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O PRISIONEIRO - primeiro dia
       O sol escaldava...Um imenso descampado...Em destaque, uma espécie de caminho que rebrilhava ao sol...para onde estava indo?...há quanto tempo estava andando, em semelhante deserto, de areia grossa, avermelhada e com aquela faixa larga, que parecia ser feita de quartzo, jogado por ali por muitos caminhões, de modo a que formassem um caminho que, parecia ser de diamantes...Caminho que levava ao ponto branco, muito, muito ao longe...O que seria aquilo? Uma edificação?...Um monumento à morte?...Sua própria sepultura?...Precisava chegar ali o mais depressa possível, para saber o que era...Se fosse um abrigo, no meio da fornalha em que encontrava-se, tanto melhor, descansaria, fugiria do Sol, que fazia de tudo para confundir-lhe as idéias, dificultar seus passos...tentar mata-lo...Não...não seria assim, tão facilmente, que dariam cabo de sua vida, não sem luta...muita luta...Se aquele ponto no horizonte não fosse um refúgio, ele trataria de virar-se, para continuar vivo e não deixar-se morrer no meio de um deserto vermelho, parecido com os que existiam em Marte, os quais ele chegara a pisar...Mas, aquilo não era Marte...O planeta vermelho ainda não tinha uma atmosfera respirável, apesar dos imensos esforços dos cientistas para a produção de uma...Ele estava na Terra mesmo, em que ponto dela...não sabia mas...saberia, mais cedo ou mais tarde...Precisava agora, era driblar a morte, que julgava espreita-lo em algum ponto daquela imensidão toda...Não lutara tanto, não empenhara-se tanto durante sua vida para acabar morto e estorricado em um deserto absurdo, sobre uma faixa de cristal de rocha, um local onde fora jogado não sabia quando mas sim, porque...
       Lembrou-se de seu passado recente, tentando colocar algum sentido ao caos, em que transformara-se sua vida, em um curto período de tempo...Lembrou-se do próprio julgamento, meses após sua captura, junto com um bando de incompetentes...Fora arrogante na presença do juiz, desacatara-o e ao júri, não viu nenhum propósito em tal “teatro do ridículo”, em tal circo, no centro de cujo picadeiro, estava, sendo observado nas arquibancadas por um bando de palhaços, alguns envergando togas...Desde o momento em que fora preso e algemado, já sabia que estava condenado, para que julgamento então?...Certamente fora precipitado e deixara-se levar pela ganância, ao aceitar fazer parte daquela “irmandade”, que dominava e oprimia setores de mega- tecno- metrópoles e não, de cidades menores com as quais, já estava acostumado...Sua fama chegara aos ouvidos dos “graúdos” e eles solicitaram seus serviços...e ele fora “com muita sede ao pote”, acabando por derrubá-lo, o pote...Fora confiante demais em seu talento e subestimara as forças de defesa, com quem iria confrontar-se...Havia sido muito fácil, no início: Seqüestros, assaltos, enfrentamentos com facções rivais...atos que tiveram como conseqüência, um enriquecimento súbito e abundante...e mortes...muitas mortes...Ambas essas consequências, acabaram por amolecê-lo, tornando-o presunçoso e com a certeza da invencibilidade...Mas, afinal fora perseguido, encurralado e capturado...A polícia montara uma escaramuça muito bem feita, ele tinha de reconhecer...e reconhecia também que ao mostrar um trabalho muito bom para seus novos chefes, provocara em alguma cúpula superior, ciúmes ou até medo...advindo daí a traição...Já lidara com esse tipo de coisa, em outros tempos e os otários que atreveram-se a traí-lo, tiveram um longo e muito doloroso final, ele sempre caprichara em seus “acertos de contas”...Mas, dessa vez, a coisa fora muito bem feita mesmo, ele não tivera escapatória...O que não evitaria, contudo, que os culpados por tal desfeita, não pagassem com altos juros o que causaram-lhe..
