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Perfume


        Adelaide, desde muito pequena, sempre acreditou saber o que desejava, da vida, para si. ...Ela cresceu e, de menina, passou a mocinha e, depois, mulher, sempre do mesmo jeito: linda, carinhosa, amável, simpática e com um bom humor a toda prova. Mas, ao lado do gênio afável que, apenas, ressaltava sua indiscutível beleza física, um temperamento forte e um senso de independência, mais forte ainda, conviviam, sem quaisquer conflitos, para ela...Quem via a doce Adelaide, conversando, rindo ou, amparando quem dela precisasse, não a imaginaria cortando a mão, ao quebrar uma vidraça com um murro ou, estilhaçando o pára brisas de um automóvel com o pé, coisas que aconteceram, realmente...Quem olhasse o jeito meigo de Ade ( como gostava de ser chamada ) e achasse que ela não seria mais do que uma “mosca morta”, decerto surpreender-se-ia, quando fosse confrontado com seu lado mais “decidido”...De fato, desde muito pequenininha, fosse interagindo com as pessoas ou com os bichos ( a quem amava tanto quanto gente ) aquela menina, muito branquinha, miúda, de cabelos castanhos claros e esplendidos olhos azuis, viveu sob o comando de um lema de vida, que criara para si e do qual, não abria mão:
    _ Ninguém vai, jamais, “colocar cabresto” em mim, nesta vida “arreliada”.
    Viveu Ade, sua infância e adolescência, cercada de muitos mimos e facilidades, junto do pai, a quem adorava loucamente, da mãe e do irmão...além dos animaizinhos que, como já dissemos, amava, como fazia com as pessoas só que, de forma mais incondicional...E assim foi, ela cresceu, desenvolveu-se física e espiritualmente, conheceu pessoas e locais e, um belo dia, apaixonou-se por um garoto, que devolveu tal paixão, de um modo um pouquinho “brusco” o que, no entender dela, indicava uma grande força interior, dele...Namoraram os dois e acabaram-se separando, por força das circunstancias mas, apenas, para encontrarem-se um pouco mais tarde, ela já uma estudante universitária...O namoro foi reatado e o casamento, decidido e consumado, em meio a muitas festas. O casal foi morar em uma fazenda e, logo, duas meninas resultaram da união dos dois, com poucos anos de diferença de uma para a outra.
      E foi aí que, o que parecia ser um “mar de rosas” revelou seus espinhos, muitos...Com surpresa e pesar, Ade viu seu “príncipe encantado” mudar, aos poucos, seu comportamento para consigo tentando, a todo custo, fazer com ela o que mais abominava: tolhe-la, dominá-la, através da coação e de mil formas de pressões, psicológicas e não, físicas...Desiludindo-se mais e mais, a decidida Ade não quis, entretanto, “entregar os pontos” com tanta facilidade e conseguiu a proeza de levar adiante, um casamento que ia-se desfazendo, com o tempo, por mais de vinte anos, até a situação beirar o insustentável e o insuportável e, quando ela viu-se cortando-se toda com vidraças e pára brisas de carros, sentiu que era hora de parar com aquilo...Bastante deprimida por haver “falhado” tanto, não por culpa exclusiva sua, ela sofreu muito no processo de dissolução de seu casamento e, por ser alguém muito prático e, até, orgulhoso, não lutou na justiça, por bens, quaisquer, que fossem e que não dissessem respeito, única e exclusivamente, às duas filhas do casal...Para si, ela não quis nada, não meteu-se em brigas desgastantes e sujas, por causa de bens e dinheiro e largou para trás, tudo e todos, saindo de uma vida de mais vinte anos de convivência, “com uma mão na frente e a outra, atrás” mas, com o que mais importava, intacto dentro de si: sua liberdade e dignidade ( não por acaso essas duas palavras terminavam em “ade”...)
