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Cronicas de Luxabanna 4
Em Casa

       A prova de latim fora, afinal, a mais fácil que ela lembrara de ter feito, nem valera a pena estudar, ainda que pouco, no domingo à noite... e ainda bem que adiantara umas aquarelas, ficaram bonitas...Tiffany segurava-se para não telefonar para Jô; estava doida para falar com sua nova amiga de Floreal, a tal cidade serrana, bem maior do que Luxabanna. Era hora do almoço e o pai viria comer em casa, como sempre fazia e ela, ajudada pela irmã de onze anos, Michelaine, a Micha, arrumava a mesa, na acolhedora e clara sala de almoço, na enorme casa em que vivia a família Barthe, na rua Dr. Dorê, número 37, bairro de Norton, no início da subida para a Pedra do Dedo, mais conhecida, no entanto, como a “Pedra do Cai-não-Cai”, devido à estranha formação rochosa no cimo da montanha, que parecia um dedo inclinado para a frente, como se a rocha estivesse mesmo, prestes a cair, muito, muito lá no alto...Havia na ponta do dedo “periclitante”, um monumento bastante feio, de algum herói do tempo da guerra, que ela não lembrava, agora, o nome...O pedestal da estátua era um mirante circular e envidraçado, com um restaurante em seu interior, mirante esse, usado pelos menos corajosos, que queriam olhar a vista sem enfrentar o vento forte e gelado que soprava lá em cima, em certas épocas do ano...Tiffany fora lá umas duas vezes com a família e gostara muito das montanhas e da cidade, vistas de cima, porém, com o apurado senso estético que possuía, detestara o visual da estátua, do restaurante e do teleférico, caríssimo, que levava os turistas àquela altura monstruosa de quase dois quilômetros. Entre um prato e outro, que ia pousando na mesa, forrada com uma linda toalha xadrez azul claro, novinha, e uma repreensão à caçula, que atrapalhava-se com os talheres, a garota loura e bonita, de quinze anos, lembrava-se que, há não muito tempo atrás, um grupo de alpinistas quase morrera ao escalar a pedra do Cai-não-Cai; o  pequeno grupo de malucos, ficara preso logo abaixo do mirante e não fora avistado por ninguém, isso debaixo de um frio congelante, segundo os jornais, que deram muita atenção ao caso, na época. Apenas uma garota, que inclusive estudava em sua escola, salvou a vida dos alpinistas, descobrindo sabe-se lá, como, a localização dos aventureiros...O nome da garota ela não lembrava agora mas, era de uma turma mais adiantada.
       Afinal, a mesa estava posta, seu papai chegaria daí a pouco e ela resistira, mais uma vez à tentação de ligar durante o dia para o trabalho de Jô, atrapalhando o serviço da amiga, apesar de lá em Floreal também dever ser hora de almoço.