       .Desde que dera-se conta de que, o mundo era mundo, prisão nenhuma conseguiu segura-lo por muito tempo e, se o que via agora, naquele deserto dos infernos, fosse uma prisão também, não iria ela, detê-lo...Precisava saber mais sobre o que aguardava-o mais adiante, afinal, estava em uma mega tecno metrópole e talvez, as prisões por ali fossem assim mesmo...O sistema carcerário que conhecia, decadente e ultrapassado, limitava-se a ser um depósito de criminosos e um antro de corrupção...Os diversos órgãos de proteção aos direitos humanos viviam fazendo pressão, no sentido de ser proporcionado ao preso, um tratamento humano e justo, visando sua recuperação e re-introdução no seio da sociedade...pura balela, um monte de mentiras de engravatados desocupados e damas histéricas, que não tinham coisa melhor em que ocupar suas vidas inúteis...Recuperação?  Havia recuperação para alguém com ele, a quem a morte dos outros dava, apenas, prazer? Alguém que, desde que entendera-se por gente, dedicou-se a fazer o mal, de todas as maneiras possíveis, a seu semelhante?...Ele era mau, sabia disso e disso orgulhava-se; não via diferença nenhuma entre a vida de um homem e a de uma barata, que ele reduzia a uma massa informe com uma pisada...as únicas diferenças que ele via entre os dois, o homem e a barata eram, alem da diferença de tamanho – é claro- , a capacidade do primeiro, de berrar por piedade, enquanto era trucidado sem qualquer apelação.
       O juiz fizera  um discurso monótono e quilométrico, uma lenga lenga de dar sono, antes de despejar seu veredicto: Pena máxima...Que pena máxima?...ele sabia que aquele Estado não adotava a pena de morte, que mal maior poderiam fazer-lhe? Estava acostumado a mandar nos presídios por que passara, ninguém ousava nem sequer, levantar a voz para ele, fosse preso ou autoridade...sua fama sempre precedera-o, onde quer que fosse e não haveria de ser diferente agora, apenas estava em uma cidade realmente grande e ali, reafirmaria seu bom ( ou mau ) nome, diante de todos. Rira-se muito daqueles palhaços pomposos que julgavam-se capazes de julgar alguém, tendo eles próprios, muito a esconder, os hipócritas...Após a sentença ser lavrada, ele fora levado a uma saleta pequena e escura, que tinha apenas uma cadeira comum, de ferro, em seu centro e algumas pessoas ao redor, pessoas que eram apenas vislumbradas na semi escuridão reinante e que eram, no máximo, três. Foi convidado educadamente a sentar-se e, decidindo entrar no jogo daqueles canalhas, só para ver como aquilo acabaria, acedeu ao convite e sentou-se sem proferir palavra. O que aconteceu a seguir como que deu um nó em seu pensamento pois, virou do avesso qualquer noção de realidade que pudesse ter...Sua última lembrança de um mundo conhecido foi uma picada leve em sua nuca, como se uma formiga o tivesse escolhido como vítima de seu veneno...eles o drogavam, sem dúvida nenhuma...decerto para que não causasse tumultos durante sua remoção para o presídio – até que eles não eram tão burros- e um pequeno turbilhão de recordações, antigas e recentes, que passou como um raio por seu pensamento enquanto a droga fazia efeito e levava-o a um mundo tão louco, que julgou estar ainda drogado, mesmo bastante tempo após despertar.