     Disseram as “más línguas” ( geralmente divididas em duas, nas pontas ) que ela estava “acabada”, que não tinha mais serventia nenhuma e que, sua única opção era “arranjar um outro marido” ou alguém que a sustentasse porque ela não teria “pique” pra recomeçar uma vida, a partir do zero, ainda mais, levando-se em consideração o meio em que fora, ela, criada...Como enganaram-se os ofídeos donos dessas línguas...Ade voltou a estudar, batalhou emprego, prestou concursos e lutou, igual a uma leoa, por si, como sempre fez pelas filhas e, aos poucos, foi calando bocas desocupadas...Para surpresa de muitos, ela logrou empregar-se e conseguir sustentar-se podendo, inclusive, sair da “casa da mamãe” para onde fora, após sua tragédia pessoal passando, então, a administrar seu próprio “cantinho” com dedicação, zelo e criatividade ( olha o “ade” aí, de novo )...E é, justamente, nesse ponto da vida da doce Ade que, este pequeno conto policial começa, de fato.


    Havia, no bairro, um prédio imenso, um dos maiores e, o maior, na época em que foi construído...Seria tal edificação, o primeiro “Shopping Center” da cidade, do Estado e quiçá, do país, seguindo uma tendência internacional...Mas, durante a implantação do projeto, algo deu errado e a idéia do nascimento de um grande centro de compras, não vingou...Ficou então, o imenso edifício, meio abandonado durante algum tempo, até que fosse decidido o que fazer com tudo aquilo...A solução encontrada foi, transformar o que seriam salas comerciais em apartamentos pequenos, do tipo “quitinete” talvez, um pouquinho maiores e só...Após muito procurar uma moradia, Ade encontrou uma loja, adaptada para apartamento, no tal prédio gigante e, decidida que era, após aprovar o espaço e, mais ainda, a vista descortinada dali, decidiu:
    _ Esse espaço é meu e ninguém “tasca”.
    E assim foi...Para seu novo apê, Ade mudou-se de “armas, bagagens, mala e cuia” fundando seu novo “feudo” o qual defenderia com todas as suas forças contra tudo o que não fosse vibrações positivas e astrais benignos...Era um espaço de mais ou menos quatro por cinco metros e com o banheiro e a cozinha ( a tal “kitchenette” ) logo após a porta de entrada, um de frente para a outra em um espacinho de um metro e vinte por um e meio, mais ou menos...Sendo uma “expert” em arte e estética, a criativa Ade transformou um espaço neutro em uma profusão de formas e cores, algo que agradou, e muito, aos amigos, muitos, que foram visitá-la e, poucos, que, eventualmente, dormiram lá, assim como agradou ao novo namorado que ela encontrou em algum lugar deste mundo e que, também dormiu em seu “ninho” só que, na mesma cama que ela, uma cama grande, antiga e, muito pesada...Trabalhando como louca Ade passou a estar constantemente ocupada, em nada parecendo a “princesinha” que parecera ser, em sua mocidade, a “bonequinha dentro de uma redoma” que ela sempre negou dentro de si...Agora era uma mulher, trabalhadora, professora, pesquisadora, na autoridade e experiência de seus...”mais de trinta anos”, vividos sob o signo do escorpião, da coragem e da decisão, o que o atestavam as várias tatuagens que tinha, espalhadas pelo corpo...A lamentar, apenas, a luta suja que seu ex marido empreendeu contra si, indispondo-a com as duas filhas e “bagunçando” um pouco os sentimentos de quem parecia ter vindo para este mundo, apenas, para plantar a bondade e a positividade ( “ades” e mais “ades”...fazer o que? )...E assim o tempo foi passando e ela, comunicativa, simpática e solidária, foi fazendo suas amizades com sua nova vizinhança, prestando pequenos favores e recebendo-os, também...O pessoal daquele prédio era muito bom de convivência e o comércio, intenso, que acontecia ao rés do chão –ipso facto o único vestígio da idéia original do complexo- a todos supria, de um tudo, fosse lá o que fosse, a ponto da divertida Ade dizer aos amigos, de vez em quando:
     _ Na loja do fulano, se eu pedir uma granada, ele vai me perguntar “de pino ou de cabo?”


