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Crônicas de Luxabanna 3

Dia de Trabalho

    Felizmente, fora apenas um alarme falso, a tal “reunião” com a chefia de seu  setor...Reunião coisíssima nenhuma, fora apenas uma preparação para uma “puxada de saco” setorial, visando a manutenção de empregos, isso porque, todos estavam com medo de perder os seus...Acontecia que, no final da semana seguinte, seria aniversário do Rafael, um dos assessores da chefia e, a pessoa que escolheria os setores a sofrerem cortes, ao menos, na teoria e, talvez tal escolha chegasse mesmo, a nível de funcionários...E havia que, cada um dos funcionários da Roggers & Roggers, procurasse “tirar o seu da reta” das demissões, usando qualquer arma disponível para conseguir tal fim. Vai daí que o setor em que JP trabalhava, visando sair na frente dos outros setores, já organizava uma “festa surpresa de aniversário”, com direito a presente e tudo, com o único propósito de “adocicar” o “todo poderoso” Rafael, de modo a que ele lembrasse-se da festa quando fosse riscar os nomes na extensa lista de funcionários; para isso, acontecera aquela tal “reunião”, certamente, a primeira de muitas, quando os planos do “projeto puxa saquismo” foram revelados, já deixando todos cientes de que “morreriam em algum”, para que a efeméride fosse um pleno sucesso ( e, ai de quem não colaborasse...). JP, naturalmente, concordou com tudo aquilo, em gênero, número e grau, sendo um dos primeiros a assinar a fatídica “listinha” que atestaria todo seu apreço pela chefia, no sentido de ser “esquecido”, quando chegasse a “hora da onça beber água”.
       Agora, de volta à sua sala, sem ter o que fazer, pensava novamente em sua situação atual...O trabalho, de fato, era pouco e fácil e o salário não era nenhuma fortuna, muito pelo contrário mas, ajudava –e muito- no orçamento doméstico...Mas, se a Roggers & Roggers andava assim, tão mal das pernas, conforme comentava-se à boca pequena, então, porque o contrataram, para ser mais um “aspone” e nada mais?...Teria seu tio materno, tanto prestígio, dentro da empresa?...Mas, como se, ele nem trabalhava lá?...Seu tio Edwardo ( com dabliu e tudo ), era maquinista da estrada de ferro e não sabia nada –achava-se- sobre componentes eletrônicos ou coisa que o valha...Afinal, mais um dia de labuta começava, com uma ameaça de susto, logo no início e a certeza de que, em breve, ficaria um pouquinho mais pobre, para agradar o “carrasco” do Rafael...E o pão de cada dia precisava ser ganho, com o suor do rosto e todas as outra baboseiras que nos enfiam cabeça adentro, na escola, na rua e em casa, a respeito desse mal –malíssimo- necessário que é, justamente, trabalhar.
       Perguntou-se então, novamente, sobre a banda que o amigo João ameaçava montar...Falara com Peter mas não obtivera nada de concreto, aquele início de mistério intrigava-o, um pouco, mexendo com sua cabeça...e com suas mãos também pois, para aliviar um pouco a tensão, naquela sala comprida e escura, cheia de arquivos, no fundo dela, J.P. tentava fazer o tempo passar mais depressa, tirando acordes e criando outros novos, em uma guitarra elétrica imaginária

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       _ Bom dia, doutor.
       _ Boa tarde, Mouna, já passou do meio-dia.
       _ Boa tarde então...Muito trabalho pra hoje?
       _ Como sempre, mas, até agora, nada de muito grave, felizmente.
       _ Num instantinho eu me apronto.
       _ Certo.
       Mouna gostava muito do trabalho no hospital, apesar da insistência do Dr. Kashalott em “poupá-la de imagens mais fortes”, como acidentados graves, queimados e coisas desse tipo; procurava, contudo, ser útil o mais possível, afinal, pretendia levar adiante o desejo de ser médica e, aquele estágio no hospital, caíra, mesmo, do céu. Mouna procurava aprender o que conseguisse, tornando-se a “sombra” do doutor, acompanhando-o em cada caso que examinava, a não ser quando ele pedia-lhe para fazer um outro serviço, naturalmente para que ela não visse algum caso escabroso demais para “seus olhos inocentes”...que droga...Um pouco mais tarde, já uniformizada, arrumava algumas fichas, a pedido do doutor e, em pouco tempo terminou o serviço, passando então a ocupar-se de seu ofício de “sombra” do Dr.Kashalott, o que, ao invés de incomodá-lo, dava-lhe muito prazer pois, gostava muito da companhia daquela garota ruiva, tão simpática e afetuosa, que tratava seus pacientes com tanto carinho a ponto de reclamarem sua presença, quando ela não estava por perto, às vezes, impedida pelo doutor, que solicitava seus préstimos em outro local, que não junto aos enfermos.


