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Crônicas de Luxabanna 2
Dia de Aula


       _ E aí, JP? Tudo firme?
       _ Que nem gelatina...e ainda por cima, é época de provas.
       _ Você se safa,
       _ Em outros tempos, talvez; hoje, não garanto tanto...Se, pra cúmulo do azar, eu ainda for despedido lá da companhia, vou ficar a pé, porque vou ter de devolver a moto do consórcio.
       _ O que você faz lá, mesmo?
       _ Auxiliar de arquivista...ajudo a bisbilhotar a vida dos outros, no departamento de pessoal.
       _ Credo, isso não tem nada a ver com você...Você é um artista, tá perdendo seu tempo num empreguinho “furreco”.
       _ Preciso trabalhar, com a morte da mãe as coisas complicaram muito; era ela quem ganhava mais lá em casa...hoje, só o salário do velho não faz frente a tanta despesa...Tomara o MJ arranje logo um emprego também.
       _ Mas você, também, mal começou a trabalhar e comprou moto...
       _ Foi no  consórcio, eu nem pago muito, por mês...é uma mão na roda, uma economia enorme em transporte, pra ir trabalhar, um tanque cheio dá quase pro mês inteiro.
       _ Você só usa como condução pro trabalho? Não passeia com as “gatinhas” nela?
       _ E eu posso? E, nem se eu pudesse, ultimamente ando tão “sem gatinhas”...
       _ Mudando de burro pra unicórnio, você sabia que o João tá pensando mesmo em montar uma banda?
       _ Como “mesmo”? Eu não sei nada dessa história.
       _ Ela te interessa não é? O João, o Jorge e um garoto novato, Ricardo, eu acho, tão fazendo os preparativos para estrear no “show business”.
       _ Isso me interessa muito; como é que o João não me disse nada?
       _ Vai ver, quer te fazer uma surpresa.
       _ Sei...aquele lá?...hmpf.
       _ Fala com ele, diz que soube por aí...mas não conta que eu andei fazendo fofoca, hem?
       _ Eu não digo...brigado pela dica, Cindi.


         JP e Cíntia Marx, ou melhor, Cindi, eram muito amigos e sempre estavam conversando, nos intervalos das aulas no Colégio Santa Felicidade. Naquela manhã de setembro a coisa não seria diferente, portanto. Cindi era apaixonada por João Limoeiro, grande amigo de JP mas, meio dado a guardar do amigo, “segredos” como esse, da banda...JP não tinha a intenção de interpelar o amigo sobre o assunto; deixaria que ele viesse-lhe contar, talvez estivesse mesmo querendo fazer-lhe uma surpresa, afinal, o colégio inteiro sabia que o sonho dourado de Jaime Paulo MacCarterey era, exatamente tocar em uma banda de rock, manuseando seu instrumento predileto: A guitarra elétrica, a qual estudava já havia anos,  achando, mesmo, que já estava tornando-se um músico exímio e criativo. Gostaria de praticar mais, porém, precisava trabalhar para ajudar no orçamento familiar, após a morte da mãe, o golpe mais duro que já recebera em toda sua vida, até agora e do qual, custava a refazer-se. Vendo, a uma certa distância, seu amigo Peter, J.P. foi em sua direção para conversar um pouco, naquela hora de recreio; o amigo sempre tinha uma palavra boa para os amigos e levantava qualquer astral...bem que ele andava precisando de uma boa levantada no dele.


       Peter nem viu o amigo que aproximava-se, tão absorto estava no caso “Rochelle”, acontecido na casa de sus pais, na noite anterior. Deixara a menina dormindo e trancara o apartamento ao sair mas, o que será que ela faria quando acordasse? Peter esperava que ela ficasse por lá, mesmo, aguardando sua volta, sem tentar sair dali pela janela do banheiro, por exemplo, ao ver-se encarcerada na casa de outrem, não que ela já tivesse feito aquilo. Ele sabia que ela morava com colegas, em um enorme casarão que fora transformado em um pensionato e não muito mais do que isso; fora algo que descobrira ao levar sua amiguinha em casa após algumas “sessões de terapia”. Peter preocupava-se muito com a pequenina ( como se ele fosse tão mais velho que a francesinha folle ). Deixara um bilhete para quando ela acordasse, com instruções breves sobre o que fazer e o que não fazer, lá dentro mas não sabia o que aquela doida faria...se esperasse por ele é bem possível que o recebesse seminua mesmo, como a deixara...ela gostava de tirar a roupa para ele e ficar sem ela, sem se importar de ser vista mas, seu corpo era tão magro, em decorrência de suas loucuras, as quais ela contara em detalhes ao amigo, com sotaque e tudo, que ele não conseguia ainda sentir atração por ela, sentindo, na verdade, pena daquela criatura, tão perdida no mundo...Esperava encontrá-la em casa para mais um “papo sério”, como tantos outros, na tentativa de emplacar algum conselho naquela cabecinha...
       _ Oi, JP...não vi você chegar – disse ao sentir o toque do amigo em seu ombro- Novidades?