     Uma das vizinhas de quem Ade fizera-se mais íntima era a Irene, uma “bicho grilo” recalcitrante que vivia, ainda, nos anos setentas e que morava no andar logo abaixo do seu e cuja idade batia com a sua: ambas tinham “um pouco mais de trinta”...Irene era alegre, expansiva, muito mística e uma boa companheira...igual à amiga...Trajava-se de modo “retrô anos setentas” abusando das batas indianas e das calças “boca de sino”, além de colares, anéis, pulseiras e outros acessórios, que ela fabricava e que vendia, para garantir o aluguel e o pão na mesa, adereços que receberam a companhia, mais “moderna” de piercings, discretos mas, numerosos, espalhados por seu rosto moreno e belo...Ade visitava Irene amiúde; as duas faziam chá, conversavam, trocavam impressões, jogavam cartas e comentavam seus “homens”...Irene não tinha uma companhia fixa mas, não era uma promíscua...Tinha seus namorados, recebia-os em casa e tudo o mais, de uma forma um pouquinho mais “liberada” do que a de Ade que, romântica empedernida, não “namorava por namorar” e sim, “para casar”, quantas vezes fosse preciso afinal, gostava imenso, de uma companhia masculina “no papel”, por motivos que, só a ela, diziam respeito...Apenas uma coisa, na Irene, incomodava Ade, um pouquinho: a adoração daquela por camarões fritos a qualquer hora do dia e da noite. A cozinha ( ou quase isso ) de Ade não tinha janela, os vapores de gordura e outros tantos subprodutos da preparação de alimentos, eram eliminados através de um tipo de abertura com básculas, na parede, que dava para um duto de ventilação que ia morrer no topo do prédio, algo que funcionava, apenas, de modo sofrível mas que, era a única alternativa...Diversas vezes, Ade saboreou camarões na casa de Irene ( Não aquela que “de noite e de dia tem gente que vem e tem gente que vai” ) mas, simplesmente, não suportava quando sua vizinha “hippy retrô” fritava seus crustáceos às onze horas da noite, meia noite, uma da manhã...o cheiro da cozinha ( ou coisa semelhante ) do andar de baixo vinha direto para o cantinho de Ade, propagando-se por todo cômodo e isso a desgastava, um pouco mas, ela nunca reclamou disso, com modo de magoar a amiga e, decidiu enfrentar aquilo, com bravura afinal...a coisa nem era assim tão frequente...


     Pois bem...Certa tarde, Irene foi encontrada morta em seu apartamento...aliás, morta não, falar assim seria um eufemismo...Irene foi destroçada, estraçalhada, quase como se a tivessem passado por um moedor de carne...A imprensa “sanguinolenta” banqueteou-se até empanturrar-se com o caso, tão horrível ele foi...Em cada canto do prédio e nas lojas do térreo, comentava-se que tipo de animal faria uma coisa daquelas...que monstro seria capaz de algo assim...Não fora um ladrão, um assaltante. A porta havia sido aberta para o criminoso e não, arrombada e, o apartamento não parecia revirado, todos os objetos pareciam estar em seus lugares...A polícia periciou o local, em busca de pistas e vestígios e o serviço medico legal retirou o corpo dali, após reunir o que havia sido feito com Irene em um corpo, novamente...Durante as investigações posteriores, nada de muito concreto foi apurado: ninguém ouviu barulhos, gritos e outras coisas mais, durante a madrugada em que Irene foi morta e o assassino pareceu não deixar qualquer traço de si, que revelasse sua identidade...Acreditava-se que fora um homem quem fizera aquilo, dada a extensão dos estragos algo que, apenas, alguém muito forte poderia fazer.
     A perda da amiga, durante um bom tempo, desestruturou a segura e confiante Ade...Não foram poucas as noites em que ela, agarrada a seus quase dez travesseiros, chorou muitas e muitas lágrimas, amargas, sofrendo, por dentro, com o fim da amiga, alguém incapaz de fazer mal a quem quer que fosse...e à dor, uniu-se o medo, a constatação do estado de fragilidade em que encontrava-se, morando só, sem a companhia de alguém que pudesse protegê-la...Bem, quem matara Irene fora alguém que ela introduzira em seu apartamento...um namorado, um conhecido...E Ade tinha, ao menos, essa certeza: nem seu namorado e nem seus amigos eram doentes mentais assassinos, isso dava-lhe um certo alento...tal não acontecera com Irene...pobre Irene, tão amiga, tão querida...não merecia aquilo...