*                 *                 *

       Ela estava novamente em casa, não a sua de verdade mas, a que precisava habitar naquele país que não era o seu, dividindo o quarto com duas “santinhas” pouco mais velhas do que ela e que viviam criticando seu modo de ser e escandalizando-se com os boatos que ouviam por aí, a seu respeito.
       _ É “por causa que” ela é francesa, que faz essas coisas –chegara a ouvir uma segredando à outra, certa vez e, teve de controlar-se para não “partir pra bolacha”...se partisse, iria apanhar, e muito, na certa; elas eram duas e, mais fortes do que ela...Mas detestava que a difamassem e a sua pátria, como se a França fosse uma terra de prostitutas, como aquelas duas deviam pensar, as idiotes...Nem ela, era uma pute, não dava-se a torto e a direito, cobrando ou não...ela só dormia com seu namorado, que conhecera durante uma festa, há cerca de um ano...E ela dera-se para ele, sim, muitas e muitas vezes; ele fora ele seu primeiro homem e continuava a ser o único...mas, por diversas vezes, arrependera-se amargamente de amar tanto aquele metaleiro maldito, que a enfeitiçara e a tratava –ele sim- como uma garota de programa
       _ Ce rocker malheureux me de à moindre valeur et ni s´importe pás avec lê costume de moi l´aime de telle façon – pensou com tristeza, enquanto trocava de roupa no banheiro grande e adaptado para ser usado por três pessoas, simultaneamente, felizmente as duas salaudes não estavam por ali...Vestia as roupas do Peter, muito largas mas, que passavam um pouco do cheiro bom dele, para seu corpo minguado...Ele a trouxera, mais uma vez, para o pensionato e, novamente, ninguém perguntou-lhe nada a respeito de sua noite passada fora, mais uma delas...ainda bem que, ali, não faziam-se perguntas sobre o que acontecia para fora daqueles muros, não muito altos...
       Estava arrasada pela ressaca, advinda do fenomenal pileque do domingo mas, precisava ir à escola que ficava no bairro onde Peter morava...Precisava estudar e ter bom aproveitamento escolar, caso contrário...Como desejara, por diversas vezes, que Peter parasse de olhá-la com olhos de irmão e apaixonasse-se por ela...Apenas Peter poderia fazê-la esquecer do “maldito”, e ela sabia que, rapidamente trocaria aquele anjo, pelo petit diable que acabava com sua vida...Por aquele um, começara a beber e, cada vez mais, sentia atração pelo álcool, apesar do mal que ele fazia-lhe...Por ele, estava se tornando vulgar e escandalosa e não fora educada para agir assim, ainda mais em um país estrangeiro...Apenas o doce Peter poderia por um fim a tal maldição mas, seu amigo insistia em ser, apenas, um amigo...Tentara mesmo, seduzi-lo, algumas vezes...despira-se para ele e sentira-se bem nesses momentos, como se fosse algo natural mas, a única reação que ele manifestava era o ato de cobri-la, novamente..
      _ Deux comprimés peut-étre me aident à traverser ce jour mais j´arrive à avoir mien doutes à respect de cela -concluiu pegando a cartela em uma das gavetas da pia e procurando um copo limpo, para pôr um pouco de água.


