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Crônicas de Luxabanna 1
Domingo à noite


         Parecia que Jaime Paulo MacCarterey estava passando por mais um “inferno astral”...Isso era muito raro de acontecer-lhe e, portanto, quando vinha, era “pra arrasar”...Já fazia tempo que nada estava dando certo em sua vida, fosse em casa, na escola ou no trabalho; no trabalho, então, a coisa ia de um jeito tal, que ele já contava com sua demissão para os próximos dias. O ambiente estava pra lá de “pesado” e rumores esvoaçavam pelos corredores da empresa, como almas penadas, murmurando lugubremente: “Cabeças vão rolar “...e ele estava certo que, uma dessas cabeças era a sua, afinal, começara a trabalhar a pouco mais de oito meses...Na escola a coisa estava, também, “periclitante” para seu lado; as notas estavam abaixo da média, desde abril...e já era setembro! Estava difícil, correr atrás das matérias, mesmo com a ajuda do irmão Marcos José e, pelos corredores e salas de aula do Colégio Santa Felicidade, as “Isegirls”, a saber: Elise, Louise e Marise, já faziam troça dele, lembrando seu aproveitamento, menos que sofrível, naquele ano. ( como se elas próprias estivessem com as matérias “em dia”...) Mas...quais os motivos para semelhante maré de azar? JP pensava e não chegava a uma conclusão, que o satisfizesse, no tocante à detecção dos motivos que levaram-no àquele estado de coisas e, sorumbático, acabava chegando à mesma conclusão de sempre: “Os céus estão contra mim, por alguma coisa que eu fiz “.


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       Naquele exato momento, onze da noite de um domingo bastante chato, mais ou menos perto do local em que a família McCarterey moravam, no bairro de Angerlaterla, Peter Strauss tinha seus próprios problemas: Havia uma garota, vestida, apenas, com sua roupa de baixo, deitada em sua cama e, já, em seu décimo ou décimo primeiro sono...Peter tivera a delicadeza de cobri-la, mas, uma garota na cama da gente, não é uma coisa que aconteça, todos os dias, para um rapaz, ainda mais, se levar-se em consideração, o fato dela ter chegado na casa do amigo, totalmente bêbada e descontrolada, chorando muito e maldizendo a própria vida...Chamava-se Rochelle...Marlise Rochelle, a tal garota de, apenas, quinze anos de idade, recém completados. Era francesa, chegara, a Luxabanna, a menos de dois anos, para estudar e tinha um sotaque, por demais, forte, havendo mesmo, dificuldades para se entendê-la, às vezes. Uma das primeiras pessoas que Rochelle conhecera, ao chegar em um novo país, uma nova cidade e um novo bairro ( ou quartier, como ela dizia ), em um “point” de jovens, muito famoso, na cidade, fora, exatamente Peter e, para ela, a sorte não poderia tê-la bafejado com um hálito mais fresco e perfumado: Peter era um garoto de ouro, mal saindo de seus dezesseis anos de idade e, responsável como um homem bem mais idoso e experiente, prudente e sábio. Era o “ombro amigo” para todas as ocasiões e dedicava-se, com sincero cuiado, às suas muitas amizades, masculinas e femininas, sendo a mais recente, exatamente, a extremada Rochelle, aliás, Rô...Marlise Rochelle Pauline Thomas, um nome e tanto para uma menininha franzina, baixinha, bonitinha, muito depressiva e auto destrutiva...Conhecera Peter por puro acaso, em um ponto de encontro da “moçada” e, após alguns minutos de conversa, com ele, com todas as dificuldades, advindas de um idioma, ainda, em aprendizado, apegou-se ao rapaz, no autêntico estilo “carrapato”, mesmo, já tendo um namorado. Por outro lado, Peter, quase nada sabia da vida de sua amiguinha francesa, afinal, gastava tanto tempo e palavrório, para tentar tirá-la de suas “deprês” constantes, que, acabava não sobrando tempo para perguntas mais pessoais. É bem verdade que o jeito dela falar, também, dificultava, um pouco, as coisas, mas, com calma, tudo ir-se-ia resolvendo...Peter não descobrira o motivo de Rô ter ido em sua casa, para pedir-lhe ajuda, pois, ela não disse nada a respeito, apenas chorou e se descabelou, durante algum tempo, dizendo coisas que deviam ser horríveis mas, tudo em francês e, afinal, desmaiara no chão, derrubada pelo tanto de bebida que ingeriu, antes de ir para a casa de seu amigo étranger.