     Triste e amuada, Ade seguiu tocando sua vida afinal, “o tempo não pára”, como diria o poeta...Saía de manhã para trabalhar e só voltava à noitinha. Ia então, fazer sua comida, tomar banho, dar uma geral na casa e tudo o mais que incluía-se em sua rotina detalhista e metódica...Sonhava sair, um dia daquele apê, casada com seu novo par que a protegeria, confortaria e daria todo o amor de que ela precisasse...No sobe e desce dos elevadores ela encontrava com gente...gente conhecida e desconhecida, gente trabalhadora, como ela, gente que amava, sentia, sofria, ria, chorava, sentia raiva, amor, amizade, carinho...tudo igual a ela...Um dia, igual a outro qualquer, descendo, em um sábado, para comprar alguma coisa no supermercado que havia no meio da miríade de lojas do pavimento térreo, distraída, ela nem percebeu quando ele entrou...Só deu-se conta de sua presença quando ouviu-lhe a voz, bem modulada e algo grave.
    _ Oi, eu nunca te vi por aqui...Você é moradora?
    Olhou para a direção do som ou seja, para cima e viu, o rosto belo e jovem, plantado em um corpo de altura desmedida e porte mais do que atlético, mesmo a despeito do terno, elegante e de bom talhe, que usava...O dono da voz e rosto belos tinha a pele bronzeada e a cabeça totalmente raspada...Algo abalada com semelhante visão, Ade balbuciou que, sim, era moradora e estava indo ao supermercado comprar algo...Ela não sabia o que pensar, aquela presença masculina, bela e jovem – ele não teria chegado aos trinta- mexeu em algo, dentro dela, pelo insólito dos trajes formais, pela careca, pela beleza e, evidente, força...e por um detalhe a mais que ela não soube precisar...Ele perguntou o nome dela, ela disse, e ele disse-lhe o nome que seria o seu...Enquanto desciam o resto dos andares ele contou que estava trabalhando mas que, se isso não a incomodasse, a acompanharia até o mercado afinal, precisava comprar algo, também...Ela não opôs-se a isso, ainda sob uma forte impressão que toldava-lhe o pensamento...impressão causada, também, pelo perfume que emanava daquele corpo...um perfume forte, não desagradável mas, definitivamente, forte, exagerado...Eles circularam pelas prateleiras abarrotadas e, quase apenas ele falava, empurrando seu carrinho, ela ouvia e tentava unir dois pensamentos que insistiam em não fazê-lo...Ele contou-lhe coisas de sua vida, seu trabalho e perguntou-lhe outro tanto, que ela ia respondendo, resistindo a uma entrega maior, sentindo-se “travada” por aquele estranho fascinante...logo ela que era a espontaneidade ( com “ade” e tudo ) em pessoa...ele perguntou o numero de seu apartamento e ela forneceu, quase sem perceber...o mesmo aconteceu com o numero do seu celular...Afinal, separaram-se e Ade voltou para seu “casulo”, com a cabeça fervilhando de pensamentos desconexos...Afinal, acabou concentrando-se em seus afazeres e acabou quase esquecendo o estranho encontro...
    Não por muito tempo...dias depois, ainda no elevador, ela o viu, novamente...desta vez ele foi mais ousado e convidou-a para um cafezinho no “barzinho tal” que, servia um café excelente...Meio que hipnotizada, ela aceitou o convite e , dessa vez, falou mais, revelando, ao menos, em parte, seu lado “Ade”...Eles falaram-se e, depois, ele se foi, deixando no ar, uma impressão forte, de si...Mais tarde, chegou seu namorado, em visita, vindo lá dos confins onde morava e trabalhava...Ela fez festas para seu amado e passou o resto de sábado e o domingo quase inteiro, com ele, apenas de noitinha ele partiu e ela o acompanhou até o aeroporto, onde um avião o levaria até “Sabe Deus Onde”, local de sua residência...e foi, naquela mesma noite, encaixada em seu “ninho” de travesseiros que ela, sonhando, juntou as peças separadas de um quebra-cabeças que teimava em fazê-la de tola e, despertando de súbito, já banhada em suor frio, deu-se conta do que estava acontecendo, presa do mais puro terror!


    Passou-se uma semana...e outra...ela olhava em derredor, desconfiada, apreensiva, temendo o que encontraria ao dobrar uma esquina, pensando e pensando...e, afinal, quando ele tocou-lhe o ombro, ela sentiu como que um fio desencapado a encostar-lhe, pulando e encolhendo-se toda, enquanto ouvia.
