Apesar de seu precário estado de saúde, levantara-se da cama e envergara seu uniforme de gala, usado em cerimônias públicas, passando a aguardar a filha em um salão, decorado às pressas, tão logo soube-se a notícia de que a princesa estava em segurança. O tumulto foi grande naquele hospital quando o enxame de repórteres e curiosos adentrou suas dependências, acompanhando a nobre menina...O protocolo proibia que chegassem todos muito perto dela e assim, cercada de longe, ouvindo gritos e apupos e acenando para o povo com um sorriso, mantido a custo, no rosto, a princesa africana viu-se diante de seu pai, que achava que tinha perdido, e o rei viu diante de si, sua menina que também pensara estar morta...Ela andou em sua direção com passos comedidos, lutando contra si mesma para não sair correndo e, ao chegar perto do pai, aninhou o rosto em seu peito, escondendo-o de todos, enquanto o velho e enfermo, mas, digno, monarca, sussurrava para ela, palavras de boas vindas, alívio, felicidade e amor...Xan, atrás do cordão de isolamento olhava a cena enquanto deixava que as lágrimas descessem-lhe pelos olhos, sem ligar para todo aquele povo em redor...Sentia-se feliz com o resultado de sua primeira missão, por sua amiga, a mais nova e imensamente querida...mas chorava também, de saudades de seu príncipe, perdido para sempre...e ela ouvia os soluços de Nakiba, agarrada ao pai, como uma criancinha, ocultando o que sentia de todo aquele povo mas, entregando-se à emoção para seu amado pai...A imprensa registrou o fato e todas aquelas pessoas, parecendo exultantes, romperam em aplausos quando pai e filha abraçaram-se. Mas, afinal, todos foram embora, por vontade própria ou não e aquele par real teve seu momento de intimidade, partilhado com Alexandra Márcia que a princesa Nakiba exigiu que fosse trazida à presença dela e de seu pai, o qual não tinha palavras para agradecer, pela devolução de um pedaço seu, um pedaço que julgava ter perdido, perdendo assim, também, a vontade de viver. Os três ficaram juntos o resto do dia, conversaram, tomaram as refeições e até visitaram as alas do hospital, não podendo sair dele, devido ao estado de saúde do rei Monshaba...A noite caiu e Xan conversou por telefone e via Internet com sua família e amigos que já sabiam de sua história e a parabenizavam por sua audácia e repreendiam-na por ter-se arriscado tanto...se eles soubessem...Xan passaria a noite em um hotel e, dali a um dia ou dois, voltaria para casa mas, a princesa exigiu, novamente, que um quarto perto do seu e de seu pai, fosse arrumado para sua amiga ficar com ela, durante o tempo que fosse passar naquela cidade. Seu pedido, ou imposição, foi atendido, prontamente, e Xan ficou com a princesa...parecia que elas duas sabiam o que iria acontecer...
       Naquela madrugada, o rei Monsahba faleceu; os médicos fizeram de tudo para mantê-lo vivo mas, foi tudo em vão...Seus deuses, por bondade, mantiveram-no vivo até o momento em que reencontrou a filha, ele morreu feliz...foi isso o que Xan disse a uma inconsolável Nakiba que, diante de uma cama vazia, desmanchava-se em lágrimas e soluços, agarrada a sua amiga e protetora, encontrada há pouco tempo mas, para toda uma vida...Ela, que suportara uma guerra, a certeza da morte do pai, a fome, a visão da destruição de seu povo, agora era, novamente, uma criança magoada e triste, que buscava no regaço da outra criatura, muito importante em sua vida, um apoio, uma ajuda para recompor-se e tocar a vida adiante...
       Xan ficou ao lado da princesa até o momento de sua partida e dos restos mortais de seu pai, em um avião...Ela iria até uma outra nação africana, onde o exército estrangeiro de ocupação estava reunido, para destronar um cruel ditador e por em seu lugar, uma rainha, de fato e de direito...Tão logo a aeronave desapareceu em um céu muito azul, Xan deu-se conta de que a vida continuava...Ela ainda tinha seu emprego, seus estudos...e muitas missões através do globo terrestre; uma vida nova a ser seguida, de início, só, mas, depois, na companhia que habitava seu ventre...um compromisso assumido há pouco tempo mas, delineado quando ela completara quinze anos de idade e tendo como registro, um convite lindo, lindo, desenhado, inteiramente à mão, por um artista oriental...