       Perto dali as inseparáveis amigas “Isegirls” conversavam animadamente com Tiffany, querendo saber dos progressos pictóricos da amiga artista e sua partida para a “cidade grande” marcada para daí a pouco. Tiff estava-se tornando o centro das atenções da turma, devido à novidade que espalhara aos quatro ventos, desde que recebera o convite de Jô. Era comum vê-la no pátio do colégio ou pelos corredores, com suas pastas de desenhos, mostrando suas mais novas obras e pedindo opiniões, às quais não acatava nenhuma, quando vinham. A súbita fama não mudara seu comportamento para com todos, entretanto: continuava simpática, amiga de todos e solícita como sempre o fora; dividia a satisfação que sentia com sua façanha futura com quem quisesse e muitos queriam.


       Mouna falava com a amiga Camila perto das quatro garotas da turma 43 e não passava-lhe despercebida a animação de todas, sabendo, inclusive, o motivo de tanta algazarra.
       _ Parece que essa menina vai viajar pra Lua e só vai para uma cidade maior – falou sem qualquer depreciação, apenas como comentário .
       _ Mas ela é uma senhora artista, isso a gente tem que reconhecer...e é tão novinha...
       _ É, isso é mesmo...nas exposições que fez no colégio, chegou a vender bastantes trabalhos
       _ Como vai a coisa no hospital?
       _ Vai indo...entre uma emergência e outra...
       _ Muita cena escabrosa?
       _ Muita, não...nenhuma, na verdade...acho que o doutor tá me poupando do pior pra eu não me assustar e fugir correndo de lá. – Mouna riu-se imaginando a cena que nunca aconteceria.
       _ E a família?
       _ Ah, o pai tá mal...foi trabalhar porque não tinha outro jeito...por ele e por mim, ele ficava em casa, mesmo, até a mãe e o Mu voltarem.
       _ Porque ela faz isso?...Ele é um coroa tão maneiro.
       _ Não sei, queria saber...
       Dividindo suas preocupações com sua melhor amiga, Mouna tinha mais facilidade de levar seu fardo. Havia uma música que tocava nas rádios que terminava assim: “Cara, cê vai levar esse peso...todo esse peso...por um bom tempo”...e a garota sentia que aquele trecho da música fora feito em sua homenagem.
       _ Ela deve estar pra voltar...-concluiu, resignada- ...pelo bem do velho...


*                 *                 *

       _ E aí, Lanlan? Tudo jóia?
       _ E não era pra estar? Um sol desse em pleno setembro é coisa pragente festejar, e na praia.
       _ Vamos pra praia, depois da aula?
       _ Vamos, eu levo os cadernos e a gente ficar por lá, à tarde.
       _ Vai estudar na praia?
       _ Que que tem? Eu sempre fiz isso.
       _ Cê qui sabe.
       Elaine e Marisol conversavam no recreio na Escola Estadual Marechal Zarathustra Gusmão, uma escola grande e bem cuidada ao contrário da grande maioria das escolas públicas de Luxabanna. Lanlan ou Elaine sabia do esforço que a mãe fizera para matricular os filhos naquela escola, mesmo sendo tão longe de casa, perto do aeroporto; felizmente, o sistema de trens monotrilho, construído há não muito tempo, por iniciativa de um prefeito progressista, diminuía, bastante, o tempo de viagem de casa para a escola e da escola para casa...Era um transporte caro mas sua mãe, Laura, optara por ele pois, era o que oferecia mais segurança para seus filhos. Sabedora dos sacrifícios da mãe, Elaine, ou Lanlan procurava devolver-lhe o cuidado na forma de um ótimo aproveitamento escolar, o que, aliás, não era nenhum sacrifício, haja vista que ela adorava estudar. Mas também adorava a praia, sua vizinha e, conseguia realizar a grande proeza que era unir sua principal atividade, o estudo e seu principal lazer que era ir à praia, muitas vezes com suas colegas e vizinhas que optavam porém, apenas pelo lado do lazer.  
      