*                 *                 *

       No apartamento 10 do prédio número 49 da rua Megiddo um par de rodas de borracha girava por sobre o carpete verde musgo, já bem gasto mas, recém varrido e aspirado; sobre as rodas, grandes e finas, como as de bicicleta, uma cadeira assentava-se e, sentado na cadeira, estava um homem, que não podia andar por seus próprios meios mas que, nem por isso deixava de  sustentar, com certo conforto e com uma pequena ajuda de parentes, aquela família enorme  que distribuía-se pelos nove quartos, três salas e onze banheiros, além da cozinha gigantesca e sempre em completa desordem. Eram dezenove pessoas morando naquele imóvel grande e algo caótico, o único patrimônio daquele homem que não podia andar, conseguido à custa de muita luta, alguma cooperação...e de um sofrimento inimaginável, algo que ele não gostava de recordar mas, cujas lembranças vinham a todo momento, sem que pudesse evitar...Afinal, depois do que acontecera-lhe, ele acabara daquele jeito, preso à cadeira de rodas mas, ao menos, mantivera seu emprego e agora trabalhava em casa, no computador, conectado à siderúrgica, a causadora de tudo de bom e de ruim que acontecera em sua vida.
        Ele saíra de seu quarto, contíguo a seu escritório e estava indo à cozinha, do outro lado da casa quando, na sala íntima, vira que sua Juju já chegara da escola e via televisão com um prato de comida e um copo, cheios, à frente. A tia Luísa estava implicando com ela, por estar comendo ali mas, ao vê-lo, sua irmã mais nova cessara as críticas e retirara-se, sem mais nada dizer...Melhor assim, ninguém tinha permissão, naquele apartamento, para ralhar com sua Juju, não na sua presença...foi então falar com a filha.
       _ E aí, Jujuzinha, como foi na escola? –perguntou, carinhoso.
       _ Hum...bem...-ela disse sem encará-lo, absorta que estava nos desenhos animados que via todos os dias, àquela hora. Ele, não desejando importunar a pequena, ainda fez algum pequeno comentário e continuou seu caminho, rumo à cozinha bagunçada.
       Tudo era paz naquele apartamento, naquela hora; quem estava em casa ficava em seu quarto e a maioria da “pirralhada” estudava à tarde, deixando que ela, Juju, desfrutasse de alguns momentos de sossego, vendo seus desenhos preferidos na tevê grande, ao invés da pequenininha, que tinha no quarto...A tia Luíza já viera amolar sua paciência mas, ao ver-lhe o pai, calara-se e saíra “de fininho”, ainda bem...todos respeitavam-lhe o pai, também, era ele quem sustentava aquele bando de gente...Mesmo a lambisgóia da Sílvia, sua prima, filha da tia Luíza e detentora absoluta dos mais histéricos “faniquitos” daquela casa, não encrencava com ela quando o tio Rômulo, seu pai, estava presente...e, naquele momento, por onde andaria a “Sílvia Siriema”, comprida, desengonçada, magrela e insuportavelmente histérica e nervosa?...tomara que, bem longe.
       Jucelena sentia algo estranho por seu pai...gostava dele mas...aquela cadeira de rodas a irritava profundamente, não gostava de sair em sua companhia e, muito menos, empurrando-lhe a cadeira, coisa que não fazia, mesmo...Não gostava também do cheiro do pai, do modo como falava...Que diabo, todas as suas colegas tinham um pai inteiro...um pai e uma mãe mas, ela, além de não ter mãe, ainda tinha um pai “pela metade...Mas o que mais a irritava nele, era aquela mania de chamá-la de “Juju”, “Jujuzinha”, que raiva isso dava-lhe!...já não gostava de seu nome, odiava o tal “Juce” , o que dirá de “Juju”? Não reclamava do tratamento, no entanto, não gostava de brigar e discutir, não seria jamais uma segunda Sílvia mas, devido a essas e outras, mantinha com o pai um relacionamento quase que, distanciado. “Ele na dele e eu, na minha”, pensava...Afinal, acabou de comer e levou seu prato para a cozinha, largando-o sobre a pia, sem querer saber quem iria lavá-lo; foi então, em direção a seu quarto e seu banheiro, para escovar os dentes e decidir o que faria naquele dia chato...Não encontrou o pai no caminho para a cozinha; ele, decerto, dera a volta por trás, para voltar ao seu escritório-quarto, colado no quarto dela; fez, então, o mesmo caminho, observando mais uma vez o teto cheio de vigas de aço, pintadas de branco, talvez para atenuar um pouco a agressividade do metal...Aquele apartamento era grande de verdade, ocupava todo o andar térreo do edifício e, desde que entendera-se por gente, Juce sempre vivera ali...Olhou então para o espaço quadrado, imenso, aberto para o céu e coberto de vidro ou outro material transparente qualquer, ao redor do qual, o apartamento encontrava-se, à maneira de um grande átrio romano, como ela aprendera na escola...Espaço estranho aquele, cheio de ambientes que seus familiares inventavam...As plantas da tia Ruth, as invenções e instalações do tio Heitor, os esconderijos dos primos...e aquele teto de vidro, coberto de porcarias que o pessoal dos andares de cima vivia jogando pelas janelas...gente porca aquela, não adiantava limpar aquilo com a freqüência que sua família mandava limpar...tão logo removiam toda a sujeira, uma nova era logo lançada por cima, parecia de propósito e, certamente, era...Tio Heitor dizia que aquele “bombardeio” era motivado pela inveja que os outros moradores tinham deles, por não morarem em um apartamento tão grande...Mas, decerto não fora por inveja, que a tal garota fora parar lá embaixo...Ela ouvira o baque e fora ver...e vira o bastante, até que fosse removida do local...Em sua visão da tragédia, a garota, praticamente “explodira” ao arrebentar-se contra o vidro que, surpreendentemente, resistira a tamanho baque, sem uma trinca sequer...material resistente aquele...Juce lembrava das cores da violência e da visão de um corpo esmagado por seu próprio peso, visto de baixo para cima...ela vira como ficara o rosto da menina, tão nova, talvez só um pouquinho mais velha do que ela, à época...Gabriela era seu nome, vira-a umas duas vezes quando ainda era viva mas lembrava-se dela, apenas em seu momento final...Mas, afinal, estava diante da porta de seu quarto e, por ela passou, pensando em meninas mortas e cadeiras de rodas...
       Uma vez em seu banheiro, bem grande para apenas uma pessoa usar, Juce olhou-se no espelho de corpo inteiro que lá havia...Achava-se muito feinha; magra, baixinha, morena muito clara, a pele pálida que pouco via o Sol...Juce tinha medo do Sol e de seus terríveis raios ultra violeta, que causavam doenças na pele, lera algo sobre o assunto, tempos atrás e atemorizara-se...preferia então, evitar o astro-rei ao máximo...Olhou então para o próprio busto, que crescia sem parar, coberto pela camiseta, que usara na escola e por um sutiã, muito apertado, para esconder o volume, o que não adiantava em nada, todavia...aquilo sobressaía-se em sua silhueta esguia e ela ainda não acostumava-se àqueles “peitões”...puxa, só tinha treze anos nas costas, pra que tudo aquilo na frente?...Desviou então o olhar para o próprio rosto, que ela achava inexpressivo e mal acabado; o nariz, grande e achatado, plantado entre dois olhinhos escuros e uma boca cujos lábios formavam um estranho “bico”, como se ela estivesse zangada o tempo todo...Os cabelos que batiam-lhe nos ombros, pretos, eram escorridos e sem brilho...como ela era feia...E desejava tanto ser bonita...bonita o bastante para entrar para a JEBDE, para poder ficar mais perto de seu ídolo, partilhar de alguns momentos ao lado dele...Ter o direito de usar a pequena lantejoula colorida, sobre a asa esquerda do nariz, puxa, como ela queria isso...Decidiu-se então, mais tarde ela iria procurar o Doug para desabafar um pouco suas tristezas com ele, o único que a escutava e levava a sério...Assim pensando, começou seu ritual sagrado e repetido várias vezes durante o dia e à noite, da escova nos dentes, por sinal, pequenos, insignificantes e cheios de cáries...tratadas mas, presentes...nem dentes bons tinha ela, que vida injusta...