       Estava sentado no centro de uma passarela ou ponte, muito estreita e altíssima, feita de um material que parecia cerâmica fosca, branca. Sobre sua cabeça que, agora, era coberta por um boné de aba em forma de viseira, do tipo largamente usado e que alguém colocara ali, estava um céu amarelo, coroado por um sol fortíssimo e tão ofuscante que obrigava seus olhos a manterem-se semi cerrados...Habituou-se o melhor que pôde a tanta luz e olhou para sua direita, levando um formidável susto, que o fez tentar agarrar-se àquele chão, áspero ao toque e imaculadamente branco: Muito abaixo de onde estava, ao final de um precipício infernal, uma espécie de rio, de cor vermelha com mesclas em amarelo, muito revolto, serpenteava por um cânion de pedra marrom, de largura considerável e comprimento impossível de ser precisado, as duas extremidades a perderem-se na distância...Procurando manter seu prumo, sentado mesmo como estava, tentou ordenar seus pensamentos e, as poucas conclusões a que chegou foram as de que, estava sentado no meio de lugar nenhum em um cenário infernal e prestes a ser cozido por um sol providenciado por Belzebu em pessoa, ao invés de estar em uma cela de segurança máxima, como devia ser...Onde estava a penitenciária, as grades, as celas, os carcereiros coniventes, os policiais corruptos e os presos esperando para servi-lo? Onde ele estava afinal? Tomando muito cuidado, virou-se e olhou para trás e viu a outra borda do cânion infernal, muito, muito distante de onde estava: pelo menos a uns duzentos metros de distância, concluiu logo após tal avaliação, distância semelhante à que o separava da outra borda, à sua frente, estava portanto, no meio daquilo. Mas havia uma diferença gritante entre o cenário que via às suas costas e o que estava à sua frente: Um caminho branco e suspenso ligava seu corpo à borda do precipício `a frente, numa estreita linha reta mas, atrás de si não havia nada, apenas o vazio e aquele horror vermelho, a aproximadamente vinte ou trinta metros abaixo. Sentiu medo, alturas não combinavam com suas predileções, sentia-se paralisado, receando vertigens perigosas que pudessem fazê-lo perder o equilíbrio e cair, mas, estava, acima de tudo, realmente confuso com tudo aquilo...acreditou estar sonhando mas, tudo aquilo parecia real demais, como saber se sonhava mesmo ou não? Beliscando-se?  Isso era coisa para maricas, decidiu aceitar aquilo como realidade e esperar, talvez, logo acordasse, se aquilo fosse mesmo, um sonho.
       Mas não ficou parado onde estava por muito tempo, logo percebeu que a passarela onde estava, começava a mover-se para baixo e com alguma rapidez! Apavorou-se com aquilo e pôs-se logo de pé, avaliando sua nova situação; olhou para baixo e viu então, o degrau que formava-se à frente de seus pés; subiu-o e viu o outro que brotava do chão a uns dois metros à sua frente. Correu para lá e galgou a plataforma que começava a ficar cada vez mais alta, sentindo que tudo a seu redor descia em direção a um rio que, começava a notar, tinha uma temperatura altíssima e fedia mais do que rato morto e podre. Viu os novos degraus que surgiam e, em breve concluiu que a tal passarela ou ponte, transformava-se em uma escada que terminava à margem do abismo lá em cima mas, essa escada mudava rapidamente de configuração e os degraus iam ficando cada vez mais altos e assim seria até que ficasse-lhe impossível alcançá-los, acabando por presenciar o próprio fim, em um rio fervente e agressivamente malcheiroso; havia que apressar-se então e assim o fez, galgando as plataformas móveis de cerâmica com mais desenvoltura, sempre procurando não perder o equilíbrio. Conseguiu afinal, chegar lá em cima e, nem bem tocava o chão pedregoso do outro lado do cânion maldito, a ponte branca  desabava de uma vez, descendo até o rio e, nele mergulhando totalmente...Parado à beira daquele pesadelo e ainda crendo que encontrava-se em meio a um, decidiu seguir caminho através das muitas pedras que havia por ali e, para além delas.