       Tanto mesmo, de bebida...Tão logo Peter acomodara-a, em sua cama; deitada de costas, mesmo, como estava, verteu, boca afora, todo o conteúdo de seu estômago; para cima, como um repuxo, só que, não de água, arriscando sufocar-se, como já acontecera a “rockstars” famosos, em outros tempos...Alarmado, o bom Peter levou a “petite” para o banheiro e, lá, tirou sua roupa, deixando-a só com a de baixo, que resumia-se em uma calcinha, minúscula e preta, e uma meia calça, também preta, além dos sapatos, tipo “boneca”, na mesma cor, felizmente, não atingidos pelo vômito. Não era a primeira vez que ele via sua amiga sem roupas, ou quase...Já estava, até, acostumando-se àquilo...Peter lavou a menina desmaiada, no box, da cintura para cima, tocando seu corpo esquálido e impressionando-se, uma vez mais, com tanta magreza. Limpou-a da melhor maneira possível e, colocou-a na cama de seus pais, desta vez, enquanto trocava os lençóis de sua própria cama e removia os tristes vestígios do desastroso “pileque” de sua amiguinha européia. Depois recolocou Rochelle na cama, agora limpa e, começou a pensar no que faria a seguir. Felizmente seus pais só voltariam de viagem, na semana seguinte e a casa estava “liberada” para socorrer meninas bêbadas e desesperadas...Agora eram onze e meia da noite de um domingo, chato durante o dia e, absurdo, em seu final.


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       Triste domingo aquele, o de Mouna Lebengutz...Além de não ter nada para fazer, ainda tinha que agüentar os resmungos do pai, a reclamar que “não tem isso, não tem aquilo nesta casa, nada funciona direito por aqui”...Tentara ela, em vão, animá-lo, com a tevê; estava até passando no canal 667 uma partida de voleibol ( o velho adorava voleibol ) mas, não adiantou. O pobre Ladislau estava muito agitado para relaxar em frente a um aparelho de televisão, mesmo que estivesse passando um programa de seu agrado...Ele estava magoado, muito magoado, mesmo, mas, em sua arraigada teimosia, jamais admitiria isso, muito menos para sua filha mais velha, que agüentava suas neuras, por conhecer os motivos para semelhante estado de espírito. O domingo vazio demorou a passar e a menina de dezesseis anos e meio, resignou-se com sua função de “babá de um velho”, triste, mas, muito querido, que estava muito chateado, pela partida  de sua esposa, mãe dela, Mouna e de Munir, seu irmão mais novo, de doze anos, o qual, a mãe levara junto, contra sua vontade...Bem que ela, a mãe, tentara levá-la, também, junto, mas, desde que começara a trabalhar e ajudar nas despesas da casa, ela passara a ser tratada, como adulta, pelos pais e, agora, tinha forças suficientes para negar-se às chantagens e pedidos da mãe, Maristela, ficando, por fim, com o velho. Aquela pequena tragédia acontecera ha três dias atrás, na sexta feira, ainda de manhã.
       Maristela abandonou Ladislau, mais uma vez, e, como das outras vezes, procurou atingi-lo no que ele possuía de mais precioso em sua vida: os filhos. Mouna guardava na memória, as vezes em que fora arrancada do conforto de sua cama, às vezes, para sair em madrugadas, realmente, frias, só para satisfazer os caprichos de sua mãe. Felizmente, para ela, Mouna, agora, podia recusar-se a acompanhá-la ( afinal, gozava de um novo “status” ), como o fez, naquele domingo, não sem um pequeno sentimento de vitória...Seu irmão, coitado, não teve, ainda desta vez, a mesma sorte... Porque sua mãe fazia aquilo? Era sempre igual: Ela saia com os filhos, de casa, para voltar, dali a uma ou duas semanas, como se nada houvesse acontecido. O motivo de toda aquela pantomima era simples: a mãe sabia que esse tipo de coisa magoava, demais, seu marido, alem de minar sua auto estima...mas, ele não impedia a mulher de sair, levando as crianças, apenas para atingi-lo...Teimoso como ele só “não dava o braço a torcer” e permitia a manutenção daquele estado de coisas, sofrendo calado.
       Agora, pela primeira vez, Mouna provocara uma pequena ruptura na supremacia da todo poderosa Maristela e, ficara com o pai, apenas, para ver o estado em que o coitado ficava. Concluiu que ele amava, demais, a esposa, a ponto de permitir que ela fizesse coisas daquele tipo e, durante tanto tempo...Não o julgava um “banana” mas, sim, um homem que tentava, a todo custo, manter sua família em harmonia e harmonizar-se, também, com a própria mulher, mesmo precisando engolir sapos, rãs e pererecas, além de ouvir, vez por outra, cobras e lagartos.