*                 *                 *

       De volta ao Colégio Santa Felicidade, Jucelena, ou Juce ou ainda, Jocelyn, sentada diante de uma das longas mesas de madeira, onde os estudantes lanchavam, parecia hipnotizada por algo ou alguém ali perto. E era por alguém...Todos os dias ela o via e perdia segundos de sua vida, simplesmente a observá-lo, até que alguém viesse despertá-la de seu estupor...Ela achava-o lindo, o mais perfeito dos mortais; tinha o nome já naturalmente complicado, sem precisar dos artifícios que ela usava para “embelezar” o seu próprio, e estava sempre cercado de gente bonita como ele mas, que não chegavam-lhe nem aos saltos dos sapatos, em matéria de beleza....Juce decidiu então, mais uma vez, que precisava fazer-se notar por aquele garoto, mais velho do que ela e de uma classe mais adiantada...Talvez falar com ele e ser ouvida...ou não teria paz em sua existência na Terra...Mas...como chegar até ele? Como furar o bloqueio daquelas “puxa-sacos” oferecidas e daqueles “baba ovos”  que cercavam-no a todo momento, mal deixando que respirasse?...Pensaria em alguma coisa, por ora viajava nos últimos momentos de beleza que conseguia captar com os olhos, daquele “monumento”.


       _ Não, não sei nada sobre a banda que o João está montando, ouvi falar só por alto.
       _ Então existe mesmo uma banda, Peter.
       _ Que eu saiba, existe uma intenção de banda, só isso
       _ Menos mau...talvez estejam esperando apenas a coisa engrenar...
       _ Para que?
       _ Para me chamarem, ora.
       _ Sossega, J,P....se há mesmo um projeto como esse, você já tá incluído, acha que não?
       _ Bom...eu acho que sim mas não gosto é desse sigilo todo...me disseram que estão armando uma surpresa pra mim...um convite surpresa.
       _ E com toda a certeza, é isso mesmo.
       _ Tomara...


       Aula mais chata aquela de astronomia...para que precisava daquilo? Queria era estar em casa, pilotando seu micro turbinado, entrando na Internet sem vontade de sair...porque todas as aulas não eram ministradas através da recém instalada rede mundial de computadores? Para que ainda usava-se professores de carne e osso para ensinar coisas inúteis só pra perfazer horas de aula? Não importava, aquilo acabaria logo e então poderia reunir-se às companheiras de aventuras, no grupo autodenominado ”The Techgirls”, especialista em fazer e acontecer na rede mundial e fora dela...Surpreendentemente, não conhecera as amigas Michelle, Danielle e Xênia através da rede mas, em acontecimentos os mais bizarros possíveis, ocorridos mais ou menos na mesma época...ao menos, com Dan e Mi, fora assim...Xen entrara para o grupo “pela porta dos fundos”, aquela “loura lambida mas, até que, legalzinha”...Assim pensava Rebeca Lederman, conformando-se com sua sorte e aguardando que aquela arenga toda acabasse logo para, enfim, entregar-se ao prazer total que era conviver com seu grupo e navegar no mar de informações que era a Internet.


*                 *                 *

       Retornando à E.E.Marechal Zarathustra Gusmão, Douglas Krüll tinha um tempinho para falar com a amiga Lanlan, sua colega de sala. Combinaram uma tarde de estudos na casa de uma amiga em comum, em um dia próximo e ela, mais uma vez, convidou o amigo para uma praia, no fim de semana e ele dissera, como sempre que, se pudesse, iria mas, como morava meio longe da praia freqüentada por Lanlan e sua turma, isso atrapalhava um pouco e etc e tal...pobre Douglas, tão tímido e atrapalhado mas um amigo de verdade, assim pensava Elaine naquele final de recreio, vendo o colega afastar-se.