       Mais uma vez perguntou-se onde estava...Em um sonho, mesmo? Em outro planeta? A nova alternativa trouxe-lhe novas dúvidas e deu-lhe tratos à bola...Afinal, concluiu que estava na Terra mesmo e não em outro corpo celeste ( como Marte, Vênus ou mesmo, Mercúrio ) .A atual tecnologia, apesar de avançadissima – afinal, aquele era o ano de 2138 A.D. - ainda não lograra...ou não sentira necessidade de construir prisões, nem orbitais  nem interplanetárias, pelo que sabia, e o assunto “prisões”, decerto figurava em um dos primeiros lugares em seu acervo de conhecimentos...Chegou afinal, a uma conclusão que pareceu-lhe bem concreta, caso aquilo não fosse mesmo um sonho: Aquela era a sua prisão ou, pelo menos, aquele era o caminho que o levaria até ela...Intrigado, seguiu o tal caminho, através da pista de quartzo que prosseguia daquele lado do abismo, tentando imaginar o que seria aquilo: Um parque temático às avessas, uma penitenciária ultra “high tech” em forma de um deserto?  Se “os de lá de cima” achavam que tal aparato o intimidaria, que esperassem por isso, sentados...Ou será que desejavam, simplesmente, matá-lo por insolação, livrando-se da acusação de “pena de morte”  por parte dos hipócritas apologistas dos direitos humanos? Aquele céu amarelo rebrilhante e aquele sol incomodavam de verdade, talvez a intenção final fosse, mesmo, a de matá-lo por ali. Sem ter mais o que fazer e sem vontade de parar no meio do caminho para esperar a própria morte, seguiu em frente afinal, havia um caminho desenhado no chão por cristal de rocha e esse caminho a algum lugar deveria levar; ao menos tiveram a delicadeza de providenciar-lhe um boné de tecido, que diminuía a intensidade dos mortais raios sobre sua cabeça...Após um momento de reflexão, retirou o boné  e o examinou um pouco: Mais comum do que aquilo, impossível...de boa qualidade feito de tecido resistente, possivelmente algodão; as costuras reforçadas mas, apenas um pedaço de pano azul- cobalto...nem uma inscrição, número, desenho, código de barras, nada...Repôs o boné e passou a reparar no traje que usava: Era um macacão inteiriço, branco com uma abertura grande na frente, fechada por um zíper de plástico; era feito de um tecido grosso, meio acolchoado e bastante confortável, o mesmo do boné e também não tinha, a exemplo deste, qualquer tipo de identificação, a não ser que houvesse algo escrito ou desenhado em suas costas mas, isso ele veria depois...As botas pareciam feitas de um tipo de grossa lona de algodão, brancas, com as solas e alguns detalhes em plástico, tudo branco, como no macacão; os canos iam até o meio das canelas e eram presas por tiras largas com costura reforçada e forradas de velcro. Logo cansou de observar o próprio vestuário e decidiu prestar atenção ao caminho que trilhava. Quando passou pela barreira de pedras altas, viu diante de si um imenso descampado por onde o caminho de quartzo seguia em linha reta até sumir no horizonte e, um pouco além do ponto onde o caminho não podia mais ser avistado, um ponto branco brilhava solitário no centro daquela vastidão; o que seria aquilo? Uma edificação? Uma miragem? Jamais saberia se não fosse lá, ver...O calor sufocante que o fazia suar por sob sua vestimenta, impedia-lhe um passo mais acelerado; caminhava portanto, devagar, poupando suas energias e preparando o próprio espírito para o que pudesse-lhe acontecer de pior...Andou muito, horas mesmo e percebeu que o monstro de fogo acima de sua cabeça movia-se em direção a seu poente...E, afinal, começou a ver alguns detalhes de seu destino: Aquilo era mesmo uma construção, um tipo de prédio grande e branco, muito alto também, com vários andares e muitas janelas. Aquele era em dúvida, o presídio que o aguardava para uma estadia, talvez longa, talvez curta, isso dependia apenas dele e do que faria no futuro...uma penitenciária para onde estava indo por vontade própria, para fugir do sol assassino...muito hábil por parte e seus juizes...aquela manobra, teria um efeito psicológico notável, a velha história da fuga da frigideira para a queda no fogo só que, às avessas: ele estava fugindo do fogo e indo direto à frigideira.
       _ Acho que o sol já está me cozinhando os miolos –pensou- Já estou até filosofando.