       _ Coitado do pai, a cabeça dele deve ser o próprio brejo...- penalizada, Mouna pensava, agora, em sua cama, construída pelo pai, exímio marceneiro que era- ...Ele gosta da mãe e acho, até, que, ela também gosta dele, mas, só um pouquinho...bem, vamos dormir porque amanhã tem aula...e aula chata...pelo menos, o trabalho ainda é legal...que nem o doutor..


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       No exato momento em que Mouna tentava dormir, após um domingo enervante; próxima do prédio dela,  naquele antigo bairro de Luxabanna, de nome Terrimão; Jucelena Mastrangelo, encarapitada no alto dos cinco andares do edifício onde morava, em um apartamento de nove quartos com uma família enorme, na rua Megiddo, número quarenta e nove, apartamento dez, sentada na beirada do edifício, velho e feio, com os pés descalços e sujos a balançarem no ar, mas, com um mastro de antena entre suas pernas, a dar-he alguma segurança, decidia se, daquela vez, pularia, finalmente, ou não...Claro  que ela sabia que, jamais seria capaz de pular no vazio, para acabar-se no concreto lá embaixo e, nem havia motivos para tal...mas, a “pivetinha” de treze anos, gostava, imensamente, de jogar aquele “joguinho particular”, solitário e, extremamente perigoso, o qual, ela batizara de “Roleta de Jocelyn (  pulo ou não pulo? )”. Talvez ela tivesse impulsos suicidas, latentes, mas, parecia lidar bem com isso, levando tudo na brincadeira – brincadeira perigosa-...Era-lhe agradável, sentar, bem na beirada do prédio, naturalmente resguardada por sua fiel antena e ficar por lá, sem ser vista, espionando seus vizinhos ou aspirando o ar, poluído e frio, da noite, dependendo da estação do ano em que estivessem. No apartamento em que morava, enorme, sombrio, abafado no verão e gelado no inverno, com aquela “penca de parentes” morando, todos, juntos, com pirralhos, a correrem e sujarem tudo, mocinhas nervosas, dando “piti” por qualquer motivo, tios e avós a ralharem com ela, também por qualquer motivo...ou sem qualquer motivo...Que diabo, era a sua família mas, para eles, ela não sabia muito bem o que significava, tanto que, ninguém dava pela sua falta, quando estava ausente, ao menos, era o que parecia...De qualquer modo, se alguém notasse sua ausência, ao menos, saberia que ela voltaria, mais cedo ou mais tarde...Seu pai, tios, primos e “agregados”, tinham mais no que pensar do que tentar saber qual o local onde ela estaria em determinado momento...Juce, como era tratada, por todos ali, que, também, a tratavam por “Juju” ( como ela detestava esse apelido ) aproveitava a negligência de seu povo, para fazer suas traquinadas, como aquela, de circular pela cobertura do prédio, onde havia umas casas de bombas, a caixa d’água, imensa ( onde ela já chegara a nadar e mergulhar, poluindo a água dos moradores ) e o apartamentinho do porteiro, que fazia às vezes de zelador: Um homem simples, viúvo, com um filho, que morava com ele e ajudava-o, nos serviços gerais. O porteiro gostava muito de Juce, a quem recebia, em seu apartamento, minúsculo  mas, sempre, limpo e arrumado...Ela brincava, então, com seu filho, Douglas, de seus quatorze anos, um rapazinho extremamente tímido e introspectivo, do qual, Juce, às vezes, tinha de “suar a camisa” para arrancar alguma opinião, palpite ou gesto. Mas ela gostava disso: Douglas era um desafio em sua vida e ela gostava de desafios. Achava o menino muito simpático, sem ser bonito, gostava de sua, aparente, fragilidade, sentia-se superior, a seu lado, mas, não o humilhava, preferindo, tratá-lo, mais como um “brinquedo predileto” seu, disponível à hora que quisesse.
       Jucelena não gostava de seu nome, “nome de pobre”, na sua opinião. Na escola em que estudava, conseguira fazer-se chamar por “Jocelyn”, muito mais elegante e, mesmo assim, parecido com seu nome original...Verdade que, vez por outra, alguém chamava-a por seu nome correto, só pra “arreliar” com ela, mas, nem ligava...Bem...estava na hora de voltar pra casa, no andar térreo, tomar banho e ir dormir ( já estava jantada )...felizmente, naquele apartamentão, todos tinham seu banheiro privativo, o dela era o mais feio de todos...Passava da meia-noite e, amanhã, segunda feira, era dia de aula...e ela seria, durante algumas horas, não Jucelena, nem Juce mas, Jocelyn...