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       Lá fora, a temperatura devia estar agradável, dava para se ver que ventava, pelo encapelado da superfície da Baía de Luxabanna mas, dentro do prédio, estava mesmo muito abafado e os circuladores de ar, no teto, antigos demais e, mesmo, obsoletos, não cumpriam sua função a contento. O prédio da fábrica, definitivamente havia sido mal projetado pois, desperdiçava todo aquele vento lá de fora, tornando as jornadas de trabalho nos meses de calor, bastante desconfortáveis. A fábrica de eletrodomésticos que despejava torradeiras, processadores, centrífugas e mais um monte de traquitandas no mercado, era um prédio enorme, alto, muito largo e mais comprido ainda. Tinha, no teto, a configuração clássica das fábricas, com uma cobertura que assemelhava-se a uma serra, se vista de perfil, própria para utilizar o Sol como principal fonte de iluminação. As altas chaminés produziam agora, pouca fumaça, após a instalação de filtros especiais, isso, depois do processo que a cidade moveu contra a empresa, grande poluidora do ar e da água da baía, poluição esta, já mais controlada nos dias atuais. As instalações antigas do grande prédio oco deixavam muito a desejar em matéria de conforto e, até, produtividade mas, dava emprego a centenas de trabalhadores e sustentava várias famílias, que apenas sobreviviam com os minguados salários que a companhia pagava. As máquinas, velhas demais, iam sendo substituídas conforme quebravam ou paravam de funcionar, devido ao desgaste, e quando não apresentavam mais condições de conserto. O ruído irritante das máquinas, o calor no verão e o frio no inverno, o refeitório que deixava muito a desejar, tudo colaborava para um ambiente de trabalho muito ruim mas, sobreviver era preciso e o jeito era, conformar-se e trabalhar sob as vistas dos capatazes e, por vezes, até do próprio patrão que, no escritório refrigerado, suspenso próximo ao teto, por vezes visitava sua fábrica para observar seu “gado” na labuta diuturna.
       Laura Maciel, viúva, trinta e sete anos, dois filhos –um casal- trabalhava no setor de soldas, mexendo com equipamento perigoso e que vivia enguiçando. Naquela manhã ela parecia contente com seu serviço repetitivo e parcamente remunerado mas, buscava ocultar seu contentamento das colegas, em consideração a elas e à vida dura que levavam ali; isso porque não achava certo vangloriar-se de algo que beneficiaria apenas a ela e não a todas...Nem bem chegara ao trabalho, naquela manhã e fora chamada ao escritório, lá em cima, por um capataz. Trêmula de medo, já via-se demitida por um motivo qualquer, jogada na rua da amargura junto com seus dois filhos e assim, seguiu atrás do feitor, a cabeça baixa, sob os olhares compungidos de suas colegas, que também temiam o pior para ela. Mas pequena não foi sua surpresa, ao ser recebida pelo patrão, em pessoa, que até apertou-lhe a mão, mostrando um modo amistoso, desconhecido para ela. Atrás de sua mesa imensa com tampo de mármore, aquele homem que causava calafrios em Laura, apenas com sua presença, pediu-lhe que sentasse-se e passou a elogiar seu trabalho na fábrica, assim como sua dedicação e pontualidade. A operária de baixa graduação, uma mulher franzina, os cabelos castanhos claros, presos sob a touca do uniforme, o belo rosto marcado por rugas precoces, de sofrimentos e preocupações, tudo ouviu, com o rosto inclinado para baixo, as faces queimando de encabulamento e os olhos voltados para seus pés...mas sentindo porém, uma intensa exultação interior. O patrão disse então que o processo de admissão de sua filha Elaine, no ano vindouro, estava bastante adiantado e isso trouxe um grande alívio a ela, que ao invés de ter seu emprego perdido, via algum reconhecimento pelo tanto de vida que dedicava à fábrica há já quase cinco anos.
       Mas isso não era tudo e ela ergueu a cabeça e encarou seu empregador, afinal, ao ouvir a proposta que ele fez-lhe, tão inesperada ela foi. O patrão disse que, se fosse do agrado dela, ele gostaria que sua operária aceitasse um segundo emprego, em sua mansão, executando serviços gerais de limpeza e manutenção, como diarista; ela teria sua jornada na fábrica um pouco reduzida, sem prejuízo pecuniário e, caso ajudasse também na cozinha de sua casa, poderia levar para casa algum alimento da mansão...foi-lhe dado um tempo para pensar na proposta mas, Laura dispensou o tempo dado e aceitou a oferta imediatamente, agradecendo a bondade de seu chefe, com a timidez que era uma característica sua. Despediram-se e ela saiu do escritório e voltou para sua bancada, muito vermelha ainda e com os olhos marejados de alívio e das esperanças que ela nunca abandonava...As colegas, ao vê-la daquele jeito, apenas perguntaram-lhe se havia mesmo, sido demitida e ela apenas moveu a cabeça baixa de um lado para o outro, em negação, passando a dedicar-se com mais vontade ao seu monótono ofício. As operárias não perguntaram-lhe, então, mais nada, deixando-a em paz; apenas comentaram à boca pequena, durante as pausas de lei e na hora do almoço que “ logo a coitada da Laura, que nunca fizera qualquer mal a ninguém, levara a maior bronca do ‘tirano’, bem de manhãzinha, por algum motivo, certamente, injusto”. Parte desses comentários chegou aos ouvidos de Laura Maciel, assim como palavras de apoio e ela deixou as colegas pensarem o que desejassem pois, na verdade, tinha pena delas afinal, fora-lhe oferecida mais uma possibilidade de fonte de renda enquanto que elas, as coitadas, continuariam a matar-se, apenas por aquelas máquinas velhas e aquele ambiente insalubre. O patrão dissera-lhe o dia e a hora em que deveria apresentar-se na mansão; ela então trabalharia durante parte da tarde e à noite...Seria desgastante mas ela julgava-se pequena mas muito resistente e o trabalho pesado não a intimidava...E acreditava que daria um pouquinho mais de conforto a seus filhos...