*                 *                 *

       Às seis e vinte, Rafael Câmara tocava a campainha da porta do apartamento onde vivia a família MacCarterey, com um embrulho nas mãos e quem atendeu a porta foi o irmão, mais novo, de JP, Marcos José, o MJ. Sabendo do que tratava-se pois, fora avisado pelo irmão, convidou Rafael a entrar e indicou-lhe a direção do quarto do irmão e, para lá o assessor júnior da Roggers & Roggers dirigiu-se, batendo na porta, atrás da qual, ouvia o som de uma guitarra sendo dedilhada.
       _ Entra Rafael –disse a voz lá dentro.
       _ Como sabia que era eu? –Rafael perguntou ao entrar
       _ E alguém daqui de casa ia bater antes de entrar? Senta ali –indicou a almofada grande, no chão- Que é isso que você trouxe?
       _ Umas cervas, espero não estar sendo impertinente.
       _ Não, de modo algum, já ´tão geladas? Dá uma aí.


*                 *                 *

    João Limoeiro acabara de telefonar para o amigo Ricardo, quando recebeu o telefonema de Cíntia. Novamente, ela parecia não ter um assunto para falar, ficava empatando seu tempo com aquela “lenga lenga” que não cansava de repetir, aquilo já estava ficando maçante. Falou pouco com a garota, arranjou um pretexto qualquer e encerrou o papo, desligando o telefone a seguir...Era do conhecimento geral que Cíntia era “siderada” por ele mas, de sua parte, não conseguia ver muita graça naquele rosto redondo e branco demais, naqueles cabelos pretos, armados, com aquelas pontas para cima...E ela era gordinha, João não gostava de garotas arredondadas, preferia as magricelas, fazer o que?...mas simpatizava com Cindi, ela era legal, uma amiga pra todos os momentos...e só...João achava que tinha, no momento presente, coisas mais relevantes com que preocupar-se.
       _ Essa banda desta vez sai –pensou então, mudando de assunto-  Tá tudo a nosso favor, não tem como não dar certo...
       E, subitamente animado com suas esperanças, procurou o número do telefone de Jorge, um outro amigo seu e morador do mesmo bairro, apenas para comentar o que sentia naquele momento.

*                 *                 *

       _ Elaine, cadê seu irmão?
       _ Lá fora, no futebol com o pessoal, onde mais? Quer que eu vá chamar?
       _ Não, não precisa, ele sabe quando voltar...Sabe, o patrão lá da fábrica...”Herrn Doktorr” como o chamam todos...ele me chamou hoje, em particular e disse que sua vaga lá na fábrica sai mesmo no ano que vem.
       _ Que ótimo, mãe, aí a gente trabalha junto e faz companhia uma pra outra.
       _ É o que eu espero...Mas ele disse mais...Me convidou para ir trabalhar na casa dele, como diarista e eu aceitei.
       _ O quê?...A senhora, trabalhar naquele castelo em cima do morro? Mas, e a fábrica?
       _ Eu vou sair mais cedo da fábrica e trabalhar no casarão até a noite.
       _ Não vai ser muito sacrifício pra senhora? Dois empregos e, pesados.
       _ Ora Elaine, eu agüento muito mais do que isso, eu sou bem resistente.
       _ Sei...Eu podia ir trabalhar com a senhora? Nem precisava ser todos os dias, só nos dias de faxina braba, digamos?
       _ Não sei, posso até perguntar...mas você não iria receber pagamento...
       _ Não faz mal...Sempre quis saber como é aquela fortaleza por dentro, só pra depois fazer inveja nas garotas, indo a um lugar onde ninguém pode entrar.
       _ Pensei que fosse pra me ajudar.
       _ Também, é claro...A senhora pergunta pro “seu” doktor se pode?
       _ Pergunto sim, meu bem...Agora, pensando melhor, eu acho bom você chamar o Rogério, daqui a pouco a gente vai lanchar.
       _ Eu vou lá, mãe.