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       À meia noite e cinco, o doutor Ênio Kashalott trancou, finalmente, a porta de seu consultório, no hospital, após haver atendido o último paciente ( esperava ) da noite. Fora uma emergência simples, um menino engasgara-se com comida, por motivo de gula, e, quase morrera...Por pouco, ele não chegou a tempo de salvar o garoto e, após fazê-lo, ainda teve de cuidar da mãe que quase faleceu, também, de desespero, temendo perder seu pimpolho. Recuperada, desfez-se em agradecimentos a ponto de encabular o bom doutor, pouco afeito a tamanhas expansões de emoção... Daí a pouco, iria para casa e, mais tarde, ainda tinha de arranjar um pretexto para visitar a viúva, para ver como ela estava... Provavelmente a mocinha que trabalhava com ele, a que fazia o estágio remunerado de enfermagem, Mouna era seu nome, o ajudaria, novamente...Menina de ouro aquela...paciente, educada, inteligente, dedicada, trabalhadora...até, bem bonitinha...Ela tornava seus dias melhores, apenas, com sua presença; se fosse casado, gostaria de ter uma filha assim.


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       Era tarde, amanhã haveria prova de latim ( matéria mais desnecessária, não existia ) mas, Tiffany Barthe ainda estava inclinada sobre sua prancheta de desenho, finalizando mais umas aquarelas. Caprichava nos detalhes, desejando que seus trabalhos agradassem sua nova amiga, a quem iria visitar, nas férias, isso daí a uns quatro meses à frente.  Havia tempo de sobra, mas, a pequena Tiff, como era conhecida na escola, aproveitava cada tempo livre e cada rompante de criatividade, para fazer um trabalho novo; já terminara quinze deles, mas, queria, muito, mais, afinal, aquele tipo de ocupação proporcionava-lhe um prazer imenso. E como ela era criativa e hábil com tintas e pincéis. Estava naquela lida, desde as oito da noite e nem descera para jantar mas, sua mãe, solícita e compreensiva, tinha levado seu prato até seu quarto, onde ela trabalhava e estudava. Enquanto esperava que algum trecho de uma pintura secasse, para, então, retomá-la, dava uma “lambiscada” em seus cadernos, buscando elucidar um ou outro ponto, mais obscuro, da matéria, afinal, não tinha  o menor interesse em ficar em dependência por causa de uma disciplina tão idiota e supérflua, como aquela...Pensou novamente em Jô, a moça que conhecera, por puro acaso, na praia, isso no início do ano, época de férias para as duas. Jô saíra da imensa metrópole, encravada no meio das montanhas, onde morava e trabalhava –Floreal o seu nome- e, sabe-se lá porque, fora “dar com os costados” em Luxabanna, uma cidade muito menor...Pelas praias, naturalmente...praias lindas, limpas, paradisíacas...que outros atrativos um lugar tão pequenino, como aquele, podia oferecer? Enfim, Jô viera, as duas encontraram-se e, daí, nasceu uma amizade muito legal. Ao ver as aquarelas que a nova amiga pintava, Jô ficara encantada e a idéia nasceu ali mesmo: As aquarelas de Tiff poderiam ser publicadas na revista, para a qual Jô trabalhava, na cidade grande; ela garantiu que seriam um sucesso total e daí, viriam exposições, workshops, o diabo...Jô “encheu a bola” de Tiffany e convidou-a para ir visitá-la, nas férias de início do ano seguinte, para começar a trabalhar com ela e começar seu “caminho para a fama”.”Será que sou tão boa assim? “ perguntara-se, modesta, Tiffany, à época. Segundo Jô, era, sim e a amiga não teria motivos para valorizar, tanto, seus trabalhos, afinal, acabara de conhecê-la...Mas, agora, queria, apenas, terminar a pintura que estava fazendo, para ir, então, dormir e fazer a chatíssima prova, no dia seguinte e, enquanto dormisse, sonharia com sua fama e fortuna futuras.