      *                 *                 *

       Finalmente as aulas daquele dia terminaram e Peter Strauss pôde voltar para casa, levemente preocupado com o que pudesse encontrar lá...Preocupações infundadas, afinal, foi o que descobriu assim que abriu a porta de seu apartamento...Lá estava a figurinha sentada no sofá, encolhida como um pequeno embrulho, embrulhada que estava no roupão de banho de Peter, após ter tomado um...Ela olhou para o recém chegado com aqueles olhos enormes e escuros que lembravam os de um ratinho assustado e alerta e, disse-lhe, sem sorrir.
       _ Peter, c’est toi?
       _ Quem mais?- ele disse, abrindo um sorriso de alívio- Como você tá?
       _ Trés mal...je suis avec une terrible douleur de tête...je crois...que bebi demais...non “lembrro” como vim “parrar” ici...m´excuse par plus ce dérangement...
       _ Você é bem vinda, seja do jeito que vier...Não deu tempo de lavar seu vestido...tá lá no banheiro.
       _ J’ai vu...”tout vomitad´”...eu lavei e pus “prra secarr”...
       _ Você veste alguma coisa minha, enquanto ficar por aqui...vai ficar meio largo mas...
       _ Eu vou “embor” log´...”non quer´ atrrapalhar” mais ta vie.
       _ Não atrapalha, meus pais estão viajando, o apartamento é seu enquanto precisar dele.
       _ Merci mas...é “muit´ abus´” moi...
       _ Que tal mais um daqueles papos?
       _ Eu “gost´” de parler avec toi mais...non me “emend´ mesm´”...je me sens totalement perdue dans ce monde...
       _ Não é assim não, você tá precisando apenas dar um rumo mais concreto em sua vida...Menina, você tem apenas quinze anos! É nova demais para sentir-se tão por baixo.
       _ Je sais....mais tenh´ meus motifs
       Peter olhava para aqueles olhos, escuros e de cor indefinida, postados nele...e para o rosto quadrado, que envolvia tais olhos e era coroado por cabelos pretos, lisos e úmidos, cortados curtos “a lá garçonne” como ela dizia...e não sabia mais o que dizer para aquela menina mas, viu que ela esperava que ele começasse a falar, como das outras vezes...e ouvi-lo-ia em silêncio, com uma expressão conformada no rosto, tão novo e tão melancólico...Bem, como estava ali para isso...
       _ O que aconteceu com você para chegar daquele jeito, ontem à noite?


*                 *                 *

       Depois da aula, após almoçar em casa, JP pegou sua moto novinha e foi trabalhar. Enquanto passava por entre automóveis caminhões, ônibus e todo tipo de veículos possível, seu pensamento balançava entre seu emprego e o sonho que acalentava de ser um músico profissional...Não encontrara o João, na escola naquele dia...ou ele matara aula ou escondera-se dele com seus segredinhos e misterinhos, que não ficavam bem para um homem daquele tamanho e com quatro graus de miopia no meio da cara...E mergulhado em seus pensamentos, chegou, afinal, ao prédio da multinacional Roggers & Roggers, fabricante de componentes eletrônicos de uso geral, onde exercia a nobre função de auxiliar de arquivista há pouco menos de oito meses, emprego conseguido, por milagre, de um tio, irmão de sua falecida mãe, um trabalho remunerado que vinha na hora exata e que não podia ser perdido de jeito nenhum. O clima estava bom naquela segunda feira, nada lembrava o da última semana, quando só falava-se de demissões e corte de pessoal...Vai ver, foi só uma onda de boatos perpetrada pela diretoria, só pra fazer o pessoal trabalhar mais, de medo...JP lembrou-se, então das palavras da amiga Cindi e da “fofoca” que ela plantara em seu ouvido, a respeito da banda do João...Tomara aquilo não fosse mesmo, apenas uma intriga, um boato sem fundamentos...JP almejava ser um músico profissional e, guardava a sete chaves, seus cadernos com as músicas, que compunha a todo momento, suas letras e cifras. Vieram chamá-lo, então para uma reunião com a chefia de seu setor e, novamente temendo que o assunto “corte de pessoal” viesse, novamente à baila, abandonou por alguns momentos, seus sonhos e concentrou-se na realidade que o cercava.
celso dyer
Enviado por celso dyer em 10/02/2018
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