    _ Credo, que stress! Relaxa, menina, sou eu.
    Era ele...com seu terno, sua altura sua careca, seus modos gentis...sua beleza apolínea e físico idem...
    Falaram-se um pouco e ele a convidou para almoçar...era um sábado de sol, a cidade pulsava de vida em uma explosão de cores, luz, cheiros e movimento...Aceitou-lhe o convite e ele tomou de sua mão, enquanto andavam e ela, sentindo sua espinha como a de uma gata assustada, permitiu que ele o fizesse, sem corresponder, entretanto...Eles almoçaram e falaram-se mais e mais, ela parecendo descontrair-se mais, a cada momento...Durante a refeição, ele passou as costas da mão por seu braço, descoberto, indo até seu ombro e arrepiando-lhe a pele com o toque...pareceu-lhe entender os motivos de tamanha reação e, apenas sorriu...Ao despedirem-se, ele tentou beijá-la nos lábios mas, ela fugiu com o rosto e ele tocou-lhe, apenas, a face..Afinal, ela disse-lhe, quando separaram-se, ele ainda a segurar sua mão, já algo trêmula:
    _ Vá no meu apartamento...no sábado que vem...se você quiser.
    _ É claro que eu quero...linda...-ele respondeu abrindo um sorriso lindo e luminoso....curvou-se então, sobre ela e tentou-lhe, novamente, os lábios...mas, de novo, só encontrou uma bochecha...Rindo-se, ele afastou-se, dizendo:
   _ Sábado que vem eu vou te ver, princesa...mas, vai ter que ser de noite, eu telefono.
   _ Tá bem...tá combinado –ela tornou-lhe.


   Durante a semana, ela procurou por pessoas, comprou coisas e tomou algumas providências que julgou necessárias...Passou uma semana terrível, ansiosíssima que estava, temerosa mas, decidida a levar algo até o fim, como era, aliás, seu hábito...No sábado combinado, ela recebeu a ligação dele, à tardinha e o encontro foi confirmado...ela procurou colocar bastante sensualidade na voz mas, não soube dizer se o conseguiu. Ao desligar o aparelho, sentindo que um forte tremor a dominava, da cabeça aos pés, ela disse, já batendo o queixo.
    _ Treme tudo, Ade...treme tudo o que tiver pra tremer, agora...depois, não vai ser possível...não dá mais pra voltar atrás...”vamo em frente que, atrás vem gente”, como dizia o “Seu”Carlos – e, ao lembrar do pai, já falecido e do que ele costumava dizer, sentiu uma forte crise de choro a dominar e, lançando-se na cama chorou, tensa, o quanto quis porque, à noite...teria de ser uma “outra Ade”...
    Na hora combinada, ele chegou...a porta estava destrancada e ele foi entrando com uma garrafa e duas taças na mão...Não usava o terno e sim, um training preto, sem camiseta por baixo e com o zíper descido até o fim, a revelar o peitoral malhado e a famosa “Barriguinha de Tanquinho” ( que um amiguinho de infância dela, chamava, vendo fotos de fisiculturistas, de “Cocô Embolotado” por causa da forma do cocô de cavalos que ele achou parecida com uma barriga e peito malhados )...Disposta a tudo, ela o recebeu de camisola fina e robe, maquiada e, levemente perfumada, o rosto a exibir um sorriso nervoso e pouco natural, algo que ele entendeu como um nervosismo natural ante o “deus de beleza” que ele era...Ele entrou e, atrás de si, trancou a porta da frente com todas as voltas da chave, indo então, em sua direção e, largando garrafa e taças em cima de uma mesa que encontrou. Enquanto andava, com desenvoltura, despiu a parte de cima de seu agasalho, fazendo um pouco de pose, de modo a exibir os músculos e depois, foi em direção a ela, chegando-lhe perto, abraçando-a e procurando beijá-la na boca, com mais decisão do que na outra vez...mas, novamente, ela fugiu-lhe e ele acertou-lhe, apenas, o pescoço e o rosto...Ele, então, começou a exaltar-se, respirando de modo ofegante e tendo no rosto, uma expressão estranha, a revelar quem, de fato, era...Sentindo que ia vomitar, ela o encarou, apavorada, e tentou desvencilhar-se dos braços fortes que a cingiam, já ensaiando um grito de puro horror!...Ante as recusas dela, ele alterou-se ainda mais e, em um repelão, jogou-a por cima da cama e puxou com força a aparente pouca roupa que ela usava, rasgando tudo e deixando-a, apenas, com o maiô cor de pele, que usava por sob a camisola, enquanto gritava, já possesso.