*                 *                 *

       Mais um dia de trabalho na marcenaria de Ladislau Lebengutz (ou “seu” Ladi, como o chamavam seus funcionários; os amigos mais íntimos e familiares chamavam-no “Lalau”), uma micro empresa por demais prestigiada e citada com exaltações a seu mérito por todas as revistas de arquitetura e decoração; na opinião do velho Ladi, “apenas uma continuação de minha família, aqui não há patrão e empregados, apenas grandes amigos” ao que seus dez funcionários faziam coro, aproveitando para enaltecer a alma larga e a humanidade do velho marceneiro...Era dia de trabalho e o velho Ladislau, mais uma vez, não estava bem, aquilo acontecia vez por outra, todos já sabiam: A esposa dele havia aprontado novamente, fizera mais uma de suas pirraças que o deixavam tão mal e abatido...Mas havia uma encomenda grande da loja mais sofisticada de toda Luxabanna, que começava a ameaçar atrasar, era preciso por mãos à obra para manter sempre no alto, o bom nome da “Marcenaria Lebengutz” e Ladislau sabia disso ao dedicar cada segundo de seu tempo à empreitada, sem deixar que seus distúrbios de ordem doméstica interferissem no andamento do trabalho.
       Mas, porque Maristela tratava-o daquela maneira? O que ele fizera-lhe, em algum momento, para ser castigado e espezinhado daquele jeito? Daquela vez, a Mouna colocara-se do seu lado, recusando-se a acompanhar a mãe, em suas picuinhas tão antipáticas e planejadas; isso o comovera demais, ao ponto de, no escuro de seu quarto, verter algumas lágrimas de desabafo e amor à sua filha querida, de quem ele jamais tivera uma queixa sequer, nos dezesseis anos em que ela brindara o mundo com a luz de sua presença.
       _ Talvez a Mouninha me ajude a abrandar um pouco o gênio da mãe, lutando a meu lado, talvez ela até consiga que o Munir faça o mesmo –consolou-se Ladislau, recuperando em parte, seu velho e conhecido bom humor, naquela manhã de sol, para alegria e alívio de seus amigos e funcionários.