       De volta a seu lar, Xan acompanhou o desenrolar dos acontecimentos que a mídia cobriu em detalhes, obtendo uma audiência absurda...Tudo aconteceu depressa, as forças de ocupação retomaram o poder sem grandes dificuldades, em um ataque relâmpago que durou apenas parte de uma noite e que teve muito menos baixas do que era esperado...O infame ditador genocida foi capturado com vida e encarcerado em um país europeu, ali ficando, até o dia em que iria encarar seus juizes e prestar contas dos crimes que cometeu...mas não iria ser condenado à morte, isso ficou bem claro, desde o início...Pouco tempo após a vitória, em uma cerimônia que mobilizou as atenções do mundo, a princesa Nakiba foi coroada Rainha Nakiba Monshaba, em uma cerimônia emocionante à qual Xan compareceu e teve lugar de destaque junto da jovem rainha...Tão logo subiu ao poder, a nova monarca trabalhou com garra, visando a recuperação de seu reino e o resgate da dignidade de seu povo...Em pouco tempo, era a soberana mais amada que aquela nação já tivera, em gerações e gerações de líderes...Longe de sentir orgulho por haver sido uma importante peça naquele processo, Xan sentiu-se feliz por aquela rainha menina e por aquele povo, do qual conhecera e vivenciara um momento de enorme desgraça...Agora aquele povo retomaria sua vida e não sofreria mais, esperava-se que, para sempre..
       Agora viúva, tão jovem e aguardando uma criança, Xan foi, naturalmente, o alvo dos cuidados da família e amigos, durante um tempo...As conversas com Rebeca, com Láila e tantos outros, passaram a ser coisa corriqueira e, logo ela soube que entraria em ação em breve...Passara a ocupar o lugar do marido, na redação, e continuava seu bom trabalho, mesmo que para isso, tivesse de abrir mão, um pouco, da faculdade, onde era, agora, a pessoa mais popular, a mais adulada e cortejada...Mas não casou-se novamente e nem sequer conheceu outros homens...Gabriel fora o único, por vários motivos que nem valia a pena enumerar, tantos eles eram...E Xan sentia saudades do marido, muitas, todas as vezes que olhava seus objetos comuns, as imagens gravadas, os ambientes compartilhados...a barriga que crescia e crescia...


       Naquela noite fria, ela despertou de madrugada e não conseguiu mais conciliar o sono, a cama vazia parecia–lhe grande demais...Foi, no escuro, até a sala e acabou na varandinha do apartamento, como gostava de fazer e, por ali ficou, até que a aurora começasse a ameaçar surgir...Acariciava com carinho seu ventre proeminente e redondo...Não quisera saber o sexo de seu bebê, isso não tinha a mínima importância para ela...Sentada em sua cadeirinha de vime, sentindo frio, mal agasalhada que estava, divertiu-se ao pensar como seria se, na hora do nascimento, uma criaturinha saísse de dentro dela e, esvoaçasse pela sala de parto, movida por suas asinhas, causando o maior susto entre médicos e enfermeiras...Claro que isso não aconteceria, asas eram para as aves, não para eles, os de sua espécie, apesar do monte de bobagens que o povo repetia por aí, através dos séculos...Ela recebera o convite, quando chegara sua hora e o aceitara...Jamais iria arrepender-se de tal decisão, sabia agora que aquela era a sua vida, não era à toa que sempre acreditara em anjos, afinal...
       Um ruído dentro da sala chamou sua atenção e ela virou-se e viu, no centro do aposento, sorrindo para ela, em franca aprovação, dois rapazes, um negro e um oriental...Como estavam diferentes sem as roupas miseráveis e sem o peso da idade nas costas!...E como eram lindos!...O oriental vestia-se com um quimono muito elegante e decorado, seus olhos eram vivazes e seu cabelo, curto e preto, era todo espetado...O rapaz negro trajava uma túnica muito colorida e estampada de motivos tribais, usava um brinco na orelha direita e seu sorriso amplo e muito branco, não denotava a falta de nenhum dos dentes...Eles a saudaram com um aceno de cabeça, que ela correspondeu e desapareceram, depois, no ar, levando consigo, a luz que os acompanhava...Voltando a olhar para o céu, Xan prometeu a si mesma, empenhar-se a fundo, em suas tarefas e não deixar que mesquinharias tais como: orgulho, vaidade, presunção, jamais toldassem seus sentimentos, arriscando ameaçar o bom cumprimento de sua sina...Devia isso a Gabriel, a Rebeca, Laila, Fábio...eles eram tantos...que bom...
       E assim pensando, Alexandra Márcia Magno viu que o céu clareava-se mais e mais, como uma mensagem de esperança e, ali mesmo ela ficou, sentindo o carinho da manhã enquanto era, pouco a pouco, banhada pela suave luz de um novo dia...

      
celso dyer
Enviado por celso dyer em 21/12/2017
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