   _ Tá resistindo, putinha? Eu vou é te mostrar o que é que é um macho de verdade, sua cadela vadia!
   Meio segundo mais tarde, a porta da frente foi aberta com violência, lançando longe lascas de madeira e um bando de homens invadiu o apartamento e dirigiu-se ao homem sem camisa, procurando imobilizá-lo, enquanto um policial dava-lhe ordem de prisão, declarando.
    _ Considere-se preso, senhor Fulano de Tal pela acusação de tentativa de estupro e homicídio da cidadã Adelaide Dos Anzóis, assim como a de homicídio duplamente qualificado e subseqüente evisceração da cidadã Irene Das Tantas, ambos ao crime ocorridos no âmbito do prédio...
    De repente, o agente da lei interrompeu seu discurso e foi participar da confusão de braços, pernas e corpos, acontecida no apartamento de Ade Dos Anzóis pois, aquele homenzarrão careca e homicida estava resistindo à prisão e, levando vantagem contra os agentes da lei...Com a adição de mais um combatente, entretanto, a situação inverteu-se e, o criminoso foi, finalmente subjugado e, no calor da batalha, impiedosamente surrado pelos policiais que o massacravam aos gritos de:
  _ Resistindo à prisão, filho da puta?  Desacatando autoridade? Toma! Toma, pra tu aprender!
  Ade, ajoelhada sobre sua cama e debruçada por sobre a briga, esquecida de que era uma pessoa doce e carinhosa, berrava no limite de sua voz, totalmente desvairada.
   _ Acaba com ele! Matou a Irene por nada! Bate nesse desgraçado! Apanha, apanha, infeliz! APANHA, FILHO DA PUTAAAA!
   Afinal, após receber a punição que todos acharam justa, aquele traste foi deixado, esparramado no chão, sangrando e coberto de hematomas que já surgiam-lhe pelo rosto e corpo. O oficial, então, repetiu sua voz de prisão e leu seus direitos, como manda a lei...Mas, outra vez, não concluiu sua fala porque o candidato a “serial killer” levantou-se do chão, com brusquidão e, indo em direção à janela, pulou-a. lançando-se em um abismo de doze andares...Em plena escuridão o que se ouviu foi, apenas, o estrondo do corpo rompendo telhas de cimento amianto para acabar de se “estabacar” na garagem que havia em baixo, talvez, sobre um automóvel....Os policiais registraram o ocorrido mas ao olharem para Ade, decidiram adiar seu depoimento pois, a pobre criatura estava “um trapo”, encolhida na cama com o rosto escondido nas cobertas, chorando, histérica, quantas lágrimas pudesse encontrar dentro de si. O oficial que liderou a operação, então, houve por bem cobri-la com um lençol enquanto dizia-lhe, com suavidade.
   _ Dona Adelaide, a senhora foi de uma coragem à toda prova, impedindo esse meliante ( que, a uma hora dessas, deve estar tomando um chá com Belzebu ), de cometer uma série de crimes o que é evidente que ele estava começando a fazer...Se a senhora achar que necessita de uma ajuda psicológica, podemos indicar...
   _ Não, não –interrompeu Ade, sem mostrar o rosto-...Eu tô bem, só ´tou nervosa...Obrigada a vocês, do fundo do coração...Vocês salvaram minha vida.
   _ E a senhora, a vida de tantas outras...até que o indivíduo fosse detido...a senhora é uma heroína...
   _ Não sou...eu não sou nada...me deixem, apenas, por favor...e, obrigada.
   _ Boa noite, então, Dona Adelaide...nossos respeitos...Seu depoimento, nós tomaremos depois.
   _ Tá bom...boa noite...e obrigada, uma vez mais...