       Finalmente chegou a seu destino e, antes de qualquer outra providência, procurou uma sombra para abrigar-se do sol, que ainda prometia muitas horas de tortura, antes que fosse, afinal, descansar e deixa-lo em paz. Demorou um pouco para adaptar-se à luz local afinal, suas pupilas estavam muito contraídas por toda aquela claridade da qual fugira; o suor descia por seu rosto e molhava-lhe a roupa mas, no geral, estava bem; durante bons momentos sentiu o frescor daquela sombra tão aguardada e bem vinda; recuperou-se rapidamente e pôde, então, prestar a devida atenção ao local onde chegara, naquele inferno desconhecido: Era um edifício muito grande, branco e imaculadamente limpo; parecia ser feito do mesmo tipo de cerâmica da ponte, que deixara, horas antes. A construção era em forma de cruz e estava suspensa acima do chão em sua totalidade, apoiado em grossas colunas, muito altas, lisas e cilíndricas que assentavam-se em um chão de grandes lajotas brancas, quadradas, de cerâmica, com alguns relevos desenhados. No centro exato da construção, quatro conjuntos de largas escadarias em ziguezague, feitas de cerâmica e metal, subiam para o primeiro pavimento. Ele andou até ali e, ao olhar para cima, viu que o centro de cada braço daquela cruz, os quatro braços do mesmo tamanho, era vazado e que as aberturas iam até o teto lá em cima, formando muitas galerias, na configuração clássica de um presídio, o que era mesmo, afinal, aquilo. As aberturas eram fechadas por grades e telas de arame, em toda sua extensão vertical, o que certamente seria muito eficaz contra suicídios ou execuções. Mas, sendo aquilo, uma casa de detenção, onde estavam os muros, as guaritas, o arame farpado, os holofotes, os guardas?...Já vira muitas prisões mas, nenhuma como aquela, plantada em um cenário de pesadelo, totalmente original mas, estranhamente, pouco agressivo à vista, tão limpo e branco era. Parecia deserto, talvez tivesse que subir aquelas escadarias para o pavimento superior, onde preencheria sua ficha de chegada e seria conduzido à sua “suíte com banheiro privativo e tv a cabo”. Mas, antes que chegasse perto de uma das escadarias, viu que seu comitê de recepção, afinal, dava o ar de sua graça, com um certo atraso que seria reportado à “gerência”...Quem descia as escadarias eram umas poucas almas, todos homens como ele e vestidos da mesma forma; as idades pareciam também bater com a sua e havia gente de todas as raças e aparências existentes. Aqueles eram seus colegas, concluiu, com quem teria de conviver durante algum tempo até que sua nova situação desenhasse-se com mais detalhes. Estavam todos reunidos em um bloco compacto e o observavam, com expressões que iam da curiosidade à total indiferença; pareciam pouco inteligentes, como um bando de animais fora de seus “habitats”. Aqueles boçais chegaram perto dele mas, não muito e ficaram por ali, a observa-lo em silêncio e quase um minuto passou-se até que uma voz partisse daquele pequeno ajuntamento, dirigindo-se a ele:
       _ Seja bem vindo ao pavilhão número treze do presídio de segurança máxima nível Omega.- Quem dissera aquilo fora um homem alto e forte que aparentava ser bem mais velho do que ele.
       Nada respondeu, no entanto, limitando-se a apenas observar seus observadores com um ar que julgou ser feroz o suficiente para a presente situação. O velho prosseguiu:
       _ Você, como nós todos, foi declarado irrecuperável e incapaz de viver em um ambiente civilizado, sem causar danos sérios ao bem estar comum, devendo por isso, ser isolado do seio da sociedade à maneira de um organismo ruim e nocivo.
       Palavrório pedante e empolado, o que aquele velho metido a besta estava pretendendo? Certamente era o líder local e seu natural opositor; mediu-o de alto a baixo em um primeiro reconhecimento e, afinal, decidiu falar:
       _ Se isso é uma penitenciária, então eu enlouqueci porque nunca vi pesadelo maior do que este.
       O velho sorriu debilmente ao dizer:
       _ O que você viu lá fora foi uma amostra do paraíso, se comparada ao que verá e, pior, sentirá por aqui, meu caro amigo...brevemente sentirá em sua carne o que é realmente um pesadelo infernal.
       _ Isso é uma ameaça?- perguntou, já alerta.
       _ Nem de longe –tornou o velho, que prosseguiu- O que acabará com você não virá de nossa parte, pois que estamos todos no mesmo barco...Em breve, você vai saber de tudo.
       _ O que eu vou saber?