*                 *                 *

       Conversaram muito naquele fim de tarde, beberam as cervejas sem exagerar na dose, afinal, era ainda segunda feira...e entenderam-se como velhos amigos e não como duas pessoas que haviam acabado de fazer seu primeiro contato...Mas não continuaram o assunto iniciado na sala de arquivos da Roggers & Roggers, não falaram de racismo, bajulação e relações trabalhistas, ou melhor, mal tocaram nesses assuntos pois, falaram quase que exclusivamente de música...Os gostos daqueles dois rapazes batiam em quase noventa por cento e o entrosamento entre seus pontos de vista foi total...Cantarolaram um para o outro músicas compostas por cada um deles, travaram um duelo musical em dois dos violões da coleção de JP e, após resistir muito, Rafael ficou para o jantar e só saiu da casa dos McCarterey depois da meia noite...Momentos após a partida do jovem executivo, MJ ainda comentou com o irmão, sabedor da história da ameaça de demissões na empresa onde ele trabalhava.
       _ Depois de uma visita dessas, você pode ficar certo de que ele não vai te demitir de jeito nenhum, “mano véio”.
       _ A questão não foi, de modo algum, essa, MJ...Não foi por isso que eu o convidei...não foi mesmo...-assim falou JP, com a nítida certeza de que, naquela tarde e noite de segunda feira havia encontrado um amigo para o resto da vida...e estava, sem o saber, absolutamente certo.


*                 *                 *

       _ Quel jour, Dieu de ma vie; que soir des diables, ce que j´ai fait au monde pour soufrir de telle façon?
       Os dois comprimidos para dor de cabeça não fizeram efeito algum e ela obrigou-se a ir assim mesmo para  L´École Pour Jeunes Filles Sainte Marguerite e teve de agüentar duas aulas inteiras, derrubada pela horrível ressaca, antes que Mademoiselle Legrand, sua professora de Cultura Contemporânea desse-se conta de seu estado e a mandasse para a enfermaria, ficando ela por lá, deitada, até o término das aulas...Agora, estava em casa, novamente, mergulhada em dores que não iam embora, novamente deitada e com vontade de chorar e descabelar-se...e certamente, faria isso, se alguma das duas imbéciles com quem morava, não viesse para “curtir com sua cara”. Lembrava da vergonha que passara na aula de Literatura...Fizera sua redação como devia mas, não soubera que teria de lê-la em público, para aperfeiçoar seu domínio da língua local, coisa que não conseguia por mais que tentasse...Quel enfer, era francesa, não compreendia aquela língua estranha e acabou misturando dois idiomas na tal redação, demonstrando publicamente suas limitações, com a cabeça a pulsar, o rosto em fogo e debaixo dos risos de deboche e depreciação das colegas, que teve de engolir sem chorar, coisa que ela, sóbria, evitava ao máximo fazer diante de estranhos.
       Pensou em seu metaleiro, aquele que estava destruindo sua vida...e em Peter, que poderia salvá-la mas não o fazia...pourquoi? Precisava comer algo e tomar outro remédio, o quarto ou quinto em uma única manhã caso contrário, não sobreviveria àquela noite...Mas, desde que acordara de manhã, prometendo não colocar na boca nenhuma gota de bebida, nunca mais, já estava decidida a não ir ao “Apê do Singer”, de jeito nenhum, durante o tempo que agüentasse.
       _ Je dois maintenir ma dignité à quelconque doût, avant la perde, comme le reste. –concluiu.
celso dyer
Enviado por celso dyer em 12/02/2018
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