   Com as acareações posteriores, a polícia concluiu que, de fato, aquele homem havia assassinado Irene...bastou comparar suas impressões digitais com as que foram encontradas no apartamento de pobre mulher...Como o tipo não tinha ficha na polícia, acreditou que não precisava tomar cuidado com digitais, certo que estava, em sua mente distorcida, de nunca ser descoberto. Ade depôs na delegacia e foi tratada como “celebridade”, durante algum tempo; os jornais já a elegiam “O Anjo Vingador” da cidade e, tanta bajulação vazia, só fez irritá-la um pouco...Mas, acedeu a comparecer naquele “talk show” famoso porque era fã de seu apresentador e ele, derramou-se em elogios sobre ela, exaltando-lhe a coragem e o sangue frio e ela limitou-se a baixar os olhos, vermelha como um camarão, cozido ou frito, enquanto era coberta de aplausos...Nas escolas em que dava aulas, as garotas tratavam-na como um ídolo e esse tipo de manifestação, ela recebeu com mais naturalidade ( com “ade” e tudo ) por sabê-la vinda de almas mais puras e desinteressadas em sua súbita fama...Revistas e jornais estamparam seu rosto e comentaram seus feitos, ela apareceu em telejornais e, um pouco mais tarde, revistas masculinas convidaram-na para ensaios fotográficos e ela, tímida e reservada que era, quanto a sua intimidade, recusou todas as propostas –muitas, bastante vantajosas- envaidecendo-se, no entanto, por saber que “ainda estava com aquela bola toda” ante a visão masculina.
     Mas, com a irmã da Irene, que passou a visitá-la, em casa, com alguma frequencia, a coisa foi um pouco diferente...O primeiro encontro delas foi brindado com muitas lágrimas de saudades daquelas duas mulheres ( Bianca, a irmã não tinha nada a ver com Irene, tanto nas roupas quanto, no modo de vida ) enquanto Ade contava como a coisa havia acontecido. Disse ela, em meio a muita comoção:
    _ Foi o perfume...na noite em que Irene foi morta, eu senti o cheiro...o perfume forte...pelo basculante da cozinha...Achei que deveria ser um namorado dela...e era aquele monstro...Depois, foi no elevador...ele me abordou, me assediou...Eu demorei a entender o porque de achar que o conhecia ou já o havia visto...foi o perfume forte...Na noite em que meu namorado veio, “a ficha caiu”, durante um sonho...e eu achei ( mas, quem sou eu? ) que devia fazer alguma coisa...pra deter aquele animal...Foi loucura, o que eu fiz, me arrisquei demais...mas, fiz por sua irmã, para que outras não sofressem o que ela sofreu...Eu só lamento não poder fazer nada por ela, ainda em vida...
    _ Mas, você fez, Ade...esteja certa de que fez –disse Bianca, com as lágrimas descendo pelo rosto, bonito, moreno e mais jovem que o da irmã “hippy retrô”.
    _ Que seja...Durante a semana, eu combinei com os policiais que seria uma “isca viva”, ia atraí-lo para um “flagrante” e o tipo seria preso...Eles até inverteram o “olho mágico” da minha porta, para olharem para dentro e intercederem no momento apropriado...Foi por mim, também que eu fiz o que fiz...eu queria ver essa criatura pagar pelo que fez à Irene
    _ Por você, pelas outras...e por Irene, minha amiga adorada...Afinal ( e que Deus me perdoe por falar assim ), foi até melhor aquele desgraçado morrer, ao invés de ser preso...corria o risco de acabar sendo solto após alguma manobra de algum “advogado do diabo” e aí...voltaria a estuprar, matar...esquartejar...Mas, como tudo de ruim, afinal, tem seu lado bom...eu acabei encontrando uma amiga, que vou fazer de um tudo para manter comigo até o último dos meus dias.
    _ Obrigada...
    _ Eu é que agradeço...Obrigada por você existir, amiga Ade.
    _ ...De nada...amiga Bianca...
  
    E, a partir de tal episódio, Ade nunca mais achou ruim, um cheiro sequer que invadisse seu lar, devia sua vida e segurança a um exaustor “meia boca” que invadia a intimidade de seu “cantinho” com aromas os mais diversos, cada um contando algo diferente, algo que, uma vez compreendido, até salvaria uma vida...  
    
    
celso dyer
Enviado por celso dyer em 21/12/2017
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