       _ Tudo...Vai saber o que é desejar morrer a cada minuto do dia, sendo mantido vivo contra sua vontade...Vai saber o que é medo, desespero, revolta...dor...Vai saber o que é o terror alucinante e vai saber o que é ser totalmente incapaz de evitar o que quer que vá acontecer-lhe.
       _ Palavras, palavras...um discurso montado para me intimidar, isso foi o que eu ouvi...
       _ Tire as conclusões que quiser, achei que devia vir até aqui para alerta-lo...Com uma certa freqüência, outros como você tem chegado até aqui e todos são saudados e alertados contra o que irão passar no âmbito deste prédio, ao menos por uma questão de solidariedade, afinal, todos os que chegam, já vêm com seu destino traçado: Sofrer as penas do inferno para pagar seus pecados, com juros altíssimos.
       _ Do que você está afinal, falando, velho? Seja mais específico ou dê o fora de minha frente.
       _ Não posso detalhar mais meu discurso e você saberá em breve o porque...quem vem para cá deixa de ser um ente humano, passa a ser uma engrenagem de uma máquina grande e infernal mas...não vou me estender mais...Não quer descansar de sua jornada até aqui? Tomar um banho, trocar de roupa, comer e beber algo? No andar logo acima de nós há um refeitório que mais parece um restaurante classe “A” , abastecido periodicamente com tudo o que você possa desejar...Quanto às acomodações, pode ocupar qualquer um dos quartos que já não tenha dono e eles são, de fato, muitos...Não esquentamos muito o lugar por aqui, sabe?
       E ao dizer isso, o velho retirou-se subindo as escadas, no que foi seguido pela maioria daquela gente, um bando de “moscas mortas” a bajular seu líder; um bando de basbaques sem língua nem personalidade, que causaram-lhe uma péssima impressão. Decidiu não cuidar mais daquilo por enquanto e subiu uma das escadarias, a que encontrou mais vazia, até atingir o primeiro pavimento. Era um espaço aberto, ocupando quase toda a cruz que delimitava o local, bastante povoado por sentenciados, que circulavam de um lado para o outro. Cada braço da cruz, cortado ao meio em sua metade pelo que seria um poço de circulação de ar e isolado por grades e tela de arame, possuía algo diferente: Em um deles, mesas muito compridas, cobertas por toalhas brancas, nos dois lados do poço, ostentavam uma enorme fartura de comida e bebida, inclusive alcoólica. Em outro braço, diversos monitores de tv, imensos e conectados a consoles de vídeo, passavam filmes e programas de todas as espécies e de várias partes do mundo para quem quisesse ver, confortavelmente instalado em sofás, grandes e estofados. No terceiro braço da cruz, diversas mesas espalhavam-se, para a prática do jogo em muitas e variadas formas, que iam do carteado à sinuca, passando pela roleta; encostados às paredes, inúmeros consoles de jogos eletrônicos ocupavam por sua vez as mãos e as mentes de muitos presidiários, alguns deles, naturalmente, viciados naquilo. Finalmente havia o quarto braço da cruz e este era o único totalmente fechado e, ao explorá-lo, o recém chegado encontrou um banheiro enorme, com chuveiros comunitários e privativos, com água fria e quente, além de mictórios individuais e latrinas fechadas por paredes e portas; uma das paredes era coberta por espelhos e pias e tudo estava imaculadamente limpo e exalando um forte calor, muito úmido, como se houvesse sido recentemente lavado com água muito quente e desinfetantes, cujos vapores chegavam a doer no nariz, ao serem respirados.
       _ Se isso é o inferno – ele pensou em um raro momento de humor, ao lembrar as palavras do velho encontrado lá embaixo-...Nem imagino como seria o céu.
       Ao abrir a porta de um dos armários, que ocupavam em grande quantidade, a parede dos fundos, ele encontrou dezenas de uniformes, iguais aos que todos usavam por ali, muito limpos e classificados por tamanho: Extra grande, grande, médio, pequeno e muito pequeno.
       _ Esses últimos devem ser para os anões criminosos – concluiu fazendo sua segunda piada do dia.