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       Aquele domingo fora especial para Elaine e Rogério Maciel, dois moradores da favela do Observatório, erigida nas encostas do morro de mesmo nome, isso porque, em seu ponto mais alto, localizava-se o tal observatório, usado, durante, décadas, por quem desejasse desvendar os mistérios da astronomia e que, hoje, era, apenas, uma triste ruína, uma sombra pálida do que fora em outros tempos, de antes da guerra, semi destruído que fora, durante um bombardeio, o qual, arrasara, também, com a instituição que o mantinha em funcionamento, para o bem da ciência, em um morro vizinho, chamado de Morro da Mesa, devido à sua forma peculiar, bastante plana em seu cimo...Sim, aquele fora um domingo especial, de pura paz: Não houvera tiroteios, a polícia não subira o morro, humilhando e constrangendo gente honesta e trabalhadora, em busca da escória, que dominava a região, da metade para cima do morro, exatamente, onde os dois irmãos moravam com sua mãe.
       Elaine e Rogério eram irmãos; ele, com dezesseis anos de idade, ela, com quatorze; filhos de uma mulher de trinta e sete anos que trabalhava bem perto dali, como operária da fábrica de eletrodomésticos, localizada em uma ilha bem no centro da baía...Pai, os dois não tinham...seu pai morrera, assassinado por bandidos, em um rumoroso caso, acontecido há algum tempo atrás, quando os dois irmãos eram apenas duas criancinhas...Mas, como aquele dia fora de paz, Elaine aproveitara para colocar sua matéria de escola em dia, enquanto que o irmão, por sua vez, aproveitava o dia de sol, jogando futebol com a rapaziada do morro, em alguma das muitas quadras, espalhadas por ali. A mãe, exausta do trabalho de uma semana dura, como todas as outras, aproveitava  o dia calmo, para dormir e tentar recuperar alguma força, para continuar labutando para o bem de seus filhos.
       Fazendo anotações em seu bem cuidado caderno, com sua letra tão bonita, Elaine lembrou que, no ano seguinte, também iria trabalhar na fábrica, a mãe conseguira uma vaga, de milagre, para ela...Haveria menos tempo para estudar, mas, entrariam mais alguns cobres, em sua casa. Otimista contumaz, Elaine achava que a vida era difícil; por vezes, desumana, mesmo, mas, que, ainda,  havia,, esperança, bondade e solidariedade, vinda de gente boa, em quem podia-se confiar...Haveria pelo que se lutar, enfim...Ela e o irmão podiam estudar, ela começaria, logo, a trabalhar e o irmão, em breve, iria arrumar um emprego, ela acreditava...E havia aquele céu imenso, azul claro, aquele sol ofuscante e esbanjador de calor e vida...e havia aquele mar imenso, ao longe, do qual, só não tinha uma visão melhor, de sua casa, por causa daquele outro morro, em frente, o que tinha um castelo construído em cima...Afinal, anoitecera, em um domingo que Elaine considerou perfeito e ela guardou seu material e foi ajudar a mãe, que já cuidava da casa, há um tempinho. Se o irmão não voltasse, logo, para casa, teria de ir buscá-lo, coisa da qual não gostava muito. Depois jantariam e, logo mais, iriam dormir, após ver um pouquinho de televisão ou mesmo, conversar , o que faziam com muita freqüência. Oxalá houvesse mais domingos como aquele, no qual, o mundo parecia ,mesmo, valer a pena.


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       No alto do Morro da Mesa, com uma visão incomparável do mar e da cidade, a mansão Broggenbroom estava às escuras...Onde, tempos atrás, erguia-se o tradicional Colégio Souza, destruído, como o fora, seu vizinho observatório, quando os ecos de uma guerra inútil e sem sentido lograram chegar a Luxabanna, fora erigida uma casa-fortaleza, por um homem, do qual, pouco se sabia e, o pouco que se sabia, não era bom...Do alto de muralhas, que foram aproveitadas da construção anterior, uma figura solitária observava a cidade iluminada, já em plena segunda feira e, também, o mar, imenso, escuro e tranqüilo, tendo sua monótona imensidão maculada, apenas, pelas quatro ilhas que davam para ser avistadas; a maior delas, abrigando o bairro de Bletenklotika...Como ele desejara aquela ilha para si...Em sua extremidade havia o farol, atualmente, desativado e onde acontecimentos estranhos ocorreram, enriquecendo o imaginário popular...acontecimentos estranhos cuasados por ele..As duas outras ilhotas eram, apenas, pontas de rochedos, aparecendo na superfície do mar, não tinham maior interesse...Após um breve período de observação, o vulto de homem recolheu-se em sua casa fortificada e isolada do resto dos reles mortais e, não se verificando mais nenhuma atividade por ali, em um início de madrugada, a cidade adormeceu em paz
celso dyer
Enviado por celso dyer em 09/02/2018
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