      *                 *                 *

       Hektor Franz Broggenbroom, sentado atrás de sua mesa enorme, com tampo de mármore, no conforto de seu escritório, suspenso acima de seus operários, achava que não tinha, afinal, feito um mau negócio, ao oferecer serviço àquela operária magrela e amarelinha...qual era mesmo o nome dela? Lara? Moira?...algo assim. Pesquisara bastante, durante um bom tempo, entre suas operárias, para achar uma substituta para Frau Ingeboor, no serviço de manutenção e administração de seu palacete e, agora, acreditava que encontrara...A velha senhora, que trabalhara a vida inteira para sua família, apesar de ainda parecer forte, saudável e operosa como sempre, já estava com mais de noventa anos de idade e, certamente, não duraria muito mais tempo...Liebe arme Kleine Frau...sie arbeite so stark während ihres ganzes Lebens...Mas agora não era lugar e nem hora para melancolias...Com o fim iminente da vida de sua antiga empregada, ele precisava de uma substituta e, após procurar bem, decidira-se por aquela wenig Gelb...qual era mesmo o nome dela?...Isaura?...Ela deveria servir-lhe, era ordeira, honesta, trabalhava duro, era responsável e muito submissa...com o treinamento necessário, logo não ficaria a dever nada à gutten Inge...Começaria no dia seguinte e seria apresentada apenas como uma auxiliar, contratada para ajudar nos serviços gerais, de modo a que Frau Inge pudesse descansar um pouco, dada a sua idade provecta...Ele não imaginava como a coisa correria mas, estava disposto a pagar ( pouco, natürlich ), para ver e, amanhã à tarde, certamente veria...