       Escolheu um dos uniformes, de tamanho médio e, praticamente arrancando o que usava, alagado de suor, enfiou-se embaixo de um dos chuveiros abertos, torcendo a torneira de água fria. Ficou longo tempo ali, a água correndo copiosa sobre seu corpo cansado e usou um dos sabonetes que ali haviam, uma barra grande, verde e quase sem odor nenhum. Saiu depois à procura de uma toalha nos armários e logo encontrou; enxugou-se e procurou por roupas de baixo, o que, por sua vez, não foi encontrado; percebeu então que, ao despir-se, não usava cuecas ou meias e, pelo jeito, teria de continuar assim...Mas encontrou botas novas, também de vários tamanhos, atrás de uma porta rente ao chão, escolheu uma, vestiu-se, calçou-se e saiu dali, após não encontrar, também, um pente. Saiu do banheiro e foi até as mesas de comidas e ali, serviu-se do que bem quis e na quantidade que apeteceu-lhe, indo depois até a área das tevês, onde procurou por algum programa que despertasse seu interesse e acabou por optar por um filme, que já vira mas, do qual gostara muito e que estava ainda no início. Refestelou-se no largo sofá azul cobalto e ficou vendo o tal filme, enquanto comia, descobrindo imediatamente que estava com uma fome enorme pois, ao terminar a refeição, serviu-se mais duas vezes até sentir-se satisfeito. Apenas ele ocupava aquele confortável móvel e, ao chegar ao meio do filme ele, com três latas de cerveja ingeridas, sentiu os olhos pesarem de cansaço e o sono logo o dominou; deitou-se apenas, no sofá e adormeceu, não vendo o resto do filme. Despertou no mesmo local e viu que ainda estava desacompanhado, olhou para o teto e viu pequenas borboletas, que esvoaçavam em torno das luzes acesas; reparou então que anoitecera mas o movimento naquela ala ainda era grande, o que indicava que, naquele local sem relógios, ainda devia ser relativamente cedo. Decidiu-se por uma pequena excursão por seu novo lar, ainda pensando no que o tal velho que viera recebê-lo, dissera, horas antes sobre castigos medos e infernos.
       _ O que aquele infeliz quis dizer com toda aquela arenga? – perguntou-se, intrigado ainda com aquele método inédito de se tratar prisioneiros.
       Ignorando solenemente seus companheiros, subiu um lance de escadas e viu-se no segundo pavimento, este inteiramente dividido em celas...finalmente as celas...Ocupavam as mesmas,  a metade  de cada lado do braço da cruz, tendo à frente das portas, um amplo corredor de circulação, limitado pelo espaço vazio atrás da grade de metal, o grande poço de circulação de ar. As celas eram fechadas por portas com maçanetas e sem portinholas de fiscalização externa. Experimentou uma das maçanetas e esta abriu sua respectiva porta e ele entrou. O que viu foi mais do que uma simples cela mas, um verdadeiro quarto, pintado em verde claro com uma cama de solteiro em uma espécie de nicho na parede, tendo logo abaixo, diversas gavetas revestidas de fórmica e, em frente à cama, dentro do nicho, uma estante com um aparelho de tevê, ligado a cabos e um aparelho de som e imagem, tudo aparentando ser novo e intocado. A cama, larga, de solteiro estava feita e um lençol da mesma cor das paredes fazia-se acompanhar de dois grandes travesseiros, encapados com fronhas brancas, tudo muito convidativo e incompatível com um ambiente carcerário. Acima da cama, na parede, havia uma grande janela que podia ser aberta ou fechada e, mesmo, coberta por uma persiana de plástico branco; a janela era, no entanto, gradeada e aquele foi seu primeiro encontro com grades por ali, excetuando-se o espaço de ventilação. O chão era revestido por placas de plástico, com padrões imitando madeira e o teto baixo, tinha a iluminação toda embutida, o que não era empecilho para a pequena borboleta que esvoaçava por ali, tentando chegar à lâmpada atrás da placa de acrílico fosco.
       _ Que estranho. -ele pensou- Tem borboletas em toda parte por aqui, de onde terão vindo? Isso aqui é um desgraçado de um deserto, como chegaram?
       Esqueceu-se porém, das borboletas e continuou sua inspeção ao quarto: Havia, próxima a uma parede, uma pequena mesa, presa ao chão através de parafusos e uma cadeira com rodízios, nova e na cor verde escuro. Na parede oposta, havia três largas portas de correr e, ao abrir uma delas, o prisioneiro encontrou um banheiro comprido, estreito, sem janelas e todo branco; continha ele, um vaso sanitário, uma pia, um espelho e um chuveiro ao fundo, o mínimo necessário para um banheiro mais ou menos civilizado. Sobre a pequena bancada da pia, havia creme dental, sabonetes, escova de dentes, escova de cabelos, pente e barbeador a laser, tudo ainda na embalagem.
       _ Ora, que diabo, que isso daqui parece é um hotel e não um presídio – concluiu intrigado- Mas um pouco de luxo não faz mal a ninguém, acho que vou ficar por aqui mesmo.
       Saiu do banheiro e tentou abrir a porta do meio do tal armário mas ela não moveu-se, era uma porta falsa, apenas para compor o ambiente, atrás dela estava o banheiro recém visitado. Mas a porta que encostava na parede abriu-se, revelando um armário vazio e com cheiro de novo; na parte de baixo havia três gavetas e, daí para cima o espaço era aberto com a barra de pendurar cabides no alto. E os cabides lá estavam pendurados, seis ao todo, embalados em plástico transparente, recém chegados da fábrica. Faltavam as gavetas abaixo da cama e, uma vez abertas, revelaram conter discos de áudio e vídeo, revistas várias, todas atuais, jornais do dia e até livros de vários gêneros.
       _ Se eu gostasse de ler, estaria feito – refletiu.
        Pensou em seguida, como tomaria posse de seu novo espaço e isso não ocupou seu pensamento mais do que alguns segundos quando, ao olhar para a porta e sua maçaneta com fechadura acoplada, viu a chave da cela, pendente de um cordão que envolvia a tal maçaneta.
       _ Até isso temos por aqui...a chave de nossa cela, quando eu iria imaginar que um local como este poderia existir? Dá até para se acreditar que o crime, afinal, compensa...
       Saiu de sua cela, trancou a porta, após apagar a luz, encontrada acesa e continuou seu passeio de pesquisa para ver se encontraria por ali, acomodações ainda melhores do que as que acabara por declarar como sendo suas. Tentou algumas portas mas as encontrou trancadas por dentro, ocupadas que estavam por outros detentos e, as celas que encontrou vazias, eram apenas uma repetição da que deixara, a variar, apenas, a cor das paredes, que podiam ser verdes, como as de sua cela, ou azul claro, ocre, bege ou, simplesmente, branca.
       _ Pra mim, tanto faz –pensou- O verde, afinal, me serve muito bem.
       Parou de examinar as celas e voltou para a sala de recreação, onde ficou por mais uma ou duas horas, até cansar-se daquele burburinho todo e decidir ir recolher-se. Novamente na cela que escolhera, aborreceu-se um pouco por não encontrar pijamas para dormir, teria de faze-lo usando aquele macacão mesmo ou então dormiria nu, o que, nem passava por sua cabeça fazer, acostumado que estava a um constante estado de alerta. Tirou as botas, deitou-se na cama e, ao olhar para a estante à sua frente, viu o controle remoto, junto ao aparelho de tv e, após um rápido exame, viu que aquela maquininha tão pequena, controlava, além da tv, o som, as luzes e a refrigeração da cela. Espantou-se:
       _ Ora que, até ar condicionado temos por aqui? Vou passar noites de rei, até que o final trágico que o velho me prometeu –aquele mentiroso-  me chegue.
       Ligou o ar em “frio médio” e uma agradável brisa começou a circular pelo ambiente. Ligou então a televisão e sintonizou um canal qualquer, apenas para distraí-lo, até que o sono chegasse, o que não demorou a acontecer, afinal, ainda estava cansado da jornada desumana, que fizera, há poucas horas atrás.
celso dyer
Enviado por celso dyer em 23/12/2017
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