*                 *                 *

    _ Oi, eu te atrapalho?
       _ Não, claro que não, “seu” Rafael, eu ´tava meio parado mesmo, em que posso ajudar?
       _ Nada, eu, na verdade, só queria conversar um pouco e, vendo que você não estava ocupado, vim trocar um dedo de prosa, se você quiser.
       _ Claro...Sobre o que deseja falar?
       _ Coisas gerais...nada em especial...
       Apesar de ter conseguido disfarçar bem, JP estava, de fato, abalado com a súbita e inesperada visita do assessor ( “aspone”, segundo as más línguas ) de diretoria, Rafael...“Começou a ‘degola’”, ele pensou, de modo trágico,“E começou exatamente por mim, tinha que ser”, concluiu, achando que o rapaz de vinte e poucos anos, pouco mais velho do que ele, começava a sinistra tarefa, a ele delegada pela diretoria, de selecionar os funcionários que, em seu devido tempo, seriam despedidos sem a menor piedade...e ele era um dos primeiros –se não, o primeiro- dos escolhidos. Logo seu interlocutor prosseguiu.
       _ Me disseram que você estuda música, violão, guitarra elétrica...
       _ Comecei a estudar já faz uns quatro ou cinco anos...toco um pouquinho de guitarra sim.
       _ As moças da cobrança comentam que você é  exímio no manejo do instrumento.
       _ Nem tanto assim, isso é exagero das garotas...Algumas delas, já me viram tocar em festinhas no bairro...tem um pessoalzinho que toca junto, às vezes eu toco com eles.
       _ Você compõe também?
       _ Ah, umas coisinhas...Não deve ter muito valor, é só pra distrair.
       _ Você não desejaria ser um musico profissional?
       _ Queria isso, sim...A música é algo de muito importante para mim...em termos de ideal, é o que eu desejaria que me sustentasse.
       _ Sei...Sabe...eu também estudo música, violão clássico, piano, teclado e, ha mais tempo do que você, creio mesmo que, toco razoavelmente bem e, do mesmo modo que você, amo a música e desejaria viver sustentado por ela.
       _ Legal, “seu” Rafael...
       _ Vamos parar com esse negócio de “seu” e “senhor”; ninguém está nos vendo, podemos passar sem estas formalidades...Ademais, eu sou só um pouquinho mais velho que você, vamos mandar a hierarquia às favas.
       _ Como o senhor quiser.
       _ O que foi que eu acabei de dizer?
       _ ´Tá certo...como você quiser.
       _ Melhorou...Na verdade, eu não vim até aqui para falar de música e vocações...Sabe, as notícias voam, os boatos também...Claro que todos já sabem que há notícias de corte de despesas e pessoal, na empresa...não é um fato...ainda...Está tudo ainda restrito ao território dos boatos e , corre à boca pequena que eu, ligado diretamente ao conselho diretor, seria um dos que iria selecionar o pessoal a ser mandado embora.
       _ E é mesmo?
       _ Não fui notificado de nada, até o presente momento, tudo são rumores, entre os funcionários e também na diretoria, o que torna o ambiente por aqui, um pouco pesado...Eu sei que você, dentre todos é o que tem menos tempo de casa e que, caso houvesse mesmo, um programa de demissões, seria um dos primeiros a serem escolhidos.
       _ Onde o senhor quer chegar?
       _ Não sei bem, na verdade...Eu precisava falar com alguém...da minha pretensa situação...Gente de outros departamentos já veio me contar que vocês do arquivo, estão preparando uma “festa surpresa” para o meu aniversário...Contaram que seria, na verdade, uma grande “puxada de saco” de modo a abrandar meu “coração de pedra”, quando chegar a hora das demissões...”se” chegar, note bem...O fato é que, gente que, certamente, gostaria de me ver pelas costas – e não estou falando apenas de funcionários- vai ter de me adular sem a menor vontade, isso é algo que me desagrada...Eu cheguei até onde cheguei, sendo o que sou, baseado exclusivamente no esforço e vontade pessoais, sem ter de precisar me valer de expedientes...pouco éticos, digamos assim...Repito que há, na empresa, quem realmente não deseje que eu permaneça em seus quadros, por motivos que qualquer um pode ver.
       _ Que motivos são esses?...Porque o senhor é negro?
       _ Não me chame de senhor...Por mais que neguem, eu percebo que minha raça faz diferença para algumas pessoas, sim...gente que tem, por hábito arraigado, fazer distinções...Os pobres e os ricos...os homens e as mulheres...os negros e os brancos...
       _ Ora, “seu” Rafael, estamos no século vinte e um; não pode haver espaço pra esse tipo de pensamento.
       _ Mas há, JP queiramos ou não...Você me desculpe eu vir incomodá-lo com questões raciais, sem nem mesmo antes procurar saber se você também, não é um racista.
       _ O que é isso, “seu” Rafael, assim o senhor já tá me ofendendo.
       _ Desculpe, não foi minha intenção...ou foi...Foi um pequeno “teste” o que eu fiz com a frase infeliz...Eu sei que você não é racista, a gente sabe dessas coisas, logo...Mas eu precisava mesmo, conversar com um cara que ainda tenha ideais e idéias próprias...para me abrir um pouco, talvez até, fazer amizade, sei lá...Eu não tenho muitos amigos mas, os que eu tenho, levam a amizade às suas últimas conseqüências, eu já tive provas disso...Não vim até aqui para falar de demissões, mesmo porque, creio que se eu for mesmo escolhido para “brandir a foice da demissão”, terá sido porque essa seria mais uma forma de alguém lá de cima, que não gosta de mim, me indispor contra o resto do pessoal, me colocando como “o negrinho de recados, que faz o serviço sujo dos brancos”.
       _ “Seu” Rafael, o senhor tá revoltado contra algo que não é, nem sequer, uma certeza, isso em suas próprias palavras.
       _ Tem razão, eu estou ficando paranóico com essa história, acho...Bem, eu não pretendo incomodá-lo mais ainda, em horário de expediente...Eu agradeço por você ter-me ouvido mas, já vou, até mais.
       Rafael virou-se então e deu dois passos em direção à saída mas deteve-se, subitamente ao ouvir.
       _ Rafael.
       _ O que? –respondeu, ao virar-se.
       _ Você não quer ir lá em casa, hoje, depois do expediente, tipo, pra a gente continuar o papo e falar mais um pouco de demissões, negros e brancos?
       O rosto do assessor júnior iluminou-se com um largo sorriso, de dentes muito alvos, quando ele respondeu.
       _ Pra mim iria ser um grande prazer.
       _ Então, mais tarde eu te passo meu endereço e a gente se encontra lá, por volta das seis, pode ser?
       _ Claro, estarei lá, obrigado.
celso dyer
Enviado por celso dyer em 11/